segunda-feira, 11 de junho de 2018

"Quebrar tabus e regras" não é algo bom em si mesmo

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Fonte da imagem: TestMeat

O que permitiu a existência de todas as civilizações do mundo foi a presença de códigos, conjuntos de regras definidas. Embora essas regras variem de cultura para cultura, há pontos em comum em todas elas (punição de crimes, lida com a colheita, celebrações etc.). Da menor das tribos, passando pelos romanos até a civilização dos maias e o Império Chinês, nenhum grupo humano foi capaz de existir sem um conjunto formal ou informal, escrito ou oral, de regras definidas. Mas os pós-modernos, muitos deles nascidos no novo milênio, acreditam que é possível jogar na lata de lixo milhares de anos de desenvolvimento humano e substituir isso tudo por "lacração", numa ausência total (como eles imaginam, porque é algo impossível) de regras e limitações.

Vivenciamos aquilo que pode-se considerar como pós-filosofia, pós-política, pós-civilização, pós-sociedade. O triunfo da lógica liberal (que não está confinada às questões econômicas) é o hiper-individualismo e sua "evolução": o "divíduo" - ou seja, a pessoa que se identifica não só como um indivíduo acima de qualquer organização ou identidade coletiva, mas que também se identifica exclusivamente por parte de si (adepto de uma dieta, participante de alguma tribo urbana, membro de certo grupo sexual etc.).

O prolongamento natural do hiper-individualismo é a luta para "quebrar tabus", o que se torna o ápice de qualquer "militância política" (que, na verdade, significa a imposição das subjetividades individuais sobre absolutamente qualquer outra coisa). E nenhuma civilização se constrói com base em hiper-individualismo. É por isso que sempre uso o termo "pós-civilização" para designar aquilo que ocorre hoje, especialmente no Ocidente.

Antes de prosseguir, é preciso identificar o que é um tabu. Podemos considerar como tabu absolutamente tudo aquilo que é social, cultural e coletivamente tido como reprovável, seja por questões religiosas, éticas, morais, comportamentais, filosóficas etc. Alguns tabus são bastante regionais e restritos a certos nichos (como certas práticas tribais); outros são praticamente universais (como a repulsa pela prática sexual entre uma mãe e seus filhos e o sexo com cadáveres).

É bastante óbvio que um tabu não é bom em si mesmo. Até praticamente os anos 70, o Apartheid social nos EUA era a imposição de uma série de tabus que excluíam dos negros estadunidenses praticamente todas as oportunidades e direitos sociais básicos. A luta contra esses tabus foi justificada e bastante positiva.

É bastante óbvio que um tabu não é bom em si mesmo. Até praticamente os anos 70, o Apartheid social nos EUA era a imposição de uma série de tabus que excluíam dos negros estadunidenses praticamente todas as oportunidades e direitos sociais básicos. Entretanto, tabus também não são necessariamente ruins. A prática sexual com animais é considerada como tabu e isso é extremamente correto - já que animais não possuem capacidade para consentir com algo. O sexo com crianças também é um tabu. O próprio estupro é um tabu. A lista pode continuar - são proibições sociais ou rejeições coletivas moralmente positivas.

A militância pós-moderna hiper-individualista coloca no mesmo saco absolutamente todas as proibições sociais. Se algo é coletivamente rejeitado e se há alguma regra, ela deve ser quebrada. Não há o critério para observar se a proibição é boa ou ruim, ela deve ser desfeita e pronto. É exatamente por isso que, hoje mesmo, se discute cada vez mais a pedofilia como uma "orientação sexual" - o mesmo sendo colocado para o sexo com animais. O próprio conceito de incesto vem sendo atacado por essas militâncias. 

Qualquer regra coletiva é um impedimento ao hiper-individualismo e é exatamente por isso que, nessa lógica, se deve destruí-las. Os discursos sobre "tolerância", "luta contra o preconceito" e "apoio à diversidade" são apenas máscaras para esconder isso. No fim, o único objetivo claro é a supremacia irrestrita e incontestável do indivíduo: "eu posso", "eu quero", "eu devo", "isso me faz feliz" - são esses os pilares da nova civilização, e por isso mesmo está fadada a ruir. 

Nenhuma sociedade sobrevive sem regras. Embora essas regras possam (e devam) mudar de modo natural, a rejeição brusca de todos os pactos morais e a simples "desconstrução" de absolutamente todas as coisas e conceitos nunca produziu e nunca produzirá um contexto superior àquele que se pretendia atacar.

Aquilo que os pós-modernos negam (os códigos morais e comportamentais) num contexto amplo é aquilo que eles mesmos impõem entre si e aos demais, já que toda sua militância pode ser designada como a tentativa de suprimir códigos que eles rejeitam e instalar novos códigos com uma série de imposições linguísticas, comportamentais, políticas e sociais. Eles mesmos são criadores de tabus - só que todas as suas regras e noções são deformações, adulterações incompletas e horrendas das mesmas imposições que tentam quebrar.

Não há nada mais totalitário do que o pós-moderno. Ele não tolera outros códigos morais e, na sua pretensa "luta contra o preconceito e imposições", impõe uma série de restrições. É justo definir o pós-moderno típico como alguém mil vezes mais controlador e obsessivo do que o pior burocrata, o mais rígido tirano e o mais moralista dos líderes religiosos. Os pós-modernos são, em si mesmos, uma versão piorada de tudo aquilo que pretendem combater - só que com slogans macios de "igualdade", "tolerância" e "diversidade".

Antes de defender ou superar um tabu, é preciso verificar se ele impõe limites saudáveis e necessários para a própria preservação do grupo social. Se a resposta para isso for "sim", romper esse limite será catastrófico. Há limitações que foram feitas para se superar - outras devem ser mantidas exatamente onde estão. "Quebrar Tabus" não tem nenhum valor intrínseco e isso sequer deveria ser uma plataforma de orgulho militante-político.

O discurso contra absolutamente todos os códigos morais, proibições e tabus não significará apenas a possibilidade de você impor suas vontades sobre todos os outros - você também terá de aceitar que absolutamente qualquer outra pessoa poderá fazer essa imposição à você. É esse paradoxo que o pós-moderno não entende e não aceita: ele se espanta quando é esmagado pela própria retórica que defende e quando se vê imerso numa ausência total de ética. Não há ética individual - e nunca haverá.

O único resultado da rejeição completa de códigos morais e limitações é a transformação do organismo social em mera população, um conjunto de indivíduos atomizados sem nenhuma identidade real, sem personalidade e dados completamente ao subjetivismo próprio, sem nenhuma direção ética ou um pacto social sólido. E a imposição das vontades pessoais de absolutamente todos contra todos é uma tirania ainda pior porque, ao invés de ser feita por um único déspota, é realizada por toda a massa.


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