segunda-feira, 12 de março de 2018

O Marxismo rompe com o Liberalismo?

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Da esquerda para a direita: Karl Marx, Friedrich Engels e Ivan Ilitch Lênin



"Semeei dragões, colhi pulgas"

Karl Marx


Liberalismo (Primeira Teoria Política) e Marxismo (Segunda Teoria Política) - também designado genericamente como Comunismo/Socialismo (embora valha ressaltar que há várias correntes comunistas/socialistas não-marxistas) são tomados como duas Ideologias em franca oposição. Mas, apesar dos vários pontos antagônicos, podemos destacar uma essência comum às duas teorias e pontos "harmônicos" entre elas.

As duas doutrinas são, essencialmente, reflexo do Iluminismo e da Revolução Francesa. São ferozmente contrárias à própria ideia de Tradição (ou Tradições, Tradicionalismo) e de conservadorismo. Se originam na Modernidade e se orientam exclusivamente para ela, rompendo brutalmente (ou tentando romper) com todos os elementos pré-Modernos. 

A Primeira e a Segunda Teorias Políticas são estruturas orientadas pela lógica industrial que aplicam a técnica acima de todos os outros aspectos humanos, reduzindo o próprio homem à economia em si mesma (ou, de modo mais amplo, aos aspectos  e relações materiais). O materialismo é outro de seus elementos comuns.

A origem comum entre as duas teorias políticas não anula inteiramente a presença de componentes diferentes, mas permeia como uma essência comum, compartilhada entre as duas teorias políticas. Essa essência comum constitui o elemento principal dessa análise.


Marxismo e Liberalismo como ferramentas de destruição das Tradições e dos elementos pré-Modernos

As duas primeiras teorias políticas, o Liberalismo e o Marxismo (Socialismo/Comunismo), compartilham do mesmo significado anti-tradicionalista e da mesma visão essencialmente negativa em relação a aspectos profundamente pré-Modernos, como a religião e a espiritualidade. Essas duas ideologias representam uma ruptura radical com o mundo pré-Moderno. 

Essas duas ideologias são resultantes da Modernidade e operam numa lógica essencialmente "modernizadora" (não no mero sentido de "aprimoramento", mas de rejeição de todos os valores pré-modernos, "arcaicos", tradicionais).

Para atestar o caráter fortemente anti-tradicional presente nas duas ideologias, é interessante analisar as próprias declarações de ícones das duas teorias políticas e o modo como enxergam elementos tradicionais, começando pelo componente marxista:


[..] A religião é o ópio do povo. A abolição da religião [...] é a exigência da sua felicidade real. [...] A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que pense, atue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e reconquistou a razão [...]. A religião é apenas o sol ilusório que gira em volta do homem enquanto ele não circula em tomo de si mesmo.”
- Karl Marx, "Crítica da filosofia do direito de Hegel" [1]. 


Em resumo: toda a pré-Modernidade e todos os seus caráteres metafísicos são "ilusões". A religião é, nos termos mais elogiosos de Marx, uma ilusão, o "ópio do povo". A concordância com esse preceito marxista conduzirá, mais tarde, a um processo persecutório e anti-religioso na União Soviética (posteriormente revisto e cancelado). 

E, complementando, o elemento liberal:




"O liberalismo é superior ao Cristianismo e tem restaurado a humanidade por meio da destruição da Igreja, motivo pelo qual a Igreja o odeia. Historicamente, é fácil entender a aversão que a Igreja tem mostrado pela liberdade econômica e pelo liberalismo político sob qualquer forma. O liberalismo é a flor daquele iluminismo racional que desferiu o sopro da morte no regime da antiga Igreja e do qual brotou a crítica histórica moderna. Foi o liberalismo que solapou o poder das classes que por séculos estiveram intimamente ligadas à Igreja. Ele transformou o mundo mais do que o Cristianismo sempre fez. Ele devolveu a humanidade ao mundo e à vida. Ele despertou as forças que sacudiram as fundações do tradicionalismo inerte sobre o qual a Igreja cria estar repousada. A nova perspectiva provocou na igreja um enorme mal-estar, e ela ainda não se ajustou até mesmo às camadas mais exteriores da época moderna."

- Ludwig von Mises[2]


Assim como o Marxismo, o Liberalismo se põe como um elemento de obliteração das noções conservadoras, identitárias, religiosas e tradicionalistas, elementos que, caso sobrevivam, devem estar subordinados à Ideologia, seja ela marxista ou liberal.

É importante relatar que, sempre que esse material e essas declarações de Mises contra o Cristianismo (e, mais genericamente, contra as tradições) s publicados, os marxistas concordam tacitamente com esse trecho. Ressaltar o caráter marxista anti-tradicional idêntico ao do liberalismo não é uma ação "nossa", mas dos próprios marxistas, que inclusive elogiam esse ponto da ideologia liberal. Não somos apenas nós que afirmamos esse ponto, são os marxistas que não o negam.

Aliás, Mises, posterior a Marx, referenda que a religião não luta realmente contra o socialismo - ou que o faz de modo inadequado. Na verdade, Mises correlaciona a religião (no caso, mais especificamente o Cristianismo) como um elemento útil ao marxismo (socialismo/comunismo), justamente por não aceitar o capitalismo em sua totalidade: 


"As igrejas e sectos cristãos não lutam contra o socialismo. Passo a passo, aceitam suas ideias político-sociais essenciais. Hoje, com algumas exceções, rejeitam o capitalismo e advogam ou por um socialismo ou por políticas intervencionistas que devem inevitavelmente resultar no estabelecimento do socialismo.[3]" 
- Ludwig Von Mises" 



Mises, assim, "dialoga" e concorda com Marx: os dois definem que a religião em si mesma é algo negativo e um elemento pré-Moderno residual a ser removido para a concretização plena de um estágio humano superior. Embora Mises não tenha defendido abertamente, como Marx, uma perseguição sistemática à religião, deixou explícito que a religiosidade em si mesma deveria estar submetida ao Capitalismo, sendo, no máximo, um elemento secundário coexistindo num nível inferior ao da estrutura capitalista-liberal.

Marx e Mises discordam das terminologias, dos detalhes e das formas, mas concordam com uma mesma premissa, que é o caráter negativo da religião e, consequentemente, das tradições e dos valores conservadores. E, sem entrar num acordo em relação aos meios, também fazem um acordo em relação ao fim em si mesmo: extirpar (ou, no mínimo, relevar ao segundo plano) a religião e os elementos ligados a ela.

O próprio Liberalismo, aliás, foi (e tem sido) muito mais bem-sucedido enquanto instrumento anti-Tradicional do que o Marxismo. Esse não é um ponto positivo em favor do Marxismo. Pelo contrário: seu caráter anti-religioso sempre foi evidente. Mas a Primeira Teoria Política, realmente vitoriosa, conseguiu atingir o nível das Ideias numa dimensão muito mais profunda do que a do Marxismo, uma teoria mais tardia. 

A anulação dos elementos tradicionais, pelo Liberalismo, é concretizada no plano das Ideias, na cultura, nos valores, nos elementos mais "imateriais", enquanto que o Marxismo realizou uma perseguição num nível mais "físico", material. Talvez seja esse um dos motivos para se explicar a razão de que a religiosidade hoje é mais forte exatamente em países ex-comunistas do que em nações liberais. Obviamente, isso não aconteceu por ser o Marxismo menos "anti-religioso", mas por ter sido menos eficiente nesse aspecto.

O fim dos elementos tradicionais, que aqui consideramos como ainda maiores do que o termo "religião" usado por Marx, é um pré-requisito, uma condição sine qua non para o verdadeiro desenvolvimento humano e o surgimento do antropocentrismo. Marxismo e Liberalismo são não apenas igualmente anti-tradicionais, mas duplamente antropocêntricos. Nada, que não o próprio homem e sua técnica, deve ocupar o cerne da existência humana. Essa é uma lógica estritamente moderna e, aqui, a tese central apenas se reforça.

As duas teorias políticas estabelecem uma clara dualidade entre Religião (e podemos aqui incluir religião como um elemento dentro da pré-Modernidade) e Razão, sendo a primeira um elemento negativo que não só deve ser rejeitado, mas completamente eliminado, e a segunda um componente essencialmente positivo, que se deve fomentar. 

"Razão", para Marx, é puramente Marxismo; para os teóricos liberais, é Liberalismo. As duas ideologias enxergam-se não como instrumentos para a observação do mundo real, mas sim como o próprio reflexo dessa realidade, da materialidade. O mundo, visto sob as óticas marxistas, é uma constatação das próprias premissas marxistas; para os liberais, ocorre exatamente o mesmo. 

E é interessante notar como, diferentemente dos marxistas, os liberais não assumem sua ideia como uma Ideologia, que é o que o liberalismo é de fato - assumem-no como "a realidade" ou o "reflexo racional do mundo material exatamente como ele o é". Mas, mesmo com a honestidade de admitir o elemento ideológico, os próprios marxistas enxergam a Segunda Teoria Política como uma "ciência" - e ainda usam o termo mesmo com as imprecisões de Marx, como a definição de que o proletariado concretizaria as revoluções nos países industrializados (a industrialização como pré-requisito para a mobilização das massas e a deposição da burguesia), o que se provou francamente incorreto, já que a própria Rússia, o primeiro caso de revolução in loco, não obedecia esse critério, sendo majoritariamente um país agrário pouco industrializado. O demérito não está em Marx que, obviamente, não era obrigado a enxergar o futuro, mas justamente em seus seguidores.

Marxismo e Liberalismo não são, para seus seguidores, um modo ou um meio de analisar a realidade ou o mundo. São a própria realidade e o próprio mundo. Um liberal não admite visões não-liberais da própria economia, muito menos de qualquer outro aspecto. Para um marxista, é impossível analisar o mundo por uma ótica que não seja a da guerra de classes (ou seja, a história não contém o conflito de classes, mas é exclusivamente esse conflito).

O mundo inteiro e todos os seus aspectos são compactados, reduzidos e aglutinados sob o escrutínio dessas ideologias. E, aqui, vale traçar um outro caráter comum a essas duas teorias políticas, que é o eurocentrismo.


O Marxismo como extensão da imposição da lógica Industrial

O liberalismo é um produto essencialmente "britânico". A ideologia em si mesma ganha substância com Adam Smith, escocês, mas é reflexo de uma série de elementos essencialmente europeus (Iluminismo, Revolução Francesa, etc.). O marxismo, por sua vez, é um produto do pensamento alemão, resultante também em grande parte das análises de Marx não só sobre o capitalismo de sua época, mas de outros alemães como Hegel e Feuerbach (do qual, aliás, Marx toma seu caráter essencialmente ateísta). 

Aqui, podemos traçar duas ideologias: a "Ideologia da Ilha", com caráter essencialmente expansivo, marítimo e atlantista (o Liberalismo), e a "Ideologia do Continente", com caráter mais "terrestre" (mas não telúrico), que é o Marxismo. As duas teorias políticas, Marxismo e Liberalismo, são produtos e criações essencialmente europeias (como a própria Modernidade, inclusive, da qual são agentes). E há, no marxismo, a "ponte" entre Alemanha e Inglaterra, entre o Continente e a Ilha, que é Friedrich Engels - que, aliás, foi alemão de nascença e se consolidou na Inglaterra. Engels formou o "amálgama" entre o espírito alemão e o espírito britânico.

Inclusive, vale ressaltar que a análise econômica de Engels não se dissocia totalmente do próprio pensamento e ótica prussianos, dos quais Engels foi, de certa forma, um receptáculo. O marxismo é, em termos organizacionais, essencialmente prussiano - embora a Esquerda contemporânea reflita muito pouco dessa "disciplina da Prússia".

Onde está esse eurocentrismo liberal continuado no marxismo, então? Ele obviamente não se dá exclusivamente por conta da origem e da nacionalidade de seus teóricos. Ele se dá precisamente pela imposição da Modernidade (essencialmente europeia) sobre todas as formas pré-Modernas (essencialmente não-europeias) e da lógica industrial (novamente, essencialmente europeia) sobre todas as outras formas organizacionais (igualmente, majoritariamente não-europeias).

Para o liberalismo, as formas não-industriais são essencialmente inferiores. Marx não se distancia disso. Ele chega, inclusive, a afirmar que as únicas sociedades interessantes ao marxismo são aquelas fortemente industrializadas. Ou seja, para se atingir a culminação marxista, é imprescindível, para qualquer sociedade, eliminar seus resíduos pré-Modernos, adotar a lógica liberal-capitalista e a mentalidade industrial para, assim, catalisar as dicotomias de classe e impulsionar o processo revolucionário.

O proletariado, o elemento e o sujeito político essencial do marxismo, é um produto da industrialização. Esse algarismo, vital para a equação marxista e sua revolução, inexiste em sociedades que não passaram pelo processo de industrialização. É do liberalismo que o marxismo toma seu principal agente. O proletariado, assim, é uma "criação" (ou um fenômeno resultante) da própria burguesia, justamente porque se origina do processo de industrialização fomentado por ela. 

A visão de Marx sobre as sociedades que não se industrializaram, ou seja, que não passaram efetivamente pelo processo de lógica capitalista, é bem conhecida e merece ser novamente assinalada: 


"A sociedade está passando por uma silenciosa revolução, a qual deve ser submetida e a qual não mais toma conhecimento da existência humana que destrói, tanto quanto um terremoto em relação às casas que subverte. As classes e as raças, fracas demais para dominar as novas condições de vida, devem ceder. Mas pode haver algo mais pueril, míope, que os pontos de vista daqueles economistas que acreditam sinceramente que este lastimável estado transitório não significa nada além da adaptação da sociedade às propensões aquisitivas dos capitalistas? Na Grã-Bretanha, o funcionamento daquele processo é mais transparente. A aplicação da ciência moderna remove a terra dos seus habitantes, mas concentra as pessoas em cidades industriais.[4]" 
- Karl Marx


Embora haja uma distorção usada para alegar que Marx tenha defendido o "extermínio" físico dos povos pré-capitalistas e não-capitalistas (distorção criada por George G. Watson, um político liberal, publicada em um artigo seu datado de 1976[5]), é completamente possível afirmar que, na prática, Marx tem uma visão "evolutiva" linear, considerando os povos pré-capitalistas como pertencentes a um estágio evolutivo inferior, que vai do pré-capitalista, passa pelo capitalista e chega ao marxista.

Eliminar os resíduos pré-Modernos, os aspectos tradicionais e religiosos e impor a visão classista marxista significa, em termos bastante simples, eliminar os povos pré-capitalistas (ou não industrializados). Essa implicação, se não física, é cultural - porque o próprio caráter desses povos é rejeitado como mais uma dicotomia burguesia-proletariado.

Inclusive, Marx enxergava os povos não-industrializados como "contra-revolucionários" justamente porque, não estando no estágio de aprofundamento da dicotomia de classes e não podendo participar em favor da revolução proletária, estariam automaticamente "contra" ela, fosse por uma oposição consciente, ou simplesmente por sua "inutilidade"(ou insuficiência) no processo revolucionário.

A leitura marxista é uma leitura alemã/prussiana do mundo, como o liberalismo é uma leitura essencialmente britânica. Há teóricos dessas duas teorias políticas que não são nem alemães nem britânicos, obviamente, mas o núcleo dessas ideias não reside em outro lugar que não a própria Europa (mais especificamente, a Europa Ocidental). As três teorias políticas, aliás (Liberalismo, Comunismo/Socialismo, Nazismo/Fascismo), têm origens europeias.

As pretensões anti-religiosas do Marxismo jamais se concretizaram, nem mesmo na União Soviética, onde a política de hostilidade às religiões pôde ser experimentada em larga escala e com total força. Algumas coisas explicam isso: primeiro, o fato de que a religiosidade e a espiritualidade não se limitam às formatações religiosas institucionalizadas; segundo, porque o homem é profundamente a-lógico, e a maior parte de sua essência não se dá por vias meramente materiais/racionalistas, como propõem liberais e marxistas.

A alma humana é arraigada a uma dimensão que não está puramente no plano econômico. Liberais e marxistas falham em compreender esse ponto básico. Eles pretendem não apenas eliminar todos os traços não-Modernos da mentalidade humana, mas instituir suas próprias ideologias acima desses elementos.  

Ernst Gellner reafirma bem o fracasso marxista e sua pretensão de solapar os traços religiosos/espirituais da humanidade como sinais de "atraso" em nome de um "progresso" linear na seguinte passagem:



"Assim, talvez a primeira religião secular do mundo falhou não porque privasse o homem do transcendente, mas porque o privava do profano. O marxismo proclamava liberar o homem da religião, de ver sua vida através do prisma deformante de noções fantasiosas. Forçando-o a assumir a realidade concreta com seu peso e importância reais, tornou essa realidade intolerável. [...] Sacralizando este mundo, e principalmente seus aspectos mais mundanos, o marxismo privou o homem do contraste necessário entre o celeste e o terrestre, e da possibilidade de uma fuga para o terrestre, quando o celeste estivesse temporariamente em baixa.[...] Toleram-se bandidos e canalhas como mediadores do outro mundo; mediocridades preguiçosas como agentes da apoteose desse mundo, não." 
- Ernst Gellner[6]


É justamente por reduzir o homem aos aspectos materiais da vida que o Marxismo e o Liberalismo jamais poderão concretizar seu sonho de derrubar absolutamente todas as estruturas não-materialistas. E, mesmo tendo atingido um nível mais aprimorado nessa busca, nem mesmo o Liberalismo foi ou é capaz de completar o processo.

Há uma profunda capacidade imaginativa, criativa e supra-racional na humanidade. É justamente por não entender isso (ou fingir entender, ou entender apenas parcialmente - ou simplesmente não se interessar por essa questão) que o nivelamento decadente do Marxismo ao puro materialismo só poderia criar um imenso fracasso ao tentar substituir as religiões (e elementos espirituais não reduzidos a elas) por um domatismo ideológico.



O caráter eurocêntrico do Marxismo

A leitura do mundo por lentes europeias modernas e o eurocentrismo resultante disso (a estruturação das sociedades humanas de acordo com esses produtos europeus) não é, aliás, uma crítica "nossa". Ela tem origem em vários outros pensadores. Podemos destacar o exemplo nítido da compreensão do eurocentrismo marxista nas palavras proferidas pelo indígena norte-americano Russell Means[7].

Vale destacar um trecho onde o aspecto eurocêntrico do marxismo é evidenciado por Russell:


''Hegel e Marx eram herdeiros do pensamento de Newton, Descartes, Locke e Smith. Hegel finalizou o processo de secularização da teologia - e isso posto nos termos dele mesmo -, ele secularizou o pensamento religioso por meio do qual a Europa compreendia o Universo. Então, Marx colocou a filosofia de Hegel em termos de "materialismo", que é o mesmo que declarar que Marx "desespiritualizou" o trabalho de Hegel. Novamente: isso é dito nos termos do próprio Marx. [...] A tradição europeia materialista de "desespiritualizar" o universo é muito semelhante ao processo mental que desumaniza outra pessoa. Em termos de desespiritualização do universo, o processo mental atua para que o ato de destruir o planeta se torne virtuoso. Termos como progresso e desenvolvimento são usados como disfarces, do mesmo modo como os termos vitória e liberdade são usados para justificar a carnificina no processo de desumanização. [...] Ao menos os capitalistas podem se apoiar no desenvolvimento do urânio como combustível só até o nível no qual isso mostre um bom lucro. É a ética deles, e talvez eles comprem algum tempo. Os marxistas, por outro lado, só podem se escorar no desenvolvimento do urânio como combustível fazendo-o o mais rápido possível, simplesmente porque é o combustível mais "eficiente" disponível para a produção. Essa é a ética deles, e não consigo enxergar onde isso é preferível. Como eu disse, O marxismo está bem no meio da tradição europeia. É a mesma velha canção. [...] Não se pode julgar a verdadeira natureza de uma doutrina revolucionária europeia com base nas mudanças que se propõe fazer dentro da estrutura de poder e da sociedade europeias. Você só pode julgá-la pelos efeitos que ela terá sobre os povos não-europeus. Isto porque todas as revoluções na história europeia têm servido para reforçar as tendências e as capacidades da Europa de exportar a destruição para outros povos, para outras culturas e para o próprio meio ambiente. Eu desafio alguém a apontar um exemplo onde isso não seja verdade." 
- Russell Means[8]


Means identificou o Marxismo como apenas mais um elemento europeu, um elemento não de Revolução, mas de continuidade da estrutura europeia, da Modernidade, da luta contra as tradições e os identitarismos. Assim, o Marxismo não era uma reação contra o capitalismo, mas um "aprimoramento" do capitalismo e seus resultados. Justamente aí, onde geralmente se vê ruptura, há a continuação da lógica industrial e do processo de destruição dos resíduos pré-modernos. 

O marxismo, como o liberalismo, é um elemento de "desespiritualização" - e essa desespiritualização é essencialmente o elemento iluminista europeu posto em prática, colocado como modelo global a ser seguido. Onde os povos tradicionais e as culturas ancestrais se encaixam nisso? Absolutamente, em lugar nenhum. Ou se conformam e passam para o "próximo estágio" (Liberalismo ou Comunismo), ou desaparecem.

Russell deixa o caráter de similaridade entre Capitalismo/Liberalismo e Marxismo/Comunismo ainda mais evidente no trecho seguinte:


"Agora mesmo, nós, que moramos na Reserva Pine Ridge, vivemos naquilo que a sociedade branca designou como 'Área de Sacrifício Nacional'. O que isto significa é que nós temos muitos depósitos de urânio por aqui, e a cultura branca (não nós) precisa deste urânio como material para a produção de energia. A maneira mais barata e mais eficaz para a indústria extrair e lidar com o processamento deste urânio é despejando os resíduos de subprodutos aqui, nos locais de escavação. Aqui mesmo onde nós vivemos. Este resíduo é radioativo e tornará a região inteira inabitável para sempre. Isso é considerado, pelo setor e pela sociedade branca que criou essa indústria, como um preço 'aceitável' a se pagar pelo desenvolvimento dos recursos energéticos. [...] O mesmo tipo de coisa está acontecendo na terra dos Navajo e dos Hopi, na terra do Norte dos Cheyenne e dos Crow, e em outros lugares também. Cerca de 30% do carvão no Ocidente e metade dos depósitos de urânio nos Estados Unidos estão concentrados nessa reserva; então, não há nenhuma maneira pela qual isso possa ser considerado como uma questão menor. [...] Os custos desse processo industrial, para nós, não são aceitáveis. É genocídio escavar urânio aqui e drenar o lençol freático - nem mais, nem menos. Agora, vamos supor que, em nossa resistência ao extermínio, comecemos a procurar por aliados (e nós os temos). Suponhamos, além disso, que tomássemos o marxismo revolucionário confiando em sua palavra: aquilo que pretende nada menos do que derrubar totalmente a ordem capitalista europeia que apresenta essa ameaça à nossa própria existência. Isso parece ser uma aliança natural para a qual os índios americanos devem entrar. Afinal, como dizem os marxistas, são os capitalistas que nos colocam como sacrifício nacional. Até aí, é verdade. Mas, como eu tentei mostrar, esta 'verdade' é muito ilusória. O marxismo revolucionário está comprometido com a perpetuação e o aperfeiçoamento do processo industrial que nos está destruindo. Ele só dá como alternativa 'redistribuir' os resultados - o dinheiro, talvez - dessa industrialização para uma parte mais ampla da população. Ele se oferece para tirar riqueza dos capitalistas e distribuí-la ao redor; mas para isso, o marxismo deve manter o sistema industrial. Mais uma vez, as relações de poder na sociedade europeia terão de ser alteradas; mas, novamente, os efeitos sobre os povos indígenas americanos aqui (e os povos não-europeus em outros lugares) permanecerão os mesmos. [...] O marxismo revolucionário, assim como a sociedade industrial em outras formas, procura 'racionalizar' todas as pessoas em relação à indústria - indústria máxima, produção máxima. É uma doutrina que despreza a tradição espiritual indígena americana, nossas culturas, nossas vidas. O próprio Marx nos chamou de 'pré-capitalistas' e 'primitivos'. Pré-capitalista simplesmente significa que, em sua opinião, acabaríamos descobrindo o capitalismo e nos tornando capitalistas; temos sido sempre tratados como 'economicamente retardados' em termos marxistas. A única maneira pela qual os índios americanos poderiam participar de uma revolução marxista seria juntar-se ao sistema industrial, tornar-se operários de fábrica ou 'proletários', como Marx os chamava. Marx era bastante claro sobre o fato de que sua revolução só poderia ocorrer através da luta do proletariado, e que a existência de um sistema industrial maciço é uma pré-condição para uma sociedade marxista bem-sucedida. Acho que há um problema com a linguagem aqui. [...] Capitalistas, marxistas, todos eles foram revolucionários em suas próprias mentes, mas nenhum deles realmente significa revolução. O que eles realmente querem dizer é continuação. Fazem o que fazem para que a cultura europeia possa continuar a existir e desenvolver-se de acordo com as suas necessidades. Então, para que possamos realmente unir forças com o marxismo, nós, índios americanos, teríamos que aceitar o sacrifício nacional de nossa pátria; teríamos de cometer suicídio cultural e tornar-nos industrializados e europeizados. [...] Eu olho para o processo de industrialização na União Soviética, construído desde 1920, e vejo que esses marxistas fizeram o que a Revolução Industrial Inglesa levou 300 anos para fazer: os marxistas fizeram tudo isso em 60 anos. Vejo que o território da URSS costumava conter um número de povos tribais, povos que foram esmagados para dar lugar às fábricas. Os soviéticos referem-se a isto como a 'Questão Nacional', a questão de se os povos tribais tinham o direito de existir como povos; E decidiram que os povos tribais eram um sacrifício aceitável para as necessidades industriais. [...] É a mesma velha música, mas talvez com um ritmo mais rápido desta vez. Não creio que o próprio capitalismo seja realmente responsável pela situação na qual os índios americanos foram declarados como um sacrifício nacional'. Não, é a tradição europeia: a própria cultura europeia é a responsável por isso. O marxismo é apenas a mais recente continuação dessa tradição, não uma solução para ela. Aliar-se com o marxismo é aliar-se às mesmas forças que nos declaram como sendo um 'custo aceitável'." 
- Russell Means[9] 


Diante do impasse entre identitarismo e globalismo, tradicionalismo e Modernidade/Pós-Modernidade, universalismo e autodeterminação, o Marxismo não é uma ferramenta útil. Os povos cujas identidades e culturas estão agora ameaçados pelo liberalismo não podem recorrer à doutrina marxista como um elemento de amparo real, de "alternativa" à lógica liberal, justamente porque aquilo que desejam conservar e manter é objeto de desprezo marxista, um item indesejável que deve ser extirpado para a verdadeira evolução humana.

Aliás, vale relembrar quais foram as reações dos marxistas quando publicamos a transcrição traduzida desse incrível e emblemático discurso de Russell Means: hostilidade, pura e simples. Os marxistas que reagiram ao texto não levaram em consideração os elementos e a cosmovisão indígena do emissor. Ao contrário, apenas reafirmaram os dogmas marxistas e rejeitaram sumariamente todos os pontos do texto.

A "capacidade crítica" marxista só atua onde o próprio Marxismo possa se reafirmar. A visão dos povos sobre o próprio marxismo é desconsiderada porque, afinal, qualquer posição não-marxista só pode ser "revisionismo" e "fascismo". Não há espaço para outras interpretações: ou você está com o capitalismo, ou está com o marxismo - ambos anti-tradicionais, anti-identitários, industriais e modernos.



Por qual motivo o Marxismo é adotado como ferramenta anti-liberal?

Parece uma questão óbvia: o Marxismo é adotado como ferramenta anti-liberal porque é contrário ao capitalismo, certo? Mas, como o tema já foi desenvolvido até aqui, a resposta não se torna tão simples assim. A ausência de alternativas e de liberdade para criar resistências anti-liberais explica melhor a escolha pelo Marxismo do que ser essa uma boa alternativa em si.

A resposta óbvia dos marxistas diante da demonstração de que o Marxismo é em si mesmo eurocêntrico e funciona mais como um prolongamento do pensamento capitalista/liberal do que uma ruptura real em relação a ele, mantendo inclusive grande parte de sua substância (lógica industrial, economicismo, redução da história de todos os outros povos a uma ótica ideológica europeia - eurocentrismo -, culto ao progresso, materialismo, igualitarismo, etc.), é afirmar a grande quantidade de movimentos anti-imperialistas de cunho marxista ao redor do mundo, especialmente em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, com movimentos que, inclusive com um forte caráter identitarista/autóctone.

Apesar de esse apontamento estar correto, ele não afirma o Marxismo em sua ortodoxia. Ao contrário, os traços identitários, religiosos, tradicionalistas e autóctones presentes em movimentos influenciados pelo Marxismo são justamente erros da aplicação da doutrina marxista. Quando eles estão presentes, isso se dá justamente porque o Marxismo não foi aplicado em sua totalidade, em sua essência. 
Esses componentes se mantém apesar do Marxismo, e não por causa dele.

Mostrar movimentos indigenistas, como o Zapatismo, como uma refutação do fato de que o Marxismo é essencialmente uma forma de "imperialismo eurocentrista" (ou uma forma de aplicação da colonialidade do saber, de Quijano[10]) totalmente anti-tradicionalista é mostrar que, se algo que bebe das influências marxistas continua sendo capaz de servir como proteção da identidade de um povo inconformado com a lógica industrial (como em alguns movimentos campesinos, negros e indígenas), isso só acontece porque os elementos marxistas coexistem forçosamente com os elementos tradicionais desses povos. Isso só pode se dar pela não-aplicação do Marxismo em sua totalidade, mas da tomada de alguns de seus elementos e análises. 


O Marxismo é largamente tomado como ferramenta anti-Liberal especialmente por conta do caráter global das políticas modernas. Não é por ele ser contrário ao eurocentrismo que seu uso é disseminado, mas sua propagação se dá justamente por conta desse fator. Ora, as ideologias europeias foram e são expandidas por todo o mundo. Os povos tiveram dois elementos impositivos e duas ideologias predominantes lançadas sobre si: ou o Liberalismo, ou o Marxismo. Reconhecendo no segundo elemento um "mal menor", adotaram-no em lugar do primeiro.

Mas adotar um "mal menor" não significa estar isento do mal em si e de seus efeitos negativos. E, hoje, a Esquerda pós 1968 (ou a "Nova Esquerda") lança sobre esses povos uma série de pautas, vocabulários, bandeiras, estruturas de pensamento e fraseologias alheias e hostis à identidade dos povos. 

Essa Esquerda, que inclusive não se reporta essencialmente ao Marxismo ortodoxo (mas sim ao pós-estruturalismo), une as críticas marxistas ao capitalismo a toda uma carga de valores que funciona exatamente como um imperialismo cultural/mental. Os povos, receptores dessa carga marxista, não devem simplesmente rejeitar o capitalismo, mas aceitar, junto com a crítica anticapitalista, todas as pautas de transexualismo, hiper-individualização, bandeiras LGBT, trans-etarismo e pós-humanismo, enfim, toda a carga pós-moderna (e vale ressaltar que não estou falando simplesmente da rejeição desses conteúdos, mas sim da negação da visão pré-estabelecida sobre todas essas pautas - um povo não pode ter sua interpretação sobre os transexuais, por exemplo, mas deve adotar a posição ocidental pós-moderna sobre o tema). 

E qualquer visão identitária que entre minimamente em colisão esses elementos é tomada justamente como algo a se eliminar e combater, como traços de "fascismo". É bastante interessante notar, apenas para citar um exemplo, como os movimentos identitários negros vêm sendo atrelados a toda uma fraseologia e uma lógica europeia pós-moderna justamente por aceitar essa carga Marxista: eles devem lutar contra o racismo institucionalizado e a destruição de suas culturas à medida em que abandonam seus elementos identitários e se "modernizam" (como Kaczynski afirma[11], o homem branco bem-sucedido é sempre o modelo a ser seguido, a sociedade ocidental é o molde a ser copiado, e isso prossegue na Esquerda). 

Esse "presente anti-capitalista" é em si mesmo um cavalo de Troia, e o preço que os povos pagam é alto demais diante dos supostos benefícios materiais e políticos da aplicação do Marxismo.

Diante da questão "Capitalismo ou Marxismo", pouco importa a escolha. Os povos do mundo são reduzidos a escolher um desses elementos, praticamente obrigados a eleger uma dessas formas, ambas eurocêntricas e anti-identitárias. Não se trata de uma escolha, mas duma imposição, especialmente pelo fato de que as duas ideologias possuem aspirações globais.

O acirramento da dicotomia Liberalismo versus Marxismo e o esgotamento, principalmente por parte dessas duas ideologias, de quaisquer outras alternativas, certamente é o principal fator de motivação para a escolha do Marxismo por aqueles que não desejavam se submeter à lógica liberal.

O esmagamento capitalista só era realmente confrontado por outra ideologia igualmente global, o Marxismo. Tendo pouco espaço para produzir suas próprias alternativas e se encontrando num beco sem saída, não havia alternativa a não ser aceitar os imperativos da Segunda Teoria Política.

Isso pode ser compreendido pelas palavras do próprio William O. Douglas:



"Em viagens para a Ásia, eu constantemente perguntei aos homens de trinta e quarenta anos o que eles estavam lendo quando eles tinham dezoito anos. Eles geralmente responderam ‘Karl Marx’; e quando eu perguntei a eles o por quê, eles disseram: ‘Nós estivemos sob domínio colonial, procurando um meio de sair disso. Nós queríamos nossa independência. Para conseguir isso, nós tivemos de fazer a revolução. Os únicos livros sobre revolução foram publicados pelos comunistas’. Estes homens quase invariavelmente repudiaram o Comunismo como um culto político, retendo, entretanto, um pouco do Socialismo. Conforme conversei com eles, eu percebi as grandes oportunidades que nós perdemos quando nós nos tornamos preocupados em lutar contra o Comunismo com bombas e dólares, ao invés de usar ideias de revolução, de liberdade, de justiça"

- William O. Douglas[12]


Com mais alternativas reais, inclusive alternativas que permitam abertamente que os povos rejeitem a lógica industrial e mantenham seus traços identitários e tradicionais sem marginalizar ou atacar esses elementos, é improvável que o Marxismo seja a ideologia anti-capitalista dominante. E é possível encontrar essas alternativas até mesmo em formas socialistas não-marxistas.


O Marxismo cede cada vez mais lugar ao Liberalismo

Com os movimentos de Paris em 1968, com a queda do muro de Berlim em 1989 e o fim da União Soviética em 1991, restaram muito poucos elementos concretos para a vanglória dos marxistas. E, embora as conquistas sejam inegáveis (como no campo de tecnologia aeroespacial soviética), as derrotas também o são.

O Marxismo, a Segunda Teoria Política, criado como resposta à questão da Primeira Teoria, o Liberalismo, não foi capaz de superar a questão em si e, como explicitado, representou um certo prolongamento do próprio pensamento liberal.

Na contemporaneidade, depois da derrota mais impactante da Esquerda e do Marxismo como um todo (o fim da URSS marcado não só em 1991, mas nos programas de Nikita Khrushchov e Boris Ieltsin), e da destruição do Nazismo e do Fascismo como organismos políticos reais em 1945, a realidade é que a Segunda Teoria Política (o Marxismo) e a Terceira Teoria Política (Nazismo/Fascismo) perderam terreno.

O Marxismo está, em termos práticos, derrotado, e não é um organismo com força real para se opor à Primeira Teoria Política (o Liberalismo), que foi a verdadeira vitoriosa, como reforça o filósofo e politólogo Alexandr Dugin. O Marxismo não é mais um agente político ou uma alternativa de peso em relação à hegemonia liberal.

Ao contrário, ele vem cedendo cada vez mais espaço ao Liberalismo, sendo cada vez mais limitado e condicionado por ele. E, embora as análises marxistas sobre o capitalismo possam estar corretas, não há vazão real para essa teoria política no mundo contemporâneo.

A própria Esquerda tem rejeitado gradativamente o conteúdo marxista, substituindo a Classe, enquanto sujeito político, pelo Indivíduo. Vem, aliás, adotando significativamente a própria lógica liberal (com a qual nem mesmo o Marxismo ortodoxo rompeu completamente) e sua estrutura psicológica, dando predileção a todas as pautas individualistas em detrimento de qualquer projeto "proletário". 


Não sendo mais uma força majoritária nem mesmo dentro do espectro da Esquerda (que, embora ainda se designe como "marxista", busca e aplica muito pouco dessa doutrina), e não sendo mais a própria Esquerda um organismo verdadeiramente anti-liberal (substituindo a própria busca da derrubada do regime capitalista pela representatividade dentro desse sistema, enquanto a fraseologia "anticapitalista" é mantida pelas aparências), não é exagero admitir que a Segunda Teoria Política foi verdadeiramente esmagada e suprimida pelo Liberalismo, que agora é triunfante.

A tendência é que os organismos de Esquerda e mesmo aqueles que se identificam como marxistas continuarão cedendo mais e mais terreno aos liberais, reduzindo suas atividades ao campo da fala, com cada vez menos campo de ação prática e com cada vez menos poder de mobilização das massas.

O Marxismo foi vencido por seu inimigo e dificilmente estará pronto para um próximo round. Mesmo porque, desde 1968, seu principal objetivo não é nem mesmo mais o de derrotar esse oponente. A ação se transferiu do campo da alternativa econômica para o conjunto psicológico - como afirma Kaczynski.

É até mesmo interessante notar que o próprio vocabulário dos marxistas mostra o quanto essa ideologia tem sido conformada pelo liberalismo: eles não se referem mais aos seus inimigos chamando-os pelo nome, capitalistas/liberais, mas sim por um espantalho: fascistas. Um agente político real, o liberalismo, não recebe mais nem sequer a predileção do ódio dos marxistas - a Terceira Teoria Política tomou esse lugar.


Considerações Finais

Nós podemos (e devemos) tomar absolutamente todos os elementos positivos de qualquer ideologia, em nosso favor. O puritanismo ideológico, além de impossível, é a causa do engessamento e da derrota das outras teorias políticas em relação ao liberalismo (que, das três, é a que possui, até o momento, maior capacidade de adaptação).

Apesar de haver elementos e análises corretas no Marxismo, especialmente em relação ao Liberalismo/Capitalismo e as contradições inerentes a ele, reduzir-se ao Marxismo para construir uma alternativa ao modelo liberal hegemônico é reduzir as próprias perspectivas de vitória. Primeiro, porque o próprio Marxismo perdeu a batalha, e utilizar um instrumento já vencido é repetir a derrota; segundo, porque o Marxismo  em si mesmo contém uma grande carga dos mesmos problemas e da mesma lógica que atacamos frontalmente.

Compreendendo que hoje a grande luta se resume a Identitarismo versus Globalismo, a pergunta crucial é: o Marxismo é realmente um instrumento para a multipolaridade e para o Identitarismo? Respondemos que não (e, apelando para uma consideração bastante empática com o Marxismo, podemos dizer que essa ideologia só pode sê-lo parcialmente). O Marxismo não é uma ferramenta realmente interessante ao Identitarismo, especialmente porque reduz a maior parte desses elementos identitários (ou sua totalidade) à dicotomia de classes; reduz todo o conceito hierárquico à "dominação da burguesia", aplicando um nivelamento que é essencialmente anti-tradicional e Moderno e uma forma de imperialismo cultural.

Marx pode não ser descartado completamente, mas com certeza não deve ser adotado em sua inteireza. Estruturas ideológicas possuem fatores limitantes inerentes a elas; e, mesmo não rejeitando completamente o elemento ideológico (como falsamente fazem os liberais), devemos entender que toda a compreensão de um mundo tão vasto humanamente, mesmo com o franco projeto de nivelamento no amálgama liberal, não pode ser dada por uma única estrutura ideológica.

A Ideia marxista é um produto da Modernidade e não rompe com ela. Ao contrário, busca intensificá-la. É uma lógica social voltada para sociedades industriais e uma visão de mundo estritamente materialista. E, como já mostrado, se conforma cada vez mais à ideologia dominante, que é o Liberalismo.


Sempre foi e continua sendo possível construir alternativas anti-liberais não-marxistas. Alternativas que não só atacam o Liberalismo em seu âmago econômico, mas também em seu aspecto filosófico, cultural e psicológico (e tantos outros mais). A parte econômica do Liberalismo nem de longe é a mais importante; e, tendo sido incapaz de derrotar essa parte e praticamente ignorando os outros aspectos liberais, é incoerente acreditar que o Marxismo ainda seja uma alternativa real ao Liberalismo ou que ainda tenha alguma substância real contra ele.

Aliás, o Marxismo vem historicamente discordando das consequências do Liberalismo, mas não de sua essência e das raízes que propiciaram seu surgimento. Se identificamos um problema e nos limitamos a combatê-lo em suas ramificações ou "efeitos indesejados", estamos fadados a permitir a continuidade do próprio problema.

Pode haver (e definitivamente há) marxistas que, enquanto pessoas, se opõem radicalmente ao Liberalismo; mas o Marxismo em si, como ideologia, não responde mais essa questão e não se projeta de acordo com os problemas apresentados pela conjuntura atual. Só há dois marxismo hoje: o "ortodoxo", que não compreende o cenário atual; e o da "Nova Esquerda", que percebeu esse cenário e abandona gradativamente o próprio Marxismo.

Os elementos marxistas devem ser, no máximo, incluídos numa estrutura anti-liberal maior, numa Metateoria, juntamente com outros instrumentos analíticos. Por eles mesmos e somente em si mesmos, não são mais um desafio à hegemonia liberal e não oferecem o mínimo perigo à estrutura vigente, não só pelas limitações da própria teoria em si, mas pela práxis dos próprios ditos marxistas.

Aliás, grande parte dos "acertos" do Marxismo ocorreram por "erros" da aplicação marxista. O próprio Vladimir Ilitch Lênin só pôde concretizar a Revolução de Outubro na Rússia porque conseguiu evocar elementos rejeitados pelo Marxismo (elementos imateriais do subconsciente das massas), quer tenha feito isso conscientemente ou não; o próprio Stálin compreendeu a verticalidade da política e pôde conduzir a União Soviética contra o adversário nazista, algo totalmente não-marxista (enquanto isso, o "marxista real" Trotsky fazia sabotagem contra a URSS e se aliava a forças anti-soviéticas[13]).


Sendo igualmente antitradicional e oposto a todos os elementos pré-Modernos, o Marxismo representa uma anulação das identidades dos povos tanto quanto o Liberalismo. Não devemos enxergar o Marxismo como uma alternativa ao problema liberal, mas sim como uma continuidade dele.

Por incompreender a dimensão do elemento humano e reduzi-lo a relações econômicas, Marx foi quase que plenamente um idealista - como Hegel, do qual se dizia crítico. Seu materialismo foi uma tentativa de implodir ou mascarar isso - e, aparentemente, diante do Liberalismo, o idealismo é o único recurso dos marxistas atuais.





Notas e referências:


[1] "Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie", no original em alemão; trata-se de obra póstuma publicada em fevereiro de 1844 nos Deutsch-Französische Jahrbücher ("Anais Franco-Germânicos"), contendo as análises de Marx sobre obra de Hegel.

[2] Ludwig Von Mises, "Socialism: An Economic and Sociological Analysis" [Socialismo: Uma Análise Econômica e Sociológica], capítulo 29.

[3] Mises, "Theory and History" [Teoria e História], página 150. O trecho usado na citação foi traduzido livremente pelo autor do texto.

[4] Artigo de Karl Marx, intitulado "Forced Emigration", publicado em 22 de março de 1853 no "New York Daily Tribune". O artigo completo está disponível em inglês no seguinte link: Marxists.org



[5] Ernst Gellner, "Condições da Liberdade".

[6] George Watson, "Race & the Socialists" ["A Raça e os Socialistas"]. O artigo completo está disponível em inglês no seguinte link: Unz.com.

[7] Traduzimos o discurso completo de Russell Means, que foi transcrito em inglês com o título "Marxism is as foreign to my culture as Capitalism" ["O Marxismo é tão estranho à minha cultura quanto o Capitalismo"], disponível na íntegra.

[8] Idem - conferir nota 7.

[9] Ibidem - conferir nota 7. 

[10] Aníbal Quijano estruturou o conceito de "Colonialidade do Saber", no qual afirma o caráter eurocêntrico e a dominação da produção de conhecimento pelas potências desenvolvidas e a colonização mental/intelectual sobre os países menos desenvolvidos. Esse conceito pode ser melhor cmpreendido no texto: "Uma Análise sobre o conceito de Colonialidade do Saber de Aníbal Quijano", publicado no site oficial do Centro Russo-Brasileiro de Estudos Multipolares (CEM).

[11] Theodore Kaczynski, "Psicologia do Esquerdismo Moderno", trecho selecionado e traduzido do texto "Industrial Society and Its Future" (A Sociedade Industrial e seu Futuro").

[12] Na época, William O. Douglas era membro da Suprema Côrte de Justiça dos EUA. A citação foi traduzida livremente pelo autor do texto e foi encontrada no livro "Rules for Radicals" [Regras para Radicais], de Saul D. Alinsky, no capítulo "The Purpose: Part 2" [O Propósito: Parte 2]. O texto foi citado originalmente no Occasional Paper No. 116 [Documento Ocasional Nº 116], no Center for the Study of Democratic Institutions [Centro para o Estudo de Instituições Democráticas], intitulado "The U. S. and Revolution" [Os EUA e a Revolução]. O trecho completo (em inglês) pode ser visto nesse link.

[13] Sobre isso, vale a pena consultar nossa tradução do texto intitulado "Trotsky: o traidor revelado".



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