segunda-feira, 7 de maio de 2018

Alguns pontos sobre o desabamento em São Paulo que estão sendo ignorados

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Fonte da imagem: Nexo Jornal


A tragédia ocorrida em São Paulo foi, como quase todos os "acidentes" que acontecem no Brasil, algo plenamente previsível e que poderia ter sido evitado. O desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, escancara o completo vácuo de planejamento, governabilidade e organização que é a realidade de praticamente todo o Brasil.

Estamos falando de uma catástrofe ocorrida em pleno centro de São Paulo, na maior megalópole do continente. Não se trata de um evento distante em alguma região periférica de uma cidade escondida nos recantos do Brasil, mas sim de um fenômeno naquilo que se considera o que há de mais "rico", "desenvolvido" e "civilizado" (como os separatistas paulistanos gostam de afirmar) no Brasil.

As massas desassistidas e a completa crise habitacional são coisas que, se assolam uma cidade supostamente rica e que é o epicentro do país, então se agravam ainda mais em rincões completamente esquecidos.

A completa ausência de planejamento, de assistência habitacional e a submissão de uma megalópole inteira à lógica de mercado, à especulação imobiliária e a conchavos são coisas que expõem completamente a desestruturação e o desmantelamento do nosso país.

Em São Paulo, há centenas de prédios abandonados. E são edificações localizadas nas regiões centrais da cidade. São milhares de pessoas vivendo em condições desumanas, na maioria dos casos - isso sem contar aquelas que vivem nas ruas. As ocupações são uma das formas que essas pessoas encontram para contornar o problema. Em praticamente todas elas, as famílias pagam aluguéis e taxas às lideranças dos movimentos que gerenciam essas ocupações - era o caso dos moradores do prédio que desabou.

Entre a maioria que realmente precisa de habitação e vê-se economicamente impedida de ter acesso à moradia, há também muitas pessoas que possuem moradias fixas e recorrem a esse expediente para, por meio de algum benefício governamental, conseguir outras moradias. Em muitos casos, os programas governamentais de habitação popular são totalmente falhos em fornecer moradias para pessoas que realmente precisam, enquanto beneficiam pessoas que não precisam dessa ajuda.

Um dos fatores que vem contribuindo para a deterioração do centro de São Paulo, bem como à disseminação do tráfico de crack e das chamadas "cracolândias" (hoje, graças à ação fracassada do já ex-prefeito João Dória, que se supunha servir para erradicar o problema do crack, não há um ponto concentrado dos viciados, mas sim vários focos propagados pela cidade), e que praticamente não é comentado, foi a mudança do epicentro empresarial da região central para a região da Faria Lima. Muitos dos negócios que ocupavam o Centro se mudaram para essa  localidade, simplesmente abandonando os edifícios antigos - isso sem contar nos empreendimentos de especulação imobiliária que, fracassando, criaram verdadeiros vazios prediais.

A ingerência do Estado em expropriar esses locais e readequá-los cria imensos bolsões desocupados em pleno centro paulista. Esses vácuos são preenchidos ou pela criminalidade ou por desabrigados. 

O próprio Centro Velho, de importância história, está visivelmente abandonado. O prejuízo humano, com a massa de indigentes que se cria, aliado ao prejuízo patrimonial e histórico (a Igreja luterana Martin Luther, que ficava ao lado do prédio que desabou e que  é um patrimônio cultural de mais de um século de história da cidade, teve mais de 80% de sua estrutura danificada, sem falar na perda do forro, do órgão e dos vitrais originais) , são elementos que só fomentam a decadência nesse entorno, com uma cidade cada vez mais suja, visivelmente abandonada e desorganizada, aumento de criminalidade e dominada pelo crime e pela prostituição - que também se aloja nesses espaços vazios.

Além de outras coisas, a solução (ou minimização) do problema passa por uma interferência direta de expropriação, por parte do poder público, desses edifícios abandonados, dando correta destinação aos mesmos, evitando a recorrência às invasões, proliferação de pontos de tráfico e prostituição. Isso com certeza diminuiria a degradação urbana e todos os problemas relacionados a ela, evitando novas tragédias anunciadas. E é um recurso plenamente aplicável dentro da lei - a função social dessas propriedades abandonadas é prevista em Lei.

Diminuir o fenômeno do êxodo rural, descentralizando a oferta de empregos e fazendo com que metrópoles como São Paulo não sejam o ímã para milhões de brasileiros que deixam suas regiões e se deslocam até os grandes centros em busca de condições melhores (que, na maioria dos casos, não se concretizam), também diminuiria o inchaço populacional nos grandes centros e todos os problemas oriundos desse processo.

O desabamento do edifício Wilton Paes não é um caso isolado. É fenômeno de uma intrincada rede de problemas e processos. É um dos sintomas da dependência de uma elite financeira que, ao se mover em estilo monádico, abandona toda uma estrutura que não é reaproveitada, criando vazios que são preenchidos da pior forma possível. Enquanto toda a lógica urbana se voltar exclusivamente aos interesses dessa elite que não possui raízes e se desloca de acordo com seus interesses, "acidentes" do tipo serão corriqueiros nas manchetes de jornais e escombros farão parte da paisagem, do cenário natural das grandes cidades.

O entorno da Bolsa de Valores em São Paulo é permeado por moradores de rua, barracas e moradias improvisadas. Essa dicotomia gigantesca e esse imenso abismo de desigualdade são sinais claros de que grandes volumes de dinheiro, concentrados em poucas mãos, não significam absolutamente nada - e isso só piora com a falta de políticas públicas claras e funcionais.

Esse não é um problema restrito a São Paulo - o quadro é praticamente idêntico em absolutamente todas as grandes cidades do país. Se São Paulo é aquilo que há de mais desenvolvido no Brasil, então estamos realmente destruídos.




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