quarta-feira, 9 de maio de 2018

Abuso sexual na ginástica olímpica: punir as vítimas ou o agressor?

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Fernando de Carvalho Lopes, ex-técnico da modalidade masculina de ginástica olímpica brasileira, acusado no maior escândalo  de abuso sexual na história desse meio esportivo - fonte da foto: G1.


Recentemente, estourou um escândalo em relação à ginástica olímpica brasileira: vários atletas (42, mais especificamente) fizeram acusações contra o ex-técnico Fernando de Carvalho Lopes que, supostamente, cometeu abusos sexuais contra vários dos competidores que estiveram sob sua instrução.

Fernando participou da comissão técnica da seleção brasileira masculina de ginástica olímpica. Ele foi o treinador de atletas como Diego Hypolito, Caio Souza e Petrix Barbosa. Fernando, aliás, foi afastado da equipe olímpica um mês antes dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio, por uma denúncia feita por um menor de idade.

Esses dados mostram que havia um problema grave e recorrente dentro da ginástica olímpica brasileira e que poucas providências foram tomadas em relação aos abusos. Nos Estados Unidos, por exemplo, Larry Nassar, que era médico da seleção estadunidense de ginástica olímpica, foi preso por ter abusado mais de 360 atletas - dentre esses atletas, campeãs olímpicas como Aly Raisman e Simone Biles.

Até agora, a grande "punição" não foi contra Fernando (excetuando a destruição de sua imagem pública), mas contra a própria ginástica olímpica e contra os atletas - incluindo muitas vítimas dele. A Caixa Econômica Federal decidiu que pode retirar o patrocínio dado à Confederação de Ginástica brasileira. Essa atitude seria não uma punição contra Fernando e outros prováveis abusadores, mas contra o próprio esporte (que, no Brasil, já encontra investimentos deficitários), os atletas em geral e as próprias vítimas.

Seria, em termos bem simples, punir as vítimas juntamente com seus agressores. O que precisa ser feito não é a retirada de um patrocínio do qual esses atletas são dependentes, mas sim punir com mais rigor o abuso sexual em geral e dar mais ouvidos às denúncias feitas pelas vítimas de crimes sexuais no Brasil.

O escândalo na ginástica olímpica não deve fomentar o desmantelamento do esporte no Brasil, nem uma punição financeira contra seus praticantes, mas sim a resposta proporcional aos abusadores.

A dor sentida pelas vítimas de abusos sexuais, que vai muito além dos danos físicos e está principalmente no campo psicológico, emocional, não pode ser ampliada por punições financeiras completamente irrelevantes para uma resposta em relação ao escândalo de abusos sexuais e morais. Seria perpetrar um abuso contra o próprio esporte.

O Senado já aprovou uma CPI para investigar os escândalos, convocando o próprio Fernando.O resultado desse processo não deve ser a desconfiança no esporte em si, mas sim o maior apoio financeiro e psicológico possível a todas as vítimas e todos aqueles que dependem honestamente do esporte para sobreviver e que, por meio dele, trazem orgulho ao nosso país e servem como inspiração para milhões de jovens. 




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