segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Carlos Drummond de Andrade e o Haiku

Por: Jean A. G. S. Carvalho


Há uma ponte entre Brasil e Japão - uma ponte escrita. Drumond representa uma ordenação diferente de pensamentos, mas também se preocupou com questões presentes no Haiku, um estilo de poesia japonesa milenar


Há uma imensidão de cargas que nos diferem civilizatória e psicologicamente dos povos orientais - mas, como Brasil, possuímos ligações explícitas, conscientes ou inconscientes com todo o restante do mundo (um fenômeno singular, nosso). Dentre vários elementos, é possível traçar o perfil de uma civilização por meio de sua literatura (sua arte escrita, mais especificamente). E a poesia é um dos traços mais significativos do gênio humano e da capacidade criativa do homem, um indício da centelha divina que habita a humanidade.

Há algum paralelismo entre o poeta Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira, e escritores japoneses como Masaoaka Shiki, Kobayashi Issa e Matsuo Bashō? Definitivamente, a falta de pretensão e a simplicidade.

Há alguns exemplos concretos. Drummond aborda a questão existencialista de um modo muito parecido com o de Masaoka Shiki:




"Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida."
("Lembrete", Carlos Drummond de Andrade)
-
" 餘命いくばくかある夜短し "
[yomei ikubaku ka aru yo mijikashi]
[Quão longa é 
minha vida?
Uma noite curta...]
("Minha Vida", Masaoka Shiki)



Brevidade da existência humana e aspecto supra-racional da mesma: elementos presentes em Drummond e em Masaoka. A temática da existência humana e da morte prossegue nos versos do poeta japonês Matsuo Bashō:




" 行春や 鳥啼き魚の 目は泪 "
[Yuku haru ya/ Tori naki uwo no/ Me ha namida]
[A primavera está passando.
Os pássaros choram, e os peixes ficam cheios
De lágrimas nos olhos.]
(Matsuo Bashō)




E, em Drummond, o tema se renova:



"Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora."
(Trecho do poema "A um Ausente", Carlos Drummond de Andrade)



Em Matsuo, encontra-se o elemento da resignação, enquanto que em Drummond percebemos com mais força a presença da indignação; mas os dois demonstram a impotência humana diante da morte e lamentam a partida dos outros, sabendo que eles mesmos um dia irão partir. Quando Matsuo fala sobre a passagem da primavera, fala sobre o fim da vida; e quando fala sobre o choro dos pássaros e dos peixes, fala sobre o lamento dele mesmo e de seus amigos - a despedida da Primavera é a despedida da Vida. 

Drummond e Matsuo (além e vários outros poetas brasileiros e japoneses) reconhecem a finitude da vida, mas sentem que há algo de intrusivo nesse processo - a morte como uma ruptura. Mas o fim de uma Primavera sempre será o início de outra. E ambos deixam a morte implícita nos textos - o fim da primavera ou a partida sem despedidas, duas metáforas para o processo do fim da vida.

O amor é uma das forças presentes na finitude temporal humana. Takahama expressa o amor como comparável ao sentimento agradável de vislumbrar um arco-íris, uma das belezas da Natureza:



" 虹立ちて 忽ち君の 在る如し "
[Nizi tachite/ Tachimachi kimi no/ Aru gotoshi]
[O arco-íris se ergue
Num momento
Como se você estivesse aqui.]
(Takahama Kyoshi)



A presença da beleza (no caso, o arco-íris) é a presença do ser amado. Drumond expressa o amor também como uma força:




"É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe."
(Trecho do poema "Amor e seu Tempo", Carlos Drummond de Andrade)




Em Takahama, o amor como imprevisto e incontrolável (não temos poder sobre o arco-íris); em Drummond, algo semelhante: um "prêmio subterrâneo", um "ganho não previsto". Não somos capazes de controlar o amor: é uma das forças inexplicáveis da vida, como a própria vida.

Embora a estrutura de escrita de Drummond e dos escritores japoneses seja totalmente diferente (no haiku, encontramos a típica formatação 5-7-5, e em Carlos uma escrita que não respeita uma estrutura numérica) - os poetas japoneses do haiku são receptores e portadores de uma tradição milenar, enquanto que Carlos Drummond é inovador num estilo moderno de poesia -, é possível estabelecer uma ponte e uma correlação entre assuntos universais e presentes tanto na poesia drummondiana quanto no haiku nipônico - morte, vida, amor, finitude, impotência, vontade.



   
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