terça-feira, 14 de novembro de 2017

Como Bashar e a Síria venceram a guerra

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Soldados sírios em preparação para a operação de libertação de Deir ez-Zor (fonte: Sputnik/ Mikhail Alayeddin)

Com a retomada de Deir  ez-Zor , o centro mais vital da região oriental síria (e, até então, o último grande bastião em poder do Estado Islâmico no território sírio), a guerra no país está essencialmente concluída - embora seus efeitos colaterais dificilmente sejam eliminados a curto prazo. O conflito, que se arrasta desde janeiro de 2011, ocasionou uma imensa crise de refugiados, milhares de mortos e a destruição quase que completa de uma nação inteira.

Os grupos terroristas atuantes na região, especialmente as facções radicais como o Daesh (Estado Islâmico), a Jabhat Fateh al-Sham (a Frente Al-Nusra, a Jabhat al-Nusra) e a Al-Qaeda, além de setores "moderados" como o FSA ("Free Syrian Army" - Exército "Sírio" Livre), foram largamente amparados pelos Estados Unidos e pela coalizão europeia.

O objetivo era claro: repetir aquilo que havia sido feito no Iraque em 2003 e na Líbia em 2011 (e o conflito na Síria "coincidentemente" ocorreu no mesmo ano em que a Líbia foi devastada). Assim como Saddam Hussein e Muammar al-Gaddafi foram derrubados, Bashar também deveria cair. 

Mas não foi isso o que aconteceu. Diferentemente dos quadros iraquiano e líbio, o governo sírio contou com apoio externo vital: russos, chineses, iranianos e até mesmo norte-coreanos (que também enviaram equipamentos de guerra). Esse apoio externo foi essencial para que o governo sírio mantivesse e recuperasse territórios.

Um dos pontos cruciais para um resultado sírio diferente daquele observado no Iraque e na Líbia é o fato de que Bashar não cedeu às pressões externas dos regimes que se opuseram a ele. Bashar não efetivou o desmantelamento de suas próprias forças armadas nem deixou de combater os terroristas - e, diante das sanções europeias e estadunidenses, pôde contar com o apoio de aliados internacionais. Ou seja, Bashar nunca ficou efetivamente isolado (um dos objetivos de seus oponentes).

Um dos imperativos geopolíticos dos Estados Unidos, que é exatamente o de destruir todos os nacionalismos árabes, foi impedido. Na Síria, esses objetivos geopolíticos encontraram um forte entrave. Hoje, aqueles que desejavam a queda de Bashar já se resignaram e concluem que a permanência de Bashar no poder é um fato.

A reconstrução da Síria pode significar um desfecho positivo para a crise de refugiados para a Europa e a restruturação do Oriente Médio. A resistência no país significa a demonstração prática de que o campo geoestratégico não está mais nas mãos de um único agente e que alternativas geopolíticas podem e devem ser estabelecidas. Em suma, a vitória síria é uma vitória da multipolaridade.

Ao invés de transformar o país num território dominado pelas potências externas por intermédio de grupos de terror, como aquilo que aconteceu com a Líbia, a Síria hoje tem uma nova oportunidade diante de si e não foi anulada enquanto civilização e país. A vitória síria é uma vitória civilizacional contra a barbárie e o terrorismo internacional. 


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2 comentários:

  1. Como bem disse o Assad há uns 7 meses quando indagado em quanto tempo conseguiria libertar a síria: 4 a 5 meses "se não houver interferência externa". Até pra isso ele tem palavra.

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  2. Jean, escreva livros. O Brasil precisa de intelectuais - nacionalistas!

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