segunda-feira, 23 de abril de 2018

Crítica à "Ética" libertária

Por: Jean A. G. S. Carvalho


Sátira da bandeira de Gadsden e seu slogan "Don't tread on Me" - o espírito de subserviência dos libertários às corporações privadas e a incapacidade de reconhecer que a coerção não parte exclusivamente do Estado


É realmente possível falar numa "Ética" libertária? Definitivamente, não. E não é difícil entender o motivo.


Dado que Ética pressupõe um acordo social entre mais de uma pessoa, trata-se duma construção essencialmente não-individual/individualista. Não há absolutamente nenhuma Ética individual. Toda Ética é essencialmente social, coletiva, e a sociedade (o coletivo) é um organismo radicalmente rejeitado pelos libertários. Aliás, o cerne do libertarianismo é a primazia do indivíduo acima do coletivo, da coletividade (do tecido social). Nesse grau de organização hierárquica, é impossível falar de qualquer Ética real, já que a Ética pressupõe o inverso: um pacto objetivo socialmente mantido que se põe acima do indivíduo e sua subjetividade. 

Ayn Rand, Ludwig von Mises, Murray Rothbard e Hoppe declaram o egoísmo, o interesse pessoal e a ganância como virtudes - o desejo pessoal e o indivíduo acima de qualquer noção coletiva e social. Isso nada tem a ver com Ética. Na verdade, essa é a negação máxima de qualquer traço ético.

Assim, é possível afirmar sem sombra de dúvidas que não existe nenhuma "Ética" libertária. Trata-se de uma inviabilidade lógica, sociológica e filosófica.

Durante milênios, diferentes civilizações trataram de criar seus próprios códigos morais abarcados por uma noção Ética. Embora possamos encontrar inúmeras diferenças sobre o que é moral ou imoral em cada cultura, também podemos notar elementos quase que universais em todas elas (proteção em relação às crianças, códigos de conduta em atividades econômicas e punição contra incesto em graus de parentesco como mães, pais, avós, avôs, irmãos, filhos, etc.). As noções de certo e errado sempre foram preocupações dos diversos povos e das diversas abordagens religiosas. 

Podemos definir Ética como a parte da Filosofia que trata dos princípios motivadores do comportamento humano, da essência das regras, normas, proibições e valores; a ética abrange todo um conjunto de preceitos morais de grupos sociais e das pessoas que compõem esses grupos.

Qualquer construção Ética, em qualquer civilização, possui um caráter essencialmente coletivo. Os códigos morais não são centrados no indivíduo ou em suas impressões sobre o que ele mesmo considera como certo ou errado; ao contrário, são estabelecidos em conformidade social. É pelo todo, pelos outros, que a pessoa aprende e aceita (ou rejeita) princípios morais. Mesmo que deseje romper com esses princípios, eles não são originados ou criados no indivíduo, mas numa coletividade que partilha de princípios e valores comuns.

Além de a noção coletiva ser necessária para a existência de uma Ética, um forte pensamento comunitário (um reconhecimento de comunidade) é essencial para que os preceitos sejam não só reconhecidos, mas praticados. E isso é o oposto de qualquer noção de "Ética libertária". Toda a abordagem libertária e liberal sobre Ética permanece centrada no indivíduo: as noções existem por ele, para ele e pela vontade dele. 



Nesse tipo de abordagem, a Ética é transformada numa ferramenta utilitária colocada à serviço do próprio indivíduo: absolutamente tudo gira em torno de suas "liberdades individuais". Não é a pessoa que deve pactuar com uma Moral ou uma Ética civilizacional, mas sim o conjunto social é que deve se subordinar à subjetividade individual. O indivíduo, que é  um resultado do organismo social, acaba precedendo-o numa inversão hierárquica e ontológica.

Toda a chamada "Ética liberal/libertária" centra-se não só no indivíduo e nas chamadas liberdades individuais, mas em questões puramente econômicas e materiais. As noções de certo e errado, de crime, de mal e bem são centradas naquilo que se deve fazer ou não em relação à propriedade. É a propriedade, e não o homem, o cerne da chamada "Ética" libertária. Aliás, todos os significados e valores do homem só são possíveis e viabilizados dentro do libertarianismo (ou "anarco"-capitalismo) por conta de suas interações com a propriedade.

Os chamados "direitos naturais" (a versão libertária do jusnaturalismo) como a vida só têm sentido à medida em que o homem é capaz de imprimir vazão desses direitos por meio de suas posses. Assim, não se trata de um "direito" ou de um valor intrínseco ao homem, mas sim de um conjunto de elementos precificados, que devem ser comprados, adquiridos pelo homem. É exatamente por isso que a vida, esse tal "direito natural", assim dado pelos libertários, será negado a alguém que, dentro dessa lógica, não for capaz de pagar por seus tratamentos médicos, por exemplo.

Nessa ótica, a própria vida humana não tem preservação ou valor inerente. Ao contrário: nessa ótica, matar ou causar dano a outra pessoa são coisas que só se consideram erradas porque são um "ataque à propriedade" (no caso, a pessoa é vista como uma "auto-propriedade", ou seja, uma propriedade de si mesma). Deixar de danificar ou matar uma pessoa não é algo dado por uma máxima moral imbuída de valor transcendental e metafísico, mas puramente mecanicista, econômico.

Nessa mesma linha, a própria "ética" libertária não consegue definir ou criar um consenso mínimo sobre o cuidado e o direito das crianças, por exemplo. É verdade que não há uma opinião única sobre diversos assuntos, mas todas elas se debruçam sobre uma única preocupação: ferir ou não a propriedade. A principal pergunta dessa "Ética" libertária não é sobre a dignidade humana ou uma noção de Bem superior e de preceitos morais inegáveis, mas sim se determinada ação viola os preceitos de propriedade e livre comércio.

O próprio Rothbard, um dos exponentes dessa ideia, chega a afirmar que matar os próprios filhos por inanição não é algo a ser considerado como crime, e que os pais não devem ser constrangidos por meio de terceiros a prover sustento aos seus filhos:


"Applying our theory to parents and children, this means that a parent does not have the right to aggress against his children, but also that the parent should not have a legal obligation to feed, clothe, or educate his children, since such obligations would entail positive acts coerced upon the parent and depriving the parent of his rights. The parent therefore may not murder or mutilate his child, and the law properly outlaws a parent from doing so. But the parent should have the legal right not to feed the child, i.e., to allow it to die. The law, therefore, may not properly compel the parent to feed a child or to keep it alive. (Again, whether or not a parent has a moral rather than a legally enforceable obligation to keep his child alive is a completely separate question.) This rule allows us to solve such vexing questions as: should a parent have the right to allow a deformed baby to die (e.g., by not feeding it)? The answer is of course yes, following a fortiori from the larger right to allow any baby, whether deformed or not, to die. (Though, as we shall see below, in a libertarian society the existence of a free baby market will bring such “neglect” down to a minimum.)"  
- Murray Rothbard, "Children and Rights", página 100.



Cabe enfatizar que Rothbard se refere às crianças como "it", termo comumente usado na língua inglesa para se referir a objetos. 

Murray consegue a proeza de fazer uma inversão grotesca de gravidade: para ele, agredir fisicamente uma criança é errado, mas matá-la por fome, não. Agredir um filho, para ele, é pior do que matá-lo. É inviável considerar isso sequer como "filosofia".

Rothbard considera matar os filhos por inanição como um "direito dos pais", e criar mecanismos legais para punir isso seria atentar contra esse "direito paterno". Novamente: a entronização das vontades e liberdades individuais acima de noções éticas básicas. E a liberdade individual da criança? Ela inexiste, já que, na visão de Rothbard e de vários outros autores libertários, a criança é uma "autopropriedade em potencial" (ou seja, antes da vida adulta, não possui vontade própria). Ironicamente, Rothbard considera que fumar, ingerir álcool e praticar sexo (uma imensa prerrogativa para pedofilia) são "direitos da criança" - tudo isso, exceto receber alimento e abrigo.

Mesmo que vários libertários neguem a premissa de Rothbard, ela não é incoerente com o ideal máximo dessa estrutura de pensamento. Ao contrário: o profundo individualismo, atomização e redução da existência humana a questões de ganho e perda são um terreno extremamente fértil para que aberrações como as proferidas por Rothbard (que, longe de ser considerado um anátema por esses mesmos libertários "discordantes", é tido como um ícone do "anarco"-capitalismo e do libertarianismo) sejam criadas e defendidas. E não é difícil encontrar, entre os círculos liberais/libertários, pessoas que ecoam o pensamento de Rothbard não só em relação às crianças, mas sobre inúmeras outras bestialidades.

Ele ainda define que uma criança "deformada" (o que seria essa deformidade, em termos específicos? Alguma doença objetivamente diagnosticada, ou simples aversão estética por parte dos pais em relação à criança?) pode ser morta pelos pais, se eles assim desejarem. Aqui, há o rompimento das noções mínimas de proteção não só à criança, mas também aos portadores de necessidades especiais, sejam elas deficiências físicas e/ou mentais.

Aliás, os mesmos libertários que dizem discordar de Rothbard em relação ao sustento das crianças são aqueles que afirmam que não deve haver nenhuma obrigação legal para que os pais sustentem seus filhos, já que isso seria uma "violência contra as liberdades individuais dos pais". Se não há nenhuma obrigação legal ou nenhuma punição clara para isso, então a ação é motivada mesmo que indiretamente, porque o organismo social não comunica por meio da Ética que essa é uma atitude socialmente inaceitável. Mas, novamente, o foco não é a sociedade, mas sim o "indivíduo supremo" e suas vontades.

Se a "Ética" libertária é incapaz de definir termos claros para algo tão básico quanto o cuidado com elementos vulneráveis que, por sua própria condição, são dependentes de terceiros (como as crianças, os deficientes e os idosos) o que ela realmente tem a oferecer sobre questões humanas muito mais complexas?

Uma das premissas basilares da chamada "Ética" libertária é definida na citação abaixo, de Rothbard:


"I define anarchist society as one where there is no legal possibility for coercive aggression against the person or property of any individual."  
- "Society Without A State", The Libertarian Forum, 1975.
A ausência de "coerção" é um dos fundamentos de toda a chamada "Ética" libertária. Para eles, coerção é algo intrinsecamente ligado ao Estado. Entretanto, a atividade coercitiva é essencialmente ligada à própria natureza humana. Elimine o Estado e, imediatamente, grupos e pessoas com destaque e com perfil psicológico para a liderança tomarão o comando e, de modo mais direto ou mais indireto, mais grave ou menos grave, mais objetivo ou mais subjetivo, mais físico ou mais psicológico, começarão a coagir, ou seja, influenciar e coordenar as demais pessoas de acordo com suas vontades.

É até irônico que, enquanto libertários e "anarco"-capitalistas rejeitem a coerção como algo válido, praticamente endossem o egoísmo humano. Eles afirmam que o egoísmo e o individualismo são coisas inerentes à natureza humana. Mas a coerção, ou seja, a vontade de submeter as ações dos demais aos desejos individuais, também não seria um traço "natural" e, aliás, intimamente ligado ao individualismo e ao egoísmo?

Aliás, como Gore Vidal percebeu, há uma "glorificação" de elementos negativos como o egoísmo, a cobiça, a ganância e o individualismo nessa ideologia - coisas que, pela inversão liberal/libertária/"anarco"-capitalista, são transformadas em "virtudes":


"This odd little woman is attempting to give a moral sanction to greed and self interest, and to pull it off she must at times indulge in purest Orwellian newspeak of the "freedom is slavery" sort. What interests me most about her is not the absurdity of her "philosophy," but the size of her audience (in my campaign for the House she was the one writer people knew and talked about). She has a great attraction for simple people who are puzzled by organized society, who object to paying taxes, who dislike the "welfare" state, who feel guilt at the thought of the suffering of others but who would like to harden their hearts. For them, she has an enticing prescription: altruism is the root of all evil, self-interest is the only good, and if you're dumb or incompetent that's your lookout." 
- Gore Vidal, "Comment", Esquire, 1961. 


O que os libertários, liberais e "anarco"-capitalistas fazem é basicamente assumir que o egoísmo seja algo positivo, mas rejeitam as repercussões dessa "virtude", sendo a coerção uma delas. Eles desejam uma sociedade altamente fagocitada, fragmentada, dividida, atomizada, individualizada, mas se queixam de que certos elementos se sobressaiam e, em algum grau e de algum modo, influenciem ou criem determinações para os indivíduos, restringindo suas liberdades e suas capacidades de ação.

As próprias corporações podem assumir esse papel. Um negócio privado que inutilize o ar, a água e o solo e esgote recursos naturais aplica coerção a outros indivíduos que, desprovidos desses meios, se vêem obrigados a adotar outros meios de vida e outras formas econômicas. O "livre mercado" fetichizado por eles não existe - é uma inviabilidade lógica. Sempre haverá alguém para praticar coerção, seja esse alguém um grupo ou uma pessoa, uma empresa privada ou uma estatal, o Estado ou o mercado.

Pela interferência direta de grupos de acionistas, desejos corporativos e agências de rating (tão aclamadas pelos amantes do capitalismo), milhões de pessoas são literalmente levadas à ruína financeira, estruturas econômicas inteiras podem decair e toda a vida de um número imenso de seres humanos é diretamente interferida por esses grupos. Isso é coerção, certo? Para os grupos libertários, se nenhuma arma foi apontada para sua cabeça, a resposta é "não". Não importa o poder real que essas corporações tenham, eles sempre tomarão a justificativa de que "você não foi obrigado a fazer nada" e, é claro, o mantra das "trocas voluntárias" será repetido à exaustão.

John Scalzi determina bem a presença da coerção dentro do próprio pensamento libertário, criticando, em específico, o idealismo em torno do homem de negócios e do setor privado, transmitido por meio da obra "A Revolta de Atlas", de Ayn Rand: 


"The idealized world Ayn Rand has created to facilitate her wishful theorizing has no more logical connection to our real one than a world in which an author has imagined humanity ruled by intelligent cups of yogurt. This is most obviously revealed by the fact that in Ayn Rand’s world, a man who self-righteously instigates the collapse of society, thereby inevitably killing millions if not billions of people, is portrayed as a messiah figure rather than as a genocidal prick, which is what he’d be anywhere else."
- John Scalzi, "What I Think About Atlas Shrugged", 2010.


Eles literalmente ignoram aquilo que Scalzi (e tantos outros mais) foi capaz de perceber: uma das facetas mais radicais e visíveis do capitalismo, que é o financial terror (terror financeiro numa tradução livre). O controle das suas decisões, do seu estilo de vida, da sua capacidade econômica e do seu poder de decisão é algo estritamente originado pelo Estado, jamais por essas corporações. É essa a lógica liberal, libertária e "anarco"-capitalista.

Aliás, os próprios libertários, liberais e "anarco"capitalistas conseguem transformar o meio em algo maior que seu próprio fim. Eles mesmos admitem que o Estado é uma ferramenta nas mãos de corporações. Mas, para eles, a estância maior da dominação é o Estado. Ora, se o Estado é a maior estância de poder, por qual motivo ele é cooptado por essas corporações? Se ele é um meio maior do que aqueles que o utilizam para determinados fins, por que é que ele é subjugado? 

Ao invés de atacar o cerne dessa equação, que é o próprio poder corporativo em seu caráter cada vez mais globalista, eles se limitam a atacar o Estado, que é um grau inferior da expressão do poder político-financeiro em comparação às corporações. E a "lógica" liberal/libertária/"anarco"-capitalista define que, se o Estado é dominado por essas corporações, a solução mais "óbvia" consiste em eliminar o Estado e dar poder de ação total aos agentes que antes o dominavam.

Isso significa não só preservar os originadores da corrupção, da coerção e da dominação econômica, como ampliar suas potencialidades. O mercado plenamente desregulado, que para esses ideólogos consiste na melhor ferramenta contra a coerção, significa apenas a amplificação do poder coercitivo das corporações.

Mas coerção é algo negativo em si? Definitivamente, não. A coerção é, em vários sentidos, necessária. Pode haver grupos que não precisam recorrer a esse expediente para demover seus integrantes de práticas negativas. Mas esse quadro é mais exceção do que regra, não só na atualidade, mas em toda a história humana.

A punição de crimes como o assassinato, o sequestro e a pedofilia exigem a restrição da liberdade individual e do próprio indivíduo. E deve-se aplicar independente da vontade do indivíduo. A punição, parte intrínseca de absolutamente qualquer código moral, é essencialmente coercitiva. Ao negar esse aspecto, libertários negam um dos elementos que constituem condição sine qua non para qualquer construção ética.

Desde que alguém ou alguma corporação privada não usem de violência física direta contra terceiros, nessa lógica, não há "coerção". Há não só a rejeição do elemento coercitivo, mas um reducionismo grotesco de seus significados e dinâmicas.

Um código moral implica em coerção, em maior ou menor grau, de modo mais direto ou indireto. Todo código moral estabelece princípios de certo e errado, bem e mal, legalidade e ilegalidade, justiça e crime, e romper com esses princípios envolve consequências mais ou menos graves. E essas consequências são coerções sobre a pessoa, o indivíduo, que concorda em obedecer o pacto social para não sofrer essas punições. 

A noção libertária sobre moralidade e ética é, na verdade, um preceito anti-social, anti-comunitário - e, como já reforçado anteriormente, a destruição de noções coletivas e comunitárias é a negação da própria Ética e o meio sistemático de desmotivar os membros de um grupo social a agir de modo moral e ético.

Os liberais, libertários e "anarco"-capitalistas apelam ao individualismo como se vivêssemos numa sociedade altamente comunitária, prestativa, cooperativa e solidária. Na verdade, eles clamam por algo do qual a sociedade já está saturada, e pedem por um elemento extremamente presente como se ele fosse inexistente, como se estivéssemos imbuídos de coletivismo e destituídos de todos os traços de individualismo e egoísmo.

Gore Vidal demonstra como apelar ao individualismo é algo extremamente fácil - fácil demais para organizar qualquer estrutura Ética:



"For to justify and extol human greed and egotism is to my mind not only immoral, but evil. For one thing, it is gratuitous to advise any human being to look out for himself. You can be sure that he will. It is far more difficult to persuade him to help his neighbor to build a dam or to defend a town or to give food he has accumulated to the victims of a famine. But since we must live together, dependent upon one another for many things and services, altruism is necessary to survival. To get people to do needed things is the perennial hard task of government, not to mention of religion and philosophy. That it is right to help someone less fortunate is an idea which has figured in most systems of conduct since the beginning of the race. We often fail. That predatory demon “I” is difficult to contain but until now we have all agreed that to help others is a right action. […] Ayn Rand’s "philosophy" is nearly perfect in its immorality, which makes the size of her audience all the more ominous and symptomatic as we enter a curious new phase in our society. To justify and extol human greed and egotism is to my mind not only immoral, but evil." 
- Gore Vidal, "Comment", Esquire, 1961. 


Apesar de falar especificamente sobre Ayn Rand, a análise de Gore se aplica à estrutura e à essência filosófica das ideologias liberais, libertárias e "anarco"-capitalistas em geral. Ayn Rand foi apenas uma das porta-vozes dessa estrutura de pensamento. 

Aliás, grande parte da crítica desses ideólogos contra a violência e a coerção estatal só vai até a página 2. A própria Ayn Rand justifica o massacre contra os indígenas norte-americanos - ou seja, ela ratifica como válida uma política sistemática de extermínio perpetrada pelo Império Britânico e pelos Estados Unidos recém-formados:


"Now, I don’t care to discuss the alleged complaints American Indians have against this country. I believe, with good reason, the most unsympathetic Hollywood portrayal of Indians and what they did to the white man. They had no right to a country merely because they were born here and then acted like savages." 
- Ayn Rand


É exatamente isso: Ayn Rand, a radical opositora do governo, defendendo a política de Estado de um governo (no caso, o dos EUA) contra um grupo de indivíduos. Talvez os indígenas tivessem valor existencial inferior, aos olhos dela, diante dos "homens de negócio" e executivos da Times Square.

Onde está mesmo a defesa da liberdade, do direito à vida, da liberdade de autonomia dos indivíduos frente a maquinários coercitivos? Para essas figuras, só onde importa. Isso porque, como as ideologias que eles tanto criticam, essas figuras não estão imbuídas de uma Ética real, apenas de noções mecanicistas e de discursos cheios de demagogia. Dois pesos, duas medidas.

A mesma Ayn Rand que critica a expropriação de terras realizada por governos e que considera isso como um atentado contra a liberdade econômica é aquela que justifica a tomada e o roubo de terras, a destruição de propriedades por parte do "incrível homem branco empreendedor". 

Quando alguém como Paulo Kogos reclama de participar de um evento liberal e ter objetos pessoais furtados[1], na verdade reclama das consequências e dos efeitos colaterais de valores que defende abertamente. Quando ele mesmo se queixou da "atomização" crescente no meio do qual ele mesmo faz parte, está reclamando de algo que promove. Como esperar um comportamento moralmente saudável quando você promove uma ideologia para a qual egoísmo e ganância são virtudes? Como esperar que outras pessoas tenham empatia e restrinjam suas vontades individuais quando se repete insistentemente que o que importa é o indivíduo, sua vontade e seus desejos? Como esperar uma noção ética coletiva e comunitária atacando diretamente esses conceitos e promovendo a própria atomização da qual você supostamente reclama? Impossível.

Não é possível sequer esperar que pessoas oriundas de meios profundamente anti-comunitários e que colocam a primazia do indivíduo acima de todas as outras coisas sejam capazes sequer de respeitar questões relativas à propriedade. Essas pessoas, que são produtos dessas ideologias, simplesmente não se importam com absolutamente nenhuma noção social (e, mesmo que existam pessoas assim nesses meios, elas estão em conflito direto contra o próprio cerne das ideologias das quais são seguidoras - realmente há liberais empáticos e virtuosos, mas as virtudes que eles, pessoalmente, cultivam, não se refletem na estrutura de pensamento, da qual eles são portadores, como um todo).

Há ainda outros problemas em relação às abordagens "éticas" e morais dos libertários, "anarco"-capitalistas, liberais e congêneres: não há absolutamente nada nessa chamada "ética" que se debruce sobre questões ambientais e ecológicas ou o tratamento dos animais - aliás, eles desconsideram que os animais sejam passíveis de qualquer tratamento ético -, nem sobre direitos básicos e dignidade de crianças (que, na interpretação de autores como Rothbard, estão num nível intermediário entre o homem e os animais), muito menos sobre cuidado com os idosos ( chegou a afirmar que não há nenhuma responsabilidade sobre idosos - se eles são incapazes de pagar por sua saúde, devem morrer, porque são um "peso").

Alguns chegam a admitir que não há oposição entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico, e que as próprias empresas podem preservar ecossistemas se isso as beneficiar economicamente. Mas, novamente, não há importância na preservação ambiental em si mesma. Ela deve ser, no máximo, um meio para ampliar os lucros das empresas. Se essas mesmas empresas decidirem que isso não é interessante, elas devem ter o "direito" de devastar ecossistemas inteiros porque sim, e pronto.

A intrincada relação entre o homem e o meio é, assim, negada por essas filosofias. Aliás, na maioria dos grupos de liberais, libertários e "anarco"-capitalistas, há um profundo desinteresse pelo tema. Biologia? Ecologia? Oceanografia? Geografia? Botânica? Zoologia? Nessas abordagens, absolutamente nada disso importa. Para eles, afinal, tudo pode ser reduzido a questões técnicas, ganho, perda, lucro, déficit, demanda e oferta.

Em resumo, toda a chamada "ética libertária" é uma redução aberrante de todas as facetas da existência humana ao puro mecanicismo, a um economicismo brutal e a questões de compra e venda, oferta e demanda, "trocas voluntárias" e propriedade privada - e a subjetividade infinita das vontades individuais. Questões existenciais, filosóficas, sociológicas, culturais, linguísticas, étnicas e geopolíticas são sumariamente ignoradas nessa abordagem. Todas as civilizações construíram suas noções sobre Ética agregando elementos de todas essas facetas humanas. Mas os libertários se convenceram de que podem criar uma "Ética" ignorando todos os elementos humanos e priorizando apenas um, que eles consideram como a "economia". 

Não é exagero afirmar que isso não passa justamente de uma anti-Ética e que todo esse agregado de análises não responde às questões existenciais mais básicas (muitas delas já ao menos parcialmente exploradas com imensas contribuições ao longo dos milênios, contribuições essas que são negadas pelos adeptos dessas ideologias, sendo sumariamente lançadas no lixo - como o próprio Alexandre Porto, que declarou as contribuições filosóficas aristotélicas como "inferiores", declarando-se um "filósofo" melhor do que Aristóteles[2]). É um deserto arenoso e incrivelmente anti-civilizacional e anti-humano.

Em resumo, ao entronizar o indivíduo acima de todos os elementos existenciais e promover o individualismo acima de qualquer noção comunitária, é impossível levar em consideração qualquer abordagem liberal, libertária ou "anarco"-capitalista sobre moralidade e Ética. Não é possível esperar um comportamento consciente num tecido social quando você justamente rejeita qualquer noção coletiva e social e promove o "eu" acima de absolutamente todas as coisas.

É bastante óbvio que a individualidade não deve (e não pode ser) negada diante da existência da coletividade. Entretanto, não é interessante incorrer no erro dessas ideologias extremamente dogmáticas que incorrem no extremo oposto das ideologias excessivamente coletivistas: negar a importância do bem coletivo para fomentar uma suposta valorização do indivíduo. Somos interdependentes e, como animais sociais (animais políticos, como diria Aristóteles), nosso bem pessoal está diretamente atrelado ao estado do organismo social no qual estamos inseridos. Reconhecer isso é fundamental para se falar em Ética.

Sem rejeitar a individualidade e a importância da pessoa humana, devemos também compreender os perigos de uma posição radicalmente anti-social e hostil a qualquer menção de coletividade. 

O mesmo reducionismo grosseiro feito por Hoppe, onde a leitura ideológica é definida unicamente pela presença ou ausência de governo (sendo a presença deste característica da "Esquerda" e sua ausência a condição da "Direita" - e sendo absolutamente todo governo considerado como "socialismo", colocando no mesmo nível um faraó do antigo Egito e um burocrata soviético), é encontrado na "Ética" libertária: a sujeição de todas as coisas e todos os elementos ao mecanicismo economicista. 

Em resumo: um libertário pode agir de forma ética, mas ele age de forma ética compactuando com alguma ética socialmente estabelecida e independente da ideologia com a qual ele compactua. O libertarianismo, em si mesmo, não é ético e não pactua nenhuma ética real.



Referências e notas:


[1] Vídeo disponível no Youtube: "Roubo na Libertycon e o Futuro Sombrio do Libertarianismo no BR"


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5 comentários:

  1. Ótimo. Prova contundente que é impossível ser "liberal-conservador". Parabéns pelo trabalho fundamental que fazes.

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  2. Excelente texto. Só acho que deveria ter traduzido as citações.

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  3. Foi bom ver o contraponto desses autores.

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