segunda-feira, 28 de maio de 2018

A guerra de informações por trás da paralisação dos transportes

Por: Jean A. G. S. Carvalho




Uma das faces mais explícitas da paralisação dos transportes, especificamente do setor dos caminhoneiros, é a guerra midiática. Muitas vezes, o modo como as informações são transmitidas tem mais peso do que os próprios acontecimentos - porque a leitura e a interpretação das massas sobre os fenômenos ainda depende em grande parte da mídia dominante.

A retórica frequente dos canais mais expressivos tem sido a de responsabilizar os caminhoneiros pela crise de abastecimento, pelo caos na saúde pública e em todos os demais ramos sociais, como segurança, transporte público etc. Embora haja uma correlação causal direta entre a paralisia do setor e o desabastecimento geral, é irresponsável usar de uma retórica de culpabilização exclusiva dos caminhoneiros.

A mídia dominante tem grande culpa pelo processo e é cúmplice da crise atual, porque "previu" os mesmos processos que agora denuncia. Previu porque foi capaz de se alojar em grupos que estavam organizando a greve antes de seu anúncio oficial.

Em matéria exibida ontem (dia 27 de maio de 2018) no Fantástico, abordando a paralisação dos caminhoneiros, houve a informação explícita de que a equipe de jornalismo da Globo havia entrado em um dos grupos de WhatsApp onde a greve estava sendo organizada justamente um dia antes da eclosão da greve.

Por qual motivo uma equipe de jornalismo conseguiria acesso a uma organização de greve às vésperas dela? Não é mera coincidência. A Globo, de algum modo, já sabia sobre a greve. O mais grave é que a informação não foi repassada ao público geral e o evento foi noticiado como uma "surpresa total", como se a própria mídia dominante não fizesse a mínima ideia sobre ela.

Quando tratamos da mídia dominante, temos de desfazer a imagem de que se trata de um conjunto de organismos neutros que agem como meros narradores dos fatos. Não são. São estruturas que possuem profundo conhecimento dos acontecimentos e, em vários modos, têm influência direta sobre eles.

Se esses organismos possuem conhecimento prévio sobre fenômenos tão graves como uma greve de caminhoneiros, toda a retórica posterior fica comprometida. E é praticamente impossível saber até que ponto esses órgãos de mídia são capazes de molda a narrativa em benefício próprio - e em benefício de grupos que sequer conhecemos. Estamos falando do verdadeiro Deep State no Brasil.

A paralisação dos transportes evidencia o aspecto provavelmente mais importante da contemporaneidade: a guerra de informações e o papel da mídia dominante como um verdadeiro lobby de poder e modulação dos acontecimentos.

O principal ponto dessa análise não é o conspiracionismo irracional de determinar se certos eventos históricos são originados por esses órgãos de mídia dominante. Pode ser o caso - mas, mesmo que não seja, há um fator inegável: a capacidade desse setor de modular a retórica em favor de objetivos obscuros.

Na dinâmica atual, as armas mais fortes não são a gasolina ou os caminhões, mas sim os aparatos de mídia. Estamos presenciando um fenômeno que, se não é inédito, é mais forte do que nunca: o modo de narração dos fatos possui ainda mais força do que os próprios fatos narrados - e por um simples motivo: se você é capaz de moldar a percepção de um público sobre determinado acontecimento, você gera mais impacto do que o próprio fato em si, porque todos os desdobramentos estão, de uma forma ou de outra, relacionados ao modo como a narrativa é feita.


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Um comentário:

  1. Nem liguei a TV no fantástico ontem. Mídia podre e nojenta.

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