sexta-feira, 1 de junho de 2018

Bolsonaro 2018?

Por: Jean A. G. S. Carvalho


A possibilidade da candidatura Bolsonaro é cada vez menos uma possibilidade


Um mantra é repetido à exaustão: "Bolsonaro 2018". Mas a mera repetição não é o bastante para a concretização da pauta.

Quando se tenta traçar um paralelismo político entre Trump e Bolsonaro, um elemento é inteiramente desconsiderado: apesar de bastante "fraturada", a Direita estadunidense conseguiu se reunir em torno da figura de Trump antes e durante as eleições (embora, hoje, vários setores da própria Direita estadunidense façam duras críticas ao governo). No Brasil, isso não está acontecendo. Ao contrário: às vésperas das eleições presidenciais, a Direita brasileira está se fraturando cada vez mais e não há uma reunião consensual em torno de Bolsonaro.

Num espectro mais aproximado (é bom frisar que não estamos dizendo que todos são a mesma coisa, mas sim que estão num espectro mais próximo), Bolsonaro tem três concorrentes mais diretos: Alckmin, Flávio Rocha e João Amoêdo. Desses três, Alckmin é o que tem mais capacidade de projeção eleitoral (embora dificilmente seja eleito). Flávio Rocha e Amoêdo, mesmo com pouca projeção eleitoral, conseguem retirar votos de Bolsonaro, atraindo principalmente liberais que, inicialmente, votariam nele. 

Esses liberais, vistos pelos conservadores como "aliados" (com a unificação forçada que fazem entre conservadorismo e liberalismo econômico), não fazem realmente parte do mesmo espectro e estão migrando para candidatos que refletem com mais radicalismo ou fidelidade seus ideais liberais (não só econômicos, mas também morais e culturais).

Se contarmos candidatos "nanicos" como Levy Fidélix, Bolsonaro perde ainda mais votos - cada voto aqui acaba sendo um peso, por menor que seja a expressividade eleitoral do candidato.

Quando migramos para um espectro mais distante, a elegibilidade de Bolsonaro se torna ainda mais difícil. Embora as chances dele aumentem se consideramos que a candidatura de Lula seja praticamente impossível (Lula seria eleito no primeiro turno, de acordo com pesquisas), Ciro Gomes vem cada vez mais preenchendo o vácuo deixado pela candidatura petista e, hoje, é o concorrente direto mais perigoso para Bolsonaro - basta perceber como o índice de rejeição a Jair é grande e o quanto ele estagnou nas pesquisas, ao passo que Ciro vem crescendo nas pesquisas de intenção de voto.

Se levarmos em conta que a candidatura de Marina Silva acaba "puxando" votos que seriam de Ciro Gomes, percebemos que ela exerce, nele, um efeito similar àquele observado nas candidaturas de Flávio e Amoêdo em relação a Bolsonaro - mesmo assim, Ciro poderia ter maior projeção já que, ao contrário de Bolsonaro, ele não conta com um índice tão significativo de rejeição.

Fazendo uma "limpa" no panorama de candidatos e imaginando um segundo turno entre Bolsonaro e Ciro, percebemos que o segundo conta com uma vantagem (mesmo que não tão certa): a possível aderência do eleitorado que votaria em Lula ou em Marina Silva - ou em Guilherme Boulos e Manuela Dávila (outros dois candidatos com pouca projeção eleitoral mas que também contam como acréscimo ou decréscimo de candidatos com mais projeção).

Se é quase possível afirmar que o eleitorado dessas figuras poderia transferir o voto em torno de Ciro, não é tão possível assim afirmar que o eleitorado de figuras mais liberais (como Amoêdo e Flávio) fizesse o mesmo em favor de Bolsonaro. A ruptura entre conservadores e liberais é cada vez maior (só os conservadores não admitem isso, já que os próprios liberais fazem cada vez mais questão de frisar o quanto se distinguem não só dos conservadores como pessoas, mas do conservadorismo enquanto ideia).

O alto índice de rejeição, a candidatura crescente de figuras mais compatíveis com o espectro liberal (e que, longe de serem combatidas pelos eleitores de Bolsonaro, são celebradas como "figuras da Direita" e "opções válidas") e a ascensão da candidatura de Ciro Gomes são alguns dos elementos que podem tornar muito difícil a concretização do mantra "Bolsonaro 2018".

O resultado das eleições presidenciais brasileiras é algo quase sempre incerto. É como jogar fichas num cassino. Mas o andamento dos fatos vem mostrando que Bolsonaro tem ficado cada vez com menos fichas para apostar.

Talvez a frase precise ser reajustada para "Bolsonaro 2022". 



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Um comentário:

  1. 1- A pontuação dele já ultrapassou os 20%, logo, a estagnação não se mostrou verdadeiro; 2- Você aborda a rejeição alta do Bolsonaro, mas omite que a rejeição do Ciro é maior.3- A última pesquisa mostrou a Marina na frente do Ciro. Logo, a visão de que ele está crescendo, não se mostra verdadeira com base na última pesquisa.

    PS:Acho estranho ler de um autor que condena o pós-modernismo, ter uma certa admiração pelo Ciro, sendo que o mesmo defende tudo o que você condena. Lembro do Daniel Artur Branco, que já mostrou a incoerência por parte suas.
    PS2: Espero que aja a possibilidade de poder criar um Partido com a linha que vocês defendem. Atualmente não conheço nenhum.

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