sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Modernidade: um conceito ocidental

Por: Rafael Scovino







Todos os povos do mundo entendem a noção de modernidade como um desenvolvimento da técnica, das forças produtivas. No Ocidente, porém, este conceito ganha um arcabouço mais extenso, com base na noção de "progresso" que se atrela ao desenvolvimento da técnica e a uma mudança de valores, mentalidade e modo de vida na sociedade.


Enquanto que, para outros povos, o desenvolvimento da técnica é um instrumento a serviço de valores maiores (como sua organização político-social, cultura, identidade, modo de vida, as próprias pessoas e sua noção de sagrado), para o Ocidente, a técnica passou a pautar todo o restante, criando uma nova cultura, modo de vida, uma nova mentalidade e cosmologia, algo impossível sem a noção de progresso, sem a falsa noção "de que toda a noção civilizatória anterior era um atraso, selvageria, barbarismo" a ser substituída "por um novo tipo de ser humano, um novo pensamento, uma nova essência", ou seja - pela modernidade como "símbolo de um novo tempo".

Essa "modernidade ocidental" condensou "o espírito da burguesia" que se legitimou no desenvolvimento da técnica para moldar toda a sociedade. Os conceitos de indivíduo, liberdades, direitos e deveres, mercados, mão de obra, consumidor, encontrou na modernidade "um mantra de legitimidade".

Não a toa, no Ocidente de hoje, tanto direita como esquerda, mesmo trabalhistas, nacionalistas e até parcelas do conservadorismo, todos têm como centro de suas posições "a modernidade contra o atraso". Algo que o colonialismo, o imperialismo e a globalização liberal buscam impor como realidade, mas que não pertence ao entendimento da maioria dos outros povos e civilizações do mundo.

Para os indígenas, as civilizações pré-colombianas da América, a "dita modernidade" é sinônimo de uma invasão que destruiu seus valores, modo de vida e organização coletiva, do massacre e martírio de milhões, ou de sua exploração nas "encomiendas hispânicas", dos traumas em lidar com uma cultura completamente distinta, "a do homem branco", enquanto ele avançava sob suas terras ancestrais. Para tais a "modernidade" tem o significado de "profanação".

Para os africanos, os sub-saarianos, esta "modernidade" foi sinônimo de divisão, as potências ultramarinas que incentivavam os conflitos tribais para ganhar entrepostos comerciais, aliados e consumidores, instrumentos para expansão contra outros povos locais, por fim um grande fornecedor de mão de obra sob a chaga da escravidão colonial.

Para muitos africanos, a modernidade é a saudade de casa, é a retirada de suas terras, é a perda de suas referências, de uma parte de si mesmo. Isso independente do nível de integração que possa ter se concretizado nas diversas nações em que se estabeleceram.

Para os povos orientais, especialmente os chineses, japoneses e coreanos, a "dita modernidade" trazida pelos europeus era um ato de desonra e agressão, vinham com uma técnica desenvolvida, porém com traços culturais pobres, loteando seus territórios e exigindo tributos de civilizações milenares e orgulhosas. 

Com o tempo, eles buscaram sintetizar essa evolução da técnica com sua identidade e traçar seus próprios caminhos, até mesmo para refrear as ameaças de europeus e norte-americanos (alguns com maior, outros com menor sorte). Para muitos orientais, a modernidade foi o trauma de um desenvolvimento da técnica forçado para resistir a dominação.

Para os indianos a "dita modernidade" tem a face da dominação britânica e todas as mazelas que com ela advieram, assim como uma ascensão dos impuros contra as antigas ordens sagradas. A modernidade é a impureza.

Os povos islâmicos conviveram mais próximos das mudanças de paradigma no Ocidente, vivenciaram mais de perto "o fenômeno da modernidade" e até contribuíram para o desenvolvimento da técnica e do conhecimento que levou as nações europeias a este estágio. Estes entendem a "dita modernidade" como uma perda.

Entendem e aplicam o desenvolvimento da técnica, o prazer pelo conhecimento, ciências e filosofia durante séculos, inclusive ajudando os europeus a resgatá-los; porém, jamais os entenderam como um fim em si mesmo: eram meios para valores maiores que deveriam estar a serviço da civilização, seus valores, modo de vida e acima de tudo, da religião, de sua noção de sagrado.

Essa noção é ainda muito mais forte no mundo islâmico do que no Ocidente que desenvolveu a técnica, mas perdeu seus valores, perdeu coisas muito mais preciosas. Não a toa, até pela proximidade geográfica e o intercâmbio cultural, a crítica islâmica é bastante similar a crítica católica à modernidade.

A crítica católica representa um rechaço do Ocidente clássico, do mundo cristão aos ditames da modernidade que cresciam espalhando "o espírito da burguesia" pela Europa. O catolicismo também afirma que a "dita modernidade" desenvolveu a técnica, ampliou esferas de conhecimento, mas também culminou na perda de valores, de conceitos, da solidariedade, de tudo o que constituiu as bases de unidade e organização da Europa ,desde Roma.

A própria noção de tempo foi alterada, do eterno para o momento, o sagrado desdenhado, as hierarquias subvertidas, a usura e a ganância substituíram o sustento e a família como bases da economia. Para o catolicismo, a noção de modernidade embasada pelo Ocidente é certamente uma heresia.

Apesar de imersa neste desenvolvimento, a Igreja Católica travou e ainda trava grandes embates com "o paradigma da modernidade". Mesmo os que guardam sementes, simpatias ao antigo paganismo na Europa, também enxergam a modernidade como "uma perda de essência e valores", como um vazio materialista. O próprio protestantismo veio emergir "uma ética de trabalho e vida" como resposta "a um vazio moral" nascente nas sociedades modernas.

O conceito de modernidade saído do espírito burguês, do mito do progresso, do materialismo, da esfera mercado-consumo como base da existência, culminando em vertentes como um puritanismo religioso e um hedonismo cultural são oriundos de um determinado período histórico, em certo território, sob condições específicas.

Esse conceito, que busca ser imposto a toda humanidade, é incompreensível e absurdo para a grande maioria dos povos e culturas que não compreendem aonde o desenvolvimento da técnica coincide com um abandono de todos os demais conceitos e valores.

A modernidade é artificial, uma invenção saída de um Ocidente sob ascensão da burguesia e instrumentalizado a seu favor contra outros povos - no colonialismo, no imperialismo e, hoje, na globalização.

É a nova roupagem "da missão civilizatória", só que sem valores, a não ser os de mercado.


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