quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A Globalização e seus Inimigos

Por: Alexandr Dugin
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho







Principais fatores no desenvolvimento dos processos globais: resultados e prognósticos


Em novembro de 2017, uma grande (e interessante) conferência aconteceu em Amsterdã, na qual compareceram cerca de 1500 pessoas. O principal tema da discussão foram os projetos de desenvolvimento de processos globais fundados em tipos de ideias opostas sobre desenvolvimento global e a relação desses projetos com as atuais mudanças geopolíticas.

O momento-chave da conferência foi o discurso do teórico e ideólogo do liberalismo global, Bernard Henri Lévy[1]. Numa fala rápida, ele apresentou sua visão sobre como o espírito do globalismo, a Ideia em geral em sua execução liberal, é projetada nos atuais processos mundiais: o modo como eles influenciam os eventos que se desenvolvem no Oriente Médio e qual a influência do globalismo nos eventos do Iraque, especialmente na capital do Curdistão iraquiano, Erbil.

Lévy dá uma base ideológica fundamental para todos os processos mundiais mais significativos que estão acontecendo com a participação ocidental na construção de todo um esquema ideológico, que começa por Enéas[2] e chega até os Estados Unidos modernos e Trump. Ao fazer isso, ele enfatizou sua vinda a Amsterdã especificamente com o objetivo de falar sobre os movimentos tectônicos que estão ocorrendo na história do Espírito, conforme compreendida pelos teóricos da globalização. Devemos notar que tais discursos são feitos diariamente, conforme os eventos políticos de cada ano forçam ideólogos de todos os campos a tomar nota sobre os aspectos mais fundamentais das lutas que enfrentam.   

Antes de podermos examinar as posições de um dos principais teóricos da globalização, devemos nos lembrar que Bernard Henri-Lévy esteve na fonte do golpe contra Gaddafi e tomou parte na instrução da oposição líbia islamista: foi ele quem apareceu como o maior teórico do ataque contra Assad, alimentando o fogo do conflito na Síria; ele foi ao Maidan ucraniano e deu palestras ao grupo Pravy Sektor[3], lançando-os contra os russos.

Em resumo, Bernard Henri-Lévy é nosso oponente ideológico. Ele é um membro de toda uma constelação de pessoas que se assemelham a ele, teóricos similares da globalização, não meros "nerds" que escrevem algo que ninguém lê ou dá ouvidos. Ele é um daqueles pensadores práticos que, no momento histórico necessário, pegam a câmera, o computador, o rifle de assalto e vão até a área de conflito para lutar por suas ideias. Contra nós.

Em Amsterdã, Lévy falou sobre o Talmude e seu Espírito, sobre a luta do Iluminismo e sobre os inimigos contra os quais a batalha é lançada. Contudo, pode-se ter a opinião de que poucas pessoas entendem a mensagem dele. Todas as mil e quinhentas pessoas do forte público holandês claramente formaram suas próprias conclusões sobre a apresentação de Lévy, e a essência dessas conclusões pode ser reduzida do seguinte modo: a hegemonia estadunidense acabou e é preciso urgentemente procurar contato com os russos. Alguém pode interpretar a performance do filósofo liberal extravagante como uma piada. Mas Lévy não estava brincando.


Curto prazo e longo prazo: a Guerra das Ideias e a kratopolítica

A história não só é subjetiva, mas também possui diferentes níveis de desenvolvimento. Tanto a história de curto prazo quanto a história de longo prazo existem. A história de longo prazo é a história ideológica na qual as leis fundamentais se manifestam e os movimentos globais se dão sob os auspícios da mudança de paradigmas que toma lugar (Tradição [pré-moderna], Modernidade e Pós-Modernidade). 

É aí que as manifestações das ideologias do liberalismo, comunismo e fascismo são fixadas, onde a influência do conservadorismo, do islamismo e outros tons ideológicos são considerados. Na história de longo prazo, a base é a ideologia e a esfera da Ideia em geral.




"Se voltarmos 15, 20 ou 100 anos a partir de algum evento histórico qualquer, veremos apenas a História das Ideias. Não enxergamos nenhum pré-requisito para os  conflitos concretos, as nuances ou suas semelhanças nos interesses que estão por detrás desses eventos. Só enxergamos a História das Ideias, que forma a base de tudo e explica o que aconteceu. No fato atual, só a história de longo prazo pode ser considerada como história. É algo compreensível, algo que possui suas leis, e algo que pode e deveria ser estudado."


Hoje, estamos chegando ao momento no qual a história toma um estágio central. Eles dizem que a guerra no Oriente Médio é uma guerra por petróleo. Isso está errado. A guerra no Oriente Médio, como qualquer outro conflito no mundo, é uma guerra por Ideias. Não por petróleo, não por direitos humanos ou status para gays, não para ativos de materiais em mercados de ações. 

Aqueles que vivem repetindo sobre o sistema da Federal Reserve, sobre os Rothschilds ou campos de petróleo são os mesmos que ficam calados quando os ideólogos começam a falar, pessoas que falam a verdade sobre as razões autênticas de qualquer processo histórico, que falam sobre a presença ou a ausência da ameaça do liberalismo global.

Mas também há a história de curto prazo, a história dos processos políticos que são apresentados por aqueles que procuram por eles como coisas autônomas e autossuficientes. "Assad brigou com Hussein, e foi isso que iniciou os problemas no Iraque e na Líbia" - afirmam.

Na política de curto prazo, leis totalmente diferentes estão em ação; nesse campo, fala-se sobre petróleo e gás, sobre esforços diplomáticos, sobre visitas de Kissinger[4], sobre investir dinheiro ou não, sobre quem vende pra quem e quem não vende, se eles tomaram Raqqa ou apenas eliminaram a cidade da face da Terra, etc. E também sobre quem está por trás disso tudo. Todas essas coisas estão num nível completamente diferente, que se encaixa em ciclos curtos que variam em comprimentos temporais, indo de vários dias até meses, ou cinco ou seis anos.

Se nós nos esquecermos sobre a história de longo prazo e nos concentramos só na política cotidiana, retornamos a Heidegger[5], expressando as opiniões de todo mundo e de ninguém em particular. Pareceria que todos pensam dessa forma; mas, quando você questiona, parece que as opiniões de diferentes pessoas são também diferentes. Mergulhando nos detalhes do passado, há o pano de fundo no qual as Ideias se escondem atualmente. A política se esconde por trás do véu do curto prazo

O analista de curto prazo é um verdadeiro tolo, mas aqueles que são mais espertos só estão escondendo a política real (a política de longo termo, a ideologia) por trás da cortina de falatório de curto prazo. É difícil construir relações entre eles. Parece que essas esferas são autônomas. O destino da queda da URSS é separado do destino do épico afegão que começou quando o palácio de Amin foi capturado. Mas, nos fatos atuais, esses são eventos conectados pela dialética do ideal, do conflito ideológico. Como? Essa é a pergunta mais difícil.

Estritamente falando, o vínculo entre a esfera das ideias e a política aplicada está localizado em algum lugar intermediário. E devemos falar de política de meio termo nesse contexto, o que presume a construção de conexões corretas entre curto prazo e longo prazo. Esta é a área dos serviços especiais, das sociedades secretas e das teorias da conspiração. Aqui, as instituições em atividade são aquelas que não estão corretamente representadas nem a curto prazo nem a longo prazo - sendo, assim, intermediárias. 

A propósito, serviços especiais e estruturas ocultas semelhantes não podem ter uma ontologia, porque, se forem descobertas, deixariam de ser especiais e, consequentemente, deixariam de ser úteis. Se forem encontradas, não haverá nenhuma utilidade para elas. Eles existem enquanto há indeterminação, existem onde há e não há trabalho para elas, simultaneamente. Mesmo que penetremos num alojamento maçônico, não encontraremos nada de "secreto" lá. Mas são eles que afirmam dominar secretamente o mundo.

Assim, a política de meio termo pode ser chamada de kratopolítica. É com a kratopolítica que Bernard Henri-Lévy lida e, como representante da ideologia liberal, globalista e centrada no Ocidente, a qual ele compreende muito bem. Ele entende as tarefas e objetivos dos longos ciclos históricos - do longo termo -; mas, ainda além disso, ele participa da política de curto prazo, mas o faz partindo duma perspectiva de união concreta entre a primeira e essa última. Ele é um tipo raro de intelectual prático.

Além disso, o general Fuller, amigo de Henry Kissinger, também esteve presente na conferência em Amsterdã. Esse é um exemplo da antípoda completa de Lévy. Ele é uma pessoa bastante influente, mas tem olhos de estanho. Ele é um soldado experiente que definitivamente poderia executar uma operação militar complexa, mas é absolutamente incompetente na área das Ideias. Não há diferença entre o que Lévy disse ou deixou de dizer, porque Fuller considera Lévy como um zero absoluto.

O general está ocupado com a política de curto prazo, e acredita compreender todas as coisas e, em adição, é muito influente, e Lévy fala sobre algo muito distante e abstrato, que não se plasma na realidade. Atualmente, é exatamente o contrário: Lévy dispõe das poderosas linhas da história, enquanto que Fuller é seu garotinho de recados, só porque ele não compreende o que ele está fazendo e quem é que está planejando tudo que pode ser feito por ele em níveis estratégicos e ideais. 

A  consciência que controla Fuller é externa a ele: ele é um simples bio-robô no sistema do qual Lévy é o programador. Lévy é um consultor de Sarkozy, Hollande e Macron; mas, se olharmos para as capacidades reais dele, veremos que ele não possui nenhuma.


A Modernidade e seus inimigos

A principal mensagem de Lévy é que há uma dicotomia: a Modernidade e seus inimigos[6]. Esses inimigos ainda existem e a luta da modernidade contra eles ainda não foi finalizada. Essa visão de mundo é baseada na ideia de que a modernidade é totalmente um ser, toda uma história que se move para um objetivo definido. Enquanto se move para esse objetivo, ela produz transformações econômicas, sociais e políticas inevitáveis, e que estão ligadas à destruição da sociedade tradicional, das castas tradicionais, das instituições religiosas tradicionais e das identidades coletivas tradicionais.

Esse movimento, por si mesmo, é direcionado à sociedade civil aberta global, ao governo mundial, à inteligência artificial, que transforma a sociedade global numa sociedade ciborgue. Esse processo "objetivo" é visto pela maioria das pessoas do Ocidente como um trem para o qual você compra um bilhete, no qual você entra e do qual você sai. Alguém morre e seu lugar é tomado por outro. Mas o trem continua a te levar para a estação definida, e você não precisa se preocupar com nada, pois seu lugar está reservado. Essa é a maioria, e ela dorme sentada no trem da Modernidade. Essa não é nem mesmo a política de curto prazo, mas a política de curtíssimo prazo.

Mas há aqueles que se preocupam se o trem está indo na direção correta, se tudo está certo, se alguém deseja parar o trem, destruir os trilhos ou lançar um míssil contra ele. E se alguém quiser sabotar o tempo? Esse é o momento no qual o conceito da Modernidade e seus inimigos vêm à tona.

As pessoas que guiam o trem estão preocupadas: aqueles que compreendem quem o construiu e quem instalou os trilhos, aqueles que sabem para onde ele se dirige. Eles estão preocupados sobre o trem atingir o objetivo. Lévy está preocupado com isso, especialmente por conta dos eventos no Oriente Médio.

Com o que a Modernidade estaria preocupada? Desse ponto de vista, o tempo possui um caráter unidirecional irreversível e transcorre numa única direção conceitual: para a liberação de todas as formas de identidade coletiva, para a liberalização e ainda mais além. Algumas vezes, há solavancos na estrada, mas nada além disso. Essa é a versão normal e sonolenta da Modernidade: estamos seguindo em frente, alguma coisa nos incomoda, nós atravessamos e continuamos. 

Um pântano é drenado, uma montanha é perfurada, e nós seguimos em frente. A Modernidade possui outros construtores que dizem: "segurem-se, esse pântano não está aqui por acaso; alguém construiu ele aí; e aquela montanha poderia não estar ali: alguém a ergueu". Eles têm a sensação de que não estão enfrentando obstáculos, mas sim inimigos. Eles sentem que há um sujeito que está dificultando a propagação da Modernidade.

A suspeita de que o projeto da "Modernidade" possui inimigos é um campo comum para os globalistas preocupados e os modernistas,que começam por Popper e chegam até Lévy, que é responsável pela ideologia e que reconhece estar lidando com um projeto ideológico. A política de curto prazo tem outras preocupações: ela só conhece os obstáculos que devem ser superados. 

Aqueles que trabalham com a ideologia pensam estrategicamente: pode ser possível construir os trilhos desse modo, mas outro modo também é viável. Só os engenheiros da realidade global e da Modernidade compreendem que tudo poderia ser feito de outro jeito. É por isso que eles estão preocupados: e se alguém sugerir outra variável?



"Lévy é um dos arquitetos da Modernidade que se preocupa com a estabilidade da estrutura. Ele sabe que os obstáculos podem esconder inimigos. A barreira pode ser uma representante duma vontade. A pedra onde eles se batem pode estar viva. Mas essa preocupação, por si mesma, crescente, constrói outro pólo."


Esses são aqueles que desejam a falha do Iluminismo e da Modernidade, dos apoiadores dos "casamentos" homossexuais e da sociedade civil. Eles criam esse tópico: esse é um inimigo que não questiona sobre seu lugar no trilho, mas que quer explodir os trilhos, envenenar o maquinista ou direcionar o trem para um precipício. E eles fazem isso conscientemente, porque não concordam com a ideologia da Modernidade em si mesma.

Era isso que Lévy queria dizer quando se dirigiu a Amsterdã, dizer que o projeto da Modernidade, o Iluminismo e a liberalização devem lidar com uma ameaça. Uma ameaça que consiste, por exemplo, dos estadunidenses deixando de apoiar Barzani durante a votação sobre a independência do Curdistão no Iraque. Na prática, isso resultou na não devolução de Kirkuk aos curdos. Lévy disse que não viu nesse ato apenas uma traição dos curdos, mas sim o fim de um projeto para um "Oriente Médio Maior", enxergando os curdos como um elemento-chave para esse plano e, por isso mesmo, traí-los significa trair todo o projeto.

Lévy alegou que os Estados Unidos de Trump destruíram a batalha pela Modernidade. Isso, é claro, não se refere só a Kirkuk, mas também aos EUA removendo-se do papel de principal posto avançado da Modernidade. Os EUA estão cedendo a linha na qual o Estado Islâmico foi construído com tanta dificuldade[7].

Esse país está sabotando sua principal missão, prossegue Lévy, mas dane-se a missão: ou os EUA executam sua função para o Iluminismo, ou deixa de ser o sujeito da nova ordem global. Pois, de acordo com o intelectual, os EUA só estão executando a vontade dos ideólogos globalistas. Essa nação foi escolhida pelo próprio espírito do Iluminismo para executar sua missão globalista, que inclui a concretização do projeto de um Oriente Médio Maior; mas, ao invés disso, decidiu lidar com seus problemas internos.

Enquanto procura por uma saída, Lévy continua: a Europa pode tomar a missão de avançar a Modernidade por si mesma? De acordo com ele, a Europa possui três problemas principais: o espírito de Trump, os direitos humanos e a libertinagem[8]. Na visão de Lévy, será necessário fazer de Macron o novo anticristo que propaga o globalismo, em lugar de Trump. Isso é, é claro, engraçado; mas ainda falta muito para concluir o projeto.


Impérios fantasmas

Enquanto descrevemos a preocupação de Lévy, tivemos um momento muito oportuno para nos lembrar de Marx: "Um espectro está assombrando a Europa, o espectro do comunismo". Observando que começou sua carreira como marxista, Lévy se lembra muito bem dessa receita. 

Do ponto de vista de Marx, o espectro do comunismo é aquilo que inevitavelmente deveria existir. O fantasma do Império é algo muito perigoso, do ponto de vista de Lévy. Ele ainda é um obstáculo, mas pode se tornar um inimigo amanhã mesmo. Ele está preocupado com os fantasmas de cinco impérios, fantasmas que estão vindo à existência diante dos olhos dele. Mas três deles são mais perigosos:



  1. O Império Russo, com seu "ditador sanguinário" e sua religião ortodoxa "severa e totalitária" como sua fundação; 
  2. O Império Otomano; 
  3. O Império Iraniano.

O da Rússia é bastante explícito, mas enquanto houver preocupação com o crescente Império Otomano, então os EUA são os principais culpados por sua emergência. É por conta de suas decisões desajeitadas que eles estão perdendo o controle sobre Erdogan, que começa a se aproximar dos iranianos e dos russos, começando com seu novo projeto otomano. O que ele está fazendo no Iraque e na Síria é uma catástrofe para a humanidade, como diria Lévy.

Afinal de contas, por conta das ações dele, aquilo que até recentemente foi um obstáculo está agora se transformando lentamente num sujeito. Isso significa dizer que o portador da ideologia liberal está falando sobre algo que pode se transformar dum obstáculo num inimigo, dum objeto para um sujeito. O sujeito pode agir com sua própria volição, o que significa que isso não só pode explodir o trem, mas também construir um trilho diferente. E ele se torna especialmente perigoso quando o trilho começa a descer para os territórios desses tipos de sujeito.

O quarto fantasma é o do Império Chinês. É um meio-Império: parcialmente pertencente a um grupo e, parcialmente, a outro. Esse equilíbrio está longe de ser claro, vendo como eles estão fortalecendo o império para os dois lados. Lévy está preocupado com o comportamento da Arábia Saudita: esse é o quinto fantasma dum Império crescente, e que está tentando comprar, agora mesmo, sistemas de mísseis S-400 da Rússia.

Em todos os cinco casos, problemas aparecem na transição do curto para o longo prazo, momento no qual os cinco Impérios fantasmas apareceram e, como resultado, podem se transformar num inimigo real. É com esses Impérios que Lévy e seu time sugerem começar a trabalhar. Pois, de outro modo, eles têm uma chance de perder a apelação do elemento "fantasma".

Estamos interessados no oposto: como nos livramos do apelo ao termo "fantasma"? De todos os modos. Nós ainda não somos russos de fato, mas sim fantasmas russos. A Rússia ainda é um espectro. Temos uma soberania fantasma. Mas não somos mais meros objetos. Eles estão preocupados com algo que possa estar oculto por detrás da fachada da Rússia, assim como por trás duma fachada turca. E isso é algo que eles não podem controlar por fora. 

Já nos transformamos em fantasmas, e a batalha será pela transformação final (ou a não-transformação) de fantasmas e de simulacros de ideias para uma realidade. Essa transição potencial, como parece, coincide com o último mandato do nosso presidente. O mesmo está acontecendo com a Turquia e o Irã. Ou Erdogan se moverá para a soberania real, ou ele será deposto. Ou o Irã vai se dirigir para a Revolução Xiita, ou continuará se equilibrando entre a Tradição e a Modernidade, como está fazendo agora.

Os ideólogos liberais enxergam que, na área da geopolítica, nem tudo está acontecendo conforme planejado. Obstáculos estão se transformando em fantasmas, e fantasmas estão se transformando num fator real. A pressão não está funcionando; ao contrário, ela está gerando resultados opostos. 

Esse é o motivo de desejarem ampliar medidas de soft power[9] e novas tecnologias. Eles vão nos abrir por dentro nos próximos anos. Eles conhecem nossas fraquezas. Eles ficam muito chateados toda vez que falamos sobre geopolítica e diplomacia, mas se animam toda vez que falamos sobre uma "sexta coluna", sobre os liberais e ocidentalistas entre nossas fileiras. Eles querem golpear esses cinco impérios fantasmas para levá-los de volta para o nível de meros obstáculos.

Essas são notícias ruins para aqueles que lidam com o estado de segurança. Eles já compreenderam nossos sucessos no poder da política, e é por isso mesmo que decidiram nos atacar por dentro, para evitar que esse fantasma se transforme numa realidade. É muito importante consertar tudo isso, e é por isso que Lévy não é um indivíduo, mas sim um orador do governo mundial - mas não apenas isso, ele toma parte direta nesses processos.


Transição

Observamos uma forma despertando do projeto da globalização. Seu inimigo está pronto para aparecer; se usarmos termos apocalípticos, a testemunha que diz "parem, vocês estão errados" é aquela que aparece. Esse não é um golpe simétrico, mas é algo sério.

Vivemos num mundo de Transição: uma transição do momento unipolar para algo mais. Mesmo os analistas ocidentais estão reconhecendo que o momento unipolar, a Era na qual a ideologia da Modernidade só teve de lidar com objetos e obstáculos, acabou. Algum tipo de subjetividade alternativa emergiu, e isso também deve voltar à existência antes do paradigma, ou fazer algo a mais do que isso.

Se eles forem bem-sucedidos em eliminar as defesas de subjetividade de outros impérios, nós vamos voltar para o momento unipolar. Contudo, todo mundo sente que algo está errado, mesmo a curto prazo. Nossos sucessos na Síria são um elemento de ação simbólica da mais alta importância. A declaração de Trump sobre Jerusalém ser a capital de Israel é um movimento genial que direciona a situação para um ponto ainda mais próximo do mundo multipolar, que consiste de Impérios, que perderão o apelo de "fantasmas". Toda civilização terá seu projeto, ao invés de um único projeto universal.

Seja lá qual for o próximo cenário a se tornar realidade, o Ocidente está cético. Mas o fato é que seu ceticismo não deve nos trazer alegria. Quanto mais eles se preocupam, mais realisticamente enxergam o fim, e mais ainda irão agonizar e resistir. Eles procurarão fraquezas, e há muitas delas.

Hoje, vivemos durante a transição, e o período de transição está aumentando. Vamos nos transformar de fantasmas para uma realidade, ou vamos cair de joelhos? Qualquer transição é feita com grandes perdas e muito sangue.


2017: o fator Trump

A eleição de Trump mudou tudo. Se Hillary Clinton estivesse na presidência, não teria havido nem mesmo um convite para Amsterdã. Trump mudou fundamentalmente o equilíbrio de poder nesse jogo. Graças a ele, os fantasmas imperiais apareceram. Ele fez algo que afetou fundamentalmente a estrutura de longo prazo.

Quando os estadunidenses e Lévy pronunciaram o nome de Trump (você precisa ver a cara que eles fizeram), eles estavam só tremendo. Trump é um perfeito oponente do projeto de globalização de Lévy em sua versão liberal em geral.

Trump desfez o acordo nuclear com o Irã, o que era necessário para apoiar tendências reformistas dentro do país, diminuir a pressão no Ocidente, reduzir a influência do Irã no Oriente Médio e, ao aprimorar as relações com as elites reformistas do Irã por meio de xiitas iraquianos e por intermédio de Bagdá, finalmente removeu esse elemento do jogo por meio duma "Perestroika" iraniana.

Outro projeto dos globalistas de Esquerda era apoiar o Estado Islâmico para criar uma versão controlada do Islã, com um potencial ideológico limitado, enxergando que o ISIS só poderia sr mantido com apoio da Arábia Saudita. Se tivermos de criar um mapa do mundo islâmico dum espaço que não tenha visto a ideologia Sufi por um longo tempo, veremos que as redes radicais Wahhabitas fluem da Arábia Saudita. Por conta da aliança com esse país, foi possível controlar os salafistas, os wahhabitas e a rede islâmica que teve paralelo com a tradição islâmica em geral. 

De acordo com isso, o ISIS em si mesmo foi um projeto do "pântano"[10], o qual Trump prometeu "drenar" durante sua campanha eleitoral. A reaproximação com o Irã foi uma ideia do "pântano". Transformando os muçulmanos em aliados ao fundi-los com o ISIS e enviá-los para uma direção liberal também foi ideia desse "pântano". 

O apoio para o "reformismo", vindo da sexta coluna e do projeto liberal na Rússia, também foi algo típico do trabalho do "pântano". Nos lembramos da última visita de Brzezinski[11] a Moscou. Yurgens[12] o trouxe a Medvedev[13] e propôs um acordo: a renúncia de todas as revindicações contra a Rússia caso Medvedev permanecesse por um segundo mandato. A integração da Rússia e sua conexão com o projeto liberal era uma ideia do "pântano", não uma escalada. 

Os globalistas liberais ocasionalmente fazem concessões aos regimes não-liberais para apoiar uma oposição interna e, desse modo, abrir esses regimes por dentro. Mas, num momento crítico, eles se tornam bastante severos.


"Trump veio com a ideia de um 'anti-pântano'. A estratégia dele tem dois elementos: o Trumpismo (um populismo radical relacionado com a hostilidade dos cidadãos estadunidenses para  com o establishment em geral) e o neoconservadorismo (Kushner e companhia). Inicialmente, os neocons estavam do lado do 'pântano', mas parte deles migrou para o lado de Trump."


Aquilo com o qual Trump tem sido realmente consequente durante todo esse tempo é a sabotagem dele contra os projetos do "pântano". Isso já está se transformando no estilo dele. Ele vacila em muita coisa (entre o Trumpismo e os neocons), ele faz um movimento intervencionista uma vez e outro movimento não-intervencionista em seguida.

Mas tudo o que ele está fazendo é dirigido contra o "pântano": Hillary, Obama e outros apoiadores do establishment. Ele oscila entre o Trumpismo e os neocons, mas ele não oscila em suas demandas pela prisão de Hillary. Ele não vacila no desejo de desmantelar a infraestrutura da administração anterior no Oriente Médio. 

Ele está destruindo os projetos nos quais Lévy participou. E está gradualmente trocando os superintendentes dum projeto fundamental e condicionalmente se aproximando do pessoal "dele": aqueles que não são do pessoal de Hillary e Obama. 

Ele está conduzindo uma espécie de limpeza dos quadros e bloqueando desenvolvimentos do passado. Esses teriam ocasionado a rendição de Kirkuk e outras consequências contra as quais a Líbia tem servido como um alarme.

Alguém continua a trabalhar no projeto anterior por conta da inércia, mas novas pessoas que vieram com Trump estão começando a romper com isso mais e mais ativamente. Metade das estruturas estadunidenses no Oriente Médio continuam a operar de acordo com o velho plano, e outra metade já está fazendo algo diferente. 

Isso não significa que Trump tem algum tipo de projeto. Mas está bastante claro que, se ele não tem um projeto, o "pântano" tem. Ele está se movendo mais e mais rumo ao modelo neoconservador enquanto dilui isso com seu "Trumpismo". É especificamente esse modelo que levou ao reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel. Mas esse é um pesadelo globalista, porque Trump não teve nenhuma conquista real com isso, assim como as redes globalistas. Todos os agente estadunidenses no Oriente Médio, nos quais o establishment estadunidense se apoiou, se perderam.

Eles foram instalados sob o governo de Obama, sob uma situação de "nem palestino, nem israelense" por um longo tempo; mas o reconhecimento de Jerusalém mudou tudo radicalmente. Considerando que Obama era visto como um aliado da ideologia palestina por Trump, ele "acabou" com ele também neste assunto.

Na verdade, Trump fez uma coisa irreversível: ele reforçou objetivamente nossas posições no Oriente Médio. Ele deu as vantagens que Rússia, Turquia e Irã podem usar para predeterminar toda a história mundial. Isso é algo definitivamente sério, porque, depois da Síria, não somos apenas vistos como vencedores, mas também como a única esperança de uma política alternativa. 

Assim, Trump mudou nosso status de Império Fantasma para Império Real, dando um passo adiante e trazendo o mundo multipolar com ele. É claro que ele não atuou em nome dos nossos interesses, mas sim dos interesses neoconservadores e israelenses contra o "pântano"; mas ele está se movendo em direção à multipolaridade ao criar condições prévias cada vez mais objetivas para isso. 

Além do mais, Trump irá agir assim no futuro até o momento em que ele for parado: talvez daqui três anos, caso ele não seja reeleito, ou talvez num segundo mandato. No último caso, a formação de sujeitos do mundo multipolar será irreversível. No entanto, provavelmente, temos apenas três anos para fazer um trabalho muito ativo no Oriente Médio. Trump continuará a incomodar os Obamistas e seu projeto para um "Grande Oriente Médio".

O conflito dentro do sistema ideológico global é muito sério, mas há a impressão de que eles têm um ás na manga, e que eles estão contando com a esconderijo da elite russa. Se aguardarmos um pouco mais, mesmo que nos tornemos outra coisa, tudo ficará bem. Macron não é uma ameaça para nós, a Europa não está se reagrupando num tipo de sujeito e o dinheiro não vai ajudar os globalistas nesse caso. Essa sociedade triste e desintegradora é incapaz de ser uma alternativa para os EUA. Lévy está errado: só os EUA podem fazer o que ele quer. A Europa não pode fazer isso.

É por isso que a futura batalha será para os Estados Unidos e para o surgimento dessas forças nos impérios fantasmas que poderiam ajudá-los a deixar de ser fantasmas. Todo o modelo ideológico será baseado em reportagem de portadores da ideologia básica do Iluminismo no governo, removendo Trump e arrancando os cinco impérios de dentro para fora.

O pálido islamismo radical, que foi liderado pela Arábia Saudita, fez com que a Rússia realizasse seu retorno e é aquilo que garante uma renacionalização islâmica. Se quisermos trabalhar com o mundo islâmico, nada neste dia e nessa Era nos impedirá de nos tornarmos a força líder nessa área.

Trump fez uma coisa idiota que garantiu sua estabilidade. Se ele fosse apenas um Trumpista, ele provavelmente não estaria onde ele está hoje. Mas ele encontrou novos aliados. Claro, não devemos esperar nada de bom dele, mas a coisa mais importante para nós é o dano que ele faz ao "pântano".


Perspectivas para 2018

Se quisermos examinar a situação a partir duma ampla perspectiva, então o que importa é a transição do status de mero fantasma para a condição de inimigo, a transformação do espectro do império para um Império de fato: esta é a principal questão do futuro para todos os inimigos potenciais da modernidade. 

Os iranianos misturaram tudo de bom a tal ponto que uma nova revolução conservadora pode ser necessária para evitar o fim das tendências tradicionalistas. Os turcos não chegarão longe apenas com o Kemalismo. Para a tradição imperial, eles devem retornar à Tradição, às suas raízes sufis e anti-ocidentais. Precisamos deixar a condição de uma Rússia fantasma e, se não tivermos um plano quando o mandato de Trump acabar, realmente acabaremos numa situação crítica. 

Um tempo crítico está começando para nós, e o trabalho das pessoas que representam a Rússia real é necessário aqui. Para isso, precisamos tanto dum modelo ideológico quanto dum modelo kratopolítico. Como a ideologia irá se desenvolver, como ela vai desconstruir a Modernidade, como nos libertaremos das manifestações do liberalismo, todas essas são coisas que vão depender disso. 

A segunda questão é a seguinte: como poderemos superar isso com decisões políticas reais? Muitos entendem isso de modo intuitivo, mas eles não conseguem juntar os pontos ainda. Quando as pessoas russas honestas vêm e tentam fazer algo, a política de curto prazo apenas as motiva. 

E 2018 é o ano da guerra ideológica. Esta é uma guerra pela aparição do mundo multipolar sob a forma de impérios reais, fundada num modelo anti-ocidental. Quando Lévy diz "nossos inimigos", ele quer dizer os inimigos do Iluminismo, do progresso tecnológico, dos direitos humanos, do individualismo. E isso é verdade. É disso que se trata. Queremos um futuro diferente. 

Somos partidários do projeto da Tradição. Aqui, é importante notar que a Tradição é um obstáculo, é apenas uma colisão na estrada para a Modernidade; mas o tradicionalismo, por outro lado, consiste nas forças que construirão um penhasco no caminho do trem da Modernidade. O tradicionalismo é uma insurreição contra a modernidade.

Tudo o que realmente está mudando a face do mundo no domínio da política de meio termo hoje é feito no Oriente Médio. Lá, o principal fator está se tornando a aliança entre a Rússia, a Turquia e o Irã, que é algo significativamente dependente da solução da questão curda. É importante notar que os curdos não são leais a ninguém e não podem ser fiéis a ninguém por definição. Eles são apenas leais a si mesmos. Eles vivem em seu próprio mundo, que não é governado por ninguém, dirigido por ninguém ou supervisionado por quem quer que seja, especialmente não pelas forças representadas por Lévy. 

A única coisa que não podemos prometer aos curdos é um Estado-nação. Pura e simplesmente porque o Estado-nação pertence ao passado (o sistema westfaliano) e é algo que não vai resolver nada. Precisamos enxergar os Estados-nação como metáforas de algo maior: povos, culturas, etc. Ou seja, como sugestões dos impérios fantasmas, das civilizações-políticas, dos "grandes espaços". Se conseguimos tirar os curdos da fila de espera por um Estado-nação, eles também podem se tornar parte do eixo Moscou-Teerã-Ankara. Afinal, um "grande espaço" Curdo (não um Estado) é algo totalmente realizável.


O Oriente Médio

As circunstâncias atuais nos levam a dizer que devemos apoiar todo o islamismo que está fora da Arábia Saudita. As relações com o Egito e o Magrebe devem receber atenção especial. Marrocos e Argélia estão, atualmente, totalmente controlados pelos serviços de inteligência europeus, e vemos o mesmo acontecendo na Líbia. 

É hora de nos envolvermos. Agora, quando o islamismo sob o controle da Arábia Saudita está enfraquecendo, o fator de não-islamismo (ou seja, não-salafismo e não-wahhabismo) é cada vez mais forte. Se trabalharmos minuciosamente no islamismo árabe (com a exclusão da Península Arábica), enquanto pragmaticamente usamos o Qatar, mas não lançamos toda a nossa esperança, teremos uma chance real de quebrar o projeto para o "Grande Oriente Médio".

No que diz respeito a Israel, na configuração atual não podemos oferecer nada de positivo. Eles assumiram sem equívocos uma posição oposta ao não entrar num confronto direto: assim, precisamos tomar a nossa, e na situação atual isso significa automaticamente uma posição anti-israelense em todos os campos, fortalecendo nossa influência no mundo árabe. Para ser precisos, devemos fazer isso ao não reconhecer Jerusalém como pertencente a Israel e responder a ataques israelenses, tanto na Síria como no resto do mundo árabe, com mais dureza.


É necessário que haja "bodes expiatórios" em qualquer projeto. Nas circunstâncias atuais, talvez devamos sacrificar a Arábia Saudita e Israel em nome de um projeto pan-islâmico, não-Wahhabi e anti-ocidental, se eles próprios não tentarem encontrar um lugar na geopolítica euro-asiática do Oriente Médio. Isso afetará nossa posição no Afeganistão e no Paquistão, razão pela qual, ao se tornar um amigo e defensor do mundo islâmico e considerando o fator Trump, devemos começar a pensar sobre nossas relações com esses países.

Mesmo o islamismo radical assume outra forma em tal imagem, na qual ele era nosso inimigo exatamente por ser controlado pela Arábia Saudita (com apoio estadunidense e israelense). Ao escolher o lado do mundo islâmico em geral, a Rússia pode mudar sua relação se ela, em troca, mudar sua interação com cristãos e muçulmanos sufis e começar a reconhecer as leis da geopolítica. Na situação atual (e sem qualquer apoio ocidental), o islamismo radical poderia se tornar nosso aliado sob certas condições. 

Porque, hoje, qualquer elemento anti-ocidental está começando a trabalhar em nosso favor. Por exemplo, quando os turcos mudaram sua opinião sobre os estadunidenses, eles imediatamente pararam de apoiar radicais no norte do Cáucaso. Se a "Irmandade Muçulmana" lembrar suas raízes sufis e do Qatar, que tradicionalmente protegem o salafismo, então virá para o nosso lado, para o da Turquia e do Irã, e a direção do Islã radical pode mudar cardinalmente.


Europa

O que não devemos ter dúvidas é que a Europa definitivamente não se tornará o novo centro da globalização. Ela não possui nada para se transformar nisso: nem potencial, nem vontade, nem poder. A Rússia precisa começar a trabalhar intensamente na Europa com opositores de Direita e Esquerda contra a hegemonia global para que eles criem seu próprio império fantasma, um Império Europeu que se baseia no populismo, isto é, na justiça social e nos valores tradicionais. 

Apesar do fato de o "pântano" ainda ser dominante entre as elites europeias, tendências muito interessantes estão se desenvolvendo. E, se a Rússia ajudar a desestabilizar o poder das elites globalistas ao tentar entrar em contato com forças revolucionárias, podemos conseguir isso. 

Podemos usar seus próprios métodos, por exemplo, como tecnologias para criar pequenas forças (da mesma forma que eles fizeram com a ajuda de muitos grupos de "Sociedade Aberta" na Rússia) para perturbar a legitimidade da ditadura liberal. Se fizermos isso, realmente podemos tentar influenciar a Europa.

É importante notar que os centristas europeus prefeririam lidar conosco em termos de economia, em qualquer caso, e não com os EUA. Sob Trump, os europeus se libertarão da rígida tutela dos EUA e os centristas pragmáticos se juntarão à Esquerda e à Direita. A ideia de Lévy de que a Europa deveria se tornar o centro do "pântano" não era do agrado de ninguém. Pelo contrário, uma conclusão lógica apareceu: se a Rússia é tão forte, e tudo é tão ruim nos EUA quanto Lévy diz, então não precisamos lutar contra a Rússia, mas sim fazer trocas comerciais com ela.


Outro fator importante na Europa é o islâmico. Se quisermos tomar como base a ideia de que o Islã está agora do nosso lado, os muçulmanos europeus também estão do lado da contra-hegemonia. Entre eles estão a enorme diáspora turca na Alemanha, o número maciço de Wahhabis e até mesmo alguns europeus nativos que se converteram ao Islã (como, por exemplo, Claudio Mutti). 

A extrusão da Europa do projeto globalista é um campo de batalha aberto. Sob as circunstâncias atuais, podemos juntar-se calmamente à batalha pela Europa, e não apenas pela "Direita", mas também pela "Esquerda", do lado dos anticapitalistas e anti-globistas. 

Devemos ajudar na criação duma contra-hegemonia europeia, que, de fato, foi concebida pelos próprios europeus, pois este é um dos termos de Gramsci. Além disso, um forte crescimento "de Direita" está ocorrendo na Europa.


Os Estados Unidos


Nos EUA, vemos Trump contra o 'pântano'. Os Estados Unidos serão selados por três anos. É improvável que comece uma aventura contra a Coreia do Norte, visto que isso seria algo bom para os neoconservadores, mas ruim para os Trumpistas. 

Trump está tentando manter o equilíbrio intacto. As relações com a Rússia vão piorar, mas isso só é benéfico para nós. Tudo, exceto guerra e amizade, é bom para nós nas relações entre Rússia e EUA.

Como um projeto, a Rússia pode começar a apoiar a contra-hegemonia nos próprios EUA, tanto pela "Esquerda" quanto pela "Direita", que é o que estamos fazendo. Para fazer isso, nós mesmos devemos acreditar no mito de que nossos hackers influenciaram as eleições nos Estados Unidos. 

Claro que não poderíamos ter feito isso, mas se disserem que nós fizemos, devemos construir uma imagem de uma Rússia poderosa que influencia o Ocidente. Esta é uma guerra de interpretações em que será bom para nós apoiar o mito de uma presença russa ainda mais forte do que realmente é.







Postado originalmente em: Geopolitica.ru






Notas e referências:


[1] Bernard-Henri Lévy é um autor, filósofo e personalidade da França, um dos líderes dos chamados Nouveaux Philosophes (Novos Filósofos), um movimento intelectual iniciado em 1976. Bernard apoiou a intervenção militar dos países europeus e dos EUA na Guerra da Bósnia durante a fragmentação da Iugoslávia. É um grande crítico do antissemitismo e forte apoiador do Estado de Israel. Entretanto, ele também apoiou publicamente os papas Pio XII e Bento XVI contra ataques políticos feitos pela comunidade judaica. Apoiou ativamente a intervenção militar na Líbia e a derrubada de Gaddafi, defendeu a intervenção militar na Síria para a deposição de Bashar al-Assad (o que se frustou). Foi também um apoiador ativo da Revolução de Maidan (Euromaidan), na Ucrânia, tendo estado presente em Kiev em 2014, promovendo os eventos de insurgência contra o então presidente pró-russo Victor Yanukovich.

[2] Enéas foi um personagem da mitologia grega, um herói da Guerra de Troia vindo da linhagem real dos Dardanoi. 

[3] "Setor de Direita", uma organização extremista de nacionalistas ucranianos que é considerada como ilegal na Rússia.

[4] Henry Alfred Kissinger, nascido Heinz Alfred Kissinger, é um diplomata dos EUA, tendo papel central na política externa estadunidense, principalmente de 1968 a 1976. Foi conselheiro de relações exteriores de essencialmente todos os presidentes dos EUA desde Eisenhower, atuando como Secretário de Estado para o presidente Richard Nixon. Participou de várias negociações diplomáticas com a China, a Rússia (e a então União Soviética) e várias nações africanas. É acusado de ter favorecido a invasão indonésia no Timor em 1975, além de golpes de Estado no Chile, no Uruguai e no Camboja. Por meio da Operação Condor, da qual ele foi um dos mentores, apoiou ditaduras na América do Sul, como a ditadura militar argentina, bem como assassinatos e torturas nesses sistemas.

[5] Das Man - um pronome pessoal neutro, um conceito introduzido por Heidegger em sua obra "Ser e Tempo" para a análise do ser não-autêntico do homem. Ele observa que há uma preocupação do homem contemporâneo que transforma a vida humana numa "preocupação assustada", e a vida quotidiana numa existência miserável. O principal elemento dessa preocupação é a direção dos efeitos pessoais e a transformação do mundo. Por um lado, essa direção em si é anônima e sem rosto; por outro lado, afoga o ser humano num mundo sem rosto de Das Man, onde tudo é anônimo. Não há e não pode haver qualquer sujeito de ação neste mundo, ninguém resolve nada e, portanto, não tem nenhuma responsabilidade sobre nada.

[6] Uma alusão a Karl Popper e seu livro "The Open Society and its Enemies" ["A Sociedade Aberta e seus Inimigos"].  

[7] Organização terrorista banida na Rússia e bastante ativa na Síria e no Iraque.

[8] O cinismo em questões morais, a impiedade ostentosa e a liberdade plena na esfera das relações sexuais.

[9] Soft Power é uma expressão usada nas Relações Internacionais para descrever a habilidade de um corpo político (um Estado, por exemplo) de influenciar de modo indireto outros corpos políticos, principalmente por meios ideológicos, midiáticos, culturais, filosóficos, etc. O termo foi criado por Joseph Nye. De modo simples, podemos considerar soft power como meios não-violentos de coerção, influência e condicionamento.

[10] "Pântano" aqui refere-se ao Deep State (o "Estado Profundo"), o grupo de pessoas em estruturas de governo que procuram objetivos e influências de política de Estado sem levar em consideração a liderança democraticamente eleita - uma espécie de "poder paralelo-interno" que governa o país.

[11] Zbigniew Kazimierz Brzezinski foi um importante cientista político, estadista e geopolítico estadunidense, ativo principalmente durante o governo de Jimmy Carter, de 1977 a 1981. Suas posições eram geralmente militaristas e intervencionistas em termos de política externa. Faleceu em 2017.

[12] Ygor Yurgens é um oligarca russo e liderança do Instituto para o Desenvolvimento Contemporâneo, sendo também membro da Câmara Pública Russa. É um dos mais influentes experts russos e esteve bastante ativo durante o governo de Medvedev.

[13] Dmitri Anatolievitch Medvedev foi presidente da Rússia de 2008 a 2012, sucedendo Putin. Atualmente, é primeiro ministro. Seu governo foi essencialmente mais amigável em relação aos EUA do que o de Putin, e sua administração é considerada como um "período liberal/semi-liberal" na Rússia.


Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Visitas

Participe do nosso Fórum Online

Siga-nos no Facebook

Marcadores