terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

"Não há provas de que Assad tenha usado gás contra civis", diz Jamis Mattis, Secretário de Defesa dos EUA

Por: Ian Wilkie*
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho 
Jamis Mattis, Secretário de Defesa dos EUA, admitiu não haver provas substanciais de que Bashar al-Assad tenha usado armas químicas contra civis (fonte da foto: Yuri Gripas/Reuters)

Jamis Mattis, Secretário de Defesa dos EUA, admite não haver provas de que Assad tenha usado gás contra a população civil
Perdida em meio ao falatório hiper-politizado em torno do Memorando de Nunes e do Dossiê de Steele, estava a declaração impressionante do Secretário de Defesa James Mattis de que os EUA não têm "nenhuma evidência" de que o governo sírio tenha usado armas químicas contra o próprio povo.
Esta afirmação aparece diante do Memorando da Casa Branca (NSC), que foi rapidamente produzido e desclassificado para justificar um ataque estadunidense com mísseis Tomahawk contra a base aérea de Shayrat, na Síria.
Mattis não ofereceu qualificações temporais, o que significa que tanto o evento de 2017 em Khan Sheikhoun quanto a tragédia de 2013 em Ghouta são casos que não estão resolvidos aos olhos do Departamento de Defesa e da Agência de Inteligência de Defesa dos Estado Unidos.
Mattis continuou com o reconhecimento de que "grupos de ajuda e afins" forneceram provas e relatórios, mas deixaram de denunciar o presidente Assad como sendo o culpado.
Houve vítimas de intoxicação por organofosfato em ambos os casos, e isso é certo. Mas os Estados Unidos acusaram Assad como tendo responsabilidade direta pelos ataques com gás Sarin, e chegou até mesmo a culpar a Rússia pela tragédia de Khan Sheikhoun.
Agora, o próprio chefe militar dos EUA disse no registro que não há evidências para sustentar esta conclusão. Ao fazê-lo, Mattis tacitamente impugnou os intervencionistas que foram os verdadeiros responsáveis por empurrar por duas vezes a narrativa de que Assad era o culpado, sem provas de apoio suficientes para sustentar a afirmação, pelo menos aos olhos do Pentágono.
Essa dissonânbcia entre a Casa Branca e o Departamento de Defesa é especialmente problemática quando vista contra o coro dos especialistas em armas de destruição em massa (WMD - Weapons of Mass Destruction), que têm questionado as narrativas da Casa Branca (tanto de Obama quanto de Trump) sobre armas químicas na Síria, praticamente desde o momento no qual esses "eventos ordenados por Assad" ocorreram. 
Especialistas em armas químicas sérios e experientes e investigadores como Hans Blix, Scott Ritter, Gareth Porter e Theodore Postol, todos eles, lançaram dúvidas sobre as narrativas estadunidenses "oficiais" que afirmavam que o presidente Assad usou gás Sarin.
Todos esses analistas se focaram nos aspectos técnicos dos dois ataques e não encontraram provas consistentes para fazer afirmações sobre o uso de munições de gás Sarin de qualidade padrão internacional.
Em 2013, no evento de Ghouta por exemplo, foram empregados foguetes de fabricação caseira do tipo mais usado pelos insurgentes. O Memorando da Casa Branca sobre Khan Sheikhoun parecia se apoiar grandemente no testemunho dos "Capacetes Brancos" na Síria, que filmaram as cenas e tiveram contato com as supostas vítimas de gás Sarin - e que não sofreram nenhum efeito negativo com o gás.
De igual modo, esses mesmos atores foram filmados portando armas químicas e uniformes de treinamento ao redor do suposto "ponto de impacto" em Khan Sheikhoun, algo que torna o testemunho deles (e suas amostras) bastante suspeito. Um uniforme de treinamento não oferece proteção nenhuma contra esse tipo de agente químico, e essas pessoas estariam todas mortas caso realmente tivessem realmente entrado em contato com armamentos militares de Sarin.
Armas químicas são horrendas e ilegais, e ninguém sabe melhor sobre isso do que Carla Del Ponte. Contudo, ela não foi capaz de concretizar seu U.N. Joint Investigative Mechanism  [Mecanismo Investigativo Conjunto da ONU] para operar na Síria, retirando-se em protesto contra a recusa dos Estados Unidos para investigar plenamente as alegações sobre o uso de armas químicas por parte dos "rebeldes" (jihadistas) aliados ao esforço estadunidense para derrubar o presidente Assad (incluindo o uso de gás Sarin por parte de rebeldes anti-Assad).
O fato de que investigadores da ONU estiveram na Síria quando o evento com armas químicas acontecem em Khan Sheikhoun, ocorrido em abril de 2017, torna altamente duvidoso o discurso de que Assad teria dado ordens para o uso de gás Sarin justamente naquela época. O senso comum sugere que Assad teria escolhido qualquer outra época, a não ser aquela, para usar um armamento banido que ele concordou em destruir e jamais utilizar.
Além do mais, ele estaria colocando em risco o apoio recebido da Rússia caso o transformassem num criminoso de guerra e retirassem a ajuda ao regime sírio. Taticamente, para mim, como soldado reformado, não faria sentido que qualquer um atacasse intencionalmente alvos civis e crianças nessas condições, como os "Capacetes Brancos" afirmam ter ocorrido.
Há uma análise convincente de Gareth Porter, sugerindo que a fosfina poderia ter sido lançada por munição aérea atingindo um depósito químico, já que as nuvens químicas e as casualidades (apesar de semelhantes ao organofosfato em certos aspectos) não parecem similares ao MilSpec Sarin, particularmente às bombas russas carregadas com Sarin, que grupos "independentes" insistem terem sido disparadas.
A credibilidade dos EUA foi danificada por Colin Powell nas Nações Unidas em 2003, após ter acusado falsamente Saddam Husein de possuir unidades laboratoriais móveis dispondo de anthrax. 
Logo à frente, em 2017, encontramos Nikki Haley numa situação inconfortavelmente similar no Conselho de Segurança da ONU, pedindo por uma intervenção contra outro chefe de Estado não-ocidental baseado em evidências fracas e infundadas.
Agora, o Secretário Mattis jogou lenha numa fogueira acesa pelos questionadores da propaganda das armas de destruição em massa, ao retroativamente convocar razão à questão do ataque de mísseis de cruzeiro realizado pelos EUA.
Embora de forma alguma isso sirva para negar o horror daquilo que ocorreu contra civis inocentes na Síria, é hora de os EUA parar de disparar primeiro para só fazer perguntas depois.

*Ian Wilkie é um advogado de Direito Internacional, veterano dos EUA e adjudicatário reformado da comunidade de Inteligência.

Disponível originalmente em: Newsweek.com
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