quarta-feira, 28 de março de 2018

Bolsonaro: ruptura ou continuidade?

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Bolsonaro tem sido cotado como o candidato nacionalista para as eleições de 2018. Mas há uma questão bastante óbvia: o componente nacionalista na figura dele é inexistente. Trata-se de uma figura totalmente voltada ao discurso de manutenção da desindustrialização do Brasil, da total abertura econômica (absolutamente sem nenhum critério ou estruturação), da continuidade da configuração territorial latifundiária, de benefício ao agronegócio e de predileção do capital estrangeiro sobre o capital nacional.

Todo o verniz "nacionalista" contido em Bolsonaro é tão profundo quanto um pires. Trata-se de um conjunto de slogans e frases de impacto vazias, desconexas e sem orientação real. Na verdade, considerando todo o script de comando que orienta Bolsonaro, o elemento patriótico é o menor deles e, talvez, seja até mesmo inexistente. É algo mais condicionado a uma oposição à Esquerda do que à tomada real de posições claras e propostas concretas.

Nem sempre as coisas se configuraram assim. A figura de Bolsonaro dos anos 1980 e 1990 era diametralmente oposta ao personagem atual, fosse real ou não. Uma figura mais radical cedeu espaço ao discurso pseudo inconformista; uma retórica radicalmente patriótica cedeu cada vez mais espaço aos elementos do liberalismo.

E, sendo ainda considerado insuficientemente liberal, Bolsonaro cede o pouco de seu conteúdo nacional e patriótico para a mentalidade neoliberal que, hoje, é essencialmente antinacional. É como se ele desejasse conquistar um público que é a oposição a qualquer projeto realmente nacionalista, exclusivamente porque o discurso político foi condicionado à dicotomia de "Capitalismo/Liberalismo = Direita x Anticapitalismo/Comunismo = Esquerda", quando a verdadeira oposição do cenário atual é "Antiglobalismo x Globalismo". 

Bolsonaro não aceita essa última dualidade real e se apega, mais do que nunca, numa retórica que significa não só a inviabilização de qualquer projeto nacionalista, mas a própria continuidade das estruturas de corrupção que aprofundam os desastres vividos no Brasil. 

As pautas político-econômicas defendidas por ele e por aquilo que ele já começa a chamar de "sua equipe" representam a continuidade do projeto neoliberal para o Brasil. Não é uma ruptura radical ou a tomada de um novo rumo, mas o prolongamento do trajeto que já foi tomado. O discurso transmite a ideia de que alguma estrutura totalmente nova será adotada, mas esses discursos já foram feitos antes e também significaram uma só coisa: manutenção do status quo.

O setor ruralista, mais especificamente aquele que domina o agronegócio, é o mesmo setor que historicamente fomenta a desindustrialização plena do Brasil. E é desse setor que Bolsonaro tem se aproximado cada vez mais e buscado amparo eleitoral, prometendo inclusive revisões em códigos ambientais e a concessão de mais benefícios. 

Isso pode parecer o fomento de um "setor nacional", mas significa o prolongamento da submissão do Brasil como mera potência agroexportadora. Todos os outros setores que realmente configuram um país como potência (tecnologia, pesquisa científica, indústria, etc.) são deixados em segundo plano diante do agronegócio. É, basicamente, a aceitação do papel brasileiro como mero exportador de commodities baratas, aceitando atividades estrangeiras com pouco retorno econômico e social para o Brasil e a fuga de capitais e lucros para o exterior. É mais do mesmo.

A pauta radicalmente antiambientalista de Bolsonaro, especialmente em relação à região amazônica, é outra parte que mostra o quanto essa figura política não significa nenhuma mudança radical, mas sim a continuação dos mesmos problemas. Ele tem manifestado interesse enorme em afrouxar as regulações ambientais, o que, em última análise, favoreceria ainda mais um quadro já atual de impunidade e deterioração ambiental, além do risco a inúmeras populações. Desastres como o de Mariana e, mais recentemente, da empresa norueguesa Hydro no Pará, seriam vistos como "acidentes" num processo econômico natural. Afinal, o importante é "abrir mercado".

Mas, tendo em mente que o próprio Bolsonaro já declarou que seria interessante entregar o território amazônico para a tutela estadunidense, esse posicionamento não é nenhuma surpresa.

Se há algum elemento que rejeita radicalmente o sistema como está estruturado, esse elemento definitivamente não é Bolsonaro. Historicamente, ele e os filhos têm votado em favor dos aumentos de salários de políticos. 

O próprio Bolsonaro já afirmou que não há viabilidade de eliminar os privilégios da classe política e que não pretende fazer isso. Já declarou que setores estratégicos do país devem ser submetidos à lógica de mercado e entregues ao capital externo. Se esse é o conteúdo "nacionalista" dele, não dá pra imaginar qual será seu elemento apátrida.

Em resumo, Bolsonaro é uma figura a serviço dos mesmos ordenamentos e grupos, uma continuidade das mesmas políticas atuais, uma extensão do agronegócio e do papel fundamentalmente secundário do Brasil no esquema mundial, da submissão territorial a interesses estrangeiros (principalmente na questão de mineração em região amazônica) e desindustrialização profunda do Brasil. Seria, resumidamente, um novo vassalo para administrar a antiga colônia. 

O "novo Brasil" desse elemento e das figuras que o cercam seria apenas a mesma nação ocupando um papel extremamente marginal no sistema mundial, aprofundado nas mesmas instituições corrompidas e nos mesmos esquemas profundamente apátridas.

 
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2 comentários:

  1. "slogans e frases de impacto vazias" são o básico para os políticos profissionais da democracia no Brasil. Essa direita é maravilhosa, esse negócio de "liberal na economia, conservador nos costumes" é uma auto-hipnose linda. Felizmente ou infelizmente, o povo não faz questão nenhuma de entender de economia, pouco liga pra isso, quer saber, em verdade, do óbvio: como o político vai resolver suas necessidades imediatas. E Bolsonaro é o único que fala abertamente da necessidade imediata do brasileiro que é a Segurança Pública. E, se nenhum outro candidato adotar essa postura, ele ganhará.

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    1. " E Bolsonaro é o único que fala abertamente da necessidade imediata do brasileiro que é a Segurança Pública"

      Abertamente, como? Dizendo que "bandido bom é bandido morto" e sem apresentar absolutamente nenhuma proposta concreta em relação ao tema?

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