segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Por que o neopentecostalismo cresce tanto no Brasil?

Por: Jean A. G. S. Carvalho




O Brasil é um país ainda majoritariamente católico, mas com um profundo crescimento do neopentecostalismo. Há vários meios de interpretar esse fenômeno, mas as circunstâncias geradas pelo vácuo de poder nas periferias e favelas é provavelmente o ângulo mais significativo (ou um dos mais significativos).

Em primeiro lugar, é possível traçar paralelos entre o crescimento dos neopentecostalismos estadunidense e brasileiro, mas os dois fenômenos possuem também características bastante distintas - no Brasil, esse fenômeno ganha traços próprios e as análises feitas aqui se desdobram especificamente naquilo que acontece aqui.

As denominações neopentecostais crescem com mais vigor nas periferias e favelas - exatamente os locais com menor presença do Estado. Há um imenso vácuo de poder e de estrutura social nessas regiões, com ausência quase que completa de infraestrutura, seguridade social, lazer, segurança, educação e auxílio às famílias, mulheres, idosos e crianças. 

É nesse vácuo que a ação neopentecostal se firma: essas congregações realizam uma série de benfeitorias sociais, serviços voluntários e apoio que os pobres não encontram em outras instituições (afastar os homens do alcoolismo e, consequentemente, gerar um ambiente de segurança para as mulheres é um desses elementos).

A desmobilização das organizações de massa e o abandono da Esquerda em relação à periferia, preferindo a figura do burguês e as pautas pequeno-burguesas à realidade dos proletários pobres também favorece o fortalecimento dos ramos neopentecostais nessas áreas. A desproletarização da Esquerda abriu o caminho para uma espécie de "proletarismo"-neopentecostal.

Sem uma política real para as periferias e os mais pobres em geral, essas massas são cooptadas por instituições para além das estruturas governamentais e partidárias, organizações com mais capacidade de mobilização, dinamismo e mais contato com os problemas reais.

Cada líder duma congregação neopentecostal é essencialmente um senhor das terras (um overlord[1], um suserano) com domínio sobre um território definido. Ele atua como a autoridade de facto da comunidade, a liderança comunitária. Não o policial, não o juiz, não o oficial de justiça: o líder neopentecostal. Essa é a autoridade e esse é o elemento que comanda sua jurisdição.

Esse senhorio cria uma estrutura social para atender as necessidades mais básicas da comunidade, ganhando a fidelidade e o comprometimento da clientela (os fiéis ou conversos). É pelo prisma dos negócios que esses meios devem ser encarados, porque de fato são negócios expansivos, sustentados por dinheiro e dele dependentes.

Quanto mais clientes (fiéis), maior a arrecadação monetária nessas terras. E, quanto maior essa arrecadação, maior é a capacidade de expansão territorial: o overlord  agora é capaz de abrir filiais (outras congregações), entregues aos comandos de um seigneur[2], um "senhor de feudo". 

Esse seigneur pode tanto estar ligado a um ramo mais forte (como no caso da Igreja Universal do Reino de Deus) ou se desvincular do núcleo e formar um negócio próprio (como no caso da Igreja Mundial do Poder de Deus, forjada por Valdomiro Santiago, um ex-membro da Igreja Universal).

Essa estrutura social criada pelas congregações neopentecostais tem um efeito de "convênio" ou "pacto": o miserável, assistido pela congregação de bairro (ligada ao overlord ou ao seigneur), vota nos candidatos que refletem esse meio neopentecostal. Assim, os donos das terras expandem seus territórios e consolidam projeção política. 

Quanto mais adeptos/convertidos/clientes, mais eleitores. Quanto mais eleitores, mais candidatos com essa filiação religiosa chegam ao poder, criando um verdadeiro lobby que reflete uma coletividade, uma expansão do poder do overlord e/ou do seigneur.

Com surgimento nos Estados Unidos, especialmente por membros afro-americanos, o neopentecostalismo tem (ou teve) conexões próximas com as religiões de matiz africana - uma conexão que, hoje, é visceralmente cortada, manifesta inclusive na profunda hostilidade das congregações neopentecostais contra os cultos de raiz afro-brasileira. O elemento do transe e do êxtase é apenas um dos indicativos de proximidade entre esses dois troncos religiosos. A migração entre membros desses dois pólos é ainda um indicativo disso.

Mas ainda há elementos conectivos entre as duas aglomerações religiosas. Lídia Maria de Lima, teóloga e pesquisadora, constatou que dentre 60 umbandistas e candomblecistas (as duas maiores religiões de matriz africana no Brasil), 35% eram pertencentes a denominações evangélicas antes de migrar para religiões afro-brasileiras[3].

Há uma grande volatilidade e tráfego de fiéis entre várias religiões no Brasil. O neopentecostalismo cresce, mas com uma massa de adeptos não necessariamente fidedigna. A rotatividade é bastante alta: eles migram de denominação em denominação. Muitos deles passam para os ramos protestantes históricos, alguns para o catolicismo e até mesmo para religiões afro-brasileiras. Isso significa que essa massa neopentecostal, apesar de crescente, não é fixa e pode se movimentar para diferentes segmentos.

É exatamente por isso que o overlord ou o seigneur precisam se valer da força armada para desfazer esses laços ou elementos de proximidade aparente e reafirmar o culto, o secto neopentecostal (o núcleo de atuação e de projeção de poder desses barões) como liderança inquestionável e inconteste na região territorial.

O pacto firmado entre os fiéis e esses cultos é também frágil. A relação com esses meios é basicamente aquela onde o fiel (ou adepto) busca a resolução de algum problema, alguma situação contingente (essencialmente material). Uma vez resolvida a demanda, a aderência a esses meios é pequena.

A união com elementos de tráficos e milícias  serve também justamente para consolidar a presença do culto em determinada localização geográfica - os traficantes armados que eliminam os locais de culto de candomblé e umbanda, por exemplo, asseguram a predominância do agrupamento religioso neopentecostal do qual são filiados.

Esses núcleos neopentecostais podem ser interpretados como algo essencialmente heterogêneo. São clãs, overlords disputando espaço territorial, fiéis e dinheiro - essencialmente rivais. São negócios em competição franca, concorrentes de públicos específicos e suas campanhas desesperadas para arregimentar fregueses são uma demonstração clara disso.

Todos esses cultos são essencialmente sensitivos e sentimentalistas, completamente apelativos no nível emocional - o condicionamento pelo êxtase. Todos os apelos são seguidos por pedidos e campanhas que exigem que o freguês (o fiel) entregue uma quantia de dinheiro ou de qualquer bem material.

Sem uma projeção de poder real e de presença de Estado nas favelas e nas camadas mais pobres da sociedade, entregues exclusivamente à lógica de lucro, os ramos neopentecostais conseguirão mais e mais projeção, especialmente porque toda sua dinâmica está mais adaptada à questão do lucro, do financismo.

O crescimento é também demográfico: os neopentecostais têm filhos e um crescimento numérico significativo. Ao contrário, os adeptos da Esquerda pós-moderna recrudescem e são essencialmente avessos à reprodução humana; o ateísmo também tem a projeção de decréscimo demográfico constante ocasionado pela baixa natalidade[4]

Os principais adversários do neopentecostalismo falham em dois aspectos principais: atuação real nas periferias e crescimento demográfico. Manter uma ideia viva exige manter  também o surgimento de novas gerações (esse é um dos motivos, por exemplo, de o Islã crescer tanto na Europa: o imigrante islâmico tem vários filhos, enquanto o  europeu médio tem poucos ou nenhum).

É assim que esses líderes de culto, overlords e seigneurs, aumentam sua projeção de poder: criando uma rede de seguridade social, captando novos clientes (fiéis), aumentando sua arrecadação monetária e expandindo suas bases - estimulando, também a procriação. E, é claro, contando com seus homens armados, seus soldados (swordsman, rider[5]).

Esses swordsmen precisam ser arregimentados dentro e fora dos presídios, inclusive. Podendo significar uma conversão real ou um mero recrutamento dessa força combativa para a congregação neopentecostal, a tomada do narcotraficante (ou do banditismo em geral) é passo vital para esses estabelecimentos. É provavelmente por esse fator que o neopentecostalismo busca tanta entrada em ambientes prisionais.

Separar trabalhos religiosos autênticos com as populações carcerárias da atuação com fins de cooptação para interesses escusos não é um trabalho fácil. O caso de Marcos Pereira, líder de um desses cultos, é bastante significativo: realizando trabalhos de "conversão" e "evangelismo" em presídios, ele tinha supostas ligações com criminosos (Marcos chegou a ser solto por decisão da Justiça em 2014).

Sem um projeto consistente e uma presença efetiva de Estado nessas localidades, a tendência é que o vácuo de poder seja preenchido por esses ramos neopentecostais que, inclusive, conseguem articular milícias e tráficos ao invés de competir com esses nichos por esse espaço de poder.

O neopentecostalismo, distante de qualquer traço de Cristianismo real (tanto do catolicismo quanto do protestantismo pré-neopentecostalismo), funciona como um negócio que oferece tudo aquilo que o cliente quer: soluções materiais, êxtase, uma visão estritamente individualista e uma "experiência religiosa" mecânica e fácil de se manipular - ao mesmo tempo, não possui nada que o homem realmente precisa, uma conexão real com Deus e uma transformação cristã verdadeira. 

É um não-cristianismo e a negação em essência da mensagem dos Evangelhos. Em suma, é um negócio: todos os aspectos divinos transformados em serviçais com as necessidades humanas como epicentro da "experiência religiosa". É um contrato: "dê dinheiro e receba mais dinheiro". É uma pseudo-espiritualidade superficial e essencialmente negativa.

A bestialização das massas por produtos inacabados da indústria de massas, a desinformação e desinteligência das mídias e a ausência de projetos civilizacionais reais (além do materialismo e do individualismo) são elementos propícios ao surgimento e À propagação de sectos neopentecostais. 

Reclamar da proliferação desses sectos sem compreender suas causas e sem disposição real para alterar esses contextos e realidades é como reclamar do fogo sem combatê-lo - e não há nenhum projeto alternativo real à atuação neopentecostal, ao menos não por parte do Estado.




Notas:

[1] Overlord é um termo em inglês que significa "suserano", um senhor de domínio feudal.

[2] Seigneur é um termo em francês que significa "senhor", aquele que recebe um domínio das mãos do senhor feudal/rei/suserano.

[3] "O novo retrato da fé no Brasil", Istoé: https://istoe.com.br/152980_O+NOVO+RETRATO+DA+FE+NO+BRASIL/.

[4] "Why people with no religion are projected to decline as a share of the worlds popularion", Pew Research: http://www.pewresearch.org/fact-tank/2017/04/07/why-people-with-no-religion-are-projected-to-decline-as-a-share-of-the-worlds-population/.

[5] Swordsman significa "espadachim", aquele que luta com espadas; rider significa cavaleiro; os termos foram usados aqui com conotação explícita de soldados a serviço de um senhor, reforçando o caráter territorial dos cultos neopentecostais. Substitua aqui as espadas pelos fuzis e os cavalos pelas motos e carros e você compreenderá o paralelismo e a metáfora.


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