sexta-feira, 13 de abril de 2018

O que a imprensa não fala sobre a guerra na Síria

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Bashar em visita a unidades militares do Exército Árabe Sírio, em 2013


O prolongamento do conflito sírio

Os noticiários estão exibindo constantemente imagens de civis sírios, crianças mortas e inúmeros feridos. A destruição naquele país, que já dura mais de seis anos, é retrato constante nos jornais de emissoras do mundo inteiro. Mas, por qual motivo toda essa morte e destruição não acaba? Por qual razão a guerra na Síria se arrasta por tantos anos? 

Um dos motivos é a própria retórica da imprensa, é claro. A maior parte dos canais exibe as consequências da guerra na Síria, mas não suas causas. E a maior parte da opinião dessa imprensa pede a continuidade do conflito para derrubar Bashar al-Assad. Temos de ter em mente que, quando falamos nessa "imprensa", estamos falando da boca de corporações e governos que lucram com o caos no Oriente Médio. 

Não estamos falando de observadores imparciais que apenas narram os fatos, mas de órgãos que são pagos para construir uma narrativa que justifique a qualquer custo a derrubada do regime sírio, especialmente usando slogans vazios como "liberdade", "democracia", "direitos humanos" e "o regime sírio é uma ditadura inaceitável".

Enquanto esses canais invocam o apelo emotivo contra o genocídio, apenas justificam o prolongamento desse morticínio. Se a preocupação fosse realmente com crianças mortas, o problema seria atacado em seu âmago, sua raiz: o conflito sírio é um produto do imperialismo e é benéfico para os poderes dominantes. É por isso que a guerra ainda não acabou: ela precisa continuar, porque gera lucro, dividendos e o álibi para a invasão e dominação da Síria.

A verdade é que, não fosse a ingerência estadunidense e a retórica falsa da mídia, criando um apelo sentimentalista e uma comoção que praticamente exige a derrubada do "terrível ditador", o conflito sírio já estaria praticamente solucionado e o banho de sangue seria cada vez mais parte do passado. Esses canais não querem a paz, não querem a solução para a guerra. Exatamente porque a guerra é a própria solução. Em se tratando do maquinário de guerra dos EUA, os conflitos já nem mais são meios para um fim, mas sim a própria finalidade. Não importa o resultado de uma guerra: importa haver guerras. 

É por isso, por exemplo, que os Estados Unidos continuam enviando jovens para morrer inutilmente na fracassada guerra do Afeganistão, um conflito que se arrasta desde 2003 sem nenhuma conclusão positiva. Mas quem é que precisa da vitória no Afeganistão, ou no Iraque, ou na Síria, ou mesmo na "guerra contra o terror"? Ninguém precisa disso. Ao menos não os donos da indústria bélica. Eles precisam da guerra e ponto final. Há demanda por munição? Há alvos contra os quais usar essa munição? Então, ótimo. 

A imprensa comum, prostituída, jamais falará disso, porque ela não passa de agência de publicidade dessas corporações. E não há nenhum modo melhor de vender uma guerra do que clamar por "paz" da forma mais vazia possível. Sentimentalismo é o leitmotiv de qualquer conflito.


Assad realmente usou armas químicas contra civis?

É exatamente por isso que, mais uma vez, surgem denúncias de que Assad usou gás contra civis. Onde está a lógica nessa afirmação? As mesmas acusações foram feitas em 2016 e 2017, e foram desmentidas. Por qual motivo essas seriam verdadeiras? Com a maior parte do Estado Islâmico (Daesh) destruído, com quase todo o território reconquistado, com os principais redutos terroristas (chamados de "rebeldes") cercados ou já retomados e com amplo apoio civil, qual seria a lógica de Bashar usar armas químicas contra seu próprio povo? 

Deixando de lado as emoções e o sentimentalismo, vamos tratar apenas da parte lógica, por agora. Bashar não ganharia absolutamente nada com isso. Aliás, ele perderia apoio popular (essencial para reconstruir o país) e apenas daria mais impulso aos grupos terroristas. Se a população é atacada pelo governo, a lógica é se aliar aos opositores. Usar armas químicas contra civis só fortaleceria as fileiras do inimigo. 

E, pra piorar, isso seria o pretexto ideal para uma invasão liderada pelos Estados Unidos, contando com praticamente todos os principais membros da OTAN (a França de Macron já quer tomar a dianteira e praticamente pressiona uma invasão). Ou Bashar teria de ser realmente tolo a esse ponto, ou tudo isso não passa de mentira - e, pela experiência histórica e toda a conjuntura, ficamos com a segunda opção.

Aliás, se o próprio governo estadunidense vem fazendo inúmeras ameaças de invadir a Síria, porque Trump teria recuado no último minuto? Porque a retórica evaporou. A denúncia já está de desfazendo no ar, e a recusa de invadir a Síria é um testemunho disso (mesmo que o papel da Rússia e do Irã em torno da Síria também tenha contribuído para demover os EUA dessa decisão). 

Se armas químicas realmente tivessem sido disparadas pelo regime sírio, dificilmente os Estados Unidos perderiam a chance de invadir o país, consolidar seu domínio no Oriente Médio e lucrar com sua máquina de guerra em ação - afinal, ela precisa sempre estar ativa.

Mas elas não foram disparadas pelo governo. E afirmamos isso com convicção. Assim como havíamos afirmado (não apenas nós, mas vários órgãos de mídia alternativa) em 2016 e 2017, para incredulidade de muitas pessoas, e a mentira foi exposta, ela será novamente revelada.

Em termos lógicos, é muito mais fácil acreditar que os dispositivos químicos foram disparados por grupos rebeldes - terroristas ligados aos EUA e que recebem dinheiro, treinamento e armas deles. Esses sim se beneficiariam com o ataque: os terroristas teriam mais amparo internacional para sua "causa democrática" (se é que escravizar mulheres, violentar crianças e decapitar oponentes é "democracia" -talvez, pro Ocidente, isso seja, desde que esteja aliado aos seus interesses: afinal, eles amam os sauditas) e, de brinde, EUA e OTAN teriam toda a prerrogativa para invadir de vez a Síria.

E, como bônus, teriam todo o aparato para demonizar ainda mais a Rússia, um inimigo geopolítico. E o Irã, então? Seria o próximo alvo. A Arábia Saudita, que não passa de uma base militar estadunidense no Oriente Médio, seria o único agente com poder real naquela região - e totalmente leal aos estadunidenses.

Isso também beneficiaria completamente Israel, que, de modo criminoso, já fez ataques contra território sírio. Se a Síria cair, um dos últimos aliados do Irã na região será devastado (lembre-se que o Iraque e a Líbia já foram essencialmente destruídos) e o próprio regime iraniano ficará praticamente isolado. A Arábia Saudita é uma parceira fiel dos israelenses: o wahabismo e o sionismo não são estranhos um ao outro. Qualquer projeto nacionalista no Oriente Médio deve ser destruído. Esse é um imperativo geopolítico israelense. 


Turquia: aliada ou inimiga?

A Turquia tem estado bastante indecisa no confronto. No início, auxiliou os terroristas que se opõem a Bashar. Depois do incidente com o caça russo e pressões de Putin, Erdogan praticamente mudou de direção, auxiliando no combate a esses grupos em suas fronteiras e cessando a ajuda aos terroristas (ao menos de modo direto). Mas não é possível, ainda, enxergar o regime turco como um aliado geopolítico para equilibrar a situação na Síria.

A realidade é que Erdogan perderia muito com um atrito mais forte contra a Rússia. E, geograficamente, mais próximo da Eurásia do que do Ocidente (embora pleiteie entrada na União Europeia, a Turquia definitivamente não é "ocidental"), o regime turco ganharia mais com uma aproximação amigável com Moscou do que com o contrário.

A pressão interna contra o apoio aos terroristas também retiraria legitimidade de um governo que já estava instável. Assim, Erdogan poderia tanto conciliar um equilíbrio na política doméstica quanto uma alteração em sua política em relação à Síria.

Depois de derrubar um caça e matar um piloto russo, quase provocando um conflito com a Rússia, manter qualquer conexão (ao menos visível) com os wahabistas seria assinar um atestado de suicídio geopolítico. Os líderes turcos talvez não sejam tão tolos a esse ponto.

Hoje, o principal campo de operações da Turquia no conflito sírio é em relação aos grupos de curdos que revindicam partes do território turco - também há grupos de turcos reivindicando partes dos territórios sírios e iraquianos.


Israel e Arábia Saudita: Sionismo e Wahabismo de mãos dadas

E o papel de Israel nesse conflito? Por incrível que pareça, favorecer o que há de mais radical e extremista na região do Oriente Médio é benéfico ao regime israelense. Veja, por exemplo, a relação amistosa entre a Arábia Saudita e Israel.

Os dois países possuem praticamente os mesmos imperativos geopolíticos: derrubar os nacionalismos no Oriente Médio e enfraquecer o Irã (se possível, aniquilá-lo, preferencialmente). Os dois países também se alinham ao eixo Ocidental, dialogando amigavelmente com as potências dominantes do Hemisfério Norte. 

O Irã é um opositor "natural" do regime saudita. Isso acontece por razões religiosas, já que o grupo islâmico dominante na Arábia Saudita é o wahabismo/salafismo (originado por Muhammad ibn Abd al-Wahhab - daí o nome), um secto do ramo sunita do islã, enquanto que, no Irã, o que prevalece é o ramo xiita. E a visão entre wahabitas e xiitas não é das mais amigáveis possíveis. Aliás, o ramo wahabi é historicamente ligado aos grupos terroristas mais radicais da região. Só que, ironicamente, xiita se transformou no adjetivo comumente usado para designar aquilo que há de mais radical, intolerante e genocida - o jogo dos termos com intenções geopolíticas.

Israel, assim como Arábia Saudita, não nutre nenhuma simpatia pelo Irã. O regime amparado em Khomeini é considerado como um "risco à existência de Israel". E, para piorar, as potencialidades iranianas de desenvolver armas nucleares são um desafio ainda maior ao regime israelense. O Irã é um adversário não só em potencial, mas real, presente. É um obstáculo geopolítico aos desejos expansionistas de Israel.

Por outro lado, os territórios fragmentados, destruídos e dominados pelos "guerreiros da democracia", terroristas pagos para enfraquecer, minar e obliterar regimes autônomos, não são desafio nenhum a Israel. Quando alguém olha a militância do Estado Islâmico (Daesh), da Al-Qaeda, da Al-Nusra ou de qualquer outro grupo radical, logo pensa em um profundo ódio e um risco terrível para Israel. E, apesar de o discurso ser fundamentalmente anti-judaico e anti-ocidental, esses grupos não representam nenhum perigo de fato.

De todas as ações terroristas do Estado Islâmico (Daesh), quantas foram contra Israel? Que partes do território israelense foram tomadas pelos extremistas? Pode-se afirmar que isso não ocorre graças ao imenso aparato militar israelense. Mas será esse o caso, ou simplesmente Israel não está na lista real de inimigos? Afinal, até mesmo um grupo desestruturado e infinitamente mais fraco do que Israel, como o Hamas, realiza ataque esporádicos contra território israelense. Mas o Estado Islâmico, com muito mais amparo, maquinário e equipamentos (estadunidenses, inclusive), não ousa fazer um arranhão sequer em território israelense. Estranho - e intrigante.

A Líbia nacionalista, com Gaddafi, era um desafio a Israel; a Líbia "livre e democrática", arruinada e dominada pelo que há de mais extremista, não. O Iraque de Saddam era uma afronta a Israel; o Iraque "libertado", fragmentado e desestruturado, não. Uma Síria com Bashar é um entrave aos desígnios de Israel; uma Síria "liberta pelos guerreiros democráticos", não.

Não importa se quem vai tomar o poder nessas nações é imbuído da mentalidade mais psicótica, radicalista, extremista e assassina. Não importa se seus discursos falam em "destruir Israel e EUA" ou "dominar o Ocidente". Esses grupos não conseguem fazer isso. Não são afronta nem ameaça, são brinquedos com os quais se pode derrubar "inimigos" reais - Rússia, Irã, Iraque, Síria, Líbia, Líbano. 

O Estado Islâmico (Daesh) não é um perigo a Israel. É exatamente por isso que as ações militares israelenses na Síria consistem em atacar o exército sírio, e não o Estado Islâmico. Não é o terrorismo na região que assusta Israel, mas sim a existência de uma união arábico-persa e da mínima possibilidade de um pan-arabismo no Oriente Médio.

É por isso que a Síria deve cair, como caíram a Líbia e o Iraque. E a queda da Síria facilita a queda do Irã. Os sauditas? Eles e seu radicalismo wahabi, uma versão mais hardcore do Islã com roupagem anti-ocidental, são cães domesticados a serviço do Ocidente e do sionismo - pense nas imagens dos políticos europeus e estadunidenses dançando alegremente com aqueles "radicais sauditas". Se existe mesmo um ódio saudita a Israel e ao Ocidente, ele é amaciado com barris de petróleo e muito, muito investimento em armas.


Rússia e Irã - "Eixo do mal"?

Qual o papel da Rússia e do Irã no conflito sírio? A mídia resume a participação desses dois países ao nível de "apoio a uma ditadura terrível" ou "complacência com um regime genocida". Assim sendo, Bashar é a personificação do mal - e a "terrível" Rússia, por se associar a esse regime, também passa a sê-lo (na verdade, sempre foi - como Dugin diz, a Guerra Fira e a hostilidade contra a Rússia nunca acabaram de fato). Com o Irã, a lógica é a mesma: um "regime terrível" amparando um "ditador".

Em termos geopolíticos, Rússia e Irã não estão ajudando a Síria por mera bondade, filantropia ou espírito de caridade. Isso praticamente não existe na geopolítica. Mas isso não significa que não há maior reciprocidade entre certos Estados. Isso existe, e é bastante evidente no caso Síria-Irã-Rússia.

A Rússia tem interesses claros na Síria: ampliar sua área de influência, reconquistando parcerias no Oriente Médio que haviam sido perdidas com o fim da União Soviética (a URSS foi um dos braços para o projeto pan-arábico, pelo menos em determinados momentos) e, ao mesmo tempo, diminuir as pretensões de hegemonia estadunidense na região.

A Síria possui imensas reservas de gás natural e petróleo. E a Rússia tem demanda por essas commodities. Assim, para os russos, obviamente seria melhor que um país próspero nesses recursos estivesse ao seu lado do que tomado por potências rivais. A ajuda russa na Síria é, num primeiro momento, a contenção dos grupos radicais que operam em favor das potências ocidentais. Manter Bashar significa manter a estabilidade que os russos precisam - um aliado no poder sempre é bem-vindo.

Atualmente, a ação russa tem sido na forma de apoio logístico e presença militar direta (militares, especialistas, técnicos, engenheiros, comandantes, instrutores, etc.). Essa política de apoio imediato e direto foi essencial para barrar um ataque mais massivo das potências ocidentais. Mas o apoio também está no nível diplomático, na ajuda contra sanções e outras políticas hostis de soft power.

O Irã é atacado diretamente pelos grupos que fazem pressão contra a Síria, como o Estado Islâmico (que hoje opera praticamente apenas por atentados terroristas, já que seu exército convencional foi quase totalmente destruído), e indiretamente pelas nações ocidentais dominantes (sanções, pressões políticas, ameaças, etc.). Assim sendo, auxiliar um regime amigo na região e impedir sua decantação pelas potências ocidentais que lhe são hostis é uma prerrogativa para a própria sobrevivência do Irã.

Da mesma forma que os russos, os iranianos têm auxiliado o regime de Bashar tanto em logística quanto com combatentes. Inúmeros militares iranianos já estão em operação na Síria e, no teatro de operações, foram importantíssimos para as derrotas sucessivas dos grupos terroristas.

Rússia e Irã tem um objetivo bastante específico na questão síria: impedir o avanço de potências rivais e prolongar sua própria esfera de influência. O Irã, aliás, se enxerga como um agente de peso para a região do Oriente Médio - algo que corre perigo caso a predominância dos EUA e seus aliados se concretize ali.

A opinião de praticamente toda a imprensa ocidental convencional, essencialmente liberal, é contrária à Rússia e ao Irã. Mas, em termos práticos, é inquestionável o quanto russos e iranianos colaboraram e vêm colaborando para a erradicação e as sucessivas derrotas dos grupos terroristas na Síria. Sem apoio russo-iraniano, provavelmente o regime de Bashar já teria caído e a Síria seria uma Líbia 2.0. 


Estados Unidos e OTAN: heróis?

E as ambições dos EUA? Já ficaram claras: expandir ainda mais sua zona de influência, eliminar um regime rival (é essa a verdadeira razão da guerra contra a Síria: ela não se alinha aos EUA; qualquer falatório sobre "crime contra os direitos humanos", "democracia" ou "liberdade" é maquiagem para esconder isso) e assegurar domínio sobre recursos vitais como petróleo e gás natural.

Trump tem se gabado muito de que, graças às ações militares dos EUA, o Estado Islâmico foi praticamente eliminado. Mas a realidade é muito menos poética e heroica para os estadunidenses: na verdade, as operações militares dos Estados Unidos e seus aliados na Síria provocaram apenas catástrofe e recrudescimento da situação de terror.

Em primeiro lugar, não é possível afirmar que os EUA realmente enxergue os grupos terroristas na Síria como "inimigos". Nem mesmo o Estado Islâmico. Armamentos estadunidenses já foram encontrados em posse dos terroristas; militantes do Estado Islâmico trafegavam com veículos e armas anti-aéreas dos EUA. Isso não é teoria da conspiração: é algo fartamente documentado, basta uma rápida pesquisa.

Além disso, várias ações de bombardeio que, teoricamente, estavam direcionadas contra o Estado Islâmico e outros grupos terroristas, acabaram atingindo tropas de sírios ou até mesmo de iraquianos. Sim, não existe lealdade dos EUA sequer com seus aliados declarados - que dirá com os "inimigos". Num dos casos, na operação realizada pelas tropas iraquianas para retomar a cidade de Mosul (que estava sob controle do Estado Islâmico), aviões dos EUA dispararam contra as tropas iraquianas. Depois, o comando militar alegou que tudo foi questão de "erro de cálculo". As desculpas são sempre vazias: erro, engano, equívoco. O irônico é que esses "acidentes" nunca atingem os terroristas.

Em relação aos inúmeros veículos e armamentos estadunidenses em posse dos terroristas, os militares estadunidenses alegam que esses materiais foram roubados de quartéis do Iraque. Não há proteção nesses quartéis? Quer dizer que os armamentos mais avançados que os EUA dispõem para um aliado são assim facilmente roubados? A maior potência do mundo não tem competência para assessorar tropas iraquianas? Não houve "roubo": houve entrega.

Os Estados Unidos entraram oficialmente na guerra síria em 2014. Em praticamente quatro anos, não foram capazes de retomar territórios importantes das mãos dos terroristas. Ao contrário: depois da intervenção estadunidense, o domínio do Estado Islâmico e de outros grupos de terror só aumentou. É como se a entrada militar dos EUA e seu "combate ao terror" fosse um mero enfeite, um teatro. E é como se nunca houvesse realmente uma guerra ao terror.

As operações contra as tropas sírias sempre foram executadas sem erros. Mas, conhecendo a praxe dos EUA, não é de se estranhar que os "erros" só acontecem quando os alvos são os terroristas. São "enganos" bastante acertados, "eventualidades" bastante planejadas.

Em poucos meses de ação russo-iraniana, o quadro foi quase totalmente revertido: Assad, que estava a ponto de cair, manteve-se no poder; as tropas sírias, quase totalmente desgastadas, foram revigoradas; o Estado Islâmico, com imensos territórios no Iraque e na Síria, foi varrido do mapa e reduzido a grupos esparsos. Não foram as ações militares dos EUA que detiveram o terrorismo. Ao contrário, elas não só não o detiveram como o ampliaram. Se há algum mérito no combate ao terror naquela região, ele é inteiramente iraniano e russo. 

Não devemos agradecer absolutamente nada aos EUA, ao contrário do que Trump disse, se indagando sobre "onde estava os parabéns para os Estados Unidos". Eles não estão em lugar nenhum, porque não há nada a ser parabenizado. Aliás, as únicas boas ações de Trump na Síria foram as promessas que ele não cumpriu - os ataques que disse que iria fazer e não fez. A melhor ação dos EUA na Síria (e praticamente em qualquer lugar do mundo) é não fazer absolutamente nada.


Exército "Sírio" Livre?

O Exército Sírio Livre é citado pelos opositores de Bashar como um exemplo de "oposição moderada" ao "regime brutal" sírio. Mas isso é tão verdadeiro quanto todo o resto da retórica midiática dominante - ou seja, é mais uma mentira.

Ele é tão "sírio" quanto "livre": ele busca a construção de um regime autoritário e age realmente com autoritarismo pleno nos territórios dominados por ele. E grande parte de seus elementos sequer são sírios: são mercenários vindos de várias partes do mundo (incluindo inúmeros sauditas), como já ficou fartamente documentado. 

Essa organização é, na verdade, mais um braço terrorista a serviço dos Estados Unidos e das potências ocidentais. Não é uma reação de libertação do povo, mas de implantação de um regime totalitário valendo-se de retóricas "democráticas".

A imprensa comum não diz absolutamente nada sobre os inúmeros crimes de guerra praticados pelo Exército "Sírio" Livre. E tratá-los como "moderados" só mostra o nível de distorção da realidade causado por essa imprensa.

Os Estados Unidos gostam de organizações com nomes bonitos e pomposos, uma profusão de liberdade e democracia, porque assim podem esconder melhor o que eles realmente são: braços seus usados para o terrorismo e a destruição de nações.

O próprio Exército Sírio Livre é formado por desertores do Exército Sírio (mercenários pagos) e militantes comuns. Apesar de se dizer secular e opositor de grupos extremistas como o Estado Islâmico (Daesh), o grupo é aliado de extremistas do Ahrar al-Sham, um grupo radical de ramificação sunita (mais uma vez, as ligações com os sauditas) cujo objetivo declarado é instituir um califado na Síria.

Aliás, grande parte dos combatentes do Exército Sírio Livre desertou para a Jabhat al-Nusra e o Estado Islâmico (Daesh). A realidade é que, antes a maior força de oposição ao regime sírio, hoje esse grupo perdeu espaço para os grupos terroristas mais radicais, sejam eles opositores (como o Daesh) ou aliados (como o Ahrar al-Sham - que recebeu apoio da Turquia, da Arábia Saudita e do Qatar).

Não é possível considerar esse grupo como uma oposição legítima, muito menos oposta aos extremistas (na verdade, nem é possível distinguir entre moderados e radicais, já que todos se encaixam na segunda opção) ou uma saída viável para a Síria. São mercenários a serviço de forças hostis à Síria.

Aliás, o próprio ex-comandante do Exército "Sírio" Livre, Salim Idris, conclamou mais apoio militar, diplomático e financeiro das potências ocidentais, especialmente dos EUA. Que liberdade esses mercenários desejam para a Síria? Nenhuma. Seriam meros fantoches a serviço daqueles que hoje odeiam e destroem os sírios. Eles mesmos odeiam a Síria.

Não se confia em traidores.


Direitos humanos: mera retórica

Todo o falatório sobre a guerra na Síria ser motivada por "infração aos direitos humanos" é falsa. Não é esse o motivo. Não foi o motivo no Afeganistão, nem no Iraque, nem na Coreia, nem na Líbia, nem em absolutamente nenhum lugar do mundo. 

Se infringir direitos humanos é prerrogativa para derrubar um regime, o governo dos EUA deveria ser o primeiro a cair. Quem puniu os Estados Unidos pelo escândalo de Guantánamo? Isso sem falar em inúmeros outros casos. 

Quem puniu os governos europeus, especialmente a França, pelas atrocidades cometidas contra os Líbios? Hoje, a Líbia é um reduto de tráfico humano. Mas isso não causa comoção. Afinal, ela está "liberta e democrática", seja lá o que isso signifique.

Isso é vazio. O que realmente importa é se um regime é submisso aos poderes dominantes ou não. A imprensa imunda e prostituída (aquilo que eu gosto de chamar de imprensa sifilítica) nunca dirá uma palavra sequer sobre a ótima qualidade de vida e IDH na Síria pré-guerra. Sim, a Síria "ditatorial". O nível educacional, o padrão de vida, o funcionamento das instituições: antes de 2012, nada na Síria parecia com o quadro atual.

Quais os benefícios dessa falsa libertação, desse discurso vazio de "democracia"? Morticínio, crise de refugiados, desgaste político e até mesmo ameaças de uma Terceira Guerra Mundial. Esse é o resultado do "magnífico" trabalho de expansão da toxina estadunidense chamada de "democracia".

Macron disse, como outros fantoches europeus, que não é possível admitir aquilo que o governo sírio vem fazendo (mais especificamente, o tal uso de armas químicas contra civis). Realmente: Macron, assim como Sarkozy - e todos os outros animais adestrados da União Europeia -, não pode admitir que um ataque falso, uma mentira, fique impune. Ele gosta de criar a mentira e dar uma resposta a ela.

Para Macron e Trump, é inadmissível que um regime legítimo que vem sendo covardemente atacado pela imprensa internacional, que obviamente não usou armas químicas contra seu povo, continue de pé. Para eles, o admissível é que a crise de refugiados para a Europa continue, que a instabilidade e o terror no Oriente Médio sejam a norma e que o que há de mais radical e bizarro naquela região ganhe espaço político, porque essa é a alternativa "democrática" deles diante das "terríveis ditaduras" - sim, Bashar é o "terrível ditador" que preserva a vida de cristãos. Mas o direitista neocon acredita piamente que ele é o inimigo, e que "guerreiros democráticos" que exterminam as populações cristãs é que devem tomar seu lugar. É uma política completamente satânica.

Os "amigos" podem ferir os tais direitos humanos à vontade. EUA pode fazer isso, Europa pode fazer isso e todos os aliados também. O que são direitos humanos? Eles é que decidem. O que é infringi-los? Eles é que decidem. Não há dois pesos e duas medidas: há milhões de pesos e bilhões de medidas.

Podemos citar um exemplo bem crítico e visível: o regime saudita é completamente brutal - mas os sauditas já presidiram o Conselho de Direitos Humanos da ONU. Há inúmeras denúncias contra o "terrível ditador Bashar al-Assad", mas não há uma só palavra sobre os abusos cometidos contra os sauditas. Aliás, os senhores da guerra que comandam aquele Estado fantoche nunca são chamados por aquilo que são: déspotas. São príncipes, reis, sheiks, etc. São celebridades, monarcas, nobres. Ninguém fará sanções contra os sauditas pelos crimes que eles cometem, agora mesmo, contra os iemenitas. 

Toda a retórica e apelo aos "direitos humanos" nesse conflito (e em tantos outros) é falsidade. A invocação da dignidade humana é usada para justificar a derrubada de regimes opositores (como, no Oriente Médio, o que ocorreu com Iraque e Líbia), mas é esquecida quando se trata de um Estado aliado, amigo. Nunca haverá um apelo pelos direitos humanos contra o regime saudita, ao menos não enquanto os senhores do petróleo estiverem aliados aos poderes dominantes do Ocidente.


Conclusão: por qual razão a imprensa mente ou omite dados?

Todos queremos a paz na Síria, certo? Errado. Há grupos políticos e corporativos que lucram muito com ela. Grupos para os quais a guerra é um business, um negócio imensamente lucrativo. Eles fingem se importar com a guerra, mas desejam-na.

Esses grupos precisam de uma retórica que sustente suas ações. EUA, OTAN, União Europeia, Arábia Saudita e Israel precisam de um discurso que valide suas ações. Eles precisam de uma imprensa que repita insistentemente que o problema é Bashar e que a "solução" é eliminá-lo. Não importa se, depois, vão se calar como fizeram com a Líbia. Se Bashar cair, não haverá mais imagens trágicas, sentimentalismo e apelo humanitário. Haverá esquecimento, como houve com os líbios (a imprensa não fala mais deles). Isso porque o que importa é o objetivo final: suprimir e dominar a Síria. Criancinhas mortas? Mulheres violentadas? Nada disso vai importar.

Ao mesmo tempo, essa imprensa precisa tratar quem realmente está combatendo o terrorismo (Síria, Irã e Rússia) como os "inimigos". É preciso criar a retórica contra os terríveis russos, os iranianos fundamentalistas e os malvados militares sírios. Estado Islâmico? Bombardeios dos EUA? Agressões da OTAN? Crimes hediondos dos "rebeldes moderados"? Nada disso é pauta. A imprensa fala cada vez menos em "terrorismo" e "terroristas": são "insurgentes". Quase sete anos de conflito e a retórica ainda não mudou, nem vai mudar - porque Bashar ainda não caiu e a Síria ainda não morreu.

É por isso que a imprensa prostituída, a imprensa sifilítica, não expõe esses dados. Não é que ela não saiba disso, é que ela precisa omitir isso para criar a retórica perfeita: um terrível regime sendo combatido pelos heróis da democracia e da liberdade. E um pouco de apelo sentimentalista sempre cai bem.

A guerra na Síria é bastante complexa, sim. Mas é preciso fazer um resumo bastante preciso: nesse exato momento, há aqueles que querem apoiar o único governo viável para estruturar e coordenar a Síria, pacificando-a, e esses são os aliados de Bashar, aqueles que realmente se importam com o povo sírio. Do outro, a falsa retórica humanista daqueles que só favorecem o terror e só prolongam o sofrimento da Síria. 

É simples assim. E é justamente por ser simples que não está na pauta da imprensa. Aqueles que a mídia convencional mostra como vilões são heróis, e aqueles que ela retrata como heróis (incluindo organizações de "direitos humanos" como os White Helmets - Capacetes Brancos, com ligações com a Al-Qaeda) são vilões. Troque os sinais e você vai decifrar as mensagens dessa mídia cujo único dom é distorção completa da realidade e desinformação.

Onde está Trump no campo de ação, com seus soldados? Onde está Macron? Todos fora da Síria. Enquanto isso, o "terrível ditador" Bashar al-Assad anda em meio ao povo, sem escolta, e visita seus soldados - e é sempre bem recebido por eles. Quantos políticos nas "democracias" do Ocidente têm liberdade, segurança e capacidade para fazer isso?



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2 comentários:

  1. Curioso, o ditador Netanyahu... (ou melhor...Satanyahu) comete toda forma de atropelo contra os palestinos.. com direito a fósforo branco. Mas... cadê a indignação do "Eixo do Bem" ?

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  2. Por que os EUA não brincam de invadir a Coreia do Norte ? Deve ser medo de levar a Bomba.

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