terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A violência social em "Rei Lear", de William Shakespeare

Por: Devid Lemire
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho




"Cordelia na Côrte do Rei Lear", quadro de Sir John Gilbert, 1873




A tragédia "Rei Lear", de Shakespeare, contudo, não é só sobre um homem desiludido pelo poder. É também a tragédia de uma civilização liberal fatalmente fracassada, que é inerentemente criminosa, descontrolada e brutal (e, também, incapaz de mudar).

Dos tempos de William Shakespeare até o presente, cidadãos comuns dos Estados têm se horrorizado com os contos expondo as intrigas, as conspirações políticas e a violência das elites. Todas essas coisas são naturais, tanto em civilizações conservadores quando liberais [progressistas]. Enquanto houver elites que estão acima da lei, o espectro de instabilidade social e caos assombrará os sonhos da sociedade.

William Shakespeare, o grande dramaturgo da Renascença inglesa, conhecia muito bem o medo da anarquia. Diz-se que ele era obcecado com a ideia de estabilidade, tendo entrelaçado o tema da violência social através de várias de suas maiores peças. "Rei Lear", considerado por muitos como a maior tragédia de Shakespeare, retrata a violência social duma maneira radical.

A peça não apresenta as massas saqueando, massas bestializadas sedentas pelo sangue de seus superiores naturais. Ao invés disso, a injúria parte dos próprios ditos superiores. São o cavaleiro Edmund, a Duquesa de Cornwall e Albany e, é claro, o próprio rei Lear que se comportam como bestas irracionais. Esse é o ponto de Shakespeare. É a posição injustificada do cavaleiro, do duque, o rei que somem com a humanidade do homem e fazem dele um animal feroz de violência, engano e luxúria.   


"O papel de poder, na Modernidade (ou seja, a sociedade acima de todas as leis, liberal [progressista]), exige violência, opressão organizada e conspiração na busca da manutenção da 'estabilidade'. Shakespeare torna essa verdade dolorosa em algo tragicamente claro em sua grande peça 'Rei Lear'".


O primeiro personagem principal em "Rei Lear" a ofuscar a decência com sua fome, duplicidade e homicídio é o cavaleiro-vilão Edmund. Filho ilegítimo do Conde de Gloucester, Edmundo viveu toda sua vida num terreno intermediário perigoso. Pior do que um plebeu, no sentido de que ele é produto duma união sexual ilegítima, mas ainda assim melhor do que seu cavaleiro bacharel médio, no sentido de que ele é obviamente muito mais amado e protegido pelo pai, o Conde, o "patife" e "bastardo" Edmund se aproveita das vantagens instantâneas de seu status peculiar. 

Primeiro, ele rejeita absolutamente todas relações sociais "costumeiras" em relação ao governo e declara que só a "Natureza" deve guiar seu comportamento. Em outras palavras, Edmund só viverá sob uma única "lei": a lei do "mate ou seja morto", da floresta. Ele faz isso para "crescer", para "prosperar". Ele, então, entra numa série de intrigas por meio da falsidade e da manipulação, através das quais seu meio-irmão, seu pai e, eventualmente, até mesmo a família real são enlaçados e destruídos.

E, através disso, Edmund cresce e prospera. Ele é formalmente adotado por Gloucester e, então, herda seu condado, se torna o vassalo de Cornwall e, finalmente, comanda exércitos e aspira ao trono de toda a Bretanha. 

Como ela tão caracteristicamente observa no Ato V, "ter uma mente macia não faz de ti uma espada". É por meio da ganância totalmente irrestrita, da desonestidade e da violência que Edmund avança, indo de um "bastardo" ao "melhor dos camaradas". Aos olhos de Edmund, isso tudo é apenas natural. A civilização liberal, injustificada e que está acima das leis, na qual ele vive, faz com que isso seja natural.  

Assim como Edmund é encorajado pela natureza da sociedade moderna inicial a esquematizar seu meio de chegar ao topo, o mesmo ocorre com as duas filhas mais velhas do rei Lear, Goneril e Regan. 

Assim que receberam partes iguais do reino do pai ("para  que conflitos futuros possam ser evitados"), Goneril e Regan começaram a se perseguir como bestas de rapina. Mal começa o Ato II e o primeiro sussurro de guerra é revelado: "divida os duques de Cornwall e Albany". Essa "divisão entre os duques" se agrava no decorrer da peça, até que Regan diz sobre a irmã Goneril: "jamais a suportarei".

Regan procura destruir a irmã. Ela precisa fazer isso. Caso contrário, ela vai temer para sempre que Goneril a destrua. Similarmente, as duas irmãs inventam uma "conspiração de morte" contra o próprio pai. Novamente, fazer outra coisa significaria convidar Lear a "resumir a forma" de rei e se vingar contra as filhas.

Quando Goneril e Regan descobrem que o poder delas é ameaçado por Cordelia (que, unida ao rei Lear, seria uma oponente bastante formidável), elas atacam "traidores" por todos os lados. Elas prendem o conde de Gloucester e ferozmente arrancam os olhos dele. Regan enfia uma adaga nas costas de um serviçal que contesta os maus tratos contra o conde. Mais tarde, Goneril esfaqueia a irmã nas costas com um frasco de veneno mortal.


"Esse paroxismo de violência, que eventualmente consome a todos, exceto dois dos personagens principais da peça, é causado pela própria natureza da sociedade em si mesma. Para permanecer de forma segura e estavelmente superior, é preciso almejar o poder, conspirar e matar."


Todo o espasmo de golpes e contra-golpes na peça ocorre num espaço de tempo grotescamente curto. Talvez três semanas se passam entre o começo da ação e seu fim. O único personagem principal, contudo, que desfrutou de sua posição e de poder por mais tempo não foi ninguém mais que o próprio rei Lear.

Com a idade de "oitenta anos e além", o rei ganhou e manteve poder durante muitas décadas. A peça é explícita sobre como ele conseguiu isso. O rei Lear protege seu longo poder atacando instantânea e viciosamente todas as ameaças percebidas. 

Primeiro, ele renega sua filha favorita, Cordelia, por ter se recusado a entrar no famoso concurso amoroso descrito na peça. Então, ele bane o conde de Kent por contradizê-lo. Depois, ele ataca o rei da França por não abandonar seu pedido pela mão de Cordelia em casamento. Então, ele ameaça suas outras duas filhas, dizendo para Goneril que ele gostaria de "esfolar o rosto de lobo" dela, e a Regan que suas "vinganças [contra ela] serão os terrores da Terra!".

Mesmo no fim da peça, vestígios da personalidade violenta e faminta por poder do rei Lear permanecem. Quando aqueles que o desprezaram são mencionados, tudo o que ele pode dizer é "matar, matar, matar, matar, matar, matar!". Lear deve expurgar todos os desafios à sua autoridade. Ele explica este imperativo no início da peça, quando declara ao conde de Kent:



"Thou hast sought to make us break our vows,
Which we durst never yet, and with strained pride,
To come betwixt our sentence and our power,
Which nor our nature nor our place can bear,
Our potency made good, take thy reward" 
[Procuraste fazer-nos quebrar nossos votos,
O que ainda não ousamos, e com um orgulho tenso,
Para adentrar entre nossa sentença e nosso poder,
O que nem nossa natureza nem nosso lugar podem suportar,
Nossa potência fez bem, tome sua recompensa]


A "potência" de Lear, o "lugar" e até a "natureza" como pessoa, dependem de uma relação de tudo ou nada com aqueles que estão abaixo dele na ordem social. Eles não podem questionar. Eles não podem criticar. Fazer isso significa receber a visita da destruição instantânea vinda do rei Lear. Somente dessa maneira, o rei Lear pode continuar seu domínio agressivo, arbitrário e violento.


"A tragédia do rei Lear de Shakespeare, portanto, não é apenas a de um homem iludido pelo poder. É também a tragédia de uma civilização liberal fatalmente fracassada, que é inerentemente criminosa, descontrolada e brutal (e, também, incapaz de mudar)."


Visto sob essa luz, o comportamento condenado de Lear não é somente o fato de ele destruir cegamente seus amigos e dar poder aos inimigos. Ele se dá porque Lear aspira ceder os reinos do poder real acima de tudo. Um homem na posição dele não tem a liberdade para fazer tal coisa. O sistema em si mesmo proíbe isso. Esse sistema constantemente se aproxima da anarquia. A modernidade está em um frenesi constante, e insano de auto-preservação.

A violência social ameaça a todo instante, não só nas ordens mais baixas, mas também das próprias classes mais altas (se há uma verdade, é que a aristocracia é ainda mais propensa ao comportamento insensato).

Toda a carreira de Shakespeare demonstra que ele esteve muito consciente desse fato trágico e doloroso. O tema da violência social é entrelaçado em quase todas as suas obras. Em cada uma delas, Shakespeare expressa as mais profundas ansiedades do cotidiano dos cidadãos decentes. 

Se a cidadania atual responde ao "Rei Lear" de Shakespeare com aquele sentimento de culpa e horror objetivado pela tragédia, não é só por causa da "tolice" do velho rei que ela sente emoções tão profundas. Sua aflição profunda e seu medo torturante são sentidos, numa análise final, pela própria civilização liberal como um todo, por conta da nossa sociedade global atual, que é tão gananciosa, mentirosa e sangrenta quanto foi a sociedade de Shakespeare.      


Publicado originalmente em: Geopolitica.ru


Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Visitas

Participe do nosso Fórum Online

Siga-nos no Facebook

Marcadores