terça-feira, 3 de abril de 2018

"Democracia" virou um fetiche

Por: Jean A. G. S. Carvalho




Quem domina a linguagem domina o verdadeiro poder político. E dominar a linguagem e a comunicação significa moldar o próprio significado dos termos, não apenas em sentido literal, mas principalmente emocional. Se pudermos definir um conjunto de termos "sacrossantos" atuais, "Democracia" definitivamente seria um deles.

Dentro do debate político (se é que existe um), é possível criticar absolutamente qualquer partido, pessoa ou ideia, exceto a própria "Democracia" (ou aquilo que se entende como regime democrático). É permitido criticar questões pontuais como corrupção ou mudanças ministeriais, mas não a própria estrutura em si.

Mas por qual motivo isso acontece? É produto de alguma dedução lógica? Talvez a democracia seja realmente o melhor modelo de organização político-social, certo? Definitivamente, não. Democracia é apenas um modelo de governo - e nem de longe o melhor, ao menos não para todos os povos. E, mesmo que seja adequado a determinados povos, jamais deveria ser considerado como um modelo universal, uma conclusão lógica à qual todas as culturas devem se adaptar.

Mas a democracia não é colocada como uma opção. Ela é uma imposição - um tipo de regime que deve ser adotado em escala global e, pior ainda, sem considerar as particularidades de cada povo. Ela deve ser, inevitavelmente, de orientação liberal, representativa e essencialmente indireta (baseada em voto e sufrágio universal). E, claro, burguesa.

"Democracia" é uma palavra especialmente vazia. O que seria democracia? Muitos a definem como a decisão e o poder da maioria, ou seja, as escolhas tomadas pela maior parte das pessoas. Isso é aceito quando há concordância com as pautas, mas veementemente rejeitado quando isso não acontece. 

Por exemplo: a mesma Esquerda que defendeu o governo Dilma por ter sido "eleito pela maioria do povo" é aquela que rejeita mudanças no porte de armas, mesmo sendo aprovadas pela maioria das pessoas. O poder da maioria é reconhecido no primeiro caso, como sinal de participação política efetiva, enquanto que o segundo caso apenas demonstra uma "manifestação da onda de fascismo no Brasil".

O mesmo vale para a Direita: a decisão da maioria não foi reconhecida como válida quando Dilma foi eleita, mas foi aplaudida quando uma suposta maioria pediu pelo Impeachment. O exemplo aqui é uma mera ilustração pontual, mas é possível ampliar a análise para inúmeros outros pontos e casos. Fica bastante óbvio que estamos falando de algo totalmente vazio e amorfo.

A democracia, como estruturada atualmente, é completamente disfuncional. Ela organiza toda a política nacional em torno do combate intestinal entre organizações partidárias e políticas completamente díspares. Em nome de uma suposta dissonância de opiniões e da pluralidade de ideias, qualquer coerência interna é anulada. 

E, no final das contas, a variação de ideias e projetos não é levada em conta na tomada de decisões. Ao contrário: há uma cristalização profunda dos oligarcas, dos esquemas de corrupção e favorecimento e de toda a sorte de crimes. 

A suposta multiplicidade de vozes e a discordância saudável são vernizes que camuflam uma orientação profundamente unilateral - o próprio maquinário político tem um funcionamento independente desses elementos (e é exatamente por isso que, independente do partido político, da suposta ideologia ou da figura que ocupe a presidência, por exemplo, poucas coisas mudam no plano concreto e os problemas continuam essencialmente os mesmos).

Já podemos descartar um dos principais elementos usados em defesa da democracia atual. A suposta pluralidade de ideias e opiniões, além de falsa (já que não é realmente levada em conta), tratadas quase que em equivalência total (como se uma opinião ou uma ideia tivessem valor em si mesmas), são a anulação de qualquer projeto coerente. 

Assim, qualquer orientação com diretrizes mais sólidas é tratada como um traço de totalitarismo, já que o importante, nesse sistema, não é a resolução de problemas ou a busca de alternativas reais, mas  sim a "abertura ao debate" (e um debate que não existe e, quando tenta se manifestar, o faz de maneira totalmente pobre). Na prática, essa é uma forma inteligente de a classe política se eximir de qualquer responsabilidade real.

A participação política dentro desse esquema é centralizada em torno do voto. Entretanto, não deveríamos enxergar o voto como uma forma de participação política efetiva, mas sim justamente de limitação dessa participação a um evento ocasional. 

A cidadania tem seu exercício limitado aos períodos eleitorais, e praticamente todo o poder de decisão do cidadão se restringe a digitar números numa urna. O voto é a "escolha" de agentes que tomarão escolhas. No fim das contas, é uma forma de terceirização do poder de decisão e de redução brutal da participação política real.

O regime democrático atual impede qualquer possibilidade de concretizar projetos de longo prazo. Os governos que se sucedem fazem questão de anular aquilo que os precedentes fizeram, e prejudicar os planos futuros dos prováveis sucessores. 

E, na ausência de projetos reais, o máximo que essas estruturas propõem é a manutenção do poder pelo poder, seja pela compra de apoio (propinas, mensalão, etc.), seja pelo aparelhamento das estruturas de governo. Uma rotatividade entre parceiros é estabelecida: mudam as figuras, mantem-se a lógica interna que é em si mesma corrupta e corruptora.

É impossível construir um país em apenas quatro anos. E, reconhecendo o caráter limitado e de trocas sucessivas, as próprias figuras e partidos políticos se desinteressam em construir alternativas reais, justamente porque estão totalmente voltadas para a lógica eleitoral (ganhar ou comprar votos, traficar influência, produzir marketing, etc.). E uma lógica eleitoral não constrói uma nação. Ao contrário: em geral, apenas a destrói.

Com todos esses pontos e muitos outros mais, devemos enxergar a democracia como apenas uma entre várias outras formas de governo, não sendo necessariamente superior nem inferior às outras alternativas. Ela deve ser vista como uma forma de organizar um país, mas não a única. 

E, mesmo optando pelo regime democrático, não se deve afirmar um padrão a ser aplicado em escala universal: cada povo deve ter direito a definir suas próprias formas de governo e, mesmo optando por formas democráticas, deve escolher sua própria democracia. Não é o que acontece hoje: a democracia não é dada como uma alternativa, mas como a única opção. E isso é totalitarismo, puro e simples.

No imaginário atual, a própria palavra "democracia", hoje mais desprovida de significado do que em qualquer outra época (e num sistema de governo especialmente em decadência no Ocidente), não significa um regime político, mas sim tudo aquilo que há de bom. Se você gosta da democracia (e você é quase forçado a fazê-lo, mesmo que culturalmente), você gosta da liberdade, do amor, da paz, da diversidade, da tolerância, de filhotinhos e de todas as outras coisas "boas", todas elas. Se você rejeita o sistema democrático, você é a favor do totalitarismo, do genocídio, da morte, do racismo, da intolerância e de acordar cedo segunda-feira - você é a encarnação do mal. 

Você é obrigado a aceitar como superior um sistema que é basicamente a anulação de qualquer participação efetiva e a terceirização de todo o exercício real de cidadania (as escolhas sobre os temas do seu entorno) para figuras obscuras com as quais você tem pouco contato real mesmo durante as eleições - que dirá depois delas. E é obrigado a pactuar com uma organização político-social disforme e completamente ineficiente, porque tentar qualquer outra alternativa (mesmo outras formas de democracia) seria "ditadura". 

Esse é o trunfo: não é necessário discutir a própria democracia, porque ela é indiscutível. E, sendo um tabu, um termo sacrossanto contra o qual jamais se deve discordar, a própria semântica impõe um totalitarismo perfeito: não pela força, não pela violência direta, mas pelo controle da comunicação e do significado das palavras.

No fundo, o conceito do próprio entusiasta médio desse regime pode ser definido da seguinte maneira: "Democracia é quando meu candidato ganha a eleição".



Referências:

Indicamos como leitura complementar o texto "Corneliu Zelea Codreanu: Observações sobre a Democracia".


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6 comentários:

  1. Um dos principais problema da democracia é que qualquer candidato pode inventar mentiras, falar que vai fazer isso e aquilo, mas depois de eleito não tem qualquer obrigação de fazer nada daquilo que prometeu. Ou seja, muitas vezes votamos pelo plano de governo e promessas, mas uma vez eleito nada os obrigará a cumprir aquilo que foi prometido.

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    1. Sim. Teria-se que instituir alguma forma de controle democrático negativo, onde, por exemplo, uma manifestação em massa de eleitores pudesse caçar o mandato do parlamentar a qualquer tempo.

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    2. As manifestações são organizadas pelas politicagens. Isso não funcionaria. Tudo isso pelo simples fato que o povo não tem condições de trabalhar o dia inteiro e organizar manifestações.

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  2. Só faltou abordar a definição de Democracia em si, visto que muitos a entendem como uma espécie de sinônimo de "soberania popular" ou do conceito de que "o poder emana do povo", enquanto outro crêem ser mera revesamento de projetos diferentes no poder, "liberdade de expressão" ou até mesmo a entendem como necessariamente comprometida a uma economia liberal de mercado.

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    1. O texto aborda a democracia burguesa moderna, o autor explica tudo a partir do 5º parágrafo. Mas o fato é que a democracia é nada, pois esta denominação foi apropriada por vários teóricos que lhe atribuíram diversos significados. Mas manter a palavra como algo sacrossanto é um imperativo que vai muito bem, pois as pessoas que ocupam a imprensa fizeram oposição ao regime militar de 64. E o que vai valer é o conceito de democracia que está no consciente coletivo dos reais agentes políticos do país. Creio que para os adeptos da 4pt, utilizar esse termo poderia trazer frutos, tendo no consciente que a democracia é o poder exercido pelo Dasein Brasileiro. A grande jogada seria interpretar o que é o Dasein Brasileiro e fazer com que o Povo realmente se identifique com ele.

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  3. Esse texto é essencial! Mostra como a democracia serve para nutrir o estamento burocrático enquanto este parasita a boa vontade do povo que realmente prefere ter uma representação no poder à exercê-lo. Até porque, para o povo, apenas sobreviver nesse país já é muito difícil.
    Esse processo democrático é completamente burguês. Creio que, para o POVO BRASILEIRO, este processo deveria ser classificado como inimigo. Essa lógica de vender candidatos para a terceirização do poder deveria ser crime. Todo o processo é ridículo, um circo. Principalmente pensando na nação brasileira que carece de TUDO, por isso é tão dependente do Estado. Isso a direita limpinha nunca vai entender.

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