sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Saruman e a crítica de Tolkien à Industrialização

Por: Jean A. G. S. Carvalho






Há um aspecto importante na obra literária de Tolkien e na adaptação cinematográfica de Peter Jackson, registrada em "The Lord of The Rings" ("O Senhor dos Anéis"[1]): a oposição entre o "mundo antigo" e a indústria. 

Saruman, chefe do Conselho Branco, corrompido por Sauron mais tarde, se torna a personificação da Indústria na Terra Média. Ele transforma a bela e verde Isengard ("Jardim de Isen", numa tradução aproximada) num cenário desolado, e começa a devastar a antiquíssima floresta de Fangorn para extrair combustível à indústria nascente.

Há, nas palavras de Saruman, uma oposição entre o "mundo antigo" e o "mundo novo", aquilo que precisa ser suplantado para dar lugar a uma nova ordem, uma nova configuração de poder, superior, mais eficiente e mais terrível:


"The world is changing. Who now has the strength to stand against the armies of Isengard and Mordor? To stand against the might of Sauron and Saruman and the union of the two towers? Together, my Lord Sauron, we shall rule this Middle-Earth. The old world will burn in the fires of industry. The forests will fall. A new order will rise. We will drive the machinery of war with the sword and the spear and the iron fist of the Orc. We have only to remove those who oppose us". 
["O mundo está mudando. Quem agora possui força para enfrentar os exércitos de Isengard e de Mordor? Para se opor ao poder de Sauron e Saruman, e à união das duas torres? Juntos, meu Senhor Sauron, governaremos esta Terra Média. O velho mundo queimará nas fornalhas da indústria. As florestas cairão. Uma nova ordem se erguerá. Vamos conduzir a maquinaria de guerra com a espada e a lança e o punho de ferro dos Orcs. Temos apenas que remover aqueles que se opõem a nós."]




Há uma hierarquização da matéria: Saruman se encanta pelos metais e pelas forjarias. Seu próprio nome significa "homem hábil". Pelo poder de sua maquinaria, ele se julga capaz de dobrar não só as raças, especialmente a dos homens, mas a própria Natureza e seus fenômenos. 

Ele represa o rio Isen, utiliza as árvores ancestrais de Fangorn como mero combustível para produzir as milhares de armas para seus exércitos de orcs e sua elite Huruk-hai. Saruman, antes conhecido como "o sábio", renega todo o mundo antigo e abraça a técnica, a habilidade manual e o fogo - um fogo que deve consumir todos aqueles que se opõem a essa nova ordem.

Há um propósito para essa nova indústria: consumir a humanidade. Saruman deixa explícito que os produtos de suas novas fornalhas, as armas e o poderio de seu exército têm como função primordial eliminar os homens de toda a Terra Média. Como Aragorn alertou Théoden, rei de Rohan, Saruman não estava interessado em saquear ou apenas conquistar, mas em exterminar os povos livres, os homens que desejam manter sua liberdade.

É esse desejo que fica expresso nas palavras dos próprios orcs Huruk:




"We are the fighting Uruk-hai! We slew the great warrior. We took the prisoners. We are the servants of Saruman the Wise, The White Hand: The Hand that gives us man's-flesh to eat. We came out of Isengard, and led you here, and we shall lead you back by the way we choose.[2]"


["Somos os lutadores Uruk-hai! Nós matamos o grande guerreiro. Nós fizemos prisioneiros. Somos os servos de Saruman o Sábio, a Mão Branca: a Mão que nos dá carne de homens para comer. Viemos de Isengard e os trouxemos para cá, e os levaremos de volta pelo caminho que escolhermos"]




A Indústria consome homens e mulheres. Esse é o desígnio histórico: a industrialização como maquinário e a humanidade como seu combustível. A observação histórica dos efeitos da Revolução Industrial, sobretudo a nível psicológico, levam a essa conclusão tolkieniana: somos consumidos por um ordenamento que não nos diz respeito e que, sob o pretexto do aprimoramento, nos aprisiona de fato. 

Tolkien era visivelmente um entusiasta do campo e da vida rural: o Condado, lar dos hobbits, é um lugar idílico de vida simples, feliz e pacata; a sabedoria milenar dos elfos, a liberdade de cavaleiros correndo pelos campos de Rohan e os feitos dos homens de Gondor são colocados em oposição direta às desolações das forjas em Mordor e em Isengard. 

A Revolução Industrial, no nosso mundo concreto, marcou decisivamente a superação do campo pela urbe, pela cidade; e, no mundo de Tolkien, o poder industrial de Barad-dûr e Orthanc significava a ameaça a esse estilo de vida idílico (como fica claro no vislumbre que Frodo tem da dominação de Sauron sobre o Condado, quando passou por Lothlórien).

Saruman não tem nenhuma consideração pelo campo, pela vida simples, pelas coisas singelas. Não nutre nenhum apreço pela vida, muito menos a vida humana. Enxerga a natureza como mero recurso a ser consumido até a exaustão, produzindo cada vez mais, ampliando, crescendo indefinidamente, expandindo sem nenhum limite. 

Esse é o quadro perfeito da nossa lógica de trabalho, da nossa atual percepção sobre técnica e "progresso" material pautado em consumo superficial, aglomeração e acúmulo contínuo - e, nesse consumo, somos nós mesmos consumidos.

Saruman prometeu aos povos a liberdade e, com mentiras e palavras vazias, apenas os aprisionou ainda mais. Convenceu várias tribos, como os homens de Dunland, de que a guerra pela técnica traria novamente sua libertação e prosperidade. Mas esses homens apenas lançaram seus jovens à morte.

O resultado máximo e final da dominação de Sauron e Saruman, em última instância, seria o fim do mundo e de toda a vida. Sauron desejava estender sobre todos o vazio. Ele odiava, como seu mestre Morgoth (do qual era apenas um general), destruir Arda - toda a criação e o mundo físico lhe eram odiosos. Esse trabalho não significaria avanço, mas sim o fim. Tal foi a promessa da Revolução Industrial e de seus barões: agora, as massas sem-terra e sem propriedade real se aglomeram pela esperança de alguma subsistência - e a máquina substitui cada vez o homem.

A compreensão de que a técnica deve estar subordinada a princípios morais atemporais e de que não é a medida máxima da realização civilizacional não foi tomada por Saruman. E a crítica contida na obra de Tolkien continua a ser extremamente atual. Nossa espécie se tornou escrava da técnica, tecnicista, substituindo aquilo que é imaterial e eterno pelo descartável. 

É exatamente por isso que o niilismo e o esvaziamento existencial (algo nítido em personagens como Saruman e Sauron) são produtos de massa dessa indústria de produção em larga escala, mantida pela produção daquilo que não consumimos e o consumo daquilo que não produzimos. 

A crítica contida em Tolkien não significa a simples rejeição da técnica (τέχνη, techné[3]), o que seria impossível, já que tecnologia e aprimoramento são traços da própria humanidade. Significa a rejeição da adoção da técnica pela técnica, do progresso pelo progresso, do "avanço" como um fim em si mesmo, mesmo às custas de tudo aquilo que é considerado como "antigo" e da própria dignidade humana. 

A técnica pode e deve ser um instrumento à serviço do homem, e não uma estrutura que se serve do próprio homem e supera a própria dignidade humana e anula toda a interação positiva dele com o meio no qual está inserido.

É exatamente por isso que a vida no Condado é retratada por Tolkien como um sistema imensamente superior ao das "incríveis" forjas de Isengard e Mordor.




Notas:

[1] A obra de Tolkien foi originalmente construída como um livro único, sendo posteriormente dividida numa trilogia.

[2] The Lord of the Rings: The Two Towers ("O Senhor dos Anéis: As Duas Torres"), capítulo 3, "The Uruk-hai" ("Os Uruk-hai").

[3] Do grego, significa habilidade, trabalho, arte, técnica.




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