sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Encontro com Heidegger: Um Convite à Jornada

Por: Alexandr Dugin

Tradução para o português: Jean A. G. S. Carvalho

*Feita com base na tradução de Michael Millerman para o inglês


Foto de Heidegger. Fonte: 3ammagazine

O Pensamento e suas Autoridades


Martin Heidegger é, até seu ponto máximo, um autor fundamental. Ele faz parte daquelas figuras da história do pensamento que são inevitáveis. Muitas coisas podem ser omitidas, consideradas como opcionais, folheadas pelo simples prazer. Mas há algu que exige cuidado e estudo minucioso. Sem esse tipo de análise, nossas noções [представления; noções, visões, conceitos, ideias: esse termo será considerado explicitamente e com detalhes listados abaixo; até lá, será traduzido comumente como "noções"] sobre o pensamento, a filosofia [e] a história da cultura serão defeituosos, incompletos, fragmentários e, então, duvidosos.

Heidegger é indispensável a qualquer um que vive no mundo atual, na Rússia atual, e que tenta ao menos de algum modo adentrar o terreno do fato de sua disponibilidade [наличия], sua presença [присутствия]. Na maioria das vezes, é claro, não precisamos falar sobre a presença: afinal de contas, "presença", etimologicamente, significa "estar perto da essência" [быть при сути; a palavra "суть" tomará, mais tare, um significado especial; até lá, o efeito dado pelo autor mudará explicitamente, sendo traduzido como "essência"] - mas quem é que está "próximo à essência" agora? Mas, talvez possamos ao menos ponderar sobre a disponibilidade disso, certo? Mesmo quem levantar o questionamento sobre essa disponibilidade não poderá ignorar Heidegger.

É impossível pensar e, em particular, pensar sobre a disponibilidade de alguém, sobre si mesmo, sobre o mundo, sobre a vida e a morte, sem se apoiar numa ou outra escola de pensamento. Se nós mesmos não conhecermos qual sistema filosófico funciona como a base do nosso pensamento, isso não significa que esse sistema não exista. Com certeza existe um sistema: afinal de contas, nossos pensamentos e noções são construídos com base em algo.

Se prestarmos atenção cuidadosamente ao conteúdo da nossa própria consciência, faremos um inventário aproximado dela e seremos capazes de perceber que um de seus elementos vem de Platão, outro de Aristóteles e, um terceiro, do ensinamento de Descartes - sem falar num quarto elemento, vindo da dialética de Hegel: alguns pensamentos vêm do arsenal da teologia, outros, do marxismo; m algumas coisas, a influência de Kant é visível e, em outros casos, um fragmento do pensamento nietzscheano reluz. 

O fato é que a filosofia não nos alcança diretamente, não de imediato, mas sim por meio de centenas de ecos semi-anônimos - na escola, na família, na sociedade, na educação, nas conversas cotidianas e na cultura fragmentária de consumo - mas isso não muda nada.

Para nós, parece que nós mesmos é que pensamos, mas essa ilusão só surge por meio da ignorância ou de uma educação pobre. Só precisamos começar a trabalhar em nós mesmos para que se torne claro que estamos constantemente fazendo citações, e com mais frequência do que aquelas fontes cuja existência desconhecemos. É precisamente por essa razão é que qualquer pessoa que deseja pensar honestamente vai começar com uma determinação das autoridades e dos sistemas de referência de pensamento na filosofia, na ciência e na arte. 

Uma pessoa consciente é sempre um filósofo, de algum modo. Um filósofo sempre pertence a alguma escola de pensamento: ou ele segue uma filosofia religiosa, ou ele é kantiano, ou hegeliano, ou liberal, ou marxista, ou freudiano, ou positivista, ou nietzscheano, ou estruturalista, ou apoiador da "filosofia da vida", ou um solipsista, ou existencialista, ou materialista, ou darwinista, etc. 

Em casos muito raros, um filósofo é capaz de conduzir uma síntese interessante e original sobre diferentes escolas; e ainda mais raramente, com lacunas durante os séculos, esses pensadores parecem iluminar novas trilhas e abrir novos horizontes para o resto da humanidade. Essas são grandes pessoas que marcam os fundamentos do pensamento de toda a humanidade; e isso faz com que eles sejam lembrados e honrados durante séculos.

Aquele que compreende os grandes [pensadores] e escolhe uma das posições filosóficas possíveis assegura pra si mesmo o status de filósofo, uma entidade pensante de pleno direito [существо]. E aqui está a honestidade mais importante: deve-se, em primeiro lugar, o pensador deve se curvar diante de uma autoridade (mesmo se escolher um "pensamento secreto" ou descartá-lo mais tarde) e pensar sobre si mesmo e sobre o mundo no salão interior das grandes ideias e teorias. Aqueles que também se esforçam em ser originais a qualquer custo não ficam muito tempo na filosofia: o lugar deles é no mercado.


Heidegger: Grande ou o Maior?

Dentre os grandes pensadores, dois lugares podem ser colocados pra Heidegger, dependendo de como olhamos pra ele, do grau que o estudamos e em quanto acreditamos nele. Ao menos pode-se afirmar que Heidegger é o maior pensador contemporâneo, entrando na constelação dos melhores pensadores da Europa, deste os tempos pré-socráticos até a nossa época. Nesse sentido, eles o chamam de "príncipe dos filósofos". Mesmo aqueles para os quais a filosofia dele é indiferente ou aqueles que discordam dele reconhecem sua grandeza inquestionável.

Heidegger é universalmente reconhecido como um grande filósofo da história mundial. Ninguém contesta isso seriamente, mas há pessoas que calmamente seguem em frente, se apoiando em outros nichos de filosofia, enquanto outros respondem intensamente a mensagem dele, usando seus termos ("Dasein", "existencial", "Angst", etc.) e se permitindo conduzir pelos pensamentos do filósofo.

Um lugar diferente, especial e exclusivo na história da filosofia pode ser colocado para Heidegger, caso reconheçamos e confiemos plenamente nele, imergindo-nos em seu pensamento e fazendo dele nossa maior autoridade [filosófica]. Em outras palavras, Heidegger, no espaço do heideggerianismo, vai diferir essencialmente do Heidegger na posição média e convencional da história da filosofia. 

Nesse caso, Heidegger será revelado não apenas como o maior filósofo, comparável a outros grandes nomes, mas como o maior dentre todos eles, ocupando o lugar de último profeta, concluindo o desenvolvimento do primeiro estágio da filosofia (de Anaximandro a Nietzsche) e servindo como transição, a ponte para uma nova filosofia, a qual ele apenas antecipa em seus trabalhos.

Nesse caso, Heidegger é revelado como uma figura escatológica, como o intérprete final e clarificador dos temas mais profundos e enigmáticos da filosofia mundial e como o criador de um pensamento radicalmente novo.Nesse caso, ele pode ser visto como a figura do panteão religioso, como um "enviado do próprio Ser", um profeta e um preparador do maior evento, evento no qual a velha história do mundo europeu terminará e uma nova, que ainda não apareceu, vai começar.

Parece-me que a segunda abordagem é mais produtiva para um verdadeiro entendimento sobre Heidegger (mesmo que em algum momento, num futuro distante, seja revisada). Ela nos permite uma imersão integral e completa no pensamento de Heidegger, sem tentativas apresadas de interpretá-lo por meio de apelos a outras autoridades (e de seus traços separados em nossas consciências), e permite a Heidegger nos comunicar sem obstáculos aquilo que ele quer expressar. 

E é só depois de aceitar essa mensagem em suas principais características e acreditar em sua significância e sua inevitabilidade é que pode-se, se necessário, tomar certa distância em relação a esses elementos. Dificilmente será necessário a todos tornar-se heideggerianos durante o tempo todo, mas esse pensador merece com bastante exatidão que lhe dediquemos um tempo intelectual significativo, tempo suficiente para nos permitir dizer, com uma nota iluminada de apreensão na voz: "parece que compreendi algo nele". 

Para alguém, isso pode levar anos; para outros, décadas. Alguns desistirão nos primeiros passos. Mas a experiência vale a pena. Estudar Heidegger, estamos estudando filosofia em seu estado contemporâneo. É algo precisamente desse tipo, e não há nada que se oponha a isso.

Heidegger é importante não apenas para os filósofos profissionais - para eles, ele é simplesmente indispensável: um filósofo contemporâneo que não conhece Heidegger se mostra como ridículo. Mas ele também é significativo para pessoas que aspiram uma competência mínima nas questões de cultura - humanistas, políticos, artistas, psicólogos, sociólogos, todo aqueles que, pelo chamado do coração ou pela obrigação do destino, possuem relação com o destino do homem, da humanidade, da sociedade e da história.


O Sr. Heidegger na URSS: Uma prateleira distante das Coleções Especiais e a Diligência Vã de Bibikhin

O legado de Heidegger no contexto dos falantes de russo é um fenômeno profundamente peculiar. Primeiro, os trabalhos e ideias do filósofo, suas posições intelectuais e paradigmáticas, foram conduzidos no período soviético por meio dos compartimentos ideológicos mais perigosos e inaceitáveis, colocados nas seções mais distantes e fechadas das Coleções Especiais e, em última análise, foram imputados como "se fossem inexistentes". 

O interesse em Heidegger era visto como um crime gnoseológico ou uma busca absolutamente fútil. Pouca atenção era dada até mesmo às críticas feitas em relação às ideias de Heidegger. Assim, Heidegger, como tantos outros filósofos não-marxistas, foi eliminado da filosofia do período soviético tardio (isso sem falar no período soviético inicial). Ele foi lido, traduzido e discutido no terreno "underground", o que deixou traços da qualidade nessas leituras, traduções e discussões.

Apesar disso, num grupo de filósofos soviéticos que ganharam novamente o direito de se engajar nas leituras críticas de Heidegger, liderados por V. V. Bibikhin, o fundador da escola heideggeriana do período soviético tardio, acabaram se reunindo e, fora desse círculo pequeno, surgiram a maioria das traduções existentes, muitas das quais foram feitas ainda durante o período da Era soviética e circulados no samizdat [a circulação clandestina de obras banidas pelo Estado, especialmente nos países ex-soviéticos do Leste Europeu].

Sem duvidar da sinceridade desses entusiastas, devemos notar que o trabalho de tradução deles e o grau de penetração no pensamento de Heidegger se provaram inteiramente insatisfatórios. 

A dificuldade das condições ideológicas, o acesso limitado às fontes, a especificidade da educação filosófica deles, as limitações de conhecimento filosófico e, em geral, a inadequação do espaço social do período soviético tardio em relação à expansão do pensamento de Heidegger são fatores responsáveis pelo fato de que podemos dizer, sem peso na consciência, adeus aos tratos intelectuais produzidos por esse círculo caso não desejemos lutar pra sempre contra as quimeras de uma época histórica não niilista que, de alguns modos, não pode sequer atingir um fim nos dias atuais.

Parece que Bibikhin e seu círculo de pensadores com mentalidades semelhantes estavam de fato cativados veementemente por Heidegger; mas, além dessa veemência, não há nada nessas traduções ou exposições sobre Heidegger.

É inteiramente impossível ler essas traduções, já que esses textos comunicam muito sobre os estados, esforços e sofrimentos do próprio Bibikhin e de seus colegas tradutores, mas não diz praticamente nada mais do que coincidências acidentais sobre Heidegger, ou oferece um tipo de quadro que faz cair os cabelos. 

Se aceitarmos esses textos como traduções corretas de Heidegger, então teremos de admitir mais rapidamente, e com vergonha, que o próprio Heidegger não compreende o que está dizendo e escrevendo.


Heidegger como o mais ocidental de todos os filósofos ocidentais

A segunda circunstância conectada ao legado peculiar de Heidegger no contexto dos falantes de língua russa consiste no fato de que Heidegger é um elo fundamental precisamente da filosofia ocidental-europeia e corresponde em sua lógica interna precisamente ao desenvolvimento dessa filosofia.

Contudo, ele é um num todo inteligível de filósofos ocidentais europeus, que se orientam livremente na taxonomia das ideias e teorias da cultura ocidental europeia. Para compreender Heidegger, deve-se, no mínimo, ser europeu; pois o próprio Heidegger enfatiza constantemente que ele pensa na Europa, da Europa e para a Europa, compreendendo-a como um todo histórico-filosófico e civilizacional particular.

O marxismo dogmático e o meio intelectual russo, que foram grandemente confundidos tanto na última década da URSS quanto hoje, faz uma intersecção com o principal desenvolvimento da humanidade ocidental europeia num modo bastante fragmentário, episódico e tangencial. Pensamos nós mesmos como europeus, e nos assemelhamos a eles em algumas coisas (aparência externa, fenótipo, língua, religião, sistema sócio-político, etc.).

Mas a filosofia clareia as diferenças: o pensamento é aquele domínio onde é mais difícil enganar e manipular o estado de coisas, e nessa esfera há muito pouco de europeu e ocidental em nós [russos]. Se há algo, então é como uma caricatura. Entretanto, mais provavelmente, estamos lidando com um tipo peculiar de pensamento russo, ainda fracamente reconhecido por nós mesmos: isso sem falar agora sobre as peculiaridades de outras culturas.

Em algum sentido, a filosofia de Heidegger abarca a quintessência do pensamento ocidental: é mais profunda, mais central e ao mesmo tempo mais ocidental do que o caso dos outros pensadores europeus com os quais é mais simples romper (apesar de isso também não ser algo simples).  

Uma leitura calma, mensurada e precisa de Heidegger, com a preservação da própria dignidade - isso, talvez, é o teste mais sério para um diálogo russo-europeu.


Heidegger e a meta-linguagem da Nova Filosofia

E, finalmente, a terceira coisa: Heidegger conscientemente coloca diante dele mesmo a tarefa de estabelecer uma nova linguagem de filosofia, um tipo de meta-linguagem. Isso emerge duma linguagem filosófica específica (Sprachphilosophie), que ele elaborou em paralelo com o desenvolvimento geral de seu pensamento. A essência dessa abordagem consiste:


  1. Em desmantelar a influência na linguagem e suas estruturas da filosofia e da metafísica europeias (com suas lógicas, gramáticas, ontologias implícitas, etc.); ou seja, a rejeição duma exposição de termos filosóficos no contexto da meta-linguagem que a filosofia ocidental europeia elaborou e sancionou durante sua história de dois milênios e meio;
  2. Num retorno às palavras (ao invés de termos, categorias, conceitos) e seus significados originais, extra-filosóficos, suas etimologias, seus próprios conteúdos pré-lógicos e pré-metafísicos; na elaboração duma nova meta-linguagem e duma nova filosofia que será construída com base nas palavras que profetizaram [вещающих] sobre um ser, com uma trajetória diferindo radicalmente da comunicação de discursos filosóficos prévios.

O nível dos textos heideggerianos exite muito esforço, mesmo de um filósofo europeu plenamente capacitado (em geral, dum pensador europeu), e apresenta dificuldade significativa para leitores falantes do alemão. Mas apresenta uma dificuldade ainda maior para os portadores de outras linguagens europeias.

A questão sobre a interpretação correta e adequada das traduções de Heidegger foi firmada na filosofia europeia durante todo o século XX, que deu origem a um tipo de "dicionário heideggeriano", com o qual os filósofos operam com apoio de um grupo de traduções, do qual cada nuance apresenta um tema para discussões separadas.

Não só filósofos, mas também filólogos, historiadores, pesquisadores da antiguidade e psicólogos estão envolvidos na compreensão e na tradução de Heidegger, pois a dificuldade de entender Heidegger não é um problema técnico, mas sim uma questão de escolha duma mudança radical para o caminho da filosofia ocidental, a qual Heidegger convocou.

Ao traduzir, interpretar e comentar Heidegger, os europeus participam dessa mudança. Complexidades surgem durante a tradução dos textos dele para o francês ou o inglês, não em menor número do que aquelas que aparecem nas traduções para o russo, mas durante quase que um século as melhores mentes da Europa se esforçaram diante desse problema, começando com aqueles que leram e tentaram entendê-lo na língua original, assim como os primeiros (por exemplo, Jean-Paul Sartre esteve muito conectado ao período inicial de Heidegger, incluindo também o nome de sua filosofia, o "existencialismo").


O Silêncio de Heidegger

Quando nos tornamos familiarizados com Heidegger, não podemos omitir também as circunstâncias históricas que, de 1920 a 1940, nos mostram que ele pertenceu  à escola filosófico-ideológica da "Revolução Conservadora" (juntamente com pensadores eminentes como E. Junger. F. Junger, O. Spengler, O. Spann, C. Schmitt, A. Moeller van den Bruck, W. Zombart, F. Hielscher e outros).

Encontrando-se em oposição ao nacional-socialismo de Hitler e repudiando o racismo, o primitivismo e a brutalidade de sua propaganda populista, esses pensadores foram forçados a cooperar com ele de um modo ou de outro, não só em relação às considerações de sobrevivência num regime totalitário, mas também por conta da semelhança superficial de alguns poucos slogans do Terceiro Reich com as ideias complexas da Revolução Conservadora, a qual, por exemplo, se atribuía o seguinte:

  1. O romantismo político e o idealismo de uma nova Alemanha;
  2. A ideia da necessidade de um retorno da Europa às suas raízes, Tradição e mito;
  3. O imperativo duma guerra simultânea contra o liberalismo (a Inglaterra e os EUA) e contra o marxismo (a URSS) como duas expressões de um mesmo niilismo axiológico (pragmático de um lado e proletário do outro)
  4. Um diagnóstico nietzscheano da doença humanista da Europa e a necessidade de um "novo heroísmo", etc.

Nos anos 1930 e 1940, Heidegger criticou abertamente os aspectos do nacional-socialismo que ele considerava como errôneos do ponto de vista da filosofia dele. No livro "Introdução à Metafísica", em particular, Heidegger escreveu: "O que hoje é lançado no mercado sob a forma de filosofia do nacional-socialismo não tem relação com a verdade e grandeza desse movimento, associado à compreensão das conexões e correspondências entre a humanidade contemporânea e a técnica globalmente determinante, e pesca elementos nas águas turvas dos 'valores' e 'totalidades' "[1].

Deve-se mencionar que o termo "nacional-socialismo" emergiu na Alemanha por designação de um dos pensadores revolucionários conservadores muito antes de Hitler ter chegado ao poder e, particularmente, antes da formulação do nazismo enquanto ideologia. Só depois é que o termo foi usurpado pelos teóricos racistas do círculo de Hitler.

É evidente que Heidegger analisou o nacional-socialismo através das ideias conservadores-revolucionárias do trabalho político de Ernst Junger, "The Worker"[2]. Nele, o nacional-socialismo é apresentado como a resposta da humanidade contemporânea da Europa Ocidental ao desafio da época da modernidade, [a resposta] consistindo na libertação paradoxal, através do domínio da técnica, da "habitação do fundo", do "elemento elementar", dos fundamentos titânicos da entidade humana. 

De acordo com E. Junger, na moagem mecânica da guerra moderna, com ataques de gás e moagem das lagartas dos tanques de guerra, o europeu do século XX, perdendo rapidamente o seu legado cultural que estava evaporando, fazia um retorno histórico e, apesar de tudo, aos impulsos humanos básicos, consistindo na experiência viva de laços com camaradas ("socialismo de linha de frente") e um sentido afiado da nação como um projeto direcionado ao futuro ("nacionalismo"). 

O "nacional-socialismo" e a "mobilização total" de E. Junger fizeram um apelo para as raízes existenciais do europeu no lado oposto da xenofobia mesquinha, do chauvinismo e, em especial, de qualquer tipo de racismo. Esse socialismo nacional era inicialmente mais europeu do que alemão e, no começo, mais humanista do que estatista, mais existencial do que totalitário e ideológico. Heidegger considerou as ideias de Junger inteiramente adequadas e supôs que o nacional-socialismo era capaz de evoluir na direção da "Revolução Conservadora".

Tendo exercido uma tremenda influência sobre todo o movimento de "Terceira Via" na Alemanha na década de 1920, o nacional-socialismo de Junger entrou gradualmente em um grave conflito com os dogmas oficiais do nazismo, se perdeu e foi eclipsado em comparação com o muito menos intelectual (mas, incomparavelmente, com dimensões maiores -inclusive em suas consequências criminais) hitlerismo, que triunfou na Alemanha na década de 1930 e que se apropriou do nome dessa escola de pensamento, distorcendo-o e, durante um longo período de tempo, se não para sempre, manchou-o.

O legado ideológico de outros representantes do movimento conservador-revolucionário europeu teve o mesmo destino. A partir da década de 1920, os intelectuais alemães "de Direita" e "de Esquerda" - de Thomas Mann para Oswald Spengler, de Heinrich von Gleichen para os comunistas Wolffheim e Laufenberg, de Arthur Moeller van den Bruck para Carl Schmitt, de Ernst Niekisch para Harro Schulze-Boysen - buscaram novos horizontes paradigmáticos, filosóficos e políticos além dos limites do liberalismo, do comunismo dogmático e da tradição antiga e conservadora. 

Eles experimentaram ativamente as combinações mais arriscadas de tradição e revolução, constantes históricas e tecnologias inovadoras, valores religiosos e teorias sociais progressivas. Longe de qualquer tipo de dogmatismo, elaboraram muitos ensinamentos originais, teorias e concepções filosóficas. Mas a tragédia de sua situação consiste no fato de que, na esfera da grande política, todo o amplo espectro de perseguições, revelações e intuições começou a ser fortemente associado ao regime totalitário de Hitler após a vitória do NSDAP em 1933. 

E, mesmo que todos esses pensadores gradualmente se opuseram ao regime de Hitler - da "emigração interna" (os irmãos F. e E. Junger, M. Heidegger, C. Schmitt) para participar diretamente nas atividades antifascistas e no movimento de resistência (E. Niekisch, Harro Schulze-Boysen e outros) - o complexo de seus pontos de vista foi, por muito tempo, um tabu no pensamento político do Ocidente devido à semelhança superficial e enganosa de seus pontos de vista com as declarações políticas da época do Terceiro Reich.

A colaboração formal de Heidegger com os nazistas não durou muito - especialmente quando ele cumpriu seus deveres como reitor da Universidade de Freiburg e foi obrigado a submeter-se a alguns decretos da liderança oficial[3]. É importante que Heidegger seja, provavelmente, o único ator cultural de tal calibre (se seu calibre for comparável ao de qualquer outra pessoa) que não se arrependeu de seu passado depois de 1945. 

Heidegger era simplesmente silencioso e, como em sua filosofia o silêncio tem o significado fundamental de uma das dialécticas em que se fala de si mesmo, então podemos interpretar este "silêncio de Heidegger" de várias maneiras (como, por sinal, com todos os outros aspectos de seu trabalho), mas certamente de modo filosófico.

Graças ao fato de que, de 1920 a 1940, Heidegger exerceu uma influência decisiva sobre muitos intelectuais destacados que se encontraram em 1945 no campo dos vencedores (do marxista freudiano Herbert Marcuse e do comunista Sarte à ex-aluna e amante de Heidegger, Hannah Arendt, que criticou fortemente todas as formas de totalitarismo e emigrou para os EUA, onde fez uma brilhante carreira acadêmica para si mesma), no contexto filosófico geral, o episódio de colaboração com o regime de Hitler e mesmo o "silêncio" muito posterior do filósofo foi educadamente esquecido (apesar de o período de 1933 a 1945 ser um dos mais produtivos na atividade filosófica de Heidegger). 

Ninguém, além de alguns perturbadores superficiais (como Victor Farias e aqueles como ele [4]), tocou mais nesse tema. Heidegger significa demais para o Ocidente descartá-lo, mesmo no caso de seus atos ir além das normas aceitas da moral comum. Os gênios são perdoados por todos.

É evidente que, tanto para a URSS como para a Rússia liberal-democrática contemporânea, esses detalhes políticos do destino pessoal de Martin Heidegger não contribuíram para sua compreensão adequada e encorajaram uma tendência notória e seletividade em relação a suas idéias e textos (em primeiro lugar, os de 1930 e 1940).


A Conjuntura do Sucesso

Devido a todas essas circunstâncias, pra nós, hoje Heidegger é uma grandeza quase desconhecida. Se houver algo sensato naquilo que foi escrito sobre ele em russo ou em como ele foi traduzido, então isso é, provavelmente, uma coincidência acidental ou uma imitação de sorte. Os russos são muito bem sucedidos na imitação: muitas vezes podemos reproduzir facilmente o que não entendemos e o que permanece interiormente estranho para nós. Nisso está a plasticidade da nossa cultura.

Mas mesmo a tradução automática e mecânica dos textos de Heidegger em russo pode, em raros casos, produzir um resultado divertido. Há muitos casos de sucesso entre os heideggerianos russos. 

Mas, uma vez que, sem uma compreensão preliminar de Heidegger, seja no original ou através de traduções adequadas para as línguas europeias, é impossível distinguir entre sucesso e fracasso, seria mais útil colocar diante de si a tarefa de construir tudo a partir do zero. Os construtores sabem que é mais caro, leva mais tempo e levanta problemas adicionais para reconstruir um prédio quebrado que demolir o antigo e erguer um novo edifício a partir do zero.

Isso é o que está sendo oferecido àqueles que se interessaram, acidental ou conscientemente, na figura e filosofia das maiores pessoas que pensam, Martin Heidegger. E assim, na medida em que não conhecemos Heidegger, proponho realizar uma jornada na direção de Heidegger, para tentar aproximar-se dele, semelhante à forma como Yevgeny Golovin (aliás, um dos primeiros e mais profundos especialistas em Martin Heidegger na Rússia) propôs "aproximar-se da Rainha da Neve"[5].


O Filósofo como [uma] Identidade

Heidegger, como já mencionamos, pensa e se apresenta exclusivamente no fluxo e no âmbito da filosofia da Europa Ocidental. Esta observação é extremamente importante para a determinação precisa da posição do pensamento heideggeriano. 

Por maior que seja a tentação, talvez se possa considerar Heidegger como tipo religioso (como muitos de seus pesquisadores fazem), por mais que o paralelo entre Heidegger e os tradicionalistas com suas críticas à civilização ocidental contemporânea[6] possa sugerir, devemos reservar tanto quanto possível as comparações semelhantes e, em primeiro lugar, nos familiarizamos com Heidegger nesse contexto ao qual ele pertencia e queria pertencer e em que ele próprio compreendia seu lugar e significado.

Heidegger é um filósofo; mais precisamente, um filósofo da Europa Ocidental, encarregado de todo o legado da ontologia e da metafísica da Europa Ocidental, formada por ela, perfeitamente orientada nele e familiarizada com as suas más minuciosas nuances. Toda a vida, Heidegger tentou permanecer dentro do marco dos axiomas da filosofia da Europa Ocidental, mesmo quando teve o objetivo de explodir, transformar e subverter esses axiomas. Com o pedantismo alemão, ele procede do momento que é convencionalmente considerado como o princípio da filosofia da Europa Ocidental, ou seja, dos pré-socráticos, para o que é convencional (ou um pouco menos estritamente convencionalmente) como seu fim; ou seja, para Nietzsche.

Com uma certa aproximação, a filosofia de Heidegger pode ser comparada aos discursos funerários de um pastor em um enterro: "O falecido era um homem muito bom, ele ajudava os pobres, na sua infância ele não tratava os mais jovens do que ele, ele viveu uma vida digna, trabalhou muito e depois morreu, uma memória abençoada para ele ". E depois, o pastor começa a examinar os episódios da vida dos falecidos em detalhes ("ele estudou, casou-se, divorciou-se, adoeceu, mudou de carreira, se retirou, caiu de novo ..."). 

A filosofia de Heidegger é um réquiem desdobrado para a filosofia da Europa Ocidental, com base na presunção de que "algo foi", "algo começou" e "algo terminou", "foi concluído", "morreu" (ainda vamos chegar à questão de o que "o começo" significa para Heidegger, o que "algo era" significa - "ser" é para ele o conceito principal - e o que significa que "o que já não era".

Heidegger propõe-se recorrer à filosofia da Europa Ocidental, em primeiro lugar, quanto ao que era, e segundo, o que já não é, na medida em que aquilo que agora não é a filosofia da Europa Ocidental. Segundo Heidegger, o último termina com Nietzsche. O próprio Heidegger está na fronteira, na linha. É a partir deste precipício muito sepulcral [обрыв] (Abgrund)[7] que Heidegger leva a sua narração, dedicada àquela que morreu.

Aqui, seria incorreto misturar religião, tradicionalismo ou misticismo. Para Heidegger, apenas a filosofia é de importância decisiva, apenas seus processos e curvas, suas estações e postulados, suas alturas e descidas são de interesse. Neste é o seu peculiar ascetismo: para lidar com a profunda crise do niilismo contemporâneo, Heidegger não busca pontos de apoio em cultos exóticos, iniciação ou doutrinas secretas. 

Ele assume corajosamente a responsabilidade pelo destino de todo o pensamento da Europa Ocidental nos seus aspectos mais ocidentais, baseados em logótipos, para os quais não se pode encontrar análises em outras culturas e que compreende a essência [сущность] e o destino da civilização precisamente ocidental.


Pensar com as Palavras: Zonas de Pensamento Indo-Europeias

Para entender Heidegger, devemos aprender a realizar duas operações, às quais as peculiaridades acima mencionadas de seu pensamento nos levam. Em primeiro lugar, devemos ouvir atentamente a sua língua. Heidegger pensa não com conceitos ou categorias, mas com palavras. Não com idéias, não com princípios, não com fundamentos, mas com raízes de palavras. 

O seu pensamento é verbal e radical [isto é, baseado em raiz. A palavra em russo é a forma adjetiva do substantivo "raiz"; корневое]. Isso deve ser levado em consideração ao tocar em seus textos. Sua leitura e compreensão exige uma preparação linguística e filosófica certa (seja uma primeira) [8]. Além disso, nós, como o próprio Heidegger no caso da língua alemã, devemos aprender a pensar com as palavras e raízes da nossa língua nativa russa. Portanto, ao ler Heidegger, nós simultaneamente:


  1. Ouvir atentamente (as palavras em alemão);
  2. Compreender (o significado, a intenção do pensamento);
  3. Traduzir (procurar por correspondentes russos nas palavras, capazes de transmitir o significado).

Este é também o caso da cultura europeia, onde existem três grupos linguísticos básicos: o grego (incluindo a linguagem do início da filosofia), o latim (em que, além do latino, entram nas línguas francesa, espanhola, italiana, romena e outras) e Germânico. Todos os três grupos têm uma linguagem filosófica estabelecida, com uma longa tradição da tradução dos significados básicos. 

Heidegger quebra esta norma e propõe a introdução de novos significados, enquanto escuta atentamente as raízes das palavras. Ao mesmo tempo, o trabalho de "quebrar" a meta-linguagem filosófica compreende a parte do leão de seus textos, dedicada à tradição filosófica europeia, nativa e inteligível para Heidegger.

Este continente de significados europeus, com três bases linguísticas, não é algo evidente para nós hoje. Aprendemos cada vez mais raramente o latim e o grego; e não temos dominado suficientemente as línguas europeias contemporâneas (pelo menos o alemão e o francês). Mas isso não seria fatal se tivéssemos pelo menos um esboço de uma linguagem filosófica russa. 

Dando um paralelo com os significados europeus, romperíamos as antigas significações junto com Heidegger, entendendo o que estamos fazendo, o que estamos quebrando e construímos o novo junto com ele, seguindo a trajetória dos destroços e enriquecendo o novo empreendimento com um tesouro de raízes russas. Assim, em princípio, devemos agir, mas com a exceção de que não temos nada para quebrar, já que nossa cultura não elaborou uma meta-linguagem estabelecida da filosofia russa com traduções convencionais de significados europeus. Isso produz certos problemas.

Para rejeitar a metafísica europeia com Heidegger, devemos compreendê-la de forma correta e inequívoca. Caso contrário, não entenderemos o significado ou escala de seu filosofar. Este é um obstáculo sério. Antes de descrever uma maneira de sair dessa posição, devemos considerar como a matéria está em pé com outras culturas indo-europeias: eles têm sua própria meta-linguagem de filosofia?

No caso do Irã indo-europeu, existe uma extensa tradição de uma linguagem específica da filosofia, onde as raízes propriamente persas são combinadas com um gigantesco reservatório de terminologia árabe, introduzido no curso da islamização. O filósofo e historiador francês da religião, Henri Corbin[9] (cujo trabalho foram as primeiras traduções ao francês de fragmentos do livro principal de Heidegger "Sein und Zeit") foram em suas numerosas e documentadas obras que mostram a amplitude e o caráter específico do pensamento iraniano, com sua meta-linguagem específica, seus próprios significados e suas próprias regras e práticas linguísticas e hermenêuticas. 

Corbin nos dá uma apresentação em movimento e extensa de "Res Iranica", de "coisa iraniana". Heidegger fez quase o mesmo em relação à "Res Europea"[10]. Ainda outra cultura indo-europeia, nomeia o hindu, também possui um aparelho filosófico extremamente desenvolvido e refinado, baseado no sânscrito. Ao mesmo tempo, o sânscrito pode ser considerado como uma espécie de meta-linguagem do ciclo Vedanta e Vedântico, enquanto uma escola como o Mimamsa hindu representa um domínio separado no quadro da religião hindu, reservado para a sistematização de sons sânscritos , letras e raízes, suas combinações, etc.[11].

Entre as culturas indo-europeias[12], apenas o mundo eslavo, não o segundo em seus parâmetros sócio-políticos, demográficos, territoriais e históricos para o outro grande narodi [a noção de um narod, народ, desempenha um papel importante no pensamento do autor e, portanto, foi transliterado, em vez de renderizado com as "traduções" usuais e imprecisas "povo" ou "nação". Se alguém pensa em um "povo" como distinto de um demos e uma nação distinta de um Estado-nação, um terá um sentido preliminar do significado da palavra; no glossário do autor, é dado como um equivalente ao Volk alemão) de descendência indo-europeia, não tem sua própria meta-linguagem filosófica, que seria algo resolvido e composto, inequívoco e compreensível para todos os que pensam em russo. Isso nos obriga a refletir sobre o significado de tal anomalia: por que a coisa russa certamente existente (Res Russica) certamente não possui seus próprios logotipos?

Esforços para preencher essa lacuna foram realizados pelos eslavófilos, que procuravam logotipos russos e os ocidentais, que tentavam transferir artificialmente os logotipos europeus para o solo cultural russo. Seus esforços devem ser apreciados, mas como resultado da revolução bolchevique foram anulados; e "a Rússia filosófica" entrou de novo em uma zona de consciência crepuscular, como em muitos períodos anteriores de sua história, quando teve o que quiser, além do pensamento filosófico pleno e adequado.

Eu arriscaria sugerir que, entre todas as zonas culturais indo-europeias, a zona russa é "em pousio" não por acidente e não por nossa deficiência e atraso. Em outros assuntos (statehood, economia, tecnologia, ciência, poder militar) somos inteiramente adequados. É simplesmente que os russos aguardavam o momento em que chegaria o momento de produzir uma nova filosofia, enquanto rejeitávamos a antiga metafísica europeia, imposta teimosamente de nós, do Ocidente, não por meio da tolice, mas expressamente, não desejando participar nele, guardando e preservando-nos para algo mais interessante e importante, para algo mais fundamental. Se essa suspeição for correta, aguardamos nossa hora: a antiga metafísica europeia entrou em colapso e a mais profunda, séria e responsável dos pensadores europeus, atestando esse fato, pede-nos que pensemos de forma radicalmente diferente. 

Talvez seja o momento de participar do processo de filosofar real e de libertar o tesouro virgem do discurso eslavo e russo para a criação de novos significados e novos horizontes intelectuais, baseados em antiguidades antigas [ou "compreendidas"] recentemente interpretadas[13]. Talvez estivéssemos "em pousio" precisamente no pressentimento e expectativa de exatamente essa virada da história mundial do pensamento[14].


Pensar no Anoitecer

Ao mesmo tempo, não devemos deixar um momento deixar de ver a essência profundamente europeia do pensamento de Heidegger. Para Heidegger, a Europa e o Ocidente são sinônimos e indicam uma forma específica de pensamento filosófico, ser histórico e caminho cultural, que expressam em si mesmos a idéia da "noite". Heidegger enfatiza: "A Europa é um país noturno" (o "Abendland" alemão). A filosofia correspondente é uma "filosofia da noite", uma "metafísica noturna". A tarefa da filosofia da Europa Ocidental é "colocar o sono". No livro de Heidegger intitulado "Die Geschichte des Seyns" [A História do Ser], na nota de rodapé da terceira parte, "Europäische Philosophie" [Filosofia Europeia], lemos:


Der seynsgeschichtliche Begriff des Abendlandes.  Das Land des Abends. Abend Vollendung eines Tages des Geschichte und Übergang zur Nacht, Zeit des Übergang und Bereitung des Morgens. Nacht und Tag.” ["O conceito histórico do Ocidente. A terra da noite. A noite completando um dia de história e a transição para a noite, o tempo de transição e preparação da manhã. Noite e dia."]  [15].          
   


Reconhecendo claramente sua identidade como pensador europeu e europeu, Heidegger, como também, aliás, todos os europeus, não duvida do caminho do Ocidente, seu "caminho da noite", que expressa a trajetória universal do ser, que todos os narodi e culturas seguem , mas onde os europeus vão primeiro; e, portanto, eles não são apenas para descer a noite, mas para ver o amanhecer. Heidegger diz: "Hoje, todo o planeta se tornou europeu (ocidental) [...] Por  'europeu' (ocidental), não devemos entender a geografia, nem a extensão dessa influência em si, mas sim a história e a primordialidade do histórico nele"[16].

Por "história", Heidegger quer dizer história ocidental; ou seja, a história da filosofia ocidental como a quinta essência da história e a época do surgimento do pensamento filosófico na Grécia.

O equacionamento da cultura da Europa Ocidental para o [cultural] universal reflete um "racismo cultural", comum às pessoas do Ocidente, que também foi bastante característico para Heidegger[17]. No entanto, para o seu crédito, ele deve dizer: ele mesmo nunca cometeu um erro, acreditando que o Ocidente carrega outros "progressos" e "desenvolvimentos", mas sim um niilismo, um "deserto", "esquecimento da questão do ser", da decomposição e da morte ( todos os encantos da noite). 

O Ocidente contemporâneo é universal, mas do mesmo modo que a decomposição e a morte também são universais. Heidegger viu a forma mais profunda dessa degeneração no "americanismo", que ele pensava como "planetarismo" (hoje diríamos "globalismo" e "globalização"). "O planetarismo é a inversão do princípio (da filosofia ocidental) na inutilidade de seu desenvolvimento" [18]. Com os raios do sol definidos. 

Na última época, o "americanismo" ["estadunidismo"], o "pragmatismo", a "técnica" e o "cálculo" trazem apenas a resistência humana. Mas, nesta reação, a perversão e a niilidade do Ocidente contemporâneo, Heidegger viu um sentido - e um significado universal.

Sendo um pensador do Ocidente, Heidegger pensa sobre a noite ainda mais do que à noite - de forma noturna. Ele vê sua missão em resumir toda a tradição filosófica ocidental. Em certo sentido, seus livros são a última coisa que pode ser dita no "idioma da noite". A linguagem de Heidegger não é o idioma de Heidegger como indivíduo; é o acorde final da língua da Europa Ocidental. Heidegger é o último ponto do pensamento da Europa Ocidental. Ele e sua filosofia não são um caso particular; eles são o destino, a direção (no sentido da realização dos antigos). Heidegger diz: "No início da linguagem, leia um poema" - "Ele quer fazer o início de uma nova linguagem".

Heidegger pensou que, nos últimos séculos, os alemães, entre todos os outros europeus, começando por Goethe, Leibniz, Kant, pelos românticos, Schelling, Fichte, Hegel e até Nietzsche, eram responsáveis ​​pelo mundo (ele chama de "mundo", o mundo , a totalidade dos seres no todo - a entidade no todo). Dos gregos antigos, ele se traça diretamente para a filosofia clássica alemã, e para si mesmo.   




Notas:

[1] Heidegger M. Einführung  in die Metaphysik.  Tübingen,  1953. pg. 202. Publicado pela primeira vez em 1935. 
[2] Jünger E. Der Arbeiter. Herrschaft  und Gestalt. Stuttgart: Klett-Cotta,1982
[3] Ele se tornou membro do NSDAP em 1 de maio de 1933 e permaneceu na organização até 1945, apesar de sérias reclamações contra ele por parte dos órgãos oficiais do partido e da marginalização gradual dele no quadro do regime. 
[4] Farias V.  Heidegger and Nazism.  Philadelphia: Temple University Press, 1989.
[5] Golovin, Y.  An Approach to the Snow Queen.  M., 2003.                             
[6] Enquanto estudava filosofia do tradicionalismo durante um longo tempo (veja em particular os livros "Absolute Fatherland", "The Philosophy of Traditionalism" e "The Radical Subject and its Double"), não acentuei os ensinamentos de Heidegger, apesar de minha formação intelectual ter sido influenciada por eles da maneira mais direta e imediata. Minhas visões, minha visão de mundo, estão em dívida com a filosofia de Heidegger, mas só em um grau minimamente inferior ao das ideias de Guénon. Heidegger é uma parte da nossa visão de mundo, nossa teoria política, nossa filosofia; ele é um sine qua non. Heidegger não é menos fundamental do que Guénon. Mas ele é outro. Uma comparação entre Heidegger e Guénon não deve ser feita tão apressadamente. Devemos avaliar Guénon e Heidegger separadamente. E, então - e somente então - devemos pensar sobre o modo como eles se sobrepõem (e naquilo que diferem entre si). É incorreto interpretar um a partir do outro. Em minha opinião, Julius Evola, em seu "Ride the Tiger" (M. 2005) cometeu o erro de fazer uma interpretação demasiadamente apressada e superficial de Heidegger por meio das posições tradicionalistas (genericamente, guenonistas/guenonianos), onde ele apresenta excessivamente erroneamente e de forma distorcida as ideias e terminologias de Heidegger e, ainda menos profundamente, e até mesmo ingenuamente, criticando-as.
[7] O termo alemão "Abgrund", i.e. significa "abismo", um termo bastante importante para a filosofia de Heidegger, que originalmente significava, precisamente, "precipício", "declínio vertical abrupto", "vazio".
[8] Nietzsche chamou uma de suas obras "Nós, Filólogos" (Nietzsche F. Obra Coletada. V. 3 T. 3. M: REFL, 1994). A leitura da filosofia de Heidegger é uma questão dada precisamente para os "filólogos", no sentido nietzscheano.
[9] Corbin H. A Luz da Glória e do Santo Graal. Literatura Xiita do Graal. Sufismo e Sophia. O sentimento musical da religião islâmica. http: //www,fatuma.net/corbin/corbin00.htm. Também por Corbin: O Homem da Luz no Sufismo Iraniano. // A Montanha Mágica. 1998. No 1; História e misticismo Persa. A Filosofia Profética e a Metafísica do Ser. M., 1985.
[10] Considerando que Corbin estava dizendo aos europeus coisas sobre o pensamento iraniano, enquanto que Heidegger comunicava aos europeus sobre sua própria tradição [europeia].
[11] Fora do contexto indo-europeu, igualmente bem desenvolvido é a terminologia filosófica da Cabala Judaica (de onde os sons, as formas de letras e o significado das raízes básicas são interpretadas), ou o esoterismo islâmico, baseado no idioma árabe e no livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão.
[12] Como potências paradigmáticas e filosóficas no tecido geral da cultura indo-europeia, permanecem na sombra também "civilizações abortivas" (na terminologia de Toynbee), como o celta, o letão-lituano (inclusive o prussiano), o frigigo (incluindo seus descendentes o Romanos), e também as civilizações desaparecidas dos minoanos, pelasgianos, hititas, tocharias, citas, sármatas. É possível que a reconstrução de sua mensagem filosófica ainda aguarde sua hora.
[13] V. V. Kolesov tem um trabalho brilhante sobre as raízes e o significado das antigas palavras russas e sua evolução (V. V. Kolesov. Ancient Rus: The Legacy of the Word. SPB., 2000.).
[14] As palavras de R. Guénon e H. Corbin, que metodologicamente nos ajudarão a entender o que precisamente nos esforçamos para descobrir no legado geral do cosmo eslavo e eslavo-eslavo, possuem um significado fundamental para a realização dessa tarefa.
[15] Heidegger M.  Geschichte des Seyns (1938/1940).  Gesamtausgabe. Bd. 69. Frankfurt am Mein: Vittorio Klosterman, 1998. pg. 6.
[16] Heidegger M.  Uber den Anfang Gesamtausgabe. Bd. 70. Frankfurt  am Mein: Vittorio Klosterman, 2005. pg. 107.
[17] Tal como a professora E. Husserl. Para Husserl, a questão "se a humanidade europeia comporta em si mesma a ideia absoluta, seja empiricamente um tipo antropológico fixo, como é o caso dos residentes da China ou da Índia, neste caso, se a europeização de outros neuratos é prova da significado absoluto entrando no significado do mundo e está longe de ser sem sentido histórico? " é puramente retórica; é claro, "a humanidade europeia traz em si a ideia absoluta (Husserl E. The Crisis of European Sciences and Transcendental Phenomenology, SPB, 2004). Heidegger também pensou do mesmo modo. Implícita ou explícita, praticamente todas as pessoas do Ocidente têm certeza de esta.
[18] Heidegger M.  Uber den Anfang.  Op. cit.  pg. 107.



Publicado originalmente em: 4pt
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