quinta-feira, 14 de junho de 2018

O futebol é culpado pelo atraso do Brasil?

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Talvez seja difícil calcular em números exatos quanto dinheiro "perdemos" durante um evento como a Copa do Mundo - embora pensar nesses termos reflita o quanto o mundo atual é regido por um tecnicismo frio, onde tudo se dá em termos de "ganho e perda". Mas um dos principais argumentos contra a Copa (e o futebol em geral) é que o Brasil "perde tempo": ao invés disso, deveríamos estar trabalhando e produzindo mais. Deixamos de ganhar dinheiro e o país fica "atrasado" por causa disso. A mesma "lógica" é usada contra o Carnaval e qualquer feriado.

Embora existam sim coisas muito mais importantes do que eventos de futebol, essa  não é uma lógica muito inteligente. Seria como censurar alguém que gosta de ler ficção e literatura porque, ao invés de "perder tempo" com esse tipo de leitura, seria melhor ler manuais técnicos. A vida humana não é feita só de necessidades básicas e utilitarismo. Também precisamos do "inútil", do lúdico, do lazer, do dispensável.

Será que o argumento de que a Copa do Mundo "atrasa" o Brasil é algo sustentável? Definitivamente, não. Primeiro, porque é um evento que ocorre apenas a cada quatro anos. Sem a Copa, continuamos um país atrasado. E esse atraso não é culpa do descanso por causa dos jogos da Seleção, nem dos feriados, nem do Carnaval - é algo sistêmico ocasionado pela falta generalizada de investimentos públicos em educação, tecnologia e pesquisa e aprimoramento de infraestrutura e processos produtivos.

O trabalhador brasileiro não produz menos porque é "preguiçoso" ou porque tem "feriados demais", nem por causa de jogos de futebol da Copa ou do Brasileirão. Ele produz pouco porque o sistema produtivo é defasado e porque ele mesmo não recebe instrução técnica adequada. Culpar o lazer por esse déficit é jogar nas costas do brasileiro comum a culpa pelo atraso do país, como se fosse mera questão de "trabalhar mais".

Se o brasileiro não parasse durante um único minuto, trabalhando de domingo a domingo, sem feriados, sem paradas para jogos e sem nenhuma "distração", ainda seríamos um país de Terceiro Mundo subdesenvolvido e com baixa produção e competitividade, com renda defasada e poder aquisitivo decrescente numa economia totalmente instável. A propósito, os franceses, com competitividade e taxa de produção por trabalhador maiores que as nossas, descansam mais do que os brasileiros - 1/4 do ano, pra ser mais exato.

Praticamente todos os países, incluindo as economias desenvolvidas, garantem folgas - mesmo que temporárias - durante jogos como os da Copa do Mundo. 

Esse "culto ao trabalho' perverte a noção de que precisamos trabalhar para garantir nosso sustento, transformando uma atividade necessária e natural em algo em torno do qual toda nossa existência deve girar. Não estamos fazendo um culto à preguiça ou rejeitando o valor do trabalho, mas viver para produzir não deve ser nossa razão existencial e há sim coisas muito mais importantes na vida do que trabalhar. 

Essa inversão mecanicista faz com que o homem funcione em função do trabalho e que todas as facetas de sua vida se reduzam a isso. Ao invés de enxergar a atividade laboral como um meio para sustentar outras faces da vida humana, são essas faces que devem se voltar e se reger pelo trabalho. Isso também é alienação - o condicionamento das pessoas em torno de um modelo produtivo que encerra, em si mesmo, todas as suas possibilidades de ação. 

Há países considerados como desenvolvidos com tanta paixão pelo futebol quanto aquilo que se observa no Brasil. E o desenvolvimento desses países não exclui a paixão por esse e outros esportes - e vice-versa.

Aqueles que criticam jogos de futebol, feriados e tempos ociosos ou coisas "fúteis" com argumentos baseados em "alienação" e "distração" parecem se esquecer de que até mesmo o trabalho, dependendo da dinâmica sócio-econômica na qual se insere, também pode servir como ferramenta de condicionamento, manipulação política e alienação. As atividades "úteis" e "práticas" também são alienantes quando inseridas numa estrutura defasada e permeada por ingerências.
 
O trabalho, hoje, serve mais à função de preenchimento do tempo das massas, que são reduzidas a se preocupar com sua sobrevivência, trabalhar e procurar por emprego quando estão desempregadas, do que realmente gerar riqueza e garantir o sustento. Aliás, hoje são poucas as pessoas que conseguem realmente viver do próprio trabalho (ao menos com um mínimo de dignidade).

Gastar todo o tempo em coisas "úteis" e colocar o trabalho acima de qualquer outra coisa é sinal de uma civilização totalmente materialista, decadente e crescentemente empobrecida.

Trabalhe - mas descanse. E descanse bem.


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