quinta-feira, 10 de maio de 2018

Bolsonaro: "Eu não posso perder meus privilégios políticos"

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Fonte da foto: Agência Brasil


Bolsonaro tem migrado cada vez mais da posição nacionalista radical adotada por ele nos anos 1980 e 1990 e se direcionado ao campo liberal. Seu voto a favor das reformas trabalhistas é acompanhado de suas votações (e das votações de seus filhos) pelo aumento de seu próprio salário. Por trás da aparente contradição entre essas posições, há o fato de que o "Estado mínimo" pregado por gente como Bolsonaro só se refere aos pobres, não à elite - para eles, o Estado é máximo, e com todos os privilégios possíveis.

Falando em privilégios políticos, é preciso lembrar que em todos os momentos Bolsonaro tem sido colocado como um exemplo político, como novidade e alternativa ao país. É como se, dentro da política nacional, houvesse apenas dois grupos: Bolsonaro, "honesto", e o restante, formado por corruptos da pior espécie. Bolsonaro é tratado como uma "reação", uma solução ao sistema político apodrecido e o fim dos privilégios dessa casta política. Entretanto, a verdade - que inclusive saiu da própria boca dele, em mais de uma ocasião - é bem diferente.

Questionado sobre direitos trabalhistas, Bolsonaro afirmou que o brasileiro tem de escolher entre possuir direitos ou ter emprego - ou seja, o brasileiro comum deve se acostumar a perder seus direitos porque isso "onera" o Estado. Ao mesmo tempo, ao ser questionado sobre os privilégios dos políticos e sobre possíveis mudanças para reverter esse quadro caso seja eleito, Bolsonaro declarou que não é viável acabar com as regalias políticas e que ele mesmo não deseja perdê-las. 

Nas palavras do próprio Bolsonaro, durante um comício aberto que fazia às beiras de uma estrada, foi exatamente isso o que ele declarou:

"O que um deputado federal tem? R$33.000,00 por mês de salário, tá ok? R$90.000,00 pra contratar funcionários; você tem R$40.000,00 pra passagem aérea, transporte, carro, gasolina, almoço... Se abrir mão disso, eu não tenho como viajar de avião pra Brasília! Eu vou morar em Brasília? Não vou poder andar pelo Brasil? Vou ter que pagar telefone do meu bolso, correspondência do meu bolso? Aí não dá!" [1]

Mesmo se aceitássemos a retórica de que Bolsonaro é a única figura política honesta (o que é comprovadamente uma mentira) no país, ainda seria inegável que, com base nessas e em outras declarações, ele continua sendo mais do mesmo, um defensor do status quo que não oferece nenhuma mudança radical para os principais paradigmas do país.

Bolsonaro não representa nenhuma mudança em relação ao sistema vigente, muito menos uma figura diferenciada em meio à política nacional. Não é um dissidente político. Ao contrário: ele conseguiu se adaptar muito bem nesse ambiente ao longo de mais de três décadas na política institucional - e conseguiu colocar seus filhos nela.

Aliás, ele mesmo, tomado como exemplo de enfrentamento ao sistema e de combate ao maquinário de destruição do país, chegou a afirmar em sessão plenária no dia 11 de junho de 2014, quando ainda fazia parte do PP (Partido Progressista), o seguinte:

"[...] Dia 25, meu partido realizará convenções aqui em Brasília, especificamente na questão aí pra presidente da República. Eu costurei o meu nome... Eu sei o porquê mas não posso falar, porque a maioria do meu partido apoia a reeleição de Dilma Rousseff... Infelizmente eu não posso falar, sr. presidente" [2]

Ou seja: quando convém, Bolsonaro é uma reação contra "tudo o que não presta", o único político honesto e a salvação para o Brasil e o fim da corrupção - aquele que bate de frente contra o sistema - e, ao mesmo tempo, quando também se torna conveniente, o discurso é o de que ele é "apenas mais um", e de que "não pode resolver tudo sozinho". Ele é ao mesmo tempo o polemista politicamente incorreto destemido e o conformista que "corre risco de morte caso fale demais".

Diante da necessidade de transformações sistemáticas e radicais, Bolsonaro é apenas mais do mesmo e representa exatamente a mesmíssima política jurássica de velhos conchavos, submissão ao estado vigente de coisas e aos interesses externos dos quais o Brasil é uma presa fácil, interesses esses que exigem uma política completamente corrupta baseada em privilégios injustificáveis e patrimonialismo. 

Acreditar que essa figura representa qualquer perspectiva de mudança real, de destruição dos privilégios políticos (dos quais ele e seus filhos são beneficiários), das estruturas nas quais o aparato corrupto se escora e dos principais problemas que afligem nosso país é como acreditar ser possível apagar um incêndio usando querosene.

É preciso desfazer a imagem desse e de outros oportunistas políticos que, com discursos moralistas vazios e a adoção de falsas imagens de "esperança" e de "salvadores da pátria" representam apenas a continuidade de todos os problemas que pretendemos resolver. 

O fato de Bolsonaro já declarar que não vai participar dos debates presidenciais televisionados torna-se algo completamente compreensível quando temos em mente não só essas, mas várias outras declarações dele mesmo - e uma carreira política totalmente nula, baseada em polemismo, provocação vazia, sensacionalismo e oportunismos. 




Referências:


[1] A fala de Bolsonaro pode ser conferida no seguinte vídeo (a fala se encontra exatamente aos 01:31 do vídeo): https://www.youtube.com/watch?v=Pbv6YF06b1U  

[2] Essa fala de Bolsonaro em sessão de 2014 pode ser conferida no seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=rArOpgUyaqs



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3 comentários:

  1. Notícia manipulada, no video claramente ele diz que diante da situação que a maioria do partido dele da época ganhava mais de 250 mil por mes e disse ganhava pouco citando esses valores da matéria, se fosse pra perder privilégio teria de começar por eles e não especificamente pelo que ganha menos. Pra vocês bolsonaro é corrupto sem sombra de dúvidas, então porque não apontam as provas contra ele de corrupção, ou algo que o incrimine? Tanto eu quanto o resto do povo ficaria agradecido. Além disso, a matéria é pobre de informação deturpa um discurso dele e generaliza como se não fosse um dissidente dos que estão no poder, o que se fosse verdade não precisaria de esforço para mostrar como essa matéria tenta fazer.

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    1. Não tem nada manipulado e a fala dele é injustificável. Não importa se o que ele recebe está dentro da lei ou não, é imoral - assim como com qualquer outro político.

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    2. Já há várias provas sobre casos de corrupção de Bolsonaro. Não adianta mostrar. O discurso de vocês vai ser sempre o mesmo: "ele é o único honesto".

      E ele não é um "dissidente", é apenas mais um político parasitário. Além disso, a fala dele não foi sobre "ganhar menos" - e considerar o dinheiro que ele ganha como sendo "pouco" já é imoral e mostra o quanto ele está distante da realidade do Brasil.

      Ou seja, na lógica dele, ele quer ganhar mais, ele ganha "pouco" - o certo seria ganhar muito menos e lutar para que todos os outros ganhem menos também.

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