quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Franz Kafka: O Homem Irreconhecível e a Metamorfose do ser

Por: Tábita 

Foto recolorida de Franz Kafka 


"A Metamorfose" é uma novela de realismo fantástico escrita por Franz Kafka em 1912 e publicada em 1915. Em suas poucas e intensas páginas, a obra revela um universo próprio que esconde todas as inquietações e angústias de um autor com inúmeros conflitos internos e que se vê diante da Primeira Guerra Mundial.

O enredo trata-se, inicialmente, da metamorfose de Gregor Samsa, um caixeiro viajante cativo de um emprego, devido à uma dívida adquirida pelos seus pais, que acorda em uma certa manhã transformado em um inseto. Mas, atrás dessa transformação aparentemente sem sentido, Kafka lida com questões profundas inerentes ao ser humano, como a relação com o trabalho e com a família.

Preso no emprego em função da quitação da dívida, Gregor desgasta-se dia após dia, empenhado no sustento de sua casa. Seu trabalho assume duas faces, a de elo conector entre ele e sua família e de sua própria identidade perante o mundo.

Apesar de se tratar de uma ficção, a obra de Kafka é muito verossímil. Vivemos em uma sociedade onde a relação entre chefe e empregado é de propriedade; o contato humano é quase sempre superficial; as condições de trabalho ainda são precárias e a visão que se tem do ofício é de uma obrigação, um peso. Na narrativa, vemos que Gregor, apesar de claramente adoecido e irreconhecível, preso pelas constantes marcações do relógio, preocupa-se o tempo todo com o trabalho; nas punições, caso ele faltasse, e no que seu chefe pensaria de sua índole.

As condições de trabalho estressantes já foram evidenciadas como parte crucial no processo de adoecimento do trabalhador. Segundo Tânia Franco, Graça Druck e Edith Seligmann-Silva[1]:


"É necessário considerar, ainda, que os tempos sociais do trabalho (ritmos, intensidade, regimes de turnos, hora extra, banco de horas...) encontram-se em contradição com os biorritmos dos indivíduos, gerando acidentes e adoecimentos, destacando-se, internacionalmente, o crescimento de dois grupos de patologias - o das LER/DORT e o dos transtornos mentais. Entre estes, cabe ressaltar: os transtornos do ciclo vigília-sono - comuns em trabalhadores em regimes de turnos alternados e de trabalho noturno - que fazem parte da lista de transtornos mentais relacionados ao trabalho de acordo com a Portaria nº 1.339/1999 do Ministério da Saúde e, muitas vezes, aparecem associados (em comorbidade) ao quadro de fadiga patológica, também abrangido pela lista oficial; e o Esgotamento Profissional (Síndrome de Burnout), identificado no histórico de muitos casos de quadros depressivos e de processos psicossociais que conduzem aos suicídios e à escalada da dependência do álcool e das drogas."


Todos esses problemas possuem uma ligação em comum: a desvalorização do trabalhador e a valorização exacerbada do lucro. Como acontece com Gregor, a saúde mental e física é colocada em segundo plano e tudo o que é importa é o aumento da produção, sem que a qualidade de vida do funcionário seja colocada em pauta. O embrutecimento do homem, causado pela desumanização do trabalho, faz com que ele se torne irreconhecível até para si mesmo.

A falta de estabilidade no cargo somada à insegurança que ela gera, tão comum nos dias atuais, também cria uma constante sensação de ameaça no trabalhador, que se torna consciente do fato de ser apenas uma peça da engrenagem que pode e deverá ser substituída caso haja alguma falha. Isso é mostrado no livro, quando o gerente de Gregor vai buscá-lo na sua casa e diz: “E seu emprego não é mesmo dos mais seguros. A princípio, eu tinha intenção de dizer-lhe isso em particular, mas já que o senhor desperdiça meu tempo aqui, não sei porque os senhores seus pais não devessem ficar sabendo.”

A metamorfose do ser se dá a partir do momento em que o trabalho deixa de ser uma tarefa que engrandece e enobrece o homem e passa a ser o único motivo que torna sua existência significante para os demais. 

Em uma sociedade em que as relações – sejam elas de trabalho ou sociais em geral – são marcadas pelo interesse, pela ganância e pela falta de reconhecimento da própria humanidade, a obra de Kafka torna-se muito mais relatável do que o desejável.





Notas:

[1] Franco, Tânia, Druck, Graça, & Seligmann-Silva, Edith. (2010). As novas relações de trabalho, o desgaste mental do trabalhador e os transtornos mentais no trabalho precarizado. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional35(122), 229-248. 




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