segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

"Ran" (乱): Fidelidade e Traição aos olhos de Kurosawa

Por: Jean A. G. S. Carvalho


Cena do filme na qual Kurogane executa Kaede, a traiçoeira e manipuladora amante de Jiro


   Atenção: o texto contém spoilers do filme   

O significado da obra de arte de Akira Kurosawa é evocado já no título: Ran (乱em japonês, ideograma que significa "caos") manifesta o aspecto dramático da existência humana. Produzido em 1985, o filme de 155 minutos dividido em cinco atos é uma adaptação livre da tragédia "King Lear" ("Rei Lear"), de Shakespeare, narrando a estória de Hidetora Ichimonji, poderoso líder e senhor do Japão feudal, que decide dividir suas conquistas e seu reino entre seus três filhos (Taro, Saburo e Jiro), dando a liderança de fato ao primogênito deles, Taro.

Ran é uma obra prima, uma das melhores conclusões cinematográficas já produzidas. Não só pela genialidade de Kurosawa (que, inclusive, foi uma das inspirações para John Milius, diretor da legendária produção "Conan The Barbarian" - "Conan, o Bárbaro" - de 1982), que produziu este e outros magníficos trabalhos sobre o Japão medieval, mas por ser mais que uma simples adaptação de uma obra inglesa: uma verdadeira "niponização" perfeitamente realizada, plasmando com maestria os elementos da cultura japonesa numa das maiores peças de dramaturgia inglesa.

O filho mais novo de Hidetora, Saburo, se opõe à decisão do pai e mostra que a atitude dele é inconsequente e que não haverá união entre os três irmãos, dizendo que o pai é um tolo por esperar. O pai, sentindo-se aviltado, rejeita o próprio filho, lançando-o ao exílio juntamente com seu conselheiro Tango - o serviçal mais fiel de Hidetora. Saburo recebe o abrigo do lorde Fujimaki que, testemunhando o ocorrido, se admira da franqueza de Saburo e o convida a viver com ele, oferecendo ao rejeitado a mão de sua filha.

Primeiro, é importante notar um dos traços mais significativos de Ran: a ilusão da sabedoria. Hidetora é um ancião, um homem velho, experiente. Guerreiro experimentado, acredita possuir conhecimento da vida e enxerga a própria decisão como inteiramente prudente. 

A insubordinação de Saburo é inadmissível: primeiro, porque ele é mais jovem; segundo, porque é filho. Hidetora é pai e velho, hierarquicamente superior. Compreendendo o contexto nipônico e feudal, com os traços de formalismo típicos (e ainda presentes no Japão contemporâneo), é fácil entender o motivo de a reação aparentemente exagerada de Hidetora ter sido tomada. 

Mas, assim como a sabedoria humana pode ser enganosa, aquilo que aparentemente se mostra como insubordinação é, no fundo, lealdade. Saburo foi o único a contestar abertamente o pai porque não se importava com riquezas ou com aquilo que poderia herdar de seu progenitor. Ele alertou sobre o engano em relação à fidelidade dos filhos porque sabia da natureza humana e do quanto ela é traiçoeira, mesmo entre filhos e pais, mesmo entre familiares, mesmo entre irmãos.

A aparente experiência de Hidetora era um engano, e a insubordinação de Saburo era um alerta. E o trágico aviso de Saburo se concretiza: Taro, o filho mais velho transformado em autoridade pelo pai, começa a se desfazer dele, esquecendo qualquer glória daquele que fora o lorde de toda uma planície, de vastos territórios e vencedor de inúmeras batalhas. 

O antigo soberano se transforma num peso dentro de seu próprio palácio, cada vez mais ostracizado e com uma autoridade crescentemente diminuída. Buscando refúgio em seu segundo filho, Hidetora é também desrespeitado por Jiro, tendo seus fiéis guardas sido impedidos de permanecer no interior do castelo. 

O orgulhoso líder de guerra se recusa a permanecer no local, seguindo com seus próprios companheiros para uma região desolada. Sem local para onde se dirigir, o outrora majestoso monarca é atraído para uma nova localidade com um aviso falso de outro traidor, um de seus conselheiros, que lhe dá um alerta sobre um ataque eminente contra certa fortificação, por parte de outro lorde (um ataque falso, obviamente - não há nenhum exército inimigo se movimentando contra Hidetora).

Taro e Jiro fazem entre si um pacto contra o próprio pai. Ele precisa morrer. Unindo seus exércitos, encurralam o próprio Hidetora, abandonado, cercado por tropas que deveriam estar a seu serviço, à serviço do clã Ichimonji. 

Suas mulheres cometem o suicídio, seus guerreiros mais nobres derramam o sangue num último gesto de proteção ao grande líder, e Hidetora senta-se imóvel, face assombrada, rodeado por flechas flamejantes, saraivadas de tiros e soldados cercando sua torre. 

Em meio à carnificina, Taro é morto à mando do próprio irmão, Jiro. Traição entre os traidores, complô entre os falsários. Irmão morto por irmão, a repetição de Caim (קַיִן, "lança") e Abel (הבל., "fôlego" - e, assim como Caim foi a lança para Abel, matando o irmão, Jiro é o disparo contra Taro (embora Taro fosse também um traidor, diferentemente de Abel).

Hidetora sai da torre como um fantasma: pálido, assombrado e assombroso, desligado de toda a realidade ao redor. O homem que massacrou inúmeros e que viveu a batalha intensamente não estava preparado para lidar com a traição, muito menos vinda de sua própria prole. Ele caminha em meio aos soldados, sozinho, desolado, e seu algoz traidor, Jiro, fica incapacitado de concretizar o escárnio e matar o próprio pai, que passa a vagar sozinho pelos ermos, seguido apenas de Tango e do bobo da corte, Kyoami.

Dessa forma, a "profecia" de Saburo é colocada em ação e a traição chega rapidamente. Dois filhos contra um pai, irmão contra irmão. O poder absoluto passa para as mãos de Jiro, que é rapidamente dominado por Kaede, viúva de Taro que se oferece rapidamente ao assassino de seu próprio marido. Kaede preocupa-se com poder e vingança: assim como Taro havia sido um meio efetivo para atingir esse fim, agora Jiro também poderia sê-lo. 

E, como Taro pôde ser descartado, Jiro também poderia ser dispensado assim que se tornasse inútil aos propósitos de Kaede. Aqui, a figura feminina ardilosa, a traição pela manipulação do encanto e da paixão, sentimentos essencialmente carnais, efêmeros e opostos à prudência.

Kaede coloca a necessidade de Jiro eliminar sua esposa, Sue, para que ambos possam concretizar sua união. A junção carnal entre Jiro e Kaede é não só resultado do fratricídio, mas do adultério - elementos permeados por formalismos e legalidade. Kurogane, respeitável samurai e exímio estrategista militar, é encarregado de matar Sue e trazer sua cabeça aos pés da amante e do traidor.

Kurogane se recusa a fazer isso e, ao voltar, trás uma cabeça duma estátua de raposa, fazendo uma metáfora para alertar Jiro do perigo de se envolver com mulheres traiçoeiras e de quantas desgraças elas são capazes de arquitetar, usando o poder dos homens para seus próprios fins pérfidos. 

Kurogane é o homem correto no local errado: pela força das circunstâncias, deve permanecer ao lado de Jiro, mas mantém seus próprios princípios morais acima da obediência cega a uma autoridade. Embora o respeito e a obediência devam ser máximas para a vida, não devem ser cegos. Obedecer aos desígnios de Kaede seria acelerar a destruição do próprio Jiro. 

Kaede é a figura da serpente, a figura maligna da trama e da destruição. Ela testemunhou morte, a morte de sua família, e deseja apenas vingar-se derramando mais sangue. É a vítima-algoz. 

Não ama, apenas odeia. Sue é a figura doce, passiva, perdoadora (a família dela também havia sido eliminada por Hidetora, mas ela não odiava o próprio sogro) e fiel. Sue são os olhos de Tsurumaru, seu irmão, cegado por Hidetora. Buda é o norte de Sue - num muno cada vez mais cruel, ela é um traço de bondade, simplicidade. Há aqui o dualismo entre Kaede (uma succubus) e Sue (a ninfa, Νύμφαι).

Jiro é o homem que escolhe a morte e o assassinato (Kaede) em lugar da espiritualidade e da vida (Sue). Sue, aquela que guia e dá visão (não só ao irmão Tsurumaru, mas também ao sogro Hidetora), é substituída pela cegueira, pela obscuridade de Kaede. 

É típico dos homens escolher aquilo que os cega, aquilo que os destrói, em lugar daquilo que os eleva e os aproxima da Verdade. Cercam-se de traidores, ignoram os sinais óbvios e subliminares e lamentam as desgraças naturalmente decorrentes disso. 

Saburo é o filho fiel. Ele não é o herdeiro traidor (Taro), nem o fratricida (Jiro). Não se porta como os dois, com sua falsa submissão à autoridade paterna, às formalidades, convenções e tradições. Saburo é energia viva, simplicidade, sinceridade, é um gênio autêntico. Ele se coloca "contra" o pai por estar a favor dele. 

E, mesmo vendo que seus alertas se concretizaram, não rejeita o pai e não o abandona. Não diz ao pai que "estava certo" e que "havia avisado", apenas se oferece para recebê-lo.


Saburo o procura, ele busca pelo pai. Não o encontra. Mas não desiste: prossegue na busca. Hidetora foge do filho como quem foge de um fantasma, de um pesadelo. Ele sente vergonha e se enxerga como indigno do amor e da proteção do filho. Mas Saburo apenas deseja honrar o pai - e, insistentemente, convence-o disso. 

Tango, conselheiro fiel que se manteve ao lado de seu senhor mesmo após o exílio injusto (a amizade verdadeira que poucos reconhecem, o amigo real que é comumente injustiçado em detrimento de falsos colegas), pede para que ele recobre sua lucidez e perceba a origem das lágrimas do filho. 

Juntos, voltando alegremente como filho e pai, os dois se deparam com a morte: Saburo é atingido por um disparo traiçoeiro. Ele cai e morre. Hidetora se desespera e, num último lamento, prossegue para o pós-vida junto ao corpo do filho. A vitória na batalha não foi desfrutada. Hidetora recebe de volta o sangue que derramou e Saburo é atingido pela imprudência do pai. Não conseguimos escapar da morte. Certas coisas são inadiáveis.

Ran consegue nos fazer perceber a transitoriedade da vida. Morreremos. E a traição pode vir de locais inesperados: não do inimigo aberto, não do "outro", mas muitas vezes daquele que está dentro, ao lado, daquele que compartilha dos nossos laços de sangue e de nossas ideias. 

A espada não é erguida contra nós por parte do "insubordinado" (Saburo), mas sim dos falsos submissos (Taro e Jiro), dos bajuladores. O homem que escolhe a traição (Kaede) colhe traição; aquele que escolhe a lealdade, mesmo que morto, morre em paz de espírito e nos braços daqueles que realmente são fiéis (Hidetora, o pai arrependido, e Saburo, o filho leal).

Podemos interpretar "Ran" como uma releitura não só de "Rei Lear", de Shakespeare, mas do próprio conto de Gênesis sobre o filho pródigo (descrito no capítulo 15 do Evangelho de Lucas), aquele que desdenha todas as recomendações do pai, sofre as consequências (perambulando em situação de miséria), gasta toda sua riqueza e, ao invés de ser recebido com reprimendas e punições, recebe o perdão do pai e é acolhido por ele. em "Ran", o conto do filho pródigo é invertido: Hidetora rejeita os conselhos do filho, perde suas glórias e, em situação de miséria, é recebido com amor por seu descendente. A morte, diante de tantas traições, foi uma dor pequena aos dois. Hidetora é o "pai pródigo" recebido com honra pelo filho fiel.

E, quando as riquezas e as mulheres de Hidetora não significam mais nada, quando suas  antigas glórias militares não são capazes de ajudá-lo e ele se transforma cada vez mais numa sombra daquilo que fora, quando a traição se manifesta de todos os lados (inclusive por seu primogênito e por seu segundo filho) e seus mais íntimos amigos se afastam dele, é nos braços do filho que ele encontra lealdade real. 

É no funcionário exilado, Tango, que ele encontra nobreza, e não em seus conselheiros corruptos, que se vendem por pouco na esperança de obter muito. A fidelidade, assim como a traição, vem de onde menos se espera.

Em "Ran", Akira Kurosawa transmite valores milenares japoneses por meio duma obra inglesa (temas atemporais e que ultrapassam limites geográficos). Vida, morte, traição, lealdade, guerra, paz, terror e maravilhas, o homem e a natureza e o homem como parte da Natureza, a técnica, o progresso, as tradições, o formalismo e a autenticidade, a incredulidade e a fé. 

Kurosawa incorpora em si mesmo, enquanto indivíduo (ou melhor, como pessoa), uma identidade coletiva, uma identidade nipônica que não foi totalmente aniquilada pela modernidade e que encontra expressão na vida samurai, no Bushido e, igualmente, no cinema e nas câmeras.

É exatamente por isso que o trabalho de Kurosawa encontrou ecos no Ocidente, principalmente em John Milius, em toda uma geração de diretores de cinema, homens como Federico Fellini, Bernardo Bertolucci, Robert Altman, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Satyajit Ray, Spike Lee, Alexander Payne e tantos outros. "Ran" é um drama porque reflete parcialmente a realidade da própria existência humana, com elementos tão presentes hoje quanto o foram na época em que Shakespeare escreveu "Rei Lear" - e, na modernidade, conceitos como fidelidade e traição são cada vez mais diluidos, criando um panorama cada vez mais propício para as figuras da traição - como Kaede, Jiro e Taro - e onde reconhecemos cada vez menos quem nos é realmente leal (como as figuras de Saburo e Tango).

Kurosawa nos comunica os conceitos de fidelidade e de traição por meio de cenas impressivas e, ao mesmo tempo, sublimes. Ele consegue transmitir conceitos belos como simplicidade e sabedoria em meio a batalhas sangrentas. Consegue imprimir pureza e docilidade (a figura da doce Sue) em meio à carnificina, dentro de um mundo brutal. É um oriental comunicando a coexistência e a multiplicidade de elementos aparentemente antagônicos, a face multifacetada da vida: dor e prazer, vida e morte, guerra e paz, materialismo e espiritualidade, poder e humildade, riqueza e miséria, glória e esquecimento.

A brevidade da existência humana, a eminência da morte e a incapacidade de distinguir amigos de inimigos (bem como o quanto podemos nos enganar pensando que há em nós alguma sabedoria nossa, ou que o conhecimento é propriedade nossa) e a vaidade das riquezas são temáticas essencialmente atuais e tratadas por Kurosawa do modo que lhe é peculiar: o culto ao espírito samurai (algo visível também em sua obra "Os Sete Samurais" - 七人の侍 em japonês, produzido em 1954). 

"Ran" é um manifesto contra o espírito superficial e materialista não condicionado exclusivamente à modernidade, mas que se transformou em seu símbolo oficial.


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