terça-feira, 22 de maio de 2018

Contra a cultura do self-made man

Por: Jean A. G. S. Carvalho




Embora seja importante salientar aspectos positivos da masculinidade e da virtude, da construção da personalidade e da própria identidade, há uma distorção brutal feita sob uma ótica estritamente individualista, o culto ao "self-made man" - algo que reflete muito pouco da verdadeira construção da existência de um homem.

O termo "self-made man" foi classicamente criado em 1832 pelo senador estadunidense Henry Clay, usado para descrever indivíduos do setor industrial cujo sucesso era explicado em termos estritamente individuais. Henry usou figuras históricas como Benjamin Franklin para ilustrar o "self-made man", o "homem feito por si mesmo".

Mais tarde,  o conceito foi expandido por Frederick Douglass (um político afro-americano, reformista social, escritor e militante da causa abolicionista) por meio de uma série de palestras por volta de  1859.A conotação original dessa expressão era a de se referir a um indivíduo que sai de uma situação de miséria e consegue vencer no campo profissional, político, social etc. - por meio do esforço pessoal, ao invés de vantagens, conexões e facilitações. Nos anos 1950, o termo passou a ser utilizado principalmente para designar o sucesso no mundo empresarial.

Posteriormente, graças à entrada de mulheres no meio empresarial, o termo "self-made woman" também foi cunhado - basicamente com a mesma conotação, só que com a respectiva flexão de gênero.

A ideia de self-made man acabou por ser incorporada ao próprio imaginário estadunidense, forjando uma "identidade nacional" que faz parte do próprio "American way of life". Muitos criticam o arquétipo criado em torno desse termo como uma distorção.

Embora a expressão realmente descreva o esforço pessoal para superar dificuldades, entraves e desafios, e apesar de descrever a ação empreendedora (essencial à construção social, não só em termos econômicos - mas civilizacionais), há uma grande desfiguração da masculinidade por meio do termo, chegando a criar a ideia ilusória de que você pode - e deve - se construir sozinho, de que vencer individualmente é possível e de que a verdadeira hombridade está em ser o "lobo solitário".

Acontece que a construção da própria identidade não é um processo "individual". Nossa identidade é essencialmente coletiva - aquilo que gostamos e deixamos de gostar, nossas preferências musicais, as comidas que gostamos, o jeito com o qual nos vestimos etc. - porque todos os elementos que usamos nessa construção nos precedem. Não existe absolutamente ninguém, por mais "exótico" ou "singular" que seja, que tenha construído do zero sua personalidade. Isso não existe.

O culto ao indivíduo e ao individualismo anula a verdadeira construção não só do homem, mas da humanidade em si. Não somos "self-made men", somos homens coletivamente construídos - nossas noções e afirmações de honra e virtude são essencialmente dadas no meio social. Você não é um "lobo solitário", você faz parte de um organismo e, em grupo, suas potencialidades são aprimoradas e seus defeitos são minimizados (ou podem ser).

Vencer as dificuldades não é e não deve ser um processo solitário; ao contrário: nossas conquistas se dão graças a ajuda de outras pessoas, em maior ou menor grau. Seja você um extrovertido com total facilidade de sociabilização ou um introvertido mais reservado e sem muito traquejo, todos nós dependemos de outras pessoas para vencer na vida. A cultura da "vitória individual" distorce o aspecto justo do esforço pessoal, transformando esse elemento na negação de uma realidade óbvia: dependemos de outras pessoas.

Os próprios modelos usados para descrever o arquétipo de "self-made man", do homem que vence sozinho contra tudo e contra todos, só puderam construir algo porque encontraram o apoio de outros homens e mulheres. Pode ser que não fosse objetivo de homens como Frederick e Henry criar uma cultura de individualismo, mas, hoje, a expressão é puramente uma distorção da sociabilização humana.

Especialmente nos meios masculinistas, a construção da identidade do homem é reduzida a esse slogan e a uma busca quase que totalmente solitária por honra, ética, moral e hombridade - mas esses elementos só possuem valor porque são dados dentro de uma socialização, dentro de organismos sociais, maiores ou menores. Não existe "honra" sem o outro, porque não há interação. Os próprios códigos morais e a própria ética só possuem razão de ser quando estruturados para grupos - não existe "moral" individual e, se ela predomina, o resultado é a desgraça civilizacional.

Nossos valores e defeitos só podem ser reconhecidos socialmente. O self-made man é uma negação desse fato, seja ela intencional ou não, e a criação da falsa ideia de que, sozinhos, chegamos onde estamos e podemos subir mais. Isso não só é uma distorção da nossa própria  identidade, como uma falta de senso de gratidão por todos aqueles que, de uma forma ou de outra, nos ajudaram a chegar até aqui - seus amigos, sua família, seus colegas e conhecidos são participantes dos seus fracassos e vitórias, mesmo que seu esforço e sua ação pessoal sejam inegáveis. 

Você não forjou a si mesmo. Incontáveis civilizações, inumeráveis filósofos, cientistas, líderes políticos e religiosos, revoluções, processos políticos e econômicos, estruturações culturais, convulsões sociais e figuras icônicas fizeram de ti aquilo que você é hoje. Você é produto e resultado de gerações inteiras. Você não se esculpiu, você foi esculpido - suas ações pessoais podem sim influenciar naquilo que você é, mas a matéria prima não é sua: você é herdeiro dela e toma todos os elementos que te formam de estruturas pré-existentes. 

Embora a resistência pessoal seja crucial na construção do caráter, não é sozinho que você vai vencer - jamais. A vitória que é "sua" pertence a mais pessoas, exatamente porque as ferramentas que usaste para alcançá-la não foram criadas por você. Outros, que vieram antes, as fabricaram.

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Um comentário:

  1. Não é a primeira vez que leio um post neste site que coincide com que venho meditando nos dias que precedem a publicação. Parece algo da Providência. Óbvio que não estava pensando exatamente sobre a cultura do self-made man, mas sobre o quanto somos influenciados pelo meio, e que, principalmente, levamos muita vantagem, ou não, do capital que herdamos, da nossa família por exemplo, seja ele econômico, social ou cultural.

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