terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Pós-Verdade e Verdade Política: Freedland versus Dugin

Por: Lorenzo Disogra
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho

Alexandr Dugin, ao centro, com o prof. Marcelo Gullo à esquerda e Julio Piumato, à direita


O termo "pós-verdade", que apareceu pela primeira vez em 1992, passou pelo processo duma difusão considerável nas análises políticas depois de dois eventos políticos importantes de 2016: o referendo da UE sobre o Reino Unido e a eleição presidencial nos Estados Unidos. Por essa razão, o Oxford Dictionaries decidiu eleger o termo como "a palavra do ano de 2016". Eles afirmam que isso é um adjetivo definido como "relacionar ou denotar circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes para moldar a opinião pública do que os apelos à emoção e às crenças pessoais". 

No presente artigo, vou comparar duas visões diferentes (talvez, completamente opostas) sobre o fenômeno da "pós-verdade": aquele dado pelo jornalista liberal Jonathan Freedland e aquele dado pelo filósofo russo Alexandr Dugin. No final, tentarei fazer algumas conclusões.


A opinião de Jonathan Freedland

Encontrei esse artigo no site do "The Guardian" e escolhi essa fonte porque queria ver como o fenômeno da pós-verdade era tratado por um jornal famoso e conhecido (talvez possamos chamá-lo de "mainstream") como o "The Guardian" (só pense que o jornal se define como a "principal voz liberal no mundo") e, em particular, por um jornalista bastante renomado, como Jonathan Freedland. Num nível geral, em relação à opinião expressa pelo jornalista no artigo, pode-se dizer que ele expressa as preocupações típicas do "bom liberal", o intelectual ocidental progressista e positivista. Mas, agora, vamos analisar a reflexão de Freedland em detalhes.

Antes de tudo, o jornalista britânico diz que "2016 esmurrou a face da verdade, deixando-a machucada e sangrando". Por exemplo, ele diz que "enquanto Aleppo suportava suas agonias finais, o simples fato de circular qualquer informação - um vídeo, uma fotografia, um relatório de notícias - desencadearia uma resposta desconfortante[...] Alguém, em algum lugar, respondeu que a fotografia era adulterada, que a fonte era um escárnio, que a criança resgatada não era realmente uma criança ou não era uma criança resgatada de verdade".

De acordo com a opinião dele, "isso é sobre algo maior do que atribuir culpa por uma morte ou um bombardeio; se trata de recusar aceitar que a morte ou o bombardeio ocorreram". É interessante ver que ele menciona os "defensores de Bashar al-Assad" e os "apoiadores russos e iranianos" como os culpados por esse tipo de comportamento. Citando uma frase do senador estadunidense Daniel Patrick Moynihan, Freedland diz que "você tem direito sobre sua opinião, mas você não tem direito sobre seus fatos".

Contudo, ele afirma que, hoje, essa distinção fundamental entre opiniões e fatos parece ter falhado. De fato, "agora as pessoas consideram os fatos como algo bastante semelhante às opiniões: você pode descartar aqueles dos quais você não gosta".

Depois disso, Freedland analisa o comportamento de Donald Trump. Ele sublinha que o presidente dos EUA, em relação aos assuntos de extrema importância e gravidade, como o papel dos russos nas ações de hacking contra e-mails dos democratas e a questão da mudança climática, diante de um vasto corpo de evidências, sempre disse: "ninguém realmente sabe".

Além disso, Freedland lembra que Trump também disse que se você deduzir os milhões de votos ilegais ele teria vencido as eleições dos EUA também por meio do voto popular: uma alegação flagrantemente falsa para a qual não há nenhuma evidência. Em relação a essas alegações de Trump, o jornalista diz: "Nós temos chamado isso de 'política da pós-verdade' mas agora me questiono se a frase é gentil demais, sugerindo que a sociedade simplesmente atingiu algum tipo de fase nova em seu desenvolvimento. Isso deixa a culpa leve demais. O que Trump está fazendo não é se 'engajar numa política pós-verdade'. Ele está mentindo".

No fim, ele está convencido de que "Trump e aqueles como ele não apenas mentem: eles implicam que a verdade não importa". Mais adiante, Freedland lista as causas dessa situação: o uso da tecnologia ("a mídia social permite que aqueles que negam os fatos espalhem suas anti-histórias rápida e amplamente"), a desconfiança em relação às elites ("as pessoas não estão mais preparadas para confiar nas palavras de seus líderes") e a tendência a um "partidarismo mais profundo e mais amargo" (afirmando, assombrado, que "já que as pessoas se alinham com a tribo, estudos mostram que seu primeiro instinto será o de acreditar naquilo que favorece seu lado e desacreditar naquilo que favorece seus oponentes").

O jornalista afirma que essa tendência de não dar importância à verdade "está tornando nossa esfera pública um lugar vertiginoso" e afirma que "sem um conjunto comum e definido de fatos, dificilmente podemos ter qualquer tipo de conversação pública de qualquer modo". Citando o escritor David Roberts, Freedland diz que hoje "não há mais referências, só jogadores; de fato, "quando juízes atuais entram no quadro [...] um lado corre para desacreditá-los, estigmatizando-os como tendenciosos, partidários políticos" (em outros termos, como "inimigos do povo"). No final, Freedland conclui que "não podemos viver nesse tipo de mundo. Evidências, fatos e razão são as pedras fundamentais da civilização. Sem elas, mergulhamos na escuridão".


A reflexão de Alexandr Dugin

Pessoalmente, acho que a reflexão de Freedland sobre o fenômeno da pós-verdade é bastante superficial e insuficiente. Acho mais interessante a análise do filósofo russo Alexandr Dugin, que deu uma entrevista ao jornalista Gabriel Gatehouse da BBC há quase um ano atrás, exatamente sobre essas questões (Alexandr Dugin: "Temos nossa verdade russa especial" - BBS Newsnight)[2]. O filósofo começa dizendo que "qualquer verdade é relativa, então temos nossa própria verdade russa, que você precisa aceitar como algo que talvez não seja a sua verdade". 

Ele explica que isso "não significa que a verdade não exista, mas significa que uma verdade absoluta, para todos, não existe". Gatehouse faz, mais adiante, uma pergunta pessoal a Dugin: "quando você assiste as notícias na TV russa, você acredita naquilo que vê?". Dugin responde "absolutamente". "Mas você é um homem inteligente!", afirma arrogantemente o jornalista e, imediatamente, Dugin argumenta que o pós-modernismo e a sociologia nos ensinam que "os fatos reais são aqueles nos quais a sociedade acredita"; contudo, "toda dita verdade é uma matéria de crença; então acreditamos naquilo que fazemos, acreditamos naquilo que dizemos e que esse é o único modo de definir a verdade".

Dugin esclarece que "essa não é só a nossa posição"; de fato, "quando vejo a mídia ocidental me pergunto como as pessoas podem mentir desse modo [...]  mas depois digo a mim mesmo: 'pare, isso não é mentir, isso é a verdade deles' ". Então ele prossegue afirmando que "fatos são sempre interpretações" e que "você enxerga porque interpreta". 

Nesse ponto, Gatehouse interrompe Dugin, dizendo "mas e se alguém pilota um avião e solta uma bomba numa construção em Aleppo...", mas Dugin imediatamente responde, questionando: "mas que avião é esse? Que bomba é essa? Qual é a área sobre a qual a bomba está sendo lançada? Depois de responder essas questões é que nossa interpretação começa. É uma guerra e é muito difícil ir lá e ver o que está acontecendo". "Pra você, qualquer bomba sendo lançada é russa", continua Dugin, "qualquer pessoa morta por uma bomba russa é um civil inocente [...] porque você é um homem ocidental normal, de verdade, um jornalista ocidental e você presume que os russos são maus. Essa é a sua verdade". 

De acordo com Dugin, vivemos agora num "mundo multipolar", que é composto por uma pluralidade de poderes igualmente fortes. Precisamos entender e aceitar que, nesse tipo de mundo, "ninguém tem o monopólio da verdade". 


Conclusões

Diferentemente de Dugin, para Freedland, só há uma verdade no mundo - que não pode ser questionada de modo algum. O jornalista britânico ignora completamente a tão chamada autonomia da política, como o fato de que a política não é baseada na racionalidade, mas sim na irracionalidade. Conforme aprendemos do jurista alemão Carl Schmitt, política significa agir, defender ou impor um tipo particular de existência coletiva, para além daquilo que há de moralmente correto ou errado e daquilo que objetivamente verdadeiro ou falso.

Freedland se surpreende muito com a atual tendência de "um partidarismo mais profundo e mais amargo", mas esse fato só significa que aquilo que está acontecendo no país, como o dele mesmo, é simplesmente o retorno da política nos contextos que ela havia praticamente abandonado. A política divide o povo em diferentes grupos, que são agregados em torno de um "discurso" particular, ou de uma "narração" particular - ou, como Dugin nos ensina, em torno duma "verdade" particular. Para os apoiadores de Trump (como aqueles de qualquer outro líder político), não importa se aquilo que o líder diz é verdadeiro ou falso; eles só se identificam nele e em sua visão política.

Assim, políticos como Trump não estão nem se "engajando numa política pós-verdade", nem mentindo, mas estão apenas fazendo política. Além do mais, Freedland deveria compreender que, na política, não há árbitros, mas apenas jogadores. De fato, há árbitros somente quando há alguém que comanda todos os outros e que tem o monopólio da verdade.

Conforme ainda aprendemos de Carl Schmitt, a política divide o homem em amigos e inimigos: isso implica o fato de que sempre há a possibilidade de que a política se degenere em conflito. Schmitt afirma que os filósofos liberais são aqueles que querem reduzir a política a uma simples plataforma de discussão. Então, quando Freedland diz que "sem um conjunto de fatos comuns e acordados, nós dificilmente podemos ter qualquer tipo de conversação pública", ele não faz nada mais do que expressar uma preocupação tipicamente liberal.

No fim, derrubando essa última sentença, poderíamos dizer que "evidência, fatos e razão não são as pedras fundamentais da civilização, mas apenas as pedras fundamentais da civilização dele". Sem elas, não não mergulhamos na escuridão", mas apenas voltamos à política real. Em outras palavras, nós podemos dizer que estamos nos movendo para um "mundo multipolar". O desafio real, como Dugin nos sugere, é nos tornar aptos à diversidade do outro e respeitar sua verdade, sem abandonar nossa própria identidade.



Publicado originalmente em: 4pt





Notas: 

[1] Jonathan Freedland, "Don’t call it post-truth. There’s a simpler word: lies(https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/dec/16/not-post-truth-simpler-words-lies-aleppo-trump-mainstream);

[2] BBC Newsnight Aleksandr Dugin: 'We have our special Russian truth'' (https://www.youtube.com/watch?v=GGunRKWtWBs).



Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Visitas

Marcadores