segunda-feira, 18 de junho de 2018

O advento do Robô: História e Decisão

Por: Alexandr Dugin
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho








Mais ou menos recentemente, falei com Francis Fukuyama[1] e chegamos à conclusão de que a definição de democracia enquanto poder da maioria é obsoleta, antiga e nada funcional. A nova definição de democracia, de acordo com Fukuyama, é o poder das minorias direcionadas contra a maioria. A maioria pode ser populista - então, ela é perigosa.

Sobre a questão do Tempo, o grande filósofo alemão Edmund Husserl[2] disse que nós precisamos compreender o tempo como uma música. Na música, ouvimos a nota anterior, a nota atual e antecipamos a próxima. Sem isso, se ouvimos apenas uma única nota, então ouvimos um barulho, e não uma música. 

Música é quando mantemos em mente aquela nota que tocou antes e antecipamos aquela que virá a seguir.  Assim, a história e o futuro não são completamente notas novas, mas sim a continuação da melodia que estamos tocando agora. 

Esse é um ponto bastante importante dado numa observação feita pelo sr. Sloterdijk[3] sobre a urbanização - a melodia não começou agora - que está sendo colocada em movimento há certo tempo histórico. Essa é uma tendência grandemente inevitável - não podemos parar essa música mas, ao mesmo tempo, se não mudarmos o ritmo seremos obrigados a pará-la.

Assim, isso é um tipo de destino presente nessa transformação da sociedade do nível agrário e das condições rurais de vida para algo urbanístico. 

Considerando o significado filosófico desse processo histórico, percebemos que, a cada passo, o ser humano se torna mais e mais independente da natureza. Então, ele cria mais e mais ambientações artificiais, um mundo mais e mais virtual, porque a cidade, comparada à vila, é algo virtual - não há dependência em relação à primavera ou ao inverno, porque sempre temos luz.

E essa é a separação dos robôs, seres completamente virtuais - nós já somos meio robôs. A cultura urbana, a cultura técnica, já se faz presente - somos mais e mais independentes da natureza, e grande parte da população (não só na Europa) já é urbana.

O processo de urbanização não pode ser parado. Estamos nos transformando em robôs, nossa sociedade está mais e mais robotizada. Para fazer a mudança de humanos para robôs, precisamos infundir alguns aspectos robóticos em nossas vidas. 

No campo da filosofia, há a ontologia de Quentin Meillassoux[4], direcionada aos objetos, que critica qualquer tipo de dualismo. Meillassoux tenta salvar a filosofia contra o sujeito - contra o humano. Então, creio que Meillassoux é um tipo de cérebro de silicone, porque, do mesmo modo, um robô também seria capaz de filosofar, ou de não filosofar (François Laruelle[5]), ou uma ontologia baseada unicamente no objeto.

Estamos nos preparando para o futuro, estamos jogando esse jogo com a urbanização, e é hora de lembrar o que Heidegger[6] disse sobre o processo técnico e metafísico. Estamos envolvidos num processo técnico e, se formos substituídos pelo próximo estágio desse mundo tecnológico, ele trará em si mesmo um tipo de continuidade, não algo completamente novo - porque já estamos dançando essa música há certo tempo.

Estamos nos preparando passo a passo para uma grande substituição: estamos prontos para substituir a nós mesmos e para sermos substituídos.

A substituição não será algo completamente novo e horrível - porque algo horrível já está acontecendo. Não só no Ocidente, mas também na Rússia e na Ásia - em toda a humanidade, algo horrível está acontecendo agora mesmo, se desdobrando.

Creio que estamos nos aproximando de algum momento de Singularidade - o momento quando se permitirá que uma rede neural tome a responsabilidade sobre situações complicadas.  A morte recente de uma mulher atropelada por um carro robótico[7] baseado nas ideias de Tesla[8], sem nenhum motorista, é uma antecipação daquilo que está ocorrendo. Algum dia, vamos acordar para o fato de que já fomos substituídos.

Estamos dançando a mesma melodia, e se não estivermos felizes não podemos dizer "pare", porque isso é impossível. Devemos seguir essa estrada desde o início - desde a primeira nota da sinfonia. Devemos perguntar, agora, quem é o autor e quem começou o processo de urbanização, quem criou os trens, o liberalismo, a democracia, o progresso, os mísseis, o computador, a síntese nuclear.

Quem é o verdadeiro autor? E, o que é essencial: por que isso foi uma decisão humana, então não foi um tipo de "processo natural". Em determinado momento histórico, decidimos seguir esse caminho - e agora só podemos frear ou acelerar. Mas, por que não perguntamos a nós mesmos se tomamos a direção certa, desde o início? Essa decisão foi a escolha certa?

Deveríamos voltar a esse momento, ao começo da melodia - essa é minha ideia. Pode ser tarde demais para despertar em meio a contribuintes perfeitos, robóticos, tomando decisões democráticas, enviando mensagens de SMS entre si.

A conversação entre robôs já é possível; na rede neural, a linguagem especial já é possível: durante a conversação, dois computadores criaram, recentemente, uma linguagem sem o conhecimento do operador[9]. Então, eles vão nos substituir com facilidade.

Filosoficamente, quem é o robô? O robô, um Intelecto Artificial, é o das Man de Heidegger. É a existência inautêntica do Dasein. Mais do que isso: em determinado momento, a humanidade ocidental tomou a decisão de eliminar o Dasein para evitar a possibilidade de existência autêntica.  

Agora, estamos no fim da linha. O robô não possui Dasein. Assim, ele é a inautenticidade irrevogável do ser. E está aqui - agora, não amanhã.




Publicado originalmente em: 4pt.Su


Notas*:

[1] Yoshihiro Francis Fukuyama é um filósofo, analista e economista político estadunidense de origem japonesa. Ficou internacionalmente conhecido por conta de seu conceito de "Fim da História", no qual uma certa singularidade universal em formas político-econômicas tomaria lugar num futuro próximo, colocando um "fim à História". O próprio Fukuyama revisou vários pontos de sua ideia.

[2] Edmund Gustav Albrecht Husserl foi um importante filósofo e matemático alemão. É considerado como aquele que estabeleceu a escola de fenomenologia, rompendo com a orientação científica positivista.

[3] Peter Sloterdijk é um filósofo alemão considerado como um dos maiores renovadores da atual filosofia, reconhecido especialmente por suas três obras intituladas "Esferas" (Sphären).

[4] Quentin Meillassoux é um filósofo francês que leciona na École Normale Supérieure. Sua primeira obra foi "Après la Finitude" [Depois da Finitude], publicada em 2006, por meio da qual introduziu uma nova opção na filosofia moderna, diferenciando-se das alternativas de criticismo, ceticismo e dogmatismo, propostas por Kant.

[5] François Laruelle é um filósofo francês notadamente reconhecido por ter desenvolvido uma ciência da filosofia, chamada por ele de não-filosofia. Atualmente, ele dirige uma organização internacional dedicada à causa da chamada não-filosofia. a Organisation Non-Philosophique Internationale (Organização Internacional Não-Filosófica).

[6] Martin Heidegger foi um dos maiores nomes da filosofia alemã, tido como um elo de ligação entre o existencialismo de Kierkegaard e a fenomenologia de Husserl. Heidegger se dedicou principalmente à ontologia, ao sentido do Ser e seus aspectos mais importantes. É dele o conceito de Dasein. Provavelmente, sua obra mais importante é "Sein und Zeit" (Ser e Tempo), publicada em 1927, na qual ele aborda questões sobre o sentido do Ser.

[7] Thew Guardian: Self-driving Uber kills Arizona woman in first fatal crash involving pedestrian [Uber automático mata uma mulher no Arizona na primeira colisão fatal envonvendo pedestres].

[8] Nikola Tesla foi um proeminente inventor sérvio com amplos trabalhos nos campos de engenharia mecânica e eletrotécnica e eletromagnetismo. Seus trabalhos formam a base dos sistemas modernos de corrente alternada e potência elétrica, sistemas polifásicos de distribuição de energia e motor AC - os pilares da chamada Segunda Revolução Industrial. Seus trabalhos no campo da condutividade foram demonstrados numa transmissão de rádio sem a utilização de fios, realizada em 1894 (mostrando a possibilidade de condução sem a necessidade de fios). Apesar de suas imensas contribuições, Tesla foi considerado como um excêntrico que, infelizmente, caiu no ostracismo, morrendo empobrecido aos 86 anos, sem o devido reconhecimento de seu trabalho em vida.

[9] Independent UK: Facebook's artificial intelligence robots shut down after they start talking to each other in their own language [Robôs de inteligência artificial do Facebook são desligados após o início de um diálogo em sua própria linguagem]

* Inseridas pelo tradutor. Não constam no artigo original.
  
Share:

Um comentário:

Visitas

Marcadores