quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Movimento Hippie: o declínio espiritual do Ocidente com um toque New Age

Por: Jean A. G. S. Carvalho


Hippies no "Altamont Free Concert", em 1969


Festivais de música, alegria, descontração, paz e amor: essa é a imagem dos hippies. As correntes contra-culturais hippies são comumente associadas à rebeldia civil, ao enfrentamento contra o establishment e o questionamento da ordem vigente e do capitalismo. Entretanto, toda a subcultura Hippie é um arremedo de deturpações de filosofias orientais, wishful thinking, slogans vazios, desenraizamento, anti-tradicionalismo e um profundo esvaziamento espiritual.

Primeiro, é preciso entender o contexto do surgimento do chamado "movimento hippie" (que se divide em várias correntes). Nos anos 60, os traumas da Guerra do Vietnã e o assassinato do presidente John F. Kennedy criaram um sentimento coletivo de desconfiança irremediável com as instituições governamentais. Movimentos questionadores começaram a proliferar, e é nesse veio que o movimento hippie surgiu. Um organismo pretensamente "espiritual" foi originado por questões puramente materiais, políticas, ideológicas. 

Assim, é errado tratar o movimento hippie como uma iniciativa "espiritual" - ela deve ser encarada exatamente como aquilo que é: descontentamento civil resultante da decadência social. Todos os elementos "espirituais" contidos nessa contra-cultura/subcultura são deturpações francas e meros arremedos, sombras fracas dos significados espirituais reais. 

Todo o verniz "espiritualista" do movimento hippie foi construído exatamente como uma ferramenta de reação contra a sociedade, de ruptura com a moral social pactuada e qualquer noção de hierarquia. A essência do movimento hippie foi e é a ruptura com absolutamente todos os fatores de limitação da experiência humana, algo pós-moderno em essência - o que não encontra nenhum amparo em filosofias orientais ou tradições religiosas das quais os hippies se dizem beneficiários ou por elas inspirados. 

A "espiritualidade" hippie é uma mera forma de agressão contra os preceitos morais e "tabus" sociais. É uma forma de destruição da moral coletiva e a total individuação da moralidade, algo expressamente liberal em si mesmo. As noções morais e éticas, os conceitos de certo e errado não são dados por um ordenamento religioso expresso cujo objetivo é a elevação espiritual do homem e o ordenamento social sadio, mas puramente pelos desejos hedonistas do próprio indivíduo. 

O movimento hippie é a consolidação, no Ocidente, da rejeição de todas as noções morais coletivas e a centralização existencial no "eu", no indivíduo. Todas as regras coletivas devem ser desfeitas, todos os pactos sociais devem ser destruídos e só o indivíduo deve restar como árbitro incontestável, guiado exclusivamente por seus próprios desejos.

A decadência espiritual, cultural e filosófica do Ocidente certamente não começou com o movimento hippie e não é possível culpá-los como os "responsáveis" por essa derrocada. Mas é totalmente razoável concluir que a contra-cultura hippie conseguiu condensar, catalizar e reunir em si mesma absolutamente todos os elementos de pura decadência e niilismo presentes na Modernidade, intensificando-os para a Pós-Modernidade e aprofundando as noções de pós-humanismo e pós-civilização.

O movimento hippie foi a ponta de lança para todas as noções New Age ("Nova Era"). Essas noções são, em si mesmas, a destruição das identidades espirituais regionais e a busca por uma pseudo-espiritualidade universal, uma "conexão total" capaz de abrir a transição desta Era para a próxima (a "Era de Aquário" - Age of Aquarius).

É quase impossível, aliás, distinguir o movimento New Age da contracultura Hippie. Aquele primeiro surgiu também nos anos 1960, como uma fusão de escolas metafísicas, ritos animistas, correntes paracientíficas, "vivências espiritualistas" e uma interconexão entre todas as religiões do mundo numa só "espiritualidade universal". 

É preciso salientar que, embora os toques dados a essas visões sejam "orientalistas", trata-se de uma leitura puramente pós-moderna e ocidental da religião, da espiritualidade e da conexão com o transcendental. Assim como o liberalismo econômico procura uma conexão mundial mercadológica (por uma pseudo-economia), o movimento hippie e a corrente New Age fomentam a destruição ou fagocitação de todas as identidades reunidas num amálgama disforme. É, essencialmente, um "imperialismo espiritual", um "globalismo cultural".

Os próprios movimentos hippie e New Age se orientam exatamente em oposição às religiões organizadas, as religiões institucionalizadas - embora falsamente abram exceções às tradições orientais. É a oposição a qualquer ortodoxia e qualquer noção tradicional/conservadora. 

Podemos interpretar, seguramente, todo o movimento hippie como uma via "espiritual" de "Mão Esquerda", um confrontamento contra as noções tradicionais para "acelerar a Escatologia da Nova Era de Aquários" - acelerar a transição para a "Nova Era de Paz Global e Conexão Espiritual Universal".

A pseudo-espiritualidade hippie é baseada exclusivamente em deturpações filosóficas, como citado anteriormente (várias vezes, inclusive, justamente para reforçar esse ponto que é crucial), uma "espiritualidade" pautada meramente em sensações, emoções, "experiências". 

É justamente por isso que o uso de drogas é fortemente motivado pelos hippies, especialmente o de entorpecentes psicotrópicos, com forte ação sobre o sistema nervoso. Esse uso generalizado de drogas é fundamentado, pelos hippies, com base em tradições indígenas com uso de enteógenos. Mas, como absolutamente todos os outros elementos de cunho "espiritual", não há nenhuma semelhança entre os ritos com enteógenos e a lida dos hippies com as drogas - ela está, acima de tudo, associado ao prazer individual. Todo o restante não passa de verniz para justificar isso. 

Aliás, o movimento hippie trabalhou e trabalha com uma profunda descaracterização dos principais elementos da existência humana e sua redução a níveis simplórios nos quias, mais uma vez, apenas o próprio indivíduo e seus prazeres são levados em conta. A sexualidade, para os hippies, é a busca pelo prazer - e, aliás, eles não possuem nenhum condicionante para isso. 

Hippies defendiam (e defendem), dentre outras coisas, o sexo com animais, plantas, crianças e absolutamente qualquer coisa. Imagine a pior das parafilias: ela encontra defesa na "cosmovisão" hippie. E, mais uma vez, vale ressaltar: todas as justificativas "espirituais" ou "filosóficas" dadas por esse movimento não passam de justificação dos comportamentos mais hediondos possíveis. "Não deve haver absolutamente nenhuma restrição em relação ao sexo", esse é seu mantra.

A paz (ou melhor, o pacifismo) pelo entorpecimento coletivo, a sexualidade bestializada, o pseudo-ativismo político, a contestação pela contestação e a individuação completa de todas as facetas da existência humana: essa é uma síntese adequada para tudo aquilo que o movimento hippie representa.

Podemos correlacionar o auge do movimento hippie com o auge da decadência espiritual no Ocidente. É um fenômeno que reflete puramente o desenraizamento, a destruição das identidades e a rejeição das noções espirituais tradicionais no Oeste. É o fruto do hedonismo e da ruptura com o legado de gerações passadas. A pseudo-espiritualidade vazia do movimento hippie reflete o próprio vazio existencial e civilizacional vivido pela maior parte dos ocidentais.

O movimento hippie não só rejeitou as tradições espirituais do Ocidente, como, tentando substituí-las, deturpou e desfigurou as filosofias do Oriente, abduzindo-as e moldando-as de acordo com interesses puramente cosmopolitas e individuais. Rejeitando os pactos morais sociais e as noções coletivas, os hippies não foram capazes de oferecer nada em seu lugar senão um profundo vazio existencial, uma pseudo-espiritualidade e uma visão essencialmente niilista, travestida de "elevação existencial".


Abbie Hoffman e Anita Kushner, ativistas político-sociais, ao lado de Linn House, no centro, o líder da Igreja Neo-Americana, devotada ao uso de drogas psicodélicas. Cerimônia de casamento de Abbie e Anita no Central Park, Nova Iorque, em 1967. Os anos 1960 foram o início catalisador da pseudo-espiritualidade New Age


Como um produto essencialmente estadunidense, a contra-cultura hippie pode ser enxergada como uma ferramenta mesmo de destruição das demais identidades culturais ao redor do globo, a apropriação indevida dos elementos de outras civilizações e a desfiguração desses elementos em torno de uma forma aberrante em si mesma. 

E, mesmo que não seja esse o objetivo expresso da maioria dos ditos adeptos dessa visão, é exatamente isso o que ela provoca. O apelo do movimento hippie sobre os mais jovens, tanto no início do movimento nos anos 1960 quanto ainda na modernidade, é um dos sinais de profunda desidentificação das gerações mais novas e seu encaminhamento a vias totalmente estéreis. 

Essas gerações, ainda respondendo a um elemento do Chaos e não totalmente inseridas no Logos ou na Techné, buscam saciar uma sede legítima por uma espiritualidade e uma cosmovisão abrangente, algo essencialmente ausente nos nossos dias. Entretanto, aquilo que foi engatilhado pelo movimento New Age não sacia essa sede: é um falso oásis, uma miragem no deserto. 

Talvez, a única "boa ação" de toda a corrente hippie tenha sido a luta contra a Guerra no Vietnã. Mas esse é um ponto que, sozinho, não consegue equilibrar a balança para um saldo positivo em favor dos hippies, além de não compensar o abismo cultural que essa corrente apenas ajudou a aprofundar.

Podemos correlacionar o movimento hippie nos Estados Unidos e as manifestações de 1968 em Paris. O gatilho disparado pelos hippies antecedeu os confrontos em Paris - talvez, o primeiro tenha dado substância "subjetiva" e "informal" aos protestos de maio de 1968, enquanto que as novas ideologias criadas na França podem ser vistas como respostas mais "objetivas" e um prolongamento mais "acadêmico" daquilo que havia sido iniciado nos EUA. Mesmo as leituras de filósofos como Michel Foucalt são profundamente semelhantes à visão hippie. 

E, tanto o movimento hippie do início dos anos 60 quanto os manifestos parisienses de 68 representaram a fragmentação da Esquerda e o surgimento da "Nova Esquerda" (New Left): a substituição da Classe pelo Indivíduo e a desmobilização das massas trabalhadores. Aqui, o liberalismo agindo a nível econômico e psicológico.

Há um profundo caráter, inclusive, de deturpação e captura dos elementos indígenas das populações aborígines dos Estados Unidos (os índios norte-americanos), já essencialmente massacradas física e culturalmente. Trata-se de uma apropriação dos filhos da burguesia estadunidense (o que compunha essencialmente o movimento hippie) de elementos indígenas, um traço claro de imperialismo cultural (ou, como Aníbal Quijano diz, de colonialidade do saber).

Embora o movimento hippie tenha se enfraquecido consideravelmente enquanto organismo de mobilização e enfrentamento, as reverberações daquilo que se iniciou nos anos 1960 ainda continuam ativas e suas manifestações talvez sejam ainda mais nocivas, justamente porque não estão mais restritas exclusivamente ao submundo hippie, mas plasmadas em praticamente todos os nichos atuais. 

Ou seja: os elementos considerados aqui não são restritos aos que se intitulam como "hippies", mas estão presentes em outras subculturas e inúmeros outros nichos, mesmo que não fazendo uma associação consciente entre si e a contracultura New Age.

Embora a tribo hippie pareça oferecer um estilo de vida "alternativo" e uma independência em relação a um sistema injusto, seus efeitos são justamente o do não-preenchimento de lapsos e vácuos e o agravamento dos mesmos problemas que pretende solucionar. A ruptura com um pacto social injusto é feita não para um pacto coletivo melhor e moralmente mais saudável, mas justamente pela ausência de qualquer tipo de moralidade coletiva - esse é um dos cernes de toda a profusão hippie.

A "contracultura" hippie não é mais um movimento de contra-cultura, mas a própria "cultura" vigente e a própria formatação social atual: individualismo puro e simples, gentrificação, desidentificação e desenraizamento.


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