sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Uma análise sobre "O Sol e O Estrangeiro", de Albert Camus

Por: Tábita

Albert Camus, grande nome da filosofia do Absurdo


O sol e O Estrangeiro 


“Para corrigir uma indiferença natural, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na História, o sol ensinou-me que a História não é tudo.”  
(Albert Camus) 

A partir dessa frase, abordarei um aspecto primordial, tanto do espaço quanto da própria narrativa, do livro "O Estrangeiro". Lançado em 1942, na França, a obra de Albert Camus trata da vida de Meursault, um homem julgado por um assassinato e condenado à morte por ser indiferente às convenções sociais. Considerado um romance filosófico, faz parte da trilogia de livros que rondam o aspecto principal da filosofia do autor ("O Estrangeiro", "O Mito de Sísifo" e "Calígula"): o absurdo. 

A narrativa passa-se na Argélia, país dos dias quentes e secos e das noites frias onde Camus nasceu e passou sua infância, período marcado por muita pobreza e dificuldade, mas também pelo estabelecimento de uma profunda ligação com a natureza e, principalmente, com o sol. 

Elemento marcante no livro, o sol acompanha o personagem-narrador em todos os momentos mais significativos de sua vida, como no enterro de sua mãe: 


"Parecia-me que o cortejo ia um pouco mais depressa. Em volta de mim, era sempre a mesma paisagem luminosa, inundada de sol. (...) tudo isto, o sol, o cheiro de borracha e de óleo do automóvel, o do verniz e o do incenso, o cansaço de uma noite de insônia, me perturbava o olhar e as ideias." 


Nos encontros com Maria: 


"Não disse nada e eu deixei-me ficar assim: Tinha o céu inteiro nos olhos, e o céu estava azul e dourado. Debaixo da cabeça, sentia o corpo de Maria latejar suavemente. Ficamos muito tempo na boia, meio adormecidos. Quando o sol se tornou forte de mais, ela mergulhou e eu também." 


Durante suas caminhadas pela praia: 


"Andamos muito tempo, ao longo da praia. O sol estava agora esmagador. Durante todo este tempo, havia só o sol e este silêncio, com o leve ruído da nascente e das três notas musicais (...) aí, encontramos os dois Árabes." 


No momento que decidiu o rumo de sua vida: 


"Quando Raimundo me deu o revólver, o sol refletiu-se na arma (...) o Árabe tirou a navalha da algibeira e mostrou-me ao sol. A luz refletiu-se no aço e era como uma longa lâmina faiscante que me atingisse a testa (...) Raimundo, a praia, o banho, a disputa, outra vez a praia, a pequena nascente, o sol e os cinco disparos do revólver." 


E, finalmente, durante seu último insight sobre a vida e sua libertação: 


"Subiam até mim ruídos do campo. Cheiros da noite da terra e do sol refrescavam-me as fontes. A paz maravilhosa deste verão adormecido entrava em mim como uma maré. Neste momento, e no limite da noite, soaram apitos. Anunciavam possivelmente partidas para um mundo que me era para sempre indiferente." 


É durante os encontros com o mar e o sol que Meursault experimenta verdadeiros momentos de conexão com seu eu, quando a luz, as sensações, a temperatura e o clima fazem com que ele se sinta vivo. Por isso, mais do que um elemento espacial, o sol nesta narrativa corresponde à sua simbologia na astrologia: fonte primária de energia, expressão da essência, vontade de consciência, vitalidade. No meio de tanta apatia e indiferença pela vida, os raios solares despertam uma necessidade de reagir no personagem, resultando em ações que de tão inesperadas, beiram o surreal. 

Aspecto chave para compreender mais sobre personalidade de Meursault e a sua visão de mundo, entender também sobre a relevância do sol na obra de Camus é essencial para adentrar no universo deste escritor.


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