terça-feira, 31 de outubro de 2017

Blade Runner 2049 e a pós-humanidade

Por: Idelmino R. Neto



Blade Runner 2049 é a sequência direta do original de Ridley Scott, desta vez arquitetado pelo prodígio Denis Villeneuve ("Os Suspeitos", "Sicário: Terra de Ninguém"). O longa narra a jornada de K (Ryan Gosling), um replicante de geração nova (leia-se: incapaz de rebelar-se contra os criadores) cujo ganha-pão é perseguir e tirar de circulação replicantes defeituosos (um Blade Runner).


As atuações encantam, com destaque para Gosling dando expressão ao golem que lentamente logra consciência e trava a peleja interna com os próprios sentimentos, e Jared Leto (Niander Wallace), o "vilão" que promove atos execráveis por um ideal nobre.



A trilha sonora emula magistralmente a tonalidade do clássico de 1982, enquanto a estética relata a desgraça de um mundo onde as corporações engoliram o Estado. Não há mais tradição, cultura ou ethos, as cidades transmutaram-se num amontoado de edificações cinzentas e conglomerados fabris expelindo fumaça, revestidas aqui e acolá por anúncios de quinquilharias tecnológicas em neon.


A chuva, quase onipresente, assomada à coloração sépia da fotografia, esboça a aridez espiritual. Além disso, o roteiro expande o debate filosófico acerca do Ser trazido pelo predecessor, tocando em outros pontos sensíveis, dentre eles guerra de classes e o ímpeto que guia a vontade humana.


Como nem tudo são rosas, a narrativa peca pelo excesso de pancadaria em determinadas cenas, atentando diretamente contra a imersão e o tom neonoir da obra. Destarte, a personagem Luv (Sylvia Hoeks) é extremamente forçada, inverossímil e destoante do universo construído.



"Blade Runner 2049" faz jus (ao menos na maioria do tempo) ao material que o antecedeu e é uma grata surpresa na era dos iconoclastas cinematográficos.



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