quinta-feira, 1 de março de 2018

"A Revolta de Atlas", de Ayn Rand: O "50 Tons de Cinza" do Liberalismo


Por: Vinicius Spiger




Conforme havia comentado há alguns dias, estive lendo e escrevendo sobre a infame trilogia “A Revolta de Atlas”. Finalizando a leitura, penosa, admito eu, deixei a análise de lado por uma série de motivos. Retomei-a recentemente, então decidi compartilhar aqui. Sem delongas, segue o texto.

Falar de “A Revolta de Atlas” implica necessariamente em falar sobre a figura de sua autora Ayn Rand e, principalmente, falar sobre o Objetivismo – com o perdão do mal-uso do termo – a filosofia conceitual que tem por princípio a existência da realidade como independente da consciência humana, acessível por meio da lógica e da razão, implicando, em última instância, na orientação moral da vida pela felicidade do “eu” e pelo puro interesse racional. 

Não se engane quem pensar que esta necessidade é fruto de uma profunda ligação entre a biografia de Rand e sua obra. É, acima de tudo, uma relação imposta pela característica panfletária que permeia cada uma das mais de 1200 páginas deste – novamente, perdão pelo mal-uso do termo – romance, cujo estilo muito mais se assemelha da propaganda do que de qualquer gênero literário. Mas, generosamente concedendo o tratamento da obra como literária, a conclusão não é menos fatal: “A Revolta de Atlas” é uma espécie de “50 tons de cinza” do liberalismo.

A trama pode até soar minimamente atraente, pois lida com distopia e com sociedades extremamente controladoras, elementos que funcionaram em outros livros. Aqui, o cenário é principalmente os Estados Unidos, em algo que se assemelha um presente-futuro, mas nunca clarificado, no qual o governo é cada vez mais onipotente por meio de sua máquina burocrática e de leis regulamentadoras que se embasam na retórica do bem-estar e interesse público. Isto se dá, possivelmente, ainda que não de forma explícita, à uma ascensão na Europa de regimes comunistas e de repúblicas democráticas no Terceiro Mundo. 

Neste ambiente, apresenta-se a família Taggart, uma dinastia empresarial iniciada por um visionário empreendedor que foi pioneiro na construção de linhas de trens americana, e hoje está nas mãos dos irmãos James e Dagny, respectivamente presidente e vice-presidente da instituição. James, por seu lado, é um homem preocupado com causas “nobres”, que permeiam o chique ambiente acadêmico e as discussões políticas, e que favoreçam os desfavorecidos – ou algo do tipo. 

Dagny, uma engenheira, é extremamente centrada na produção e no trabalho efetivo, se preocupando apenas em cumprir seus acordos e em oferecer o melhor possível. Irmão e irmã, obviamente, estarão em constante choque por toda obra e podem ser utilizados para representar todo a tentativa de desenvolver um conflito existencial no livro.

Tentativa de desenvolver um conflito, pois, na verdade, o que existe são duas caricaturas. Assim como simbolicamente existem ideias de um “homem ideal” e de uma “mulher ideal”, Rand tenta em Atlas apresentar sua ideia de “pessoa ideal” e “pessoa medíocre” na figura do empreendedor-produtor e do passivista, caracterizando aquele com todas as virtudes e este com todos os defeitos. 

Este conflito entre produtividade-progresso e humanismo, por sinal, já foi trabalhado de forma magistral por D.H. Lawrance em sua obra-prima em Mulheres Apaixonadas, na qual a relação entre o personagem Gerald Crich e seu pai Thomas Crich centra-se na revolta entre métodos ineficientes, o avanço de minas, o sentimentalismo, o excesso de acolhimento perante os incomodos e problemas de terceiros, e até mesmo o medo da morte do velho humanista. 

Nas mãos de um verdadeiro escritor, tais assuntos rendem frutos muito mais proveitosos, mesmo que como apenas parte de uma trama que se relaciona a símbolos e entendimentos profundos do consciente e do subconsciente das representações ali existentes, nas tensões naturais e até mesmo sexuais de conflitos entre os homens e destes com o mundo. A Rand, falta toda esta virtude e sobra a escrita medíocre.

Os personagens são distribuídos assim em duas personas, que apresentam um espectro de maior ou menor intensidade perto do ideal do grupo. De um lado, todos os empresários e produtores, grupo que inclui também filósofos e artistas, têm a mesma persona: um homem que está apaixonado por sua obra, que assume orgulhosamente um caráter egoísta, que valora transações e que, de forma geral, é representado com um impacto positivo na vida, em maior ou em menor grau, do povo comum – o gado, que nem sempre é capaz de valorar adequadamente. 

Quanto mais associado ao caráter “positivo-objetivista”, mais desenvolvido está o personagem e mais perto da perfeição. Por outro lado, o progressista, dividido entre empresários incompetentes, burocratas e sindicalistas, é sempre um incompetente, incapaz de resolver situações, falsamente interessado pelo bem-estar do próximo, e mortalmente dependente das qualidades do produtor. 
E
stes personagens, em geral, não apresentam desenvolvimento ou tensão nenhuma, sendo sempre só uma ferramenta para engrossar a força do sistema burocrático proposto na distopia. 

O personagem de James, o único que vale destacar deste grupo, é sempre uma pessoa que age da forma mais exagerada possível: reclama, articula, berra, em uma típica personalidade infantil, e nenhuma experiência impacta, positivamente ou negativamente, no desenvolvimento de sua personalidade. Estas repetições, que se repetem em cada um dos personagens, demonstram a qualidade majoritariamente superficial da escrita de Rand.

Outros personagens que surgem na obra são Henry Hank Rearden, dono de uma metalúrgica que cria um metal inovador e extremamente eficiente, representando o self-made man americano, e que se aproxima de Dagny primeiramente por questões econômicas e depois – mal-uso do termo, última vez, prometo – sexuais. O terceiro ponto deste mais-que-óbvio triângulo amoroso é um amigo de infância de Dagny, Francisco d’Anconia, um empresário de respeito que se tornou um playboy despudorado. 

O triângulo amoroso representa bem a cornitude do próprio Objetivismo. Quando a felicidade e o prazer são tomados como objetivos final, há uma permissibilidade e uma indiferença perante coisas como o amor e o envolvimento. Em sua ficção distópica, George Orwell cunhou o termo duplipensar. Rand não cunhou termo nenhum, mas seu panfleto distópico certamente desenvolveu algo bastante peculiar: o duplicorno, um caso de cornitude dupla assumida e até bem aceita. 

Quanto mais produtivo, melhor, afinal de contas. É irônico, portanto, que mesmo com tais permissividades sexuais, não haja nenhuma tensão entre os personagens. Não há nenhuma realidade sexual na obra. O sexo é frio como um cadáver, e parece mais descrito por uma máquina puritana do que por uma pessoa. O orgasmo de “A Revolta de Atlas” é o fruto da igualdade de personas do triângulo amoroso, uma masturbação frustrada. 

Há também um extremamente forçado mistério que ronda a história, sob a forma da não menos forçada pergunta: “Quem é John Galt?”. Não há nenhuma credibilidade no questionamento que se repete pelo livro e que caiu na boca do povo. É só mais uma das coisas forçadas pela falta de qualidade literária da obra. Homens de sucesso desaparecem deixando tudo para trás, sem traços nem rastros, e dificultando cada vez mais o funcionamento do país. 

Estes sumiços levam também ao trabalho investigativo que aproxima Dagny e Hank, que viajam como “amantes proibidos” para lá ou para cá, no melhor estilo das telenovelas mexicanas.

Se há um forçado e decepcionante mistério, a solução não é outra que não uma coisa decepcionante. Tratemos dela, o que implica, necessariamente, em revelar o mistério neste parágrafo. Os “bons homens” sumidos foram convidados a adentrar em uma sociedade isolada, inatingível pelos homens medíocres, uma Atlantis, ocupando funções das mais simples, mas sempre valorando tudo o que fazem – ou seja, sem nada gratuito. 

Há uma clara tentativa de criar uma imagem iniciativa: o mundo trai o homem, que se vê obrigado a “morrer para o mundo” e renascer neste novo local, para um mundo justo, um mundo onde ele não seja mais o Atlas aprisionado pelo peso de carregar os medíocres que dependem dele, mas um Deus do Olimpo que partilha o poder com seus iguais. Quem é John Galt? Só mais um grau da expressão da persona do Objetivismo. 

Outro insuportável fato do livro, e que também reforça a ideia de persona única, é incapacidade de Rand escrever um mísero diálogo em mil e duzentas páginas. Todos os movimentos de fala ou são embate de monólogos ou monólogos mantidos. Isto é responsável por drenar qualquer possibilidade de boa-vontade com a obra. 

O mais panfletário dos diálogos dura um capítulo inteiro, e outros menores, duram cerca de páginas, geralmente sempre reafirmando o mesmo conteúdo publicitário do Objetivismo, que é intensamente repetido, através de apelos emocionais quanto às injustiças sofridas por cada um destes Atlas.

É óbvio que se poderiam citar os acertos em criticar as agendas progressistas e os fanáticos pela burocracia. Mas qualquer validade destas críticas se diluí por falsas associações e por caricaturas grotescas, que criam uma falsa dualidade entre o liberal e o progressista. Espaço para qualquer fio de tradicionalismo ou dissidência de pensamento não existe. Aparentemente, Rand esgotou o espaço de sua última e maior obra com todas as repetições de simplificações grotescas. 

O resultado final de “A Revolta de Atlas” é um livro que, apesar de aclamado e de muitíssimas vendas, não tem qualidade literária relevante nenhuma. Mal escrito, arrastado, repetitivo, sem orgasmos, sobram motivos para a alcunha de “50 tons de cinza do liberalismo”. 

Seja pela falta de sexualidade real, seja pela falta de qualidades como romance, é simples uma obra cujo sucesso só pode ser explicado pela mediocridade humana. Aos amigos, recomendo que sigam longe da escrita de Rand, pura perda de tempo.


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Um comentário:

  1. Também detestei o livro. Mas o aspecto mais importante deste livro é a descrição da revolução socialista. Você pode ver mais sobre isto aqui http://carlosliliane64.wixsite.com/magiaeseriados/o-materialismo

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