quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Donald Trump, o massacre em Los Angeles e a política desarmamentista

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Donald Trump se recusou a reforçar o discurso contra as armas

O recente massacre ocorrido em Las Vegas no último domingo, com mais de 50 mortos e quinhentos feridos, deu novo destaque ao debate sobre o controle de armas nos Estados Unidos. Steppen Paddock, aparentemente um homem normal (segundo depoimentos de amigos e familiares), provocou o maior massacre com armas de fogo na história dos EUA, superando a tragédia na boate de Orlando.
O efeito psicológico do morticínio foi grande: campanhas pedindo pela proibição dos armamentos ganharam ainda mais reforço e apelo sentimental. Entretanto, não há unanimidade sobre a questão, e a defesa do acesso às armas também ganhou uma nova tônica. E, em cima desse efeito psicológico, o discurso mais fácil para a resolução do problema ganhou mais força - para evitar mortes com armas, basta proibir ou restringir o acesso às armas.
Mas a questão é bem mais complexado que isso. Há tanto acesso às armas na Somália quanto nos EUA, e o segundo país é bem menos violento do que o primeiro; há bastante controle de armas em certos países da Europa, e os índices de violência nesses países (como Suíça) são bem menores do que os índices estadunidenses. Assim, basear toda uma política de segurança pública em simplesmente banir ou ampliar o acesso às armas é algo bastante vago.
Informado do massacre pelo chefe de gabinete John Kelly, a visita de Trump à cidade de Las Vegas foi adiada por conta de suas viagens a Porto Rico, nas localidades afetadas pelas ondas de tornados e furacões. Trump também recebeu informações esporádicas de Tom Bossert, assessor de segurança interna.
Segundo uma notícia publicada pela rede ABC News, longe de adotar o discurso em defesa do controle de armas, Trump preferiu elogiar a reação dos policiais, o trabalho das equipes médicas que atenderam as vítimas do tiroteio e as autoridades que assumiram suas responsabilidades. E ele foi fortemente criticado por isso.
Entretanto, nos EUA, há vários grupos que reforçam o discurso do presidente. Dentre elas, há o destaque para a National Rifle Association (Associação Nacional do Rifle), uma organização que defende com veemência os princípios da Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos.
A Segunda Emenda defende o direito de acesso às armas aos cidadãos estadunidenses e foi incorporada à Declaração de Direitos dos EUA em 15 de dezembro de 1791, quinze anos após a independência do país.
Porém, Segundo a Suprema Corte dos EUA, a emenda não elimina a possibilidade de se criar legislações de controle sobre armas de fogo e dispositivos similares (como de fato ocorre em vários estados no país, como Alabama, Alaska, Arizona e Colorado).
Os Estados Unidos são o país com mais armas no mundo. De acordo com dados divulgados pelo Congressional Research Service (Serviço de Pesquisa do Congresso), há 112 armas para cada 100 habitantes no país, somando um total de mais de 300 milhões de armamentos.
Há 5.56 homicídios para cada cem mil habitantes nos EUA, segundo informações divulgadas pelo site World Life Expetancy (Expectativa de Vida Mundial), com dados atualizados para 2017.
Ocupando a 85ª posição no ranking global de violência, o país está longe do topo (o Brasil está na 13ª posição, com uma taxa de 30.53 homicídios para cada cem mil habitantes – e possui uma forte política de desarmamento), mas os números ainda são preocupantes: só no ano de 2010, os números de crianças e jovens mortos por armas nos Estados Unidos superaram em quase cinco vezes a quantidade de soldados mortos em combates nesse mesmo ano.
Segundo dados do mesmo site, estados com forte controle de armas também ocupam o topo do ranking de criminalidade nos EUA, como é o caso do Alabama, o 4º estado mais violento do país, com 8.1 homicídios para cada cem mil habitantes. A capital do país, Washington, com uma legislação moderada, está no topo do ranking: 13.7 homicídios para cada cem mil habitantes.
A discussão sobre a segurança pública é mais complexa do que simplesmente permitir ou proibir armas: a diminuição da violência não é efetivada pelo simples acesso às armas, nem pelas simples política de desarmamento.
Trump deve buscar soluções mais efetivas e definitivamente será impossível escapar de um debate tão acirrado. Enquanto o presidente faz declarações mais vagas, os lados que defendem e atacam as armas radicalizam seus discursos.


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