terça-feira, 21 de novembro de 2017

O oportunismo político do discurso liberal

Por: Jean A. G. S. Carvalho


Arthur do Val em imagem descaracterizada: um dos profetas "anti-Estado" ansioso por um cargo estatal


O discurso contra o Estado gera rendimentos bastante visíveis. E é exatamente por meio de retóricas genéricas contra a corrupção, o parasitismo político e os cargos públicos que segmentos liberais conseguem eleger membros e expandir suas agendas políticas.

Capitalizar o descontentamento social e revertê-lo em forma de votos é exatamente o que pessoas como Fernando Holiday e Marcel Van Hattem (que atropelou e matou um trabalhador)  fizeram: conquistaram um público significativo nas redes sociais repetindo mantras liberais e, assim, conseguiram se eleger para cargos públicos.

Arthur do Val, dono de um canal no Youtube com ligações próximas com o MBL (Movimento Brasil Livre) também já capitalizou seu público pessoal de seguidores que em breve converterá em eleitores. 

Seu conteúdo consiste em mostrar membros da Esquerda em situações constrangedoras - editando sempre o material para garantir que questionamentos pertinentes não apareçam. Além disso, é um forte apoiador da iniciativa privada irrestrita e bastante crítico do Estado e dos impostos em geral (a repetição pura de todo o discurso liberal).

O próprio Arthur já declarou que será candidato em 2018 e que "sempre quis ser político" (estranhamente, ele só declarou isso após consolidar seu público)[1]. Essa postura é contraditória, mas não surpreende.

O próprio MBL ganhou força durante manifestações genéricas contra a corrupção, com um discurso superficial contra o governo e os apelos à ideologia do "Estado mínimo".

Declarando-se apartidário, o grupo mais tarde se aliou a partidos como PSDB, PMDB e DEM, calando-se sobre os esquemas de corrupção do governo atual e dos partidos aos quais está ligado. Vários membros ligados à organização foram eleitos nas últimas campanhas.

O discurso "anti-Estado" desses grandes segmentos liberais é meramente uma ferramenta para capitalizar eleitorado e se projetar dentro do Estado, conquistando cargos políticos. Todo o discurso contra os impostos é uma simples prévia para obter empregos públicos pagos, obviamente, com esses mesmos impostos.

A justificativa de que é necessário ocupar esses espaços para realizar uma "mudança de dentro para fora" não faz sentido. Esses mesmos liberais são cooptados pela classe política que supostamente deveriam combater. Os liberais do MBL e de outros grupos apoiaram com o silêncio os aumentos de impostos na cidade de São Paulo, efetivados pelo "prefeito' (ou administrador?) João Dória, do PSDB. 

Fernando Holiday votou a favor da PL 271 que efetiva multa de 100% sobre sonegadores de impostos. O discurso liberal radical e ortodoxo é rapidamente substituído pela conveniência partidária. Liberais, como qualquer outro especto ideológico, não são isentos dessas incongruências. Ao contrário: aproveitam esses elementos muito bem. 

Essas figuras não são "novidade" nem solução para os problemas de Estado. São uma falsa solução e um prolongamento do esvaziamento político. O oportunismo típico dessas figuras e suas próprias incoerências são sinais claros de que essas pessoas não representam alternativas sérias para a política.

Toda a retórica, o comportamento e o oportunismo dessas figuras são provas evidentes de que o discurso liberal não é anti-Estado, muito menos contra a casta política, mas sim contra o povo e a classe trabalhadora. É exatamente por isso que, enquanto criticam os impostos, eles se calam sobre os imensos privilégios da classe política, especialmente no atual governo (elogiando abertamente figuras corruptas como Michel Temer) e aplaudem políticas impopulares.

Não há contradição alguma nisso. É exatamente esse o modus operandi dos liberais que fazem capitalização eleitoral e desejam adentrar a política - todos eles devidamente apadrinhados. O próprio Arthur, que tem relações próximas com os integrantes do MBL, faz questão de frisar constantemente que seu trabalho é independente - mas, por conveniência, nunca comenta os casos comprovados de corrupção envolvendo os integrantes da organização e, quando o faz, é sempre em defesa desse organismo.

O radicalismo e o extremismo anti-Estado e contra impostos é apenas uma forma de angariar eleitores. Esses elementos recebem apadrinhamento político e obedecem uma agenda econômica específica, reportando-se aos seus devidos mentores. O liberal anti-Estado é um verdadeiro business, um produto que vende bastante - e que rende votos.

Convencer as camadas pobres e médias da sociedade de que militar contra  seus próprios interesses é uma atitude inteligente e revestir a retórica com uma oposição superficial aos verdadeiros parasitas (a classe política e o empresariado corporativista) é uma das prerrogativas dessa estratégia liberal.




Notas:

[1] “Sempre quis ser político e meu plano para 2018 é ser candidato”, diz Arthur do Val, do canal ‘Mamãe Falei’ -http://www.boletimdaliberdade.com.br/2017/05/07/sempre-quis-ser-politico-e-meu-plano-para-2018-e-ser-candidato-diz-arthur-do-val-do-canal-mamae-falei/.


Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Visitas

Marcadores