segunda-feira, 19 de março de 2018

Para o Brasil, quais são os significados da reeleição de Vladimir Putin?

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Com uma vitória fácil, Putin foi reeleito neste domingo para mais seis anos de governo - fonte da foto: ABC


Com aproximadamente 76,66% dos votos, Putin conseguiu mais um mandato de 6 anos - o segundo lugar, Pavel Grudinin, do Partido Comunista Russo, ficou com 11,8% dos votos (a porcentagem mais baixa da história do Partido Comunista russo). Ele vai governar a Rússia até 2024. Para nós, no Brasil, algumas perguntas são essenciais: em primeiro lugar, como isso nos afeta e qual a relação entre Brasil e Rússia? E, em segundo lugar, quais os significados da reeleição de Putin?

É preciso entender que a reeleição de Putin já é denunciada na imprensa ocidental como o resultado de "irregularidades". Mas a própria "irregularidade" é a vitória de Putin. Qualquer país que adote vias democráticas estará condicionado a eleger as figuras que interessam ao hegemon, à hegemonia (ou semi-hegemonia) liberal. Caso contrário, as denúncias contra as "fraudes" serão constantes - e, no caso das eleições na Rússia, essas acusações apenas irão aumentar.

Esse fenômeno nos mostra um fato: Putin é um desafio à hegemonia. A Rússia atual é um desafio à Unipolaridade. Uma "Rússia boa", para este sistema mundial, seria uma não-Rússia, uma entidade política sem nenhuma autonomia, anexada pelas potências mundiais opositoras - exatamente como está o Brasil hoje, um não-Brasil anexado a instituições alheias e externas a ele. Que alternativas nós temos, hoje, contra a hegemonia?

A continuidade do governo de Vladimir Putin servirá como uma "contensão" ou alternativa à unipolaridade atual. Isso significa que as possibilidades de um mundo multipolar ainda poderão ser vislumbradas por outros países, incluindo o Brasil - e isso é positivo. Afinal, uma multipolaridade na qual o próprio Estado-nação brasileiro possa se projetar como uma potência regional é mil vezes preferível à configuração que temos hoje, com uma "potência" fadada a um papel marginal no Sistema Mundo desenhado por 
Immanuel Maurice Wallerstein.

Mas a verdadeira questão é: temos nosso "Putin" brasileiro? Temos, aqui, nossa alternativa nacional à configuração hegemônica atual? Infelizmente, a resposta mais realista para essa pergunta é "não". 

O panorama de escolhas políticas presidenciais para este ano ainda não oferece nenhum vislumbre real de uma possibilidade de reconstrução do Brasil, especialmente após as políticas de desmantelamento nacional adotadas pelo atual governo. 

Assim como a eleição de Trump trouxe vários significados para a política brasileira (a maioria deles ainda inexplorados), definitivamente a continuidade de Putin trará muitos sentidos para nossa política. O que falta é compreender o dinamismo desses sentidos e perceber se o organismo político é capaz de interpretar e tirar proveito desses novos significados. 

Para o Brasil, dependendo da nova estruturação governamental escolhida em 2018, teremos ou uma radicalização do processo de re-colonização (um processo que foi inicialmente revertido no primeiro mandato do governo Lula e, depois, retomado em sua segunda fase de governo, continuado por Dilma e imensamente intensificado por Temer) e afastamento das alternativas de construção da multipolaridade e de novos significados para o papel geopolítico brasileiro, ou poderemos aproveitar a maior participação com os países dos BRICS e retomar o papel de agente de peso dentro desse organismo, projetando as ações e os interesses nacionais para além dessa esfera.

A segunda possibilidade é, obviamente, um vislumbre com excesso de otimismo e positividade, especialmente porque praticamente todos os elementos da política nacional hoje se voltam ou contra essa alternativa ou, em condições mais positivas, para uma indiferença em relação a essa possibilidade. As principais figuras que hoje dominam a política brasileira estão totalmente desinteressadas em qualquer alternativa para o Brasil na própria esfera doméstica, e a situação é muito pior em se tratando de questões geopolíticas mais abrangentes.

A radicalização do discurso não só anti-Putin, mas anti-Rússia (diante do qual a figura de Medvedev foi um elemento de "suavização temporária" contra esse discurso originado no Ocidente - como Alexandr Dugin diz, um elemento para "agradar e acalmar os liberais ocidentais") será agora mais forte do que nunca, especialmente porque Putin está em seu provável "último mandato". Assim, tanto durante quanto após esse mandato, as tentativas de reverter absolutamente tudo o que foi feito em favor da multipolaridade até agora serão mais fortes e extremas do que nunca.

Se o Brasil aproveitar a oportunidade para se aproximar mais da alternativa multipolar, ele se aproximará de um "inimigo" - e também será considerado como inimigo pela hegemonia. Mas vários países já estão revertendo essa lógica e construindo relações mais positivas com a Rússia. Isso significa que a hegemonia não é tão forte quanto foi antes - e a própria intervenção Russa contra os terroristas na Síria, ajudando a manter o governo legítimo de Bashar al-Assad, foi uma derrota clara sofrida pela hegemonia, como não se via em décadas.

Independente da escolha do Brasil pela multipolaridade ou pela manutenção do status quo, a radicalização será inevitável. Quer abracemos as novas possibilidades ou continuemos com a velha sistematização, enfrentaremos um processo interno de radicalização da política: ou a radicalização do processo de colonização do Brasil e de adequação ao sistema mundial, ou de ruptura radical com ele.

Rejeitar as novas possibilidades para evitar as agressões caso rompamos com a ordem vigente não significará mais "paz" ou "prosperidade", especialmente porque o Brasil não tem se beneficiado de absolutamente nada do quadro atual e da manutenção de sua submissão. Por incrível que pareça, nós temos menos a perder rompendo com a hegemonia atual do que mantendo a subserviência oriunda do medo e do comodismo.

A questão é: nós temos capacidade interna e organismos suficientes para resistir às pressões da hegemonia unipolar? Os russos conseguiram sobreviver às sanções e ameaças. Mas, e nós? Com sistemas políticos que conseguem ser derrubados por patos amarelos gigantes e panelaços, parece difícil responder com um "sim".

Vale ressaltar que o próprio segundo colocado nas eleições russas, Pavel Grudinin, candidato comunista (em lugar de Gennady Zyuganov, que era o candidato mais cotado), pertence à chamada aliança Forças Nacional-Patrióticas da Rússia. Ou seja, os russos tiveram ao menos duas alternativas à hegemonia liberal, duas alternativas patrióticas inclusive - que alternativa real nós temos hoje? Se ela existe, precisa tomar projeções mais sérias; se não existe, é tarde demais para construí-la, porque as eleições estão às portas - e isso só poderia ser feito em, no mínimo, mais quatro anos - e quatro anos é um tempo que não se recupera em se tratando de geopolítica.

Uma nova porta para a multipolaridade pode se abrir. Mas a questão de sermos capazes ou não de entrar por ela e criar um novo curso para o Brasil só poderá ser respondida após as nossas próprias eleições presidenciais. 



Notas e referências:

Sobre a figura política de Putin, recomendamos a obra "Putin Versus Putin: O Enigma Geopolítico", tradução brasileira da obra de Alexandr Dugin. A obra pode ser adquirida pela Carvalho Editora.

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