terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Por que a economia regional é essencial?

Por: Jean A. G. S. Carvalho


"De volta para casa", quadro de  José Rosário Souza 


O caráter da economia global contemporânea (e da própria lógica de industrialização) atende uma lógica adequada às grandes corporações e conglomerados e à massificação do consumo, mas apresenta uma profunda negligência em relação às questões regionais/locais. A globalização da economia só foi permitida por meio de uma sentença simples: os povos devem consumir aquilo que não produzem e produzir aquilo que não consomem. 

Na obra "Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno", Serge Latouche confronta a lógica econômica global e a globalização, com seu crescimento ilimitado e sua incapacidade (ou o desinteresse) de lidar com questões regionais. Para Serge, é preciso adotar a lógica inversa: "decrescer" (no sentido de reduzir o consumo) e regionalizar. 

Em termos simples, as comunidades devem produzir tudo o que for possível e atender suas próprias necessidades, adquirindo, por meio do comércio, aquilo que não podem fabricar por si mesmas.

O comércio atenderia não uma lógica corporativa e uma designação global, mas sim as necessidades concretas de uma comunidade orgânica, regional, ampliando a capacidade de autonomia real dos povos. Ao suprir suas próprias necessidades, a própria comunidade consegue gerenciar melhor os impactos ambientais e outros efeitos colaterais causados pelo consumo. E é bastante lógico perceber que não há ninguém mais interessado no bem estar do que a própria comunidade, e não CEO's na Times Square. 

A regionalização da economia também é um antídoto contra monopólios, oligopólios e grandes conglomerados. Pequenos e médios empreendimentos são capazes de suprir necessidades regionais porque não são atrelados à lógica de massificação da economia global. Negócios familiares e empreendimentos comunitários produzem uma economia com menor concentração de renda, maior diversificação da oferta de produtos e serviços e menor desigualdade social. É preferível e mais saudável alimentar uma economia pautada por famílias e negócios de bairro do que redes de franquias sem fim e multinacionais.

Uma economia regional significa também uma economia menos suscetível a crises financeiras. O sistema de economia global é encabeçado por alguns centros econômicos, pontos nevrálgicos do emaranhado econômico construído até aqui. A menor oscilação nesses pontos ocasiona crises globais. A economia globalizada é extremamente frágil e sua fragilidade constitui um perigo real e desnecessário para as comunidades que, sem esse atrelamento, estariam muito mais economicamente seguras e menos vulneráveis a crises. 

Há ainda outro fator interessantíssimo para se defender uma economia regional: ela valoriza o trabalho e a riqueza real, e não a especulação. A economia global é essencialmente movida por elementos especulativos e valoriza a prospecção de lucro para acionistas, e não a geração de renda para os trabalhadores. Numa economia regional, há uma ligação mais direta entre o trabalho e o resultado desse trabalho, entre o esforço e a recompensa, porque a interação entre os agentes econômicos é mais direta e menos dependente de fatores externos e de agentes terceiros (que, aliás, não contribuem para a economia em si, mas apenas se apropriam dos resultados globais da geração de riquezas por especulação).

A economia contemporânea é direcionada por instrumentos de financial terror (terror financeiro), como as notas das agências de rating (agências de avaliação). Economias totalmente funcionais e estáveis são derrubadas por questões ideológicas, políticas e por interesses privados - como foi o caso de tentativa de implosão da economia da Islândia em 2015, após uma decisão popular de rever uma dívida injusta com bancos: a economia do país estava bem, mas essa simples decisão motivou avaliações negativas das agências de rating, o que quase desencadeou uma crise. 

Isso significa que economias saudáveis são destruídas ou sabotadas por questões totalmente ilógicas - e as decisões dessas agências são interpretadas pelo mercado como "sinais divinos", quando, na realidade, estão atreladas a interesses totalmente artificiais. Esse fator desmistifica qualquer interpretação liberal da economia como uma força autônoma movida por leis comparáveis às da Física ou da Química, com funcionamento próprio, quando a própria economia é apenas uma construção humana, moldada por humanos.

Adotar economias regionais significa criar estruturas menos vulneráveis a esses instrumentos de terror financeiro. Economias que não estão atreladas ao aparato global e que não dependem de notas de agências de rating e outros organismos improdutivos e essencialmente negativos sofrem menos com suas notas e avaliações. Isso representa proteger economias reais e produtivas de análises e "leis" irracionais e imorais. O sustento de toda uma família e toda uma comunidade é algo sagrado que não pode estar submetido a meia dúzia de "analistas político-econômicos" ou "agências imparciais" claramente despreocupados com a economia real.

A economia global é fria, mecânica e desinteressada, profana. É ilógico esperar qualquer elemento humano por parte de uma instituição anti-humana em si mesma. Uma economia regional é viva, calorosa, receptiva - ela é feita por pessoas reais com as quais você tem contato, e não com executivos em alguma sala distante ou donos de corporações cujos rostos você nunca vai ver. A interação com a economia oriunda da globalização é a interação com a máquina, com o "não", com a crise; a lida com a economia local-regional é a lida com a alma, a carne, a criatividade humana - o espírito.

A lógica da globalização é a lógica e o signo da metrópole, das cidades superpovoadas com massas humanas cada vez mais compactadas. É a compressão e a supressão do homem. O caráter da regionalização é o da valorização do campo, do espaço: o homem capaz de ser humano, de conseguir realizar seus potenciais e digno duma vida melhor, elementos grandemente inviabilizados pela própria estrutura das megalópoles. A regionalização da economia levaria provavelmente a um "êxodo urbano", um retorno ao campo e uma reação positiva aos inchaços populacionais nos grandes centros. E a diminuição desses "grandes centros", nos quais a produção e as ofertas de trabalho são acumuladas, significaria uma distribuição mais adequada das ofertas de trabalho e dos centros produtivos. A globalização concentra, a regionalização distribui - amplia.

O sistema de regionalização econômica, expresso em tantas alternativas e estruturas (indo das inúmeras variações de anarquismo até o comunalismo comunista e as ideias do distributismo), é o sistema de uma lógica simples e inversa ao daquela máxima global: enquanto a globalização impõe o consumo daquilo que não se produz e a produção daquilo que não se consome, a economia regional oferece o consumo daquilo que se produz e a produção daquilo que não se consome, para atender necessidades reais tanto da sua comunidade quanto das comunidades vizinhas. É uma economia que agrega e complementa, não uma anti-economia que expropria, vive de espólios e que exclui.

Economias regionais não são "utopias" ou "alternativas futuras", são estruturas viáveis e plenamente realizáveis. Há exemplos passados e atuais de economias locais-regionais bem-sucedidas. 

Não se trata, inclusive, apenas da reversão dos resultados do trabalho e da lógica industrial, como faz o marxismo em relação à produção capitalista, desejando manter a estrutura de industrialização enquanto se redireciona aquilo que dela se origina, mas sim a negação da própria lógica industrial e da própria lógica de globalização da economia. Suas necessidades podem e devem ser atendidas por você mesmo e por sua comunidade, e não por multinacionais com montadoras instaladas na Ásia e suas sweatshops

As decisões econômicas da sua localidade podem ser feitas localmente. Tudo o que pode ser feito em escala local deve ser feito em escala local. Negar esse imperativo lógico significa negar a própria essência de uma economia realmente real e livre e submeter as forças produtivas a estruturas cada vez mais monopolizantes e centralizadas - e é justamente essa a "economia livre" defendida pelos liberais: uma economia na qual o homem e suas capacidades produtivas são sequestrados por instrumentos cada vez mais agressivos.



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