segunda-feira, 9 de abril de 2018

Uma análise crítica sobre a prisão de Lula

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Foto: Marcelo Camargo/ABr

7 de abril de 2017: dia marcado pela prisão de Lula, resultado de um processo com bastante celeridade e pressão midiática - algo ao qual não estamos acostumados quando a questão envolve figuras políticas ou corporocratas. 

A trajetória política de Luis Inácio Lula da Silva atingiu um momentum crítico: sua prisão. Longe de significar um final de carreira política, entretanto, esse evento possui vários significados e, provavelmente, muitas ramificações. Seja o Lula ícone da Esquerda que historicamente o tem apoiado, seja o Lula demoníaco no qual a Direita conseguiu materializar todos os problemas do país, há duas personalidades ambíguas nessa figura e dois significados para ele e aquilo que ele representa: um ícone de ruptura brutal com uma ordem vigente e o personagem de uma política de conciliação profunda.

Em primeiro lugar, antes de derramar lágrimas ou festejar, é preciso definir que Lula não rompeu com uma série de conchavos com a burguesia que pretendia combater. Ao contrário: seu governo foi justamente um reforço dessa burguesia apátrida - e o processo que ele vem sofrendo é um preço nessa equação. 

E, depois dessa conclusão, é preciso também admitir que ele está longe de incorporar todos os elementos negativos ou culpas pela situação do país: Lula foi um componente de uma estrutura muito mais profunda, estrutura essa que sobrevive sem ele e já o descartou.

Essa constatação rompe com a retórica de que o Partido dos Trabalhadores e a figura de Luis Inácio são o núcleo e o epicentro de toda a corrupção no país, tendo "aparelhado" todas as estruturas de poder. Se Lula e o PT "aparelharam" todas as estruturas (inclusive a dos juízes) de que modo esse partido foi destronado, inclusive pelo próprio Judiciário? Longe de ser a força motriz, o PT foi uma engrenagem num sistema pré-existente.

O que estamos testemunhando não é o sinal de um Judiciário imparcial, limpo e que se mantém distante da corrupção, muito menos uma nova onda de moralidade na política e de intolerância com os corruptos. Estamos presenciando uma simples transição de elites (falsas) políticas corruptas por outras tão corruptas ou piores. 

É um processo bastante parecido com aquilo que ocorreu após a deposição de Fernando Collor: a promessa de uma "renovação política" para combater a corrupção, seguida de mais corrupção. Aliás, o próprio Fernando Collor havia conseguido se eleger com esse discurso. E o próprio PT conseguiu entrada na política convencional usando essa mesma retórica: o combate às estruturas parasitárias.

Temos de deixar registrado o fator óbvio de que a mera presença da luta anticorrupção num discurso político não significa prosseguimento de corrupção. Afinal, qualquer plataforma política séria terá de incluir esse ponto. O que estamos registrando aqui é o perigo do uso dessa plataforma por agentes e grupos nocivos que, longe de colocá-la em prática, apenas se beneficiam do discurso raso enquanto se alimentam e ampliam a mesma esquematização que dizem combater.

E é possível até desenhar um paralelo entre o processo corrente no Brasil e aquilo que aconteceu na Itália nos anos 1990, na chamada operação "Mãos Limpas" (Mani Pulite): a luta contra as máfias servindo para substituí-la por grupos que apenas aprofundaram a corrupção na Itália (o próprio Silvio Berlusconi se encaixa nisso). 

Longe de uma fonte única ou de bodes expiatórios, há concorrência na corrupção: e grupos opostos podem se livrar de seus rivais para dominar setores. No caso, a deposição tanto do PT quanto de Lula serviram para isso: retomar o poder político convencional.

Aliás, é possível perceber uma deterioração visível da política e das instituições nacionais. Desde o processo de Impeachment, a política de conchavos, favorecimentos, nepotismo, casos de corrupção, conluio entre o governo e corporações, blindagem dos próprios políticos (como a recusa em adiantar o processo contra Temer) e a compra descarada do Senado são coisas que só pioraram. 

Isso sem falar no "dinheiro recuperado de casos de corrupção", somas ínfimas comparadas aos valores originalmente roubados e que mal cobrem os gastos do próprio judiciário e das polícias. 

Se há algum combate real contra a corrupção (e não há), é preciso constatá-lo não por meio de paixões ou opiniões pessoais, mas sim de fatos. E os fatos demonstram que isso não existe. Ao contrário: a realidade tem expressamente evidenciado o quanto uma nova casta corrupta tem se aglutinado ao poder e às estruturas que organizam o Brasil. Uma elite ainda mais profunda, ramificada, organizada e com muito mais amparo midiático do que o PT ou o próprio Lula. 

E as ações dessa nova casta corrupta (não tão nova assim, já que é formada basicamente por verdadeiros fósseis políticos) estão blindadas, especialmente porque a indignação popular já foi devidamente canalizada para outros agentes e outras figuras políticas. O discurso midiático "anticorrupção" não raramente alimenta setores corrompidos - e só serve para que outros agentes continuem seus processos parasitários em paz, sem grandes incômodos.

A prisão de Lula pode significar algo real, algo que vai além da reclusão de um mártir ou da derrocada da bandidagem no Brasil, e esse algo é simplesmente a troca de elementos corruptos numa equação que permanece essencialmente a mesma. Numa linha de comando, essa figura política foi um código - agora superado e substituído por algoritmos mais nocivos.

O frenesi com a prisão de Lula só demonstra o profundo desconhecimento da verdadeira estrutura de poder firmada no Brasil, suas ramificações e sua formação histórica. O entusiasmo com uma "nova Era" para o país só reafirma o quanto o condicionamento já foi feito: discurso vazios e manobras são o suficiente para iludir as massas de que uma nova formação será concretizada. A melhor maneira de manter o status quo é simular mudanças.

E, provavelmente, toda a "Cruzada da Direita" contra a corrupção vai parar exatamente aí,:assim como foi com o Impeachment - exatamente os mesmos que disseram que Dilma seria "apenas a primeira", e que depois não bateram mais nenhuma panela - não haverá nenhuma pressão em massa para que outros elementos deletérios sejam presos. Os organismos que já dominam o poder saciaram as massas com o orgasmo político que elas queriam. O resto é detalhe.

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