quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O vácuo interminável de Ideias

Por: Jean A. G. S. Carvalho




Somos filhos de uma Era que nos oferece inúmeras ideologias, slogans, frases panfletárias, opiniões. Há infindáveis "movimentos sociais", coletivos, partidos políticos, grupos e organizações. 

Há inclusive pacotes prontos e embalados de arremedos de ideias - há a Esquerda logo à frente e a Direita virando a esquina. Mas não há Ideia. Para a imensa quantidade de informação e a corrente interminável de opiniões, há a ausência de uma construção real de ideias e pensamentos conexos.

Há interpretações que consideram que o mundo inteiro está errado, dominado ou pelo patriarcado onipresente, ou pelo marxismo cultural, ou por reptilianos - você mesmo pode escolher sua versão da história. Mas há poucas interpretações reais sobre poder, estruturas de comando, funcionamento das instituições, etc.

Você pode encontrar o político ou a figura ideal para irritar seus parentes ou provocar discussões na ceia de Natal, mas dificilmente encontrará algum para solucionar problemas simples vivenciados no seu cotidiano. Com certeza vai achar frases prontas para "vencer um debate", contrariar o professor ou conquistar a simpatia de algum grupo de pessoas, mas talvez jamais encontre uma ideia realmente interessante e abrangente. 

Poderá opinar sobre absolutamente tudo - mas será incapaz de criar uma argumentação real. Terá muito o que copiar e repetir, mas conseguirá realmente produzir ou pensar algo?

A substituição das Ideias pelos logemas (a menor parte de um pensamento) é uma das características da anti-civilização atual. Nela, o que vale é o fragmento e sua utilidade num reflexo temporal curto (um debate, uma discussão numa rede social, uma provocação), e não a construção de algo que exija tempo. Uma Ideia demora para ser pensada, criada, expandida, aprimorada - os logemas são quase que instantâneos. 

A hiper-aceleração do tempo provocada pelo capitalismo faz com que Ideias e atividades reflexivas complexas se tornem inadequadas e incômodas, e o mesmerismo se torne mais interessante e viável (exatamente porque esses fragmentos de pensamento são mais adequados ao ritmo temporal no qual estamos inseridos).

Os debates são reduzidos a questões técnicas - legalizar algo ou não, aprovar algo ou não, defender algo ou não -, e nunca aos sentidos mais profundos, as raízes do pensamento e as estruturas mais abrangentes. É a substituição do quadro maior e do panorama no horizonte pela visão obtida pelo buraco duma fechadura.

A própria filosofia tem sido inadvertida e irresponsavelmente reduzida a um arremedo de autoajuda, repetições, raciocínios circulares e frases doces. Os "filósofos" de nossa época não defendem Ideias, mas sim fragmentos e simplificações absurdas dos fenômenos humanos, revestindo suas análises com um verniz de uma profundidade tão grande quanto a de um pires. São vendedores cuja função é oferecer uma mercadoria agradável a seus públicos. 

Não há confronto real de ideias e o embate saudável entre propostas. Há a imposição: tudo se divide entre o "nós" e o "resto" (e você pode reduzir todos os oponentes a meros "fascistas" ou "comunistas", ou o que quer que seja). O debate tomou um caráter incrivelmente personalista: o que importa é atingir um interlocutor, e não o projeto em si do qual ele é portador. 

Essa é uma atividade anti-humana. Toda a capacidade cognitiva da qual somos portadores é reduzida a pequenas linhas de comando e scripts prontos. A capacidade intelectiva é substituída pelo adestramento e a difusão de comandos básicos e elementos incrivelmente reduzidos. O cérebro humano é limitado a um prompt de comandos, um quadro onde alguém escreve as linhas de código e programa o que deve ser pensado ou não, o que deve ser questionado ou não. É o máximo que se deve permitir às pessoas: o não-pensar. Afinal, há outros que podem fazer isso por elas. 

Nós devemos abandonar a redução aos slogans e o uso dos logemas e retornar à verdadeira atividade reflexiva. Devemos abandonar os meros debates técnicos e pensar a estrutura humana e o cerne estrutural das várias questões, ao invés dos meros refluxos ou efeitos colaterais.


  
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