quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O Nacionalismo no Terceiro Mundo e a Ideia da Quarta Teoria Política

Por: Paul Antonopoulos 
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho


Cartaz mexicano revolucionário



Na contemporaneidade política, a luta anti-imperialista possui um caráter radicalmente terceiro-mundista, patriótico, anti-sistêmico e multipolar. Os blocos políticos subjacentes aos conflitos atuais não consistem mais naqueles velhos esquemas ideológicos que disputaram a hegemonia durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria.

Colocando de outro modo, a política concreta atual não é mais expressa por meio duma tensão tripartite entre o liberalismo estadunidense, o comunismo soviético e o fascismo ítalo-germânico - nem mesmo entre um dualismo dum bloco capitalista versus um bloco socialista.  

Com a vitória máxima do liberalismo estadunidense sobre seus oponentes anti-liberais, a hegemonia global mudou da escala virtual para a escala real: a ideologia expansionista liderada pelos EUA, do Ocidente, e materialmente apoiada pelo poder estratégico-militar da OTAN, estabelecendo seu projeto de dominação mundial: aumentando a exportação de monopólios para os países subdesenvolvidos com a intenção de aproveitar mão de obra barata e maximizar os lucros dos capitalistas; fazendo intervenções militares em Estados-nação estratégicos; promovendo revoluções coloridas para derrubar governos inconvenientes; instrumentalizando grupos terroristas no Oriente Médio pelo mesmo propósito; criando sansões econômicas unilaterais; controlar o aparato midiático-cultural com o objetivo de promover a democracia liberal moderna como único modelo de organização política possível e aplicável a todos os povos do planeta: a criminalização sub-reptícia de todos aqueles que se opõem a esse modelo. 

Isso foi a proclamação do imperativo da Economia (e do dogmatismo liberal) como Destino. Foi o Fim da História, como dito por Francis Fukuyama e por outros neoconservadores estadunidenses. Mas a história realmente acabou?

Conforme o falecido comandante Hugo Chávez observou, no mesmo ano no qual Francis Fukuyama publicou seu ensaio intitulado "O Fim da História", em 1989, houve uma revolta massiva conduzida por setores populares de Caracas contra um pacote de ajustes neoliberais estruturais, imposto pelo então presidente Carlos Andrés Pérez, que reagiu aos protestos com violência, matando centenas de venezuelanos. Essa foi a rebelião do povo ao ver seu destino sendo lançado na vala da política burguesa.

Revoltas similares aconteceram ao redor do mundo nos anos subsequentes, com ênfase na Revolta Zapatista de 1994. Nesse mesmo veio, novas forças políticas surgiram para lidar com a tirania do Ocidente global e, como fogueiras, queimar as várias formas de dominação imperialista.

Apesar de algumas dessas forças datarem do período pré-hegemonia ocidental, e mesmo tendo sido influenciadas em vários níveis por ideologias derrotadas pelo liberalismo, essas forças não se encaixam no critério ideográfico das ideologias modernas anti-liberais.

Elas são sínteses, reconfigurações, transmutações, fusões, ideologias subversivas sui generis que possuem algo em comum: o nacionalismo do Terceiro Mundo, o ímpeto patriótico da liberação nacional e o compartilhamento dum inimigo em comum.  

Estamos falando sobre ideologias como o Chavismo na Venezuela, indubitavelmente uma doutrina socialista patriótica, baseada na criatividade política de Hugo Chávez, que conseguiu forçar uma Quarta Via em relação ao capitalismo liberal, ao comunismo e ao nacionalismo chauvinista, reconciliando suas influências peronistas e velasquistas com a perspectiva de um Estado Comunal baseado na autonomia produtiva dos trabalhadores.

Seu propósito? Como sublinhado em seu "Plan de la Patria", estabelecer uma ordem mundial multipolar e pluricêntrica e efetivamente construir um socialismo baseado em valores patrióticos na Venezuela.

Podemos falar também da Jamahiriya de Gaddafi, uma doutrina política influenciada pelas ideologias da Segunda e da Terceira vias, mas que também procura forjar uma Quarta Via em relação a essas: enquanto reconhece a atual luta de classes e a preeminência da nação, Gaddafi conferiu ao povo, e somente a ele, a organização em torno de Comitês Populares, o principal agente histórico e o sujeito político central.

Não a classe trabalhadora em si mesma ou a nação, mas sim o Povo. O objetivo dele? Criar um Estado Social baseado numa democracia orgânica, num socialismo natural e na Tradição (que ele identificava em seu "Livro Verde" como a lei natural que governa as sociedades, mesmo antes da emergência das classes).

Isso sem falar no Hezbollah, no Líbano. Uma organização xiita e, assim, identitária: anti-imperialista, anti-capitalista, uma das maiores pedras no sapato do Ocidente no Oriente Médio. No manifesto deles, conclamam todos aqueles que são oprimidos no Líbano e no mundo a empunhar armas contra o vírus do estadunidismo

O objetivo deles? Libertar os muçulmanos libaneses de governos fantoches e estabelecer um Estado baseado em valores islâmicos e anticapitalistas, e numa justiça anti-usuária. Poderíamos até mesmo mencionar a doutrina Baath na Síria, a menos representativa dentro do nacionalismo pan-arábico, nascida duma síntese ideológica nacional-revolucionária, influenciada pelo comunismo e pela Terceira Via, como um socialismo patriótico autêntico voltado aos árabes, rejeitando tando o marxismo quanto o chauvinismo pequeno-burguês.

Em suma, mesmo depois da queda dos regimes comunistas e nacionalistas, a luta continua e foi modulada por outra lógica. Não mais a lógica das ideologias modernas, mas sim a métrica da realpolitik; então, hoje, a única luta real é aquela definida entre os povos do mundo, com suas diferentes matrizes, contra o globalismo, representando os interesses de longo prazo do Ocidente. Ou seja, a luta entre os dissidentes (a periferia) e os conformistas (o centro).

A resistência ao status quo nos tempos contemporâneos é a identidade e, aqui em nossa terra, isso acontece naturalmente no Terceiro Mundo. O nacionalismo do Terceiro Mundo é a instanciação da ideia da Quarta Teoria Política na prática dos chamados países de "Terceiro Mundo".

Só há duas opções. Só há dois lados tomando uma posição. Se você tiver uma, estará automaticamente contra a outra, e vice-versa. Faça sua opção: nós já escolhemos a nossa. O destino histórico do Brasil, enquanto Pátria, depende diametralmente do lado com o qual vai se posicionar: ou o lado da Conformidade, ou o da Dissenso. Se escolher o da conformidade, ele não vai mais existir enquanto um projeto - estará condenado a ser uma eterna colônia de banqueiros.

Mas, se escolher o Dissenso, a soberania, assumindo seu próprio destino histórico, então terá de trilhar o caminho da Revolução, destruindo e criminalizado a elite econômica e retirando todos os direitos de representação política das aspirações dos oligarcas. 

Precisamos de um novo Vargas, uma personalidade que zomba, que caminha com sinceridade de coração, com desprezo honesto pelo processo político formal que existe no Brasil. Esse deve ser nosso caminho para a Dissensão.



Vida longa à solidariedade antiglobalista internacional!

Vida longa à resistência dos povos! 





Postado originalmente em: 4pt.su




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