quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Uma crítica de Primo de Rivera ao Individualismo Liberal


Por: José António Primo de Rivera
Tradução: Gabriel Larré da Silveira

José António Primo de Rivera, em pé, ao centro (fonte da staticflickr.com)


Pega-se pelas pontas, entre o polegar e o indicador de cada mão. Aplica-se ao objeto de observação. Cabe exatamente o objeto na medida? Então está bem. Não cabe ou não a preenche? Então está mal. Nada pode ser mais simples.
Com tal procedimento, um jornal - admirável, fora isso, por mil motivos - conseguiu julgar toda sorte de acontecimentos. A medida - a medida que está entre o indicador e o polegar de cada mão - resume-se a estas palavras: ¨é preciso respeitar os direitos individuais¨.
Como veremos, não se trata de uma frase cuja apreensão requeira grande esforço. Mas ela tem uma virtude maravilhosa: uma vez adquirida, livra quem a adquire, para todo o resto de seus anos, da desagradável necessidade de pensar. Os convencidos pela frase resolveram para sempre o problema de avaliar qualquer evento político. Os direitos individuais foram respeitados? Então está bem. Os direitos individuais foram ignorados? Então está mal. Ditaduras, leis, revoluções… quanto mais complexa e profunda a vida de um povo, mais facilmente adquire simplicidade transparente.
Agora, o que são os ¨direitos individuais¨? Imaginemos um trabalhador do próprio jornal descobridor desta norma. Esse trabalhador há muitos anos trabalha em um linotipo. Pagam-no bem, sim, mas o homem vive sujeito ao linotipo durante várias horas por dia. E junto com o linotipo corre sua idade madura. Uma manhã, quando amanhece, o trabalhador - que passou a madrugada inteira em frente ao teclado do linotipo - nota que um suor frio corre-lhe a testa. Seus olhos começam a ver turvo. De repente, sua boca se entorna e, pesadamente, cai no chão. Carregam-no, assustados, vários companheiros de trabalho. Está sem sentido. No canto de sua boca escorre um pequeno fio de sangue. Está morto.
E então? Então, se a viúva do trabalhador tem a sorte de viver em um Estado liberal, encontrar-se-á com uma magnífica Constituição, que lhe assegurará todos os direitos. Os famosos ¨direitos individuais¨. A viúva terá a liberdade para escolher a profissão que lhe agrade. Ninguém poderá impedi-la de, por exemplo, abrir uma joalheria ou um banco. Também terá liberdade para escolher a própria residência.
Poderá viver em Nice, em Deauville ou em um palácio em Bilbao. Antes se abrirá a Terra que permitir que lhe coloquem travas à livre expressão de pensamento. A viúva estará apta para fundar um jornal como aquele em que seu marido trabalhava. E como, ademais, as leis protegem a liberdade religiosa, lhe será permitido fundar uma seita e abrir uma capela.
O trabalhador deixa viúva e seis filhos, nenhum em idade para trabalhar. A viúva recebe um subsídio, mais por generosidade da empresa do que por imposição da lei. Vive alguns meses; talvez um ano ou dois. Mas chega um dia em que resvala entre os dedos o último centavo do subsídio. Já não há o que comer em casa. As crianças empalidecem por dias. Logo serão presas fáceis para a anemia, para a tuberculose - ou para o ódio. Essa riqueza jurídica, não conforta a qualquer um? Claro, talvez a viúva não sinta a urgente necessidade de escrever artigos políticos ou fundar religiões. Talvez, por outro lado, tropece em algum pequeno obstáculo antes de estabelecer uma fábrica ou um grande jornal, por exemplo. Poderia ocorrer que sua maior necessidade fosse encontrar sustento para si e para seus filhos. Mas isso é, cabalmente, o que não lhe proporciona o Estado liberal. Direito à comida, sim, sem dúvida alguma. Mas comida?
Leitor, se você vive em um Estado liberal, procure ser milionário, bonito, inteligente e forte. Então sim, lançados todos na livre concorrência, a vida será sua. Terá você jornal para exercitar a liberdade de pensamento, carros onde poderá colocar em prática a liberdade de locomoção…; quando você queira. Mas ai dos milhões e milhões de seres mal dotados! Para esses o Estado liberal é feroz. De todos eles fará carne de canhão na implacável luta econômica. Para eles, os sujeitos dos direitos mais sonoros e realizáveis serão a fome e a miséria.
A viúva terá que se render na dura luta. Aceitará o que lhe derem por cozinhar dez horas em alguma casa. Ficará de jejum para que seus filhos criem a ilusão de que comem algo. E enquanto, à noite, no sótão escuro, seus olhos queimam de dor, não faltaram oradores liberais que escrevam parágrafos como este: ¨já não existe a escravidão. Graças às nossas leis, ninguém pode ser forçado a trabalhar senão em um ofício que escolha livremente¨. Eis como o Estado liberal, mero declamador de fórmulas, não serve para nada quando mais dele se necessita. As leis permitem tudo; mas a organização econômica, social, não garante que tais permissões possam se concretizar em realidades.
Isso já percebeu a Humanidade. Por isso, para julgar os acontecimentos políticos, exige medidas mais profundas do que aquelas do jornal. Quer Estados que não se limitem a nos dizer o que podemos fazer, mas que nos coloquem, protegidos os mais fracos, exigindo sem rancor sacrifícios dos mais poderosos, em condições de poder fazê-lo. Dois tipos de Estado tentam atingir tal ambição.
Um é o Estado socialista, mas apenas em seu ponto de partida, esterilizado depois, pelo seu conceito de vida materialista e pela sua concepção de luta de classes. O outro é um Estado que aspira à integração dos povos, ao calor de uma fé comum. Seu nome começa com F. Já se pode dizê-lo?

Texto original disponível em: Rumbos

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