quinta-feira, 24 de maio de 2018

Os ventos da mudança e o Tigre de Papel

Por: Nick Griffin
Tradução (para o italiano): Costantino Ceoldo
Tradução (para o português): Jean A. G. S. Carvalho


Esta conferência recebe o título de "O vento da Mudança". A sentença não é nova. Ela foi usada pelo primeiro-ministro britânico Harold Macmillan na Cidade do Cabo em 1960. Seu comentário sobre o fato de que "o vento da mudança está atravessando este continente" foi o gatilho para o governo conservador se comprometer com o rápido desmantelamento do Império Britânico.
Isso era, em parte, um projeto anti-colonial socialista, mas Macmillan também foi fortemente influenciado pelos Estados Unidos que, nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, exortaram as potências europeias para que abandonassem seus impérios - de modo que os Estados Unidos pudessem preencher esses espaços político-econômicos, como resultado.
O continente ao qual Macmillan se referia era, naturalmente, a África. Mas, hoje, podemos sentir um outro vento de mudança soprando outro continente: a Europa. E, mais uma vez, esse é um vento que está varrendo o domínio colonial: o domínio colonial estadunidense.
Se eu estivesse aqui há apenas dois ou três anos e dissesse que a dominação estadunidense da Europa seria varrida como a areia numa tempestade de poeira, você pensaria que eu era louco. Afinal, todos os sinais eram de que os colonizadores estavam ganhando.
Quando o muro [de Berlim] desmoronou em 1989, o regime de Washington quebrou prontamente sua promessa de manter a fronteira oriental da OTAN na Alemanha. A OTAN e a dominação estadunidense marcharam rumo ao leste.
Só no ano passado, os estadunidenses estavam estabelecendo bases de mísseis na fronteira russa. Um número crescente de tropas da OTAN está agora servindo no leste da Polônia e nos países bálticos.
Ao mesmo tempo, os regimes fantoches de Washington na Europa Ocidental e na UE mostraram uma disposição infeliz para serem parceiros na política realmente perversa dos EUA de usar gangues terroristas jihadistas para destruir as nações árabes seculares, de modo a permitir que os "gigantes da energia" que servem aos Estados Unidos, Israel e Arábia Saudita, pudessem prosperar nas ruínas resultantes.
Quando foi fundado logo após a Segunda Guerra Mundial, o primeiro secretário geral da OTAN, Lord Ismay, descreveu sua missão como "manter russos, estadunidenses e alemães do lado de fora". A aliança desempenhou assim o mesmo papel na política internacional que a máfia exerceu na Itália após ser restabelecida ao mesmo tempo na ponta da baioneta estadunidense.

"A dominação subsequente dominação estadunidense do nosso continente durou exatamente 70 anos. Durante todo esse tempo, ela pareceu irresistível. Inabalável. E isso parecia verdade no início deste ano, como foi em todas as nossas vidas."

Mas, aquilo que parecia ser um concreto geopolítico até poucos meses atrás, está agora se transformando diante de nossos olhos em areia levada pelo vento.
É claro que, no mês passado, vimos as forças dos EUA atacando a Síria em nome da Al Qaeda, de Israel, da Arábia Saudita e do complexo militar-industrial dos EUA. Vimos Donald Trump copiar Bush, Bill Clinton e Obama como um policial global. Vimos regimes fantoches na França e na Grã-Bretanha fornecendo apoio militar e diplomático. À primeira vista, isso parece normal, como de costume. Saudações ao líder e ao que a criminosa de guerra Madeleine Albright chamou de "nação indispensável".

"Mas, olhe mais de perto. Trump disparou duas rajadas de mísseis na Síria. Mas ambos os fogos de artifício muito caros só foram lançados depois de informar os russos, com tempo suficiente, por sua vez, para alertar os sírios, permitindo-lhes deslocar os ativos militares em segurança. Embora as forças dos EUA tenham disparado 105 mísseis de cruzeiro no mês passado, o ataque atingiu apenas três alvos puramente simbólicos. Esses mísseis foram deliberadamente desperdiçados em um exagero ridículo, ou foram abatidos pela última geração de sistemas de defesa antimísseis russos da Síria."

Assim, apesar do horror que todos sentimos quando vimos a resposta da OTAN ao ataque de false-flag em Douma, a realidade é que os EUA tem tanto medo da Rússia na Síria que abaixaram os punhos - ou talvez tenha ocorrido um ataque real, mas que estava preso em um resultado que teria sido profundamente perturbador para os planejadores do Pentágono. Pessoalmente, acho que a última opção é a mais provável, mas não faz muita diferença. Ambas as razões fazem dos Estados Unidos um tigre de papel.
Juntamente com o desenvolvimento de mísseis hipersônicos russos que trasnformaram a frota estadunidense num pato obsoleto, o resultado do lançamento de mísseisl no mês passado é que os EUA e seus aliados perderam o controle militar do leste do Mediterrâneo e perderam também a credibilidade militar no mundo inteiro.
Desde o ataque, o exército sírio e seus aliados libertaram as últimas áreas ocupadas pelo ISIS [Estado Islâmico/Daesh] ao sul de Damasco, libertaram o grande reduto jihadista ao norte de Homs e reconquistaram a metade da última zona desértica do ISIS perto da fronteira iraquiana. As únicas áreas ainda a serem eliminadas dos parasitas jihadistas são a província de Idlib e o trecho próximo às Colinas de Golã, onde o ISIS e outros grupos rebeldes recebem equipamento militar, assistência médica e cobertura aérea de Israel.
Assad e seus aliados ganharam a guerra. A elite americana e seus fantoches perderam.

"Mas o vento da mudança, que varreu a dominação imperial dos EUA, não está apenas soprando através do Oriente Médio. Há também uma tempestade de mudanças políticas que está sendo preparada na Europa - e não apenas no Oriente e no Centro, onde os poderes de Viktor Orban e Visegrad já redesenharam a política e abalaram o domínio suicida da velha elite liberal pró-americana."


Não! A mudança realmente importante está acontecendo agora mesmo, no Ocidente. E a velocidade da mudança é impressionante.

Obviamente, há muitos compromissos e fraquezas na nova coalizão que está se formando aqui na Itália. Mas isso não muda o fato de que o novo governo será o mais pró-russo em toda a Europa Ocidental. A Itália, cuja política externa foi efetivamente ditada pela CIA por 70 anos, é repentinamente capaz de pensar e agir de forma independente.

E a tempestade se enfurece. Na semana passada, até mesmo os cachorros mais patéticos de Washington e de Wall Street finalmente ficaram aborrecidos por terem sido expulsos pelo Tio Sam. A decisão de Donald Trump de transferir a embaixada estadunidense para a Jerusalém ocupada foi muito bem recebida pelo psicopata delirante Netanyahu. Mas, mesmo os ingleses, franceses e demais europeus estão incomodados com a estupidez provocativa [dessa escolha].

Em seguida, outra explosão da tempestade de mudanças apareceu, enquanto Trump "demolia" o acordo com o Irã. Porque ele não fez nada disso. Sim, ele removeu os EUA do acordo, mas o acordo ainda está vivo. Até mesmo os aliados mais próximos dos Estados Unidos se recusaram a seguir o exemplo. Por um lado, totalmente isolado, temos os EUA. Do outro, temos não só o Irã, a Rússia e a China, mas também a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha.

Esse nível de desobediência teria sido totalmente impensável há apenas dois anos.


"A decisão de Trump e a rejeição europeia a isso causaram um golpe de martelo na 'solidariedade' transatlântica que permaneceu inalterada durante 70 anos. E a crise está apenas começando. Washington estabeleceu um prazo de seis meses para as empresas europeias que fazem negócios no Irã deixarem o país. Eles terão que parar suas operações ou enfrentar penalidades pesadas."


Juntamente com o impacto contínuo das sanções à Rússia, isso significa que os Estados Unidos se tornaram a principal ameaça à economia europeia. A UE, por sua vez, está planejando contramedidas para bloquear as sanções dos EUA ao Irã.

A chanceler alemã Angela Merkel criticou o presidente Trump por sua decisão de se retirar. O ministro francês das Finanças, Bruno Le Maire, disse que as potências europeias não devem ser "vassalos" de Washington. Mesmo usando a palavra, o feitiço está sendo quebrado e finalmente estão se movendo em direção à liberdade.

Em 11 de maio, a chanceler alemã discutiu a situação com o presidente Putin numa conversa telefônica. Hoje, Angela Merkel está em Sochi; alguns dias depois da Alemanha começar a construir o gasoduto Nord Stream 2, diante de uma hostilidade feroz (mas ineficaz) dos Estados Unidos.

As relações EUA-UE também estão sendo violadas pelos planos de Washington de introduzir tarifas sobre as importações de aço e alumínio da UE. Uma guerra comercial está logo ali, na esquina. Por quanto tempo uma frente de segurança comum pode sobreviver a essas tensões?


"Talvez a mudança mais surpreendente esteja na Alemanha, um país que obviamente ainda é ocupado por tropas estadunidenses. A revista arqui-liberal Der Spiegelha acaba de destacar a nova posição antiestadunidense com um editorial intitulado "O Tempo para a Europa se juntar à Resistência":


O artigo diz que o presidente dos EUA, Donald Trump, é "qualificado apenas em destruição", referindo-se à sua saída do acordo nuclear iraniano e do acordo climático de Paris. Ele saiu apenas um dia depois de Merkel ter afirmado que a Europa não pode mais depender dos Estados Unidos e que deve tomar as coisas em suas próprias mãos.

Existe até um abismo que se abre em Israel. O Partido Republicano inteiro se juntou a Trump para apoiar o "direito" de Israel de massacrar adolescentes manifestantes em Gaza, e a maioria dos democratas concorda - mesmo que eles ficassem histéricos se um guarda de fronteira estadunidense matasse um mexicano tentando atravessar a fronteira.


Ao contrário, a elite europeia parece genuinamente chocada com a brutalidade israelense. Eles também estão desesperadamente preocupados com o impacto sobre sua crescente minoria muçulmana. E se Trump e Netanyahu atearem fogo em todo o Oriente Médio, isso será a elegibilidade dos liberais europeus para ser apagada por uma nova onda de refugiados.
O poder do lobby sionista e da mídia ainda é imenso, é claro, mas conviver com os Estados Unidos e Israel está se tornando um preço caro demais. Até mesmo o Financial Times, totalmente globalista, observou que "a subordinação a Washington implicará em um preço interno muito sério".
Além disso, isso também é algo supérfluo e há uma escolha real logo ali: lutar guerras intermináveis em nome de Washington e Israel ou negociar com a Rússia e a China como parte do bloqueio econômico da Nova Rota da Seda?

"Considerando tudo isso, os poderes crescentes no bloco internacional estão constantemente trabalhando para quebrar o controle do dólar estadunidense como a única maneira de trocar petróleo e como a moeda de reserva mundial. Esse é o mecanismo financeiro que permitiu aos Estados Unidos brincar de polícia global, destruindo sua base de fabricação. O FED imprime dólares e o resto do mundo os compra, de modo que os estadunidenses obtêm todos os bens de consumo de que precisam. Quando isso acabar, Washington não poderá pagar pelos gastos militares mais do que o resto do mundo inteiro junto - e seu império global entrará em colapso."

As preparações estão em andamento. A China está cortejando a Arábia Saudita. E, agora, a União Europeia também está considerando a possibilidade de transferir pagamentos para o euro por suas compras de petróleo do Irã. Isso permitiria que ambas as partes continuassem a negociar, mesmo com as sanções dos EUA. Mais importante: isso significaria o fim do petro-dólar.
Ameaçar o domínio do FED sobre a criação de crédito e a tomada de Wall Street no comércio global foi, obviamente, uma das principais razões para o assassinato de Gaddafi e Saddam Hussein.
Normalmente, tal movimento dado pelos líderes da Europa levaria a contramedidas drásticas pelo Deep State estadunidense. O principal deles poderia ser o desencadeamento do grande potencial de conflitos étnicos e religiosos que a CIA tanto fez questão de estabelecer na Europa Ocidental por meio da imigração em massa e da inundação de refugiados.
Eles poderiam facilmente replicar a destruição da Iugoslávia desencadeada pela CIA ao longo da rota da Europa Ocidental. Eles desencadearam seus jihadistas domesticados na Líbia e na Síria e poderiam fazer o mesmo contra a Europa. Isso puniria simultaneamente a elite política europeia não-colaborativa e a levaria de volta ao Big Brother USA, cuja ajuda militar seria necessária para resolver o caos resultante.
E eles podem. Isto é claramente o que eles planejam há muito tempo. Mas, se eles são capazes de fazer isso hoje, é outra questão.

"Primeiro, os europeus não necessitam de inteligência e, agora, pensam nos EUA como algo diferente de um aliado divino: a evidência de tal destruição cínica da utopia progressista poderia ir muito mal. Longe de envolver a Europa para influenciá-la a cooperar, o choque e a raiva poderiam completar a ruptura."


E, depois, há o fator Trump. Mesmo que o presidente excêntrico esteja no caminho certo com a elite de Washington em relação ao Irã e a Israel, ainda há uma guerra civil política em torno da Casa Branca em todas as outras frentes. Um regime tão dilacerado pelo conflito e pelo ódio pode realmente tomar as decisões e as medidas necessárias para demolir seus supostos aliados mais próximos?

Talvez. Mas talvez não. Como em relação a todas as outras coisas nessa tempestade de mudanças, os ventos podem mudar às vezes e ninguém é capaz de prever com exatidão o que acontecerá em seguida.

Mas há três coisas que podemos dizer com certo grau de certeza: 

Um: o vento da mudança continuará a soprar.

Dois: se o Deep State estadunidense decidir jogar sujo na Europa, então o caos resultante e o conflito étnico-religioso não apenas romperão a UE como planejado, mas também criará uma avalanche de consequências não intencionais.

Três: se Washington estiver paralisado demais para agir, o império do dólar cairá.

Então, de um jeito ou de outro, o vento da mudança está destinado a se tornar o furacão da história.




Este é o texto da transcrição de um discurso proferido pelo autor em Milão em uma conferência do partido político pan-europeu "Alliance for Peace and Freedom" [Aliança pela Paz e pela Liberdade], ocorrido em 19 de maio de 2018.



Artigo original publicado por Nick Griffin publicado em: Geopolitica.Ru


Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Visitas

Participe do nosso Fórum Online

Siga-nos no Facebook

Marcadores