quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Os verdadeiros inimigos e aliados de Olavo de Carvalho

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Foto: Jay Westcott / Polaris Images

Em termos de ação política, é crucial definir com consistência quais elementos são aliados e quais são inimigos. A diferenciação entre o nós e o eles é essencial e sem isso qualquer ação política torna-se inviável. Mas essa não é uma tarefa fácil e erros podem ser cometidos. Elementos que são considerados como inimigos nem sempre são piores do que aqueles que se enxerga como aliados - e escolher mal suas parcerias e alianças pode ser tão trágico (ou mais) quanto não conseguir identificar bem seus adversários.

Olavo de Carvalho é visto (e considera-se) como a maior voz conservadora do Brasil e o maior opositor da Esquerda e daquilo que ele denomina como "marxismo cultural". Ele se alia a conservadores, monarquistas, liberais e à Direita em geral. Mas os verdadeiros aliados e os inimigos reais de Olavo não são essas figuras, e determinar quem ele realmente combate e com quem ele realmente se associa é um pré-requisito para determinar a validade de qualquer aliança com a própria pessoa de Olavo - afinal, quando você se associa a uma pessoa ou a um grupo, também está se associando direta ou indiretamente a todos os aliados dessa figura.

Recentemente, no dia 29 de novembro, alguns integralistas foram agredidos por militantes de Esquerda na FFLCH, na USP[1], após uma tentativa de realizar um evento sobre municipalismo no Brasil. O ato deveria despertar solidariedade de setores à Direita, e principalmente de alguém com uma projeção como a de Olavo. Mas a reação do "grande guru da Direita" foi atacar não a Esquerda e o episódio da agressão em si, mas sim os integralistas, denegrindo-os de maneira baixa[2] - como é costume dele (o modus operandi de Olavo é bastante idêntico ao assassinato de reputações que ele atribui como algo essencialmente de Esquerda e como típico da mentalidade revolucionária). 




A postagem original pode ser encontrada no próprio perfil de Olavo



A atitude de Olavo em relação ao Integralismo, mesmo que sua opinião não tenha sido uma resposta direta ao caso da agressão na USP, teve um simbolismo político: denegrir um setor de oposição à Esquerda (o integralismo). E, numa luta política entre dois agentes, tomar um dos lados significa fortalecer uns e enfraquecer outros. O gesto dele não enfraqueceu a Esquerda, mas sim o integralismo - e o nacionalismo brasileiro de modo mais genérico.

Se a Esquerda, o comunismo e o "marxismo cultural" são realmente os inimigos mais ferozes de Olavo, por qual motivo ele critica um setor de oposição a esses elementos, e não os próprios elementos em si? Se há discordâncias dele em relação ao integralismo, elas não poderiam ser deixadas momentaneamente de lado para combater um adversário em comum? Afinal, Olavo faz isso frequentemente em relação a setores essencialmente anti-cristãos, como o sionismo e a maçonaria - diante dos quais ele não se cansa de demonstrar os benefícios e a utilidade de uma aliança e a necessidade de deixar as diferenças e discordâncias de lado. 

Não foi a primeira vez que Olavo atacou o integralismo. Na verdade, Olavo já criticou o nacionalismo brasileiro como algo "aberrante". Os verdadeiros inimigos dele e de seus seguidores são todos os setores realmente preocupados com o Brasil. Se esses grupos não estão totalmente coligados a ele, então automaticamente sofrem ataques gratuitos não só dele enquanto pessoa, mas do séquito que o segue incondicionalmente.





Uma repetição do discurso do "mestre", idêntica à própria retórica usada pelos esquerdistas pós-modernos que agrediram os integralistas - com uma resposta no nível de baixeza do guru (os comentários dos demais seguidores dele são desse mesmo nível)



Olavo não se importa em atacar conservadores católicos, enquanto defende tacitamente a necessidade de uma "união pragmática" com maçons para "combater o comunismo". Maçonaria, sionismo e atlantismo: eis o tripé intocável dele. Para sionistas, ele será sempre um aliado fervoroso - jamais criticará, por exemplo, a política fervorosamente anticristã de Israel; para maçons, ele será um "opositor moderado" que defende a necessidade duma aliança prática contra um inimigo "pior"; para os Estados Unidos, ele será a caixa de ressonância do pensamento neocon - pronta para repetir os mantras dos imperativos geopolíticos dos EUA.




Tática do "mestre": ridicularizar as críticas ao invés de desmenti-las 


Olavo é taxativo em relação a um grupo essencialmente católico e conservador como o Integralismo: é "babaquice". Mas, em relação aos maçons, suas críticas são sempre amenas e ele faz questão de suavizar a gravidade da maçonaria. Entre os maçons, para Olavo, há setores que valem a pena e que são muito bons - mas entre integralistas só há "babacas". A crítica ao elemento mais próximo, o Integralismo, é sempre taxativa; em relação a um grupo que executou milhares de membros do clero na Revolução Francesa, as coisas não precisam ser tão "radicais" assim.




Com os maçons, as críticas são sempre leves e permeadas de ressalvas. É preciso defender os verdadeiros amigos (postado no perfil oficial dele). 




Olavo está mais vinculado à maçonaria e aos ramos sionistas do que aos católicos (aliás, os elementos perenialistas que ele tenta inserir contra o catolicismo já foram bem identificados por católicos conservadores[3]). É com o ramo da maçonaria, do neoconservadorismo estadunidense e do sionismo que Olavo tem compromissos, laços e uma amizade real, e não com setores conservadores brasileiros (com exceção daqueles núcleos criados por ele mesmo e totalmente submetidos e vinculados a ele). Para conservadores autênticos e nacionalistas, Olavo será sempre um opositor. Ele tem atuado como figura de fragmentação e sabotagem contra qualquer projeto real para o Brasil. O que ele deseja e aquilo para o qual seus esforços são dirigidos não é uma vitória para o Brasil contra a Esquerda, é uma vitória para si mesmo e sua clientela contra todo o resto.

Com o integralismo e com as ideias de Plínio Salgado não deve haver diálogo. É algo risível, patético, "nazi-fascista" (aqui, o vocabulário da "tão odiada Esquerda" é tomado por Olavo e seus seguidores sem ressalvas). Mas, com a maçonaria, é preciso realizar uma união "prática" contra o comunismo. É exatamente isso que ele mesmo defendeu em várias postagens suas. Num hangout realizado em março de 2016[4], Olavo se reuniu com vários maçons da organização "Avança Brasil" e defendeu explicitamente uma aliança entre o catolicismo brasileiro e a maçonaria. Os maçons, historicamente anticatólicos, são uma fonte de alianças práticas; os integralistas, um grupo historicamente católico, é um meio que deve ser ridicularizado ao máximo. Essa é a lógica do "grande mestre".

O ataque de Olavo ao integralismo e ao nacionalismo brasileiro como um todo não deve ser um episódio interpretado exclusivamente pelo Olavo enquanto pessoa, indivíduo, mas sim como um gesto que representa todo um conjunto de valores, pautas e objetivos de organismos maiores do que ele e aos quais ele se reporta, de uma forma ou de outra - ou com os quais mantém vínculos ou, no mínimo, uma abordagem mais amena e amigável. Atacar o integralismo, visto por ele como expressão "nazi-fascista" e "antissemita", é um modo de comunicar aos seus pares sionistas que ele repudia veementemente tudo aquilo que é "fascista", com uma conotação puramente subjetiva, exatamente do mesmo modo que os antifascistas de Esquerda (tão "odiados" por ele) comunicam. Um termo vazio que pode ser preenchido por qualquer significado - e, para Olavo, qualquer um pode ser nazi-fascista, bastando criticar o establishment do sionismo.

É por isso que a pessoa de Olavo em si é irrelevante. O que importa é a leitura dos fenômenos políticos e geopolíticos aos quais ele está atrelado. Enquanto o meio conservador e os grupos verdadeiramente nacionalistas do Brasil permanecerem atrelados à figura de Olavo, estarão também limitados por toda uma estrutura essencialmente hostil a eles. Considerar o "mestre" da Virgínia como um aliado contra um "mal maior" é como recepcionar o assassino para combater o cadáver. Olavo nunca representou e nunca irá representar uma alternativa séria ao Brasil e essa nunca foi sua preocupação. É para Israel e para os Estados Unidos que todo o seu ser, de modo anímico, se orienta.

É preciso desvincular-se da figura dele e criar alternativas e organismos autônomos, sobre os quais ele não tenha acesso. Enquanto o olavismo for aceito como uma ferramenta válida de combate a outros inimigos, esses inimigos não só não serão combatidos como setores ainda mais obscuros serão fortalecidos.

Não coloco o cerne da questão nos elementos de perenialismo, gnose, ligações ocultas ou "conspirações" em torno da figura de Olavo de Carvalho, mas sim do fato explícito de que ele se associa com determinados grupos e os favorece, mesmo que pela via do discurso, e que esses grupos em si (sionismo, maçonaria e neocons estadunidenses) são hostis à própria ideia de um projeto de nação para o Brasil e de qualquer identidade tradicional que não esteja atrelada a esses setores. Ele se desfaz das críticas considerando-as como absurdas e tratando-as no nível da ridicularização - mas não é capaz de renegar aquilo que ele mesmo declara e defende, nem suas verdadeiras associações. É com base nas atitudes visíveis dele e em sua atividade política que deve-se criticar não só sua figura, mas os organismos aos quais ele responde. 

Suas ligações ocultas aparentemente não perturbam seu sono - deixemos que ele durma, então.




Notas:

[1] Gazeta do Povo - Alunos e palestrante são expulsos a tapas da USP por manifestantes de extrema-esquerdahttp://www.gazetadopovo.com.br/educacao/alunos-e-palestrante-sao-expulsos-a-tapas-da-usp-por-manifestantes-de-extrema-esquerda-b2qwf9j5hfqg0b1493y34k01q.

[2] A postagem original de Olavo foi publicada no dia 30 de novembro desse ano, um dia após o ataque contra os integralistas na USP e pode ser conferida aqui: (https://www.facebook.com/olavo.decarvalho/posts/10155831884302192).

[3] Site da Montfort, Orlando Fedeli: A Gnose "Tradicionalista" de René Guénon e Olavo de Carvalho (http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/religiao/guenon/)

[4] "Hangout entre o Prof. Olavo de Carvalho e maçons do Avança Brasil" (https://www.youtube.com/watch?v=A9BRl5_DZ_Y)



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2 comentários:

  1. Muito bom. Eu ainda somaria alguns detalhes a essa análise. Pra quem o discurso e a análise dos fatos AINDA está preso à esfera das duas primeiras teorias políticas, é inevitável, em algum momento da jornada, acabar se encontrando em um beco sem saída. "Se esquerdistas odeiam capitalistas, e odeiam portanto judeus, ENTÃO, eu, que sou anti-esquerda, deverei apoiar os sionistas e amar os capitalistas".
    Raciocínios primitivos de quem ainda está amarrado àquela velha dicotomia esquerda-direita, que já não explica mais quase nada, e não contempla o fato de que existem áreas de interseção entre os diversos espectros políticos em atuação. Outro fator é o da simples sobrevivência financeira. Impedir a ascenção de novos setores conservadores, ou de outros discursos pautados sobre essa plataforma de análise, garantirá ao Olavo o monopólio dos interessados, venda dos produtos a ele ligados, e prestígio intelectual para os seus alunos que os sustentam.

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  2. os integralistas fariam uma defesa do municipalismo? por que razão?

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