segunda-feira, 26 de março de 2018

As Forças Armadas dos EUA foram humilhadas (outra vez)

Por: Matthew Raphael Johnson
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho

Militantes do Talibã: a guerra no Afeganistão, a mais longa da história estadunidense, se provou amarga para aqueles que se dizem a maior potência militar do mundo

O Afeganistão é um verdadeiro cemitério de Impérios

A Guerra do Afeganistão foi perdida. Não havia objetivos claros, liderança competente e absolutamente nenhuma compreensão sobre aquele país. Os EUA são um poder imperial que busca pelo controle das riquezas minerais, comércio de drogas e potenciais fontes de petróleo no Afeganistão. Por outro lado, o Talibã é bastante popular e foi a única força capaz de trazer ordem àquele país em décadas. Os EUA se asseguraram de que isso não deveria acontecer e, no processo, inundaram seu próprio país com drogas.

Pior do que isso, políticos e soldados da ativa deram, como desculpa para a derrota, uma série de conversas fiadas. Culparam o Paquistão por apoiar o Talibã. Os militares, por outro lado, não culparam a União Soviética pela derrota estadunidense nos EUA. Então, culparam as "regras do conflito". A verdade é que, por mais de 20 anos, a "força militar mais poderosa do mundo" perdeu novamente para um grupo militante organizado espontaneamente. Desde quando militares dão desculpas? Não há desculpas para isso. Os EUA não são um superpoder militar. São um tigre de papel.

Ainda assim, as forças militares dos EUA são idolatradas na sociedade estadunidense. Trinta anos atrás, o oposto também era verdade. O que é que mudou? Só o inimigo. Uma vez que o nacionalismo foi tomado como alvo e o liberalismo era o resultado esperado, subitamente "as tropas" se tornaram "os heróis". A maioria dos estadunidenses ainda acredita num mundo ordenado por uma "Guerra Fria", onde as pessoas creem que as organizações militares são fundamentalmente uma instituição conservadora. Mas elas são qualquer coisa, menos isso.

Dias de orgulho gay são obrigatórios nas bases estadunidenses. Os rituais feministas chamados "Walk in Her Shoes" ["Ande nos Sapatos Dela"]  também são exigidos, assim como os "dias de celebração da diversidade". A Base Aérea de Schriever mantém o slogan "O Dia da Diversidade Expressa a Variedade de Culturas". Os militares estadunidenses são o braço armado do liberalismo. O Washington Times escreveu o seguinte num artigo: 


"'As Forças Armadas planejam celebrar o Mês do Orgulho LGBT'
Mas o Departamento de Defesa confirmou, no dia 2 de junho, que está 'observando o mês de junho como o Mês do Orgulho LGBT para reconhecer lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros militares e civis'.'As lutas, sacrifícios e sucessos da comunidade LGBT continuam a moldar nossa história e nos lembrar de que devemos manter a tolerância e a justiça para todos', disse Anthony M. Kurta, um carreirista executivo federal do governo que está começando no cargo de subsecretário de defesa para equipes de prontidão".
(Scarborough, 2017)
 


É isso o que os EUA impõem nas nações que invade. Mas isso fica ainda pior: de acordo com o Pentágono, os registros de abuso sexual cometidos por militares da ativa subiram de 3.192 em 2011 para 3.374 em 2012. O número real gira em torno de 30.000 casos. E isso corresponde apenas aos fuzileiros navais. Isso veio de um relatório do Pentágono usando fontes anônimas. Em geral, cerca de 10% desses relatos geram condenações. O campo militar de Leatherneck, no Afeganistão, é um "santuário" de prostitutas (Kovatch, 2013).

Além desse comportamento, alimentado pela adoração pública levando a considerar esses militares como invencíveis, a crise de equipamentos só está começando. Atualmente, cerca de metade dos aviões de combate da Marinha não podem voar. A Força Aérea opera, atualmente, com menos de 2000 pilotos e muito de seu equipamento fica em solo. A moral decresce e as deserções aumentam. O caso do Afeganistão não ajuda: ainda duma perspectiva estratégica, para não falar em custos humanos, a maioria desses dólares pode ter sido queimada.

"Nesse ponto", é inegavelmente evidente que os militares estadunidenses falharam em atingir qualquer um de seus objetivos estratégicos no Iraque", escreve Jim Gourley, um ex-militar que trabalhou como oficial de inteligência para o blogue de Thomas E. Rick, "Best Defense" ["Melhor Defesa"].

"Avaliado de acordo com os objetivos definidos por nossas lideranças militares, a guerra terminou na derrota completa das nossas forças". Em 13 anos de comabate contínuo sob a Autorização para o Uso de Força Militar, a guerra mais longa da história dos EUA não foi capaz de trazer nenhuma estabilidade duradoura, nem garantir o avanço dos interesses estadunidenses naquela região do mundo.

Quando as tropas do Estado Islâmico [Daesh] dominaram muito do território do Iraque no ano passado, as forças que depuseram as armas e fugiram diante delas eram as mesmas que compunham o exército nacional que os conselheiros dos EUA haviam, com custos caríssimos (e, ainda assim, de modo ineficaz), treinado por mais de cinco anos (Fallows, 2015).  

A guerra foi uma perda total para os EUA enquanto que, para os militantes do Talibã, motivados e experientes, facilmente derrotam os militares afegãos idiotizados. Fazendo piada com os EUA, muitos militantes do Talibã se vestiram como soldados afegãos e até se fingiram de feridos. 

Esse esquadrão de 10 militantes dirigiu dois caminhões Ford Ranger, do exército, passando por sete pontos de inspeção. Eles adentraram a maior instalação militar do Afeganistão enquanto centenas, talvez milhares de soldados desarmados, estavam saindo das orações de feriado e se preparando para almoçar. 

Nas cinco horas seguintes, os militantes, aparentemente sem enfrentar nenhuma resistência, mataram ao menos 140 soldados no ataque mais mortal registrado em 16 anos contra uma base militar afegã. Alguns dos militantes se explodiram entre soldados afegãos que fugiam para salvar suas vidas. Cinco oras. Não houve nenhum disparo contra os militantes (Marschal, 2017). Essa falha foi dos EUA, apesar de a imprensa tentar fazer parecer que a culpa foi apenas das forças locais [afegãs].

Mesmo com toda a veneração aos soldados estadunidenses, eles falharam miseravelmente. O Pentágono afirma que, depois de quase 20 anos de conflito, a guerra está num "impasse". Os EUA não podem chamar a si mesmos de superpoder se são incapazes de vencer uma guerra como essa. Os guerreiros estadunidenses perderam porque são o exército de ocupação e os militantes do Talibã são os patriotas. Eles foram derrotados. Indiferentemente a isso, milhares de medalhas foram dadas a soldados dos EUA por seus esforços fracassados.

Assim como no Iraque, os EUA mentem sobre suas baixas no Afeganistão. Isso é comum na maioria dos países, embora os EUA digam que estão acima dessas coisas. O fato é que, para contar como KIA (Killed In Action - Morto em Ação/Combate), um soldado ou fuzileiro tem que morrer diante de todos. Sem testemunhas, o soldado não é listado. Muitos KIA estão listados como feridos. Correspondência de soldados é massivamente censurada para evitar vazamentos. Além disso, muitos KIA estão listados como afogados ou mortos por um acidente. Os EUA têm uma prática bizarra de embaralhar soldados de um hospital para outro. Isso aumenta as perdas, mas tem o objetivo principal de tornar a verificação da morte muito complicada. O The New York Times informou que todos os dados de guerra, incluindo baixas, são atualmente censurados pelo Pentágono.

O jornal paquistanês Frontier Post informou que mais de 3.000 soldados dos EUA foram mortos no Afeganistão nos primeiros dois anos de conflito, mas o Pentágono admite um total de apenas 3500 desde 2001. É claro que os mercenários privados que trabalham sob contrato nunca são contabilizados. A falta de um movimento anti-guerra para uma guerra perdida há tanto tempo é muito estranha e sugere que esses movimentos são criados pela classe dominante quando o governo - muito diferente da classe dominante - está lutando contra um inimigo que as elites apoiam.
Um exemplo da derrota estadunidense é o Exército Nacional Afegão (ANA), há muito tempo digno de piadas. E isso ocorre por um bom motivo. Eles têm um nível de educação terrível, já que uma grande proporção de seus recrutas vêm dos elementos mais pobres da sociedade afegã. A pobreza da qual esses recrutas emergem é a razão pela qual a maioria deles é analfabeta. Milhões foram gastos em vão em classes literárias pelos contribuintes da OTAN. As forças armadas não podem funcionar sem alfabetização funcional. Entre aqueles que se formaram nas aulas da OTAN, a maioria atua num nível de aprendizado mais ou menos comparável ao de um aluno da terceira série.


As drogas são outra praga. O investigador especial geral para a reconstrução afegã informou que pelo menos metade dos homens do ANA [Afghan National Army - Exército Nacional Afegão] usa drogas. Eles são pobres e, devido ao seu estado de intoxicação, acham isso atraente. Muitos homens enfrentam tentações para roubar suprimentos do exército. O combustível é o seu alvo principal. A taxa de deserção está em 69% - e só cresce.

Em 2013, os empreiteiros concluíram o trabalho no Campo Leatherneck, uma base militar totalmente equipada que custou US$34 milhões, preenchida com todos os luxos que outros exércitos consideram surpreendentes. O problema é que o novo comando militar nunca solicitou esse valor. O "governo" afegão recebeu essa oferta de graça, mas eles não puderam pagar pelos custos com a manutenção, e essa não é a pior falha financeira da guerra (Salon, 2015). 

Pra dizer o óbvio, essa guerra foi lançada para obter acesso aos trilhões de dólares em riqueza mineral sob o Afeganistão. Isso dá aos militares dos EUA uma posição de fronteira com a China e o Irã. No entanto, o verdadeiro motivo estava nos minerais. Os depósitos anteriormente desconhecidos - incluindo enormes veios de ferro, cobre, cobalto, ouro e metais industriais críticos como o lítio - são tão grandes e incluem tantos minerais que são essenciais para a indústria moderna que o Afeganistão poderia eventualmente ser transformado em um dos centros mais importantes de mineração, como acreditam os oficiais dos Estados Unidos. 

Um memorando interno do Pentágono, por exemplo, afirma que o Afeganistão pode se tornar a "Arábia Saudita do lítio", uma matéria-prima fundamental na fabricação de baterias para laptops e BlackBerrys. A vasta escala da riqueza mineral do Afeganistão foi descoberta por uma pequena equipe de funcionários do Pentágono e geólogos estadunidenses. O governo afegão e o presidente Hamid Karzai foram recentemente informados disso, como disseram autoridades estadunidenses (Risen, 2010).

Os soviéticos já tinham determinado isso tudo ainda nos anos 1970. Como um parceiro comercial ativo com os EUA, os estadunidenses estavam bem cientes desses resultados. O ISIS [Estado Islâmico, Daesh], uma criação dos EUA, foi levado para o Afeganistão como um meio de combater os talibãs como soldados mercenários. É um grito desesperado de um país quebrado e derrotado. O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã, o major-general Mohammad Bagheri, fez essa afirmação no início de 2018. Qualquer ataque a civis no Afeganistão pode ser atribuído à “luta contra o Talibã”, já que eles não usam uniformes (John, 2015).
 
Em 1º de fevereiro, o enviado especial russo Zemir Kabulov advertiu que 7.000 mercenários do Estado Islâmico [Daesh] estão em atividade no Afeganistão. "Temos monitorado cuidadosamente a gênese da ala afegã do ISIS nos últimos três anos; o ISIS tem cerca de 7.000 combatentes ativos, sem levar em conta os vários milhares de reservistas", disse Kabulov ao canal de TV Rossiya-24. O Talibã possui, atualmente, uma força de cerca de 60.000 soldados experimentados pela batalha. “Este é um caso sério; os membros do ISIS vieram para o Afeganistão não para a Jihad contra os EUA e outras tropas estrangeiras; eles vieram para estabelecer uma base para sua expansão adicional para o norte, para a Ásia Central”(Wadan, 2018).
Hossein Amir-Abdollahian, consultor especial para assuntos internacionais do Parlamento iraniano, declarou: "Quando Mossul, no Iraque, estava sob a ocupação do Daesh, um A330 estadunidense pousou no aeroporto de Mosul, generais dos EUA desceram do avião e equipamentos militares foram descarregados. Na sala VIP do aeroporto, os generais estadunidenses conversaram com os líderes do ISIS em Mosul durante três horas e 23 minutos, e depois embarcaram no avião e retornaram" (SN, 2018).
 
O fato de que alguém acredite que esses "bandidos de Hollywood" no ISIS são algo mais do que uma criação ocidental é assustador. Nada acontece no Oriente Médio sem o conhecimento da CIA ou do Mossad. No entanto, aparentemente, este enorme exército de combatentes treinados está agora, do nada, com uma frota de petroleiros para ajudar a financiá-los.  
 
Os EUA os criaram para fazer aquilo que suas próprias forças armadas não foram capazes de realizar. Os EUA não têm dinheiro ou receita para travar uma guerra constante no mundo inetiro. Esses mercenários, rotulados como "inimigos", são uma capa mal disfarçada para a CIA. Sua recusa em atacar alvos aliados aos EUA, incluindo Israel ou Arábia Saudita, é prova suficiente disso.
 
A Lei de Johnson afirma que, quanto mais obscuro o assunto, mais jornalistas se sentirão seguros para mentir sobre ele, uma vez que poucos podem corrigi-los. Outra formulação é que, quanto mais obscuro o país, maior a chance de haver erros no relato, pelo mesmo motivo. O mesmo vale para a mídia militar, acadêmicos e hackers do Departamento de Defesa. Nos disseram que um "laboratório de drogas do Talibã" foi destruído em um vídeo. Ninguém faz ideia se aqueles blocos mostrados na tela de um radar pertencem ao Talibã ou não. Ninguém pode ter certeza.
 
O caos do ambiente social e político do pós-guerra no Afeganistão criou um vácuo de poder. Criou forças que prometeram parar com a destruição daquela sociedade. Liderada pelo mulá Muhammad Omar, a organização inicial do Talibã surgiu na parte sul da província de Kandahar em 1994, como uma resposta local à criminalidade que eclodiu quando a lei e a ordem foram quebradas. Eles mantêm esse papel ainda hoje.
 
O mulá Mohammad Omar, juntamente com 50 estudantes, fundou um grupo que ficou conhecido como Talibã em setembro de 1994. Omar, tendo estudado na madrassa Sang-i-Hisar em Maiwand, percebeu que era necessário um regime rigoroso para levar o Afeganistão a algum sentido de normalidade. Seu grupo conseguiu cumprir sua promessa de livrar o Afeganistão dos senhores da guerra e de criminosos. Sua ideologia era firme e simples. Eles tinham um olho para os negócios, e o suborno funcionava frequentemente onde a arma não dava conta do recado. Em meados da década de 1990, eles tinham mais de 30.000 homens. O Paquistão buscou um governo receptivo aos seus interesses e foi uma das fontes mais importantes de recursos nos primeiros anos do grupo. 
 
Em 1998, o Irã acusou o Paquistão de enviar sua força aérea para bombardear Mazar-i-Sharif em apoio às forças do Talibã e acusou diretamente as tropas paquistanesas por "crimes de guerra em Bamiyan". No mesmo ano, o Irã afirmou que a Rússia declarou que o Paquistão era responsável pelos ataques militares da organização. O Irã afirmou que o Paquistão enviou um grande contingente de soldados e conselheiros, alguns dos quais haviam sido feitos prisioneiros pela Frente Unida Anti-Talibã. Além do Paquistão e da Rússia, os sauditas também os viam como um contrapeso às facções xiitas.
 
Além disso, a imprensa estadunidense suprimiu em grande parte a história de que o Talibã estava disposto a colocar Osama em julgamento muito antes do  episódio do 11 de setembro. Ele trouxe pressão ocidental sobre o Estado talibã que buscava apenas a estabilização interna da sociedade. Ele foi visto como um "encrenqueiro arrogante"(Hammond 2010).

Seus ataques anteriores na África e no Oriente Médio foram exercícios grosseiros e nem de perto mostraram a sofisticação exibida no 11 de setembro. Osama Bin Laden foi culpado por esses ataques, especialmente o do USS Cole, e exigiu que o Talibã o entregasse. Certamente, ele não estava em posição de idealizar nada, pois estava muito doente e com problemas constantes nos rins. Minutos depois de os aviões atingirem as torres, a imprensa, em uníssono, anunciou que “Bin Laden” era o mentor do ataque. Foi tudo muito conveniente.
 
Mesmo antes dos ataques de 11 de setembro, nosso Emirado Islâmico tentou várias propostas para resolver a questão de Osama. Uma dessas propostas foi a criação de um tribunal de três nações, ou algo semelhante sob a supervisão da Organização da Conferência Islâmica [OIC], mas os EUA não mostraram interesse nisso. Continuaram exigindo que o entregassem, mas não havia relações com os EUA, nenhum acordo de qualquer espécie. Eles não reconheceram o governo afegão (Mashal, 2011).
A arrogância imperial americana estava em ação. Robert Grenier, chefe da estação da CIA no Paquistão na época do 11 de setembro, confirmou esse fato e afirmou que a oferta havia sido feita. Grenier disse que os EUA consideraram as ofertas para levar Bin Laden a julgamento como uma "manobra". Agora, há precisamente zero evidências de que Bin Laden tenha algo a ver com os eventos de 11 de setembro, eventos que só beneficiaram a máquina de guerra dos EUA e asseguraram a presença contínua de soldados dos Estados Unidos na região durante todo o futuro previsível. Como alguém pode ver isso como uma ação racional para Osama ou qualquer outra pessoa é um mistério. Além disso, o Talibã condenou veementemente o 11 de setembro como um ataque contra civis inocentes.
 
 
O embaixador do Talibã no Paquistão, Abdul Salam Zaeef, declarou dias antes do 11 de setembro que “o Talibã não vê os estadunidenses como seus inimigos e que não há ameaças aos americanos vindas do Talibã; no entanto, faremos o nosso melhor para acompanhar e impedir qualquer ameaça em relação a Bin Laden”. Isso também foi omitido da população estadunidense (Hammond, 2010).

Quando o Talibã assumiu o poder em 1996, vinte anos de guerra contínua devastaram a infraestrutura do Afeganistão. Não havia água corrente, pouca eletricidade, poucas linhas telefônicas e quase nenhuma estrada em funcionamento. Até mesmo necessidades básicas como água, comida e moradia foram destruídas ou não mantidas. Pior, o clã e a estrutura familiar que serviam de rede de segurança social e econômica também foram prejudicados por baixas e pela falta de formação moral. A mortalidade infantil no Afeganistão foi a mais alta do mundo. Quase 25% de todas as crianças afegãs morreram antes dos cinco anos, uma taxa muitas vezes maior do que a maioria dos países em desenvolvimento.
 
 
O Bookings Institute diz: "Por volta de 2001, o Paquistão estava fornecendo ao regime talibã em Cabul centenas de assessores e especialistas para comandar seus tanques, aviões e artilharia, milhares de pashtuns paquistaneses para manejar sua infantaria e pequenas unidades de seus comandos do Grupo de Serviços Especiais para ajudar no combate contra a Aliança do Norte. O Paquistão forneceu o petróleo necessário para operar a máquina de guerra do Talibã" (Riedel, 2011).
 
Quando o Talibã conquistou Cabul em setembro de 1996, sua ideologia se cristalizou e consistiu em vários elementos significativos. De acordo com Marsden, eles buscaram "a purificação do Afeganistão" e se comprometeram, nas palavras do mulá Muhammad Omar, o líder supremo do Talibã, a livrar o Afeganistão dos "corruptos orientados pelo Ocidente". Isso faz parte de sua popularidade. 
 
Estes eram os objetivos a se alcançar através da conquista militar, punindo qualquer resistência com extrema violência. Não havia outra maneira. Em uma transmissão da Rádio Voz da Sharia feita em 5 de novembro de 1996, o Talibã afirmou que eles emergiram das massas para livrar seus compatriotas da dor e do sofrimento, para garantir paz e segurança completas em todo o país, coletando armas, eliminando os principados feudais aqui e ali no país e criando um poderoso governo islâmico no Afeganistão. [O estado liberal] não aderiu aos padrões esperados de um estado islâmico (Marsden, 2008)
 
Eles alegaram que o governo mujaheddin não havia aplicado suficientemente as punições da sharia necessárias, estabelecidas por lei. Seus patronos estrangeiros apoiavam os principais componentes da ideologia talibã: uma concepção ideológica firmemente nacionalista, simples e rígida do Islã adaptada a um país devastado pela guerra. O Talibã não teve escolha senão centralizar a lei na maior extensão possível e, assim, remover os fortes agentes locais de poder. Isso significava que certas alfândegas, como o baad (usar mulheres como moeda de troca durante disputas entre clãs) ou o uso de khans para julgar casos em vez do sistema judicial, foram proibidas. 
 
Hoje, depois de quase duas décadas de guerra de propaganda estadunidense, o Talibã (ou os grupos que o Regime considera como talibãs) está prosperando. A Força Aérea dos EUA gosta de postar vídeos de seus aviões superfaturados "destruindo laboratórios de drogas do Talibã", mas não menciona que o tráfico de drogas é punido com a morte sob a lei do Talibã. Ninguém pode dizer de forma diferente, então basta chamar alguém que você queira matar de “Talibã”. É o novo jeito estadunidense de fazer guerra. É o caminho do covarde. A razão pela qual eles não podem vencer, e pela qual os EUA estão em permanente estado de derrota, é que o Talibã é popular. Os EUA não são. 
 
Os mercados monetários de Cabul responderam positivamente durante as primeiras semanas do regime talibã, mas o mercado afegão logo caiu de valor. Eles impuseram um imposto de 50% sobre qualquer empresa que operasse no país, e aqueles que não conseguiram pagar foram atacados. Na ausência de instituições, essa era uma necessidade infeliz (Rubin, 2002).

Eles também impuseram um imposto de importação de 6% sobre qualquer coisa trazida para o país e, em 1998, controlavam os principais aeroportos e passagens de fronteira, o que lhes permitia estabelecer o monopólio do comércio. Em 2001, a renda per capita dos 25 milhões de habitantes estava abaixo de US$ 200. A partir de 2007, a economia se recuperou, com reservas internacionais estimadas de três bilhões de dólares e um aumento de 13% no crescimento econômico. O Talibã entregou as mercadorias. Eles eram o governo legítimo e certamente tinham todos os desestímulos para irritar os EUA.
 
 
Sob o Tratado de Trânsito entre o Afeganistão e o Paquistão, um volume de negócios de quase US$ 3 bilhões entre as fronteiras foi o resultado. Proteger esse comércio era a fonte de renda do Talibã. O governo paquistanês treinou, armou e financiou o Talibã para eliminar os bandidos das estradas do sul do Afeganistão, até as repúblicas da Ásia Central. Isso só aumento a popularidade do grupo.
O Talibã proibiu todas as formas de ostentação. Ao discutir uma proibição contra homens usando ouro e seda, por exemplo, Yusef Qaradawi (2001) e outros estudiosos incluem como justificativa: “Do ponto de vista do Alcorão, a vida luxuosa leva à fraqueza entre as nações e à sua queda final; a existência de luxo é também uma expressão de injustiça social, pois poucos podem comprar itens de luxo às custas das massas de pessoas carentes”.
As condenações do Talibã contra o luxo geralmente se concentravam em sua qualidade corrupta inerente, independentemente de sua distribuição na sociedade. “Partes caras e desnecessárias são dadas no Emirado Islâmico, que por si só é extravagante e ilegal de acordo com a Sharia. Todos, no futuro, devem evitar fazê-lo ”. Tanto a tradição nacional do Alcorão quanto a afegã eram as fontes da lei do Talibã (Rubin, 2002).
Nas áreas controladas pelo Talibã, todos os avanços tecnológicos ocidentais foram destruídos. A reconstrução moral não conseguiu lidar com essas distrações ocidentais. Antes, estes equipamentos tinham sido usados ​​para desmoralizar as pessoas. Não foi o meio, mas a mensagem que causou tal rancor. A pena de morte foi aplicada com frequência. Devido à perda deste crescente mercado, Washington não reconheceria esse governo. Ainda é curioso o modo como Washington se voltou contra eles ao banir o crescimento da mídia ocidental para a sociedade afegã (Rubin, 2001).
 
 
O Taleibã não é um grupo isolacionista e ofereceu contatos mais próximos com o resto do mundo. Estes foram em grande parte condicionados pelo fato de que houve publicidade negativa sobre a implementação da lei da Sharia. Não reconhecendo que uma mão forte é necessária para reconstruir uma sociedade devastada pela guerra cujo código moral foi “a vida é barata”, as ONGs ricas e confortáveis ​​emitiram uma virtude que sinalizava condenações. Ulrich Fischer, do Partido Verde, acusou o Talibã de criar um "estado policial religioso" e afirmou que os países ocidentais deveriam evitar o reconhecimento oficial do Talibã.
A Constituição foi complementada pela lei comum. Este é um costume local e está ligado à lei da Sharia, é claro. Qualquer coisa que rejeitasse esse princípio seria muito impopular. Ela inclui medidas duras contra todas as formas de violência familiar, fornicação, adultério, divórcio e usura. Estes seriam regulamentos populares no país, uma vez que pretendem reconstruí-lo (Osman, 2001).
Tal foi o protesto contra eles que o Banco Mundial se recusou a medir sua economia. Os dados sobre o Afeganistão aparecem em branco nos registros do Banco Mundial. Seu sistema bancário é o hawala, onde as normas bancárias ocidentais são rejeitadas. Os bancos que governam o mundo não podem manter um registro de seu trabalho. O dinheiro é transferido através de uma rede informal de corretores de hawala. Esse mecanismo é baseado no sistema de honra, que raramente é frustrado. É algo que funciona. Nenhum papel existe. Como o sistema é informal e baseado na moralidade e não no poder, ele pode operar mesmo na ausência de supervisão ocidental. Nenhum registro é produzido.
 
 
A Hawala é atraente para os clientes porque oferece uma transferência rápida e conveniente de fundos, geralmente com comissões muito menores do que as cobradas pelo Regime. Suas vantagens são mais pronunciadas quando existe uma distorção entre as taxas de câmbio. Não se pode "apostar" na moeda com este sistema. Seu custo de transação é mínimo.
"A Aliança do Norte ganhou sua renda com a produção contínua de ópio, que hoje é indistinguível do dinheiro da CIA. Como a Albânia, as drogas eram tudo o que tinham. Em 2000, o Afeganistão, fora do controle do Talibã, era responsável por aproximadamente 75% da oferta mundial de heroína e outros opiáceos. Os EUA espalharam rumores de que foram os talibãs que financiaram a guerra através do ópio, à medida que as tropas americanas guardavam campos de papoula para grandes fabricantes de drogas, tanto lícitas quanto ilícitas."
 
Ahmad Shah Massoud e Abdul Rashid Dostum, rivais de longa data, foram reunidos com um monte de dinheiro da CIA para criar a Frente Unida, geralmente chamada de Aliança do Norte, contra o Talibã. A CIA estava dando a Massoud mais de US$ 200 mil por mês para se organizar. Osama bin Laden nunca foi aliado do Talibã e, de fato, tornou-se um oponente do grupo desde o início. Osama vê os talibãs como bárbaros iletrados e seu próprio grupo, agora aliado dos EUA na Síria, é visto como uma força educada e cosmopolita para a mudança global. O Talibã nunca ameaçou os interesses estadunidenses e buscou a boa vontade dos EUA desde sua primeira vitória. Sua visão nunca deixou o Afeganistão. É uma força nacionalista local e saudável.
Em 6 de julho de 1999, o presidente Bill Clinton assinou a ordem executiva 13129, que proibia qualquer comércio entre os Estados Unidos e o Talibã e, em agosto, congelou US$5 milhões de seus ativos no exterior. Em 19 de dezembro de 2000, a resolução 1333 da ONU determinou que todos os bens do grupo fossem congelados e que todos os Estados fechassem quaisquer escritórios pertencentes ao Talibã. Isso incluiu os escritórios da Afghan Airlines. Este esforço foi bem sucedido. Em 1999, a ONU aprovou a resolução 1267, que proibia todos os voos internacionais da Ariana Airlines. Esta foi uma destruição deliberada de uma economia incipiente baseada em rumores de ONGs.
O Talibã escreveu ao povo estadunidense sobre o governo liberal que o Ocidente havia imposto ao país:
 
 
 
"Embora não seja dever dos Estados Unidos elaborar leis e sugerir sistemas para outros países, a segunda desculpa de George W. Bush para a invasão contra o Afeganistão foi estabelecer um governo supostamente legítimo. Mas, apesar de dezessete anos de guerra custarem milhares de vidas e bilhões de dólares estadunidenses e de toda uma coalizão, esse sistema se enraizou no Afeganistão, que alcançou os seguintes registros administrativos, legais, militares e políticos:

- Número um internacionalmente em corrupção administrativa e financeira.
- Número um, internacionalmente, em violar os direitos humanos.
-
Número um, internacionalmente, em usurpação de terras e fraudes contra a ajuda internacional.
- Número um, internacionalmente, em violência contra mulheres, etc.

O exemplo mais recente do regime corrupto formado na sequência da invasão estadunidense é a presença de um sistema de duas cabeças que não tem paralelo nas leis estabelecidas para formar um governo em lugar nenhum do mundo (Talibã, 2018).
"
  
 
Eles dizem a verdade, como de costume. Enquanto que eu mesmo não sou amigo do Islã, é lógico afirmar que esse grupo é a única esperança razoável para este país devastado pela guerra. Enquanto o Talibã incendiava os campos de papoula, o apoio da ONU cresceu também. Mesmo nos dias mais pobres e primitivos, eles se recusaram a receber dinheiro daquela safra nefasta. A aquisição de Kandahar pelo Talibã forneceu-lhes a sua fundação local para ocupar a maior parte do país. Eles ofereceram clareza moral e a promessa de uma sociedade justa e segura advinda do islamismo. Neste ponto, um estado severo e rigoroso é precisamente o que tal país precisa depois de ter sido fisicamente marcado por décadas de guerra.

Os militares dos EUA são bandidos que protegem os traficantes de drogas. As forças de ocupação no Afeganistão estão apoiando o comércio de drogas, que gera entre 120 e 194 bilhões de dólares em receitas para o crime organizado, agências de inteligência e instituições financeiras ocidentais.

As receitas deste lucrativo contrabando multibilionário são depositadas em bancos ocidentais. Quase a totalidade das receitas é destinada a interesses corporativos e sindicatos criminosos fora do Afeganistão.
O comércio de drogas do Crescente Dourado, lançado pela CIA no início dos anos 80, continua a ser protegido pela inteligência dos EUA em ligação com as forças de ocupação da OTAN e as forças armadas britânicas. Em recentes desenvolvimentos, as forças de ocupação britânicas promoveram o cultivo de ópio através de propagandas de rádio pagas.
“Uma mensagem de rádio transmitida através da província assegurou aos agricultores locais que a Força Internacional de Assistência à Segurança (ISAF), liderada pela OTAN, não interferiria  nos campos de papoula ativos."
“Respeitado povo de Helmand: os soldados da ISAF e da ANA não destroem os campos de papoula”, afirmam. “Eles sabem que muitas pessoas do Afeganistão não têm escolha a não ser cultivar papoula. A ISAF e o ANA não querem impedir que as pessoas ganhem seu sustento”(Chossudovsky, 2007).
Os soldados e aviadores estadunidenses, arrogantes e durões, voltam para casa para participar de desfiles militares enquanto o mundo é inundado com opiáceos que eles mesmos tornaram possíveis de comercializar. Essas drogas são para fins ilícitos, não legítimos, e até mesmo o propósito legítimo é questionável. O mercado é inundado com derivados de papoula usados ​​em analgésicos legais, mas muito mais é realmente colhido.
Quanto de área de ópio é necessária para abastecer a indústria farmacêutica? De acordo com o Conselho Internacional de Controle de Narcóticos (INCB), que tem um mandato para examinar questões relativas à oferta e demanda de opiáceos usados ​​para fins médicos: 
 
 
“O suprimento desses opiáceos tem sido há anos muito superior à demanda global. O INCB recomendou a redução da produção de opiáceos devido ao excesso de oferta mundial." (Chossudovsky, 2007). 


Os militares estadunidenses não parecem mais tão heroicos assim. Eles são a causa direta da crise de opiáceos na América e nenhuma quantidade de Estrelas de Bronze falsas pode cobrir este fato. Desde a invasão dos EUA, a quantidade de opiáceos exportados por aquele país cresceu mais do que 21 vezes. Os lucros vão para multinacionais, militares, empreiteiros e sindicatos do crime, todos trabalhando juntos como uma coalizão dominante. O agricultor local não recebe nada.

Em 2001, havia 189.000 usuários de heroína nos Estados Unidos, antes da invasão do Afeganistão pelos EUA e pela OTAN. Em 2016, esse número subiu para 4.500.000 (2,5 milhões de viciados em heroína e 2 milhões de usuários casuais). As mortes por heroína aumentaram de 1.799 em 2001 para 10.574 em 2014, quando os campos afegãos de papoulas sofreram metástases de 7.600 hectares em 2001 (quando a guerra EUA-NATO no Afeganistão começou) para 224.000 hectares em 2016 (um hectare equivale a aproximadamente 2,5 acres). Ironicamente, a chamada "operação de erradicação" dos EUA no Afeganistão custou cerca de US$8,5 bilhões em fundos dos contribuintes estadunidenses desde o início da guerra iniciada por EUA e OTAN em outubro de 2001 (Chossudovsky, 2010).

Não há como negar que “as tropas” são pouco mais do que traficantes de drogas em excesso. É um equívoco comum que os EUA recebam sua heroína do México. Esse valor refere-se apenas ao produto acabado. Aporoximadamente 90% do total das papoulas são oriundas do Afeganistão. O México é apenas um ponto de trânsito. O UNODC afirma que cerca de 60% da cultura da papoula no Afeganistão é transformada em heroína. Os fuzileiros navais admitiram - em uma entrevista com Gerardo Rivera - que se recusam a destruir o comércio de ópio porque isso iria virar a população contra eles. Também admitiram que eles não fazem ideia de como diferenciar quem é membro do Talibã e quem é apenas muçulmano.
 
O autor de "Where Have All the Flowers Gone?” ["Pra Onde Todas as Flores Foram?"] escreve:

"Em julho de 2000, o líder supremo do Talibã, o Mulá Omar, anunciou uma fatwa ou decreto religioso afirmando que o cultivo de papoula e a produção de ópio violavam a tradição islâmica fundamental. Qualquer falta de respeito por tal decreto refletiria sobre a liderança religiosa do mulá Omar e a força do governo talibã. Com a reputação pessoal e o favor político internacional em jogo, havia um forte incentivo para a implementação em toda a cadeia de comando do Taleban. Os administradores do distrito criaram shuras de grupos de monitoramento em seus territórios. Shuras consistia do chefe de polícia, o chefe do Departamento de Vícios e Virtudes, líderes espirituais de mesquitas locais e anciãos tribais. De setembro a outubro de 2000, os shuras disseminaram informações sobre a fatwa e sua imposição aos agricultores locais, incentivando-os a não cultivar papoula na próxima temporada. Depois de outubro, os shuras foram os principais responsáveis ​​pela proibição, para os quais estavam bem colocados porque tinham conhecimento local sobre cultivo de papoula, agricultores e famílias. Se a imposição diminuísse e fosse posteriormente descoberta pelos oficiais do Taliban, os shuras suportavam a mesma punição como infratores. Motivado por essa ameaça, os shuras cumpriram seu mandato com uma eficiência rápida e muitas vezes brutal. O bom conhecimento local e os contatos da comunidade dos membros das shuras, além de sua responsabilidade, são os ingredientes ativos que garantiram a implementação ampla e pró-ativa da ação de fiscalização"
(Farrell, 2001).

Essa fatwa ainda está em vigor e os membros do Talibã nunca a quebrariam. É claro que, hoje, já há muito tempo, o Afeganistão ultrapassa o pico de produção de 60.000 hectares de papoulas, que podem produzir 2.800 toneladas de ópio. Isso é cerca de 60% da produção mundial. Um recente relatório da ONU confirma que a produção de ópio despencou no Afeganistão sob o regime talibã, exceto nas áreas controladas pela Aliança do Norte, graças à fatwa do Talibã (Salopek, 2001).

Durante a proibição imposta pelos talibãs, a única fonte funcional de papoulas era o território da Aliança do Norte. O Afeganistão triplicou sua produção quase imediatamente após a invasão dos EUA. Nos altos vales de Badakhshan - uma área controlada pelas milícias sob o controle do ex-presidente Burhannudin Rabbani - o número de acres plantados após a invasão estadunidense passou de 2.458 para 6.342 (Salopek, 2001, entre muitos outros). Os campos sob o controle dos militares dos EUA representaram 83% da produção total afegã. No entanto, a imprensa diz à linha do Pentágono que os talibãs é que estão vendendo as drogas.

Em outubro de 2001, o Escritório das Nações Unidas para o Controle de Drogas e Prevenção ao Crime divulgou sua Pesquisa Anual sobre o cultivo de Papoula no Afeganistão em 2001. Isso confirmou notícias da imprensa de que desde dezembro de 2001 o ópio havia sido totalmente erradicado no país. Os preços subiram, então a Aliança tinha todo o incentivo para crescer mais e mais sob o olhar atento dos soldados estadunidenses arrogantes usando uniformes verdes

Os parágrafos seguintes foram reimpressos do Relatório:

"Em julho de 2000, as autoridades do Talibã [sic] proibiram o cultivo de papoula de ópio em todas as áreas sob seu controle. Em novembro/dezembro de 2000, relatórios do Afeganistão sugeriram vigorosa implementação da proibição pelas autoridades. No início de fevereiro deste ano, o UNDCP [United Nations Office on Drugs and Crime - Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime] realizou uma pesquisa coletiva para obter uma avaliação quantitativa inicial da área de cultivo de papoula e para determinar o grau de aplicação da proibição. Subsequentemente, em maio de 2001, uma delegação de grandes doadores do UNDCP levou a cabo uma missão às principais áreas de cultivo de papoula do Afeganistão para, inter alia, avaliar a eficácia da proibição em primeira mão. Tanto a Pesquisa de Avaliação do Crescimento quanto a Missão de Doadores do UNDCP observaram o sucesso quase total da proibição em eliminar o cultivo de papoula nas áreas controladas pelo Talibã. Esta descoberta foi confirmada pelo Inquérito Anual sobre Papoula.

Cultivo: Uma estimativa de 7.606 hectares (Ha) de papoula de ópio foram cultivados no Afeganistão durante a temporada de 2001. Isso representa uma redução de 91% na área total de papoula em comparação com a estimativa do ano passado de 82.172 Ha. A província de Helmand [sob os talibãs], a maior área de cultivo no ano passado, com 42.853 ha, não registrou nenhum cultivo de papoula na temporada de 2001. Nangarhar [sob a Shura Oriental], a segunda maior província de cultivo no ano passado, com 19.747 hectares, registrou apenas 218 hectares nesse ano. Quase todas as grandes antigas províncias de cultivo de papoula não tinham mais papoula ou apenas áreas relativamente pequenas em cultivo este ano. As reduções são claramente resultado da implementação da proibição da papoula do ópio".
(ONU, 2002)


Não há outra pesquisa que tenha a mão de obra ou os escrúpulos dessa pesquisa realizada por uma equipe da ONU. No entanto, periódicos como o Nation têm manchetes como “Heroína: a droga que torna o Talibã possível”. Assustados com possíveis repercussões, os autores de uma pesquisa sobre a produção de papoulas afirmaram que o sucesso do Talibã em destruir a droga não implica apoioao grupo, já que seu regime é “totalitário e teocrático”.
As drogas eram uma das razões para o malfadado passeio estadunidense no Afeganistão. Nas houve uma outra razão. O Paquistão tornou-se, assim, um importante mediador na construção de dois oleodutos gigantes: a American Unocal e as petrolíferas SaudiDelta procuraram contratos para construir oleodutos no valor de mais de US$4 bilhões. Com a ajuda dos esforços de lobby da Unocal em Washington, os Estados Unidos deram luz verde a Islamabad para que apoiasse o Talibã, introduzido pelo Paquistão como uma força estabilizadora “tradicionalista” no caos do Afeganistão.
A SaudiDelta atuou como mediadora do financiamento e os suprimentos incluíram várias centenas de picapes Toyota. O papel dos EUA era vago até que, em uma entrevista à BBC, Benazir Bhutto admitiu demais, explicando que seu governo havia treinado o Talibã no Paquistão com assistência financeira indireta estadunidense. Muitas vezes, a ignorância dos EUA serviu muito bem aos talibãs.
Normalmente, o capital gosta de um Estado fraco e liberal - uma República - no qual possa penetrar e manipular facilmente. Eles odeiam ditadores e governos militares porque geralmente são patrióticos e, muitas vezes, nacionalizam setores estratégicos. O Afeganistão apresenta um problema muito diferente. A curto prazo, o governo islâmico era suficiente, mas estava claro que deveria abrir caminho para um Estado totalmente secular mais tarde. Governos estáveis ​​como a Arábia Saudita são tolerados porque, apesar de sua estrutura, eles se mostraram muito fáceis de manipular. Isso, no entanto, é uma exceção à regra.


Ranjit Devraj escreve:

"O Afeganistão não só pode desempenhar um papel em hospedar gasodutos conectando a Ásia Central aos mercados internacionais, mas também dispõe de depósitos significativos de petróleo e gás. Durante a década de ocupação do Afeganistão pelos soviéticos, Moscou calculou as reservas de gás natural comprovadas e prováveis do Afeganistão em cerca de cinco trilhões de pés cúbicos e a produção chegou a 275 milhões de pés cúbicos por dia em meados da década de 1970. Mas a sabotagem dos mujaheddin antissoviéticos (combatentes da liberdade) e de grupos rivais na guerra civil que se seguiu à retirada soviética em 1989 praticamente fechou a produção de gás e encerrou acordos para o fornecimento de gás a vários países europeus"
(Devraj, 2001).



 

À medida em que os EUA entram em círculos em níveis cada vez mais profundos de depressão econômica e emocional, o Regime precisa encontrar as duas fontes de unidade nacional e combustível barato. A invasão militar serviria para os dois objetivos. E falhou em ambos. Assim, a economia foi o motivo da invasão do Afeganistão. Poucos negam isso. 

Outro escritor indiano, Sitaram Yechury diz:

"Entre as muitas vantagens da rota do Afeganistão [pipeline]. . . é que terminaria no Mar da Arábia, que é muito mais próximo do que o Golfo Pérsico ou o norte da China, para os principais mercados asiáticos. O gasoduto torna-se crucial para os gigantes do petróleo dos EUA, porque permitiria que eles vendessem seu petróleo em um mercado asiático em expansão e altamente promissor. Os lucros aqui são considerados substancialmente mais altos do que no mercado europeu. Mas a construção dessa rota promissora só pode começar se e quando for formado um governo internacionalmente reconhecido no Afeganistão "
(Yechury, 2001).


Como essas campanhas fracassaram e o Afeganistão se transfere para o Talibã, um grupo sempre popular, o Ocidente adotou lutas que não pôde vencer na Rússia e na China. É uma forma de suicídio nacional: os EUA estão se matando econômica e militarmente.
Não pode haver dúvida quanto à conclusão aqui. É uma conclusão que foi feita muitas vezes antes. Os Estados Unidos morderam muito mais do que podiam mastigar. A propaganda governamental de que os Estados Unidos possuíam militares invencíveis foi usada pelos políticos para proteger seus próprios bolsos, enquanto que as tropas serviram como guarda-costas para a classe dominante. Mais uma vez, os militares arrogantes dos EUA foram derrotados, embora ainda tenham um baú pesado com medalhas.
 


É importante ressaltar que os talibãs provaram ser a alternativa mais racional à reconstrução afegã. Isso porque eles oferecem um regime simples e rigoroso que acabaria com o tráfico de drogas. Eles são bem organizados e bem financiados. Eles são batalha endurecidos e acima de tudo, eles são patriotas lutando contra um invasor. Mais uma vez, o Afeganistão provou ser o cemitério de impérios, sendo os dois últimos a URSS e os EUA. O Vietnã também viu a derrota da França apenas para parecer atraente para os EUA, como se eles tivessem um plano secreto que os franceses não tinham. Em ambos os casos, os militares dos EUA agiram arrogantemente, com a suposição de que eles eram a vanguarda de uma civilização superior. Eles foram rasgados em pedaços. 









Publicado originalmente em: Geopolitica.Ru




Bibliografia e referências:

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- Chossudovsky, Michel (2007): "Heroin is 'Good for Your Health': Occupation Forces support Afghan Narcotics Trade"; Center for Research on Globalization
- Devraj, R (2001): "The Oil Behind Bush and Son's Campaigns"; Asia Times, October 6
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- Yechury, S (2001): "America, Oil and Afghanistan"; The Hindu.


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