sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Olavo: um ídolo de barro e ferro

Olavo: um ídolo de barro e ferro 

Programação neurolinguística, desinformação e manipulação: ingredientes manipulados com maestria para formar uma massa de seguidores incondicionais

Introdução

Olavo de Carvalho fez uma postagem em resposta ao texto que publicamos em nossa página. Grande parte da "resposta" foi a típica reação do guru: ad hominem, puro e simples. Entre uma provocação e outra (algo mais típico de um adolescente na puberdade), Olavo negou as principais acusações que fizemos em nosso texto. Aqui, vamos responder todos os pontos do texto do Olavo de Carvalho e mostrar aquilo que ele realmente é: um manipulador.

Evitaremos, aqui, o tom tão típico de Olavo, que é o da mera provocação e achincalhamento pessoal. Talvez, para um homem que sonha em restaurar a "alta cultura", mas que é incapaz de controlar os próprios impulsos e que prefere a linguagem vulgar, isso seja normal. Para nós, "esquerdistas", não.

Na biografia oficial de Olavo na Wikipedia, as teorias que relatamos são colocadas como tendo sido criadas por ele. Mesmo que Olavo não seja o criador do artigo na Wikipedia sobre sua pessoa, há no mínimo uma cumplicidade com esse fato.

Esse texto não será uma mera "resposta", mas sim uma continuação dos pontos que abordamos anteriormente. Vamos não só comprovar o que dissemos, mas ampliar as considerações sobre a figura deletéria de Olavo.


Olavo de Carvalho: "atire primeiro, pergunte depois"


No início de sua postagem, Olavo admite que desconhece o autor do texto:


"No meio de tantas invencionices difamatórias grosseiras que os Veadascos e seus parceiros colocaram em circulação, era impossível que, aproveitando-se da situação, não aparecesse pelo menos um cúmplice com ares de intelectual, tentando dar à difamação as cores róseas de uma contestação respeitável. Não sei quem é o autor da porcaria enfeitada (v. "


Ele começa a postagem depreciando o objeto de análise. O restante do texto é irrelevante para o próprio seguidor médio dele. O que importa é saber que o ícone considera o elemento em questão como "porcaria", "invencionice difamatória", "difamação". O juízo de valor já foi feito e o seguidor já tem o que precisa para formar sua opinião (aliás, seu dogma).

Olavo realmente acredita que, no Universo inteiro, qualquer crítico dele age em conformidade com duas figuras: Eduardo Velasco e Jorge Velasco. Esse é um traço nítido de megalomania: Olavo vê-se tão imenso que só pode haver uma única fonte de críticas a ele - os Velasco. Qualquer crítica a ele ou vem deles ou de alguém associado aos dois.

Nós nos aproveitamos da situação, obviamente. Assim como Olavo se aproveita de inúmeras situações em benefício próprio. Mas nossa primeira postagem em relação ao Olavo foi feita no dia 8 de fevereiro de 2017, intitulada "Olavo de Carvalho e o falso distanciamento da ação", onde denunciamos o duplipensar de Olavo, algo tão criticado por ele como "característica da Esquerda", seu caráter manipulador e de agente de desinformação e desinteligência, culpando os próprios seguidores por aquilo que ele mesmo fomenta. Não havia carta sobre filha, só havia o de sempre: um manipulador sendo denunciado.

Aliás, nossa própria postagem não versa sobre a carta em si. Ela é irrelevante. Não nos interessa se Olavo é bom pai ou um demônio doméstico. O que nos interessa é que ele é um agente de desinformação. E ser ou não  ser um bom pai não tem correlação nenhuma com isso. Aliás, não nos interessa a família do Olavo. Ele, inclusive, mais do que os Velasco, é quem realmente expõe a própria intimidade familiar, não só expondo a filha publicamente (chegando a falar em uso de drogas e problemas íntimos da própria filha) para deleite dos seguidores fanáticos, mas citando casos seus e daqueles que são próximos a ele.

É ele quem tem inclinação para programas de dramas familiares. Não nós. E, mesmo que a carta seja falsa, isso em nada reduz ou elimina os defeitos morais graves de Olavo, inclusive disseminando engano em seu próprio meio religioso católico (como bem demonstrado neste texto publicado pela Montfort, expondo todos os enganos espirituais de Olavo, que é tido como um "referencial espiritual" pela Direita "católica" brasileira).


Evocando monstros no imaginário do seguidores

Antes de realmente nos responder, ele faz questão de mostrar quem nós "realmente somos". Vale ressaltar que Olavo escreveu essas provocações tentando atingir um autor que afirmou desconhecer:


"[...] mas, como se trata de um comunista de velho estilo, devoto confesso de Josef Stalin e hostil à esquerda "diversitária", suspeito que seja aquele rapaz que aparecia em vídeos do Youtube vestido de soldadinho russo, coisa mais linda."


Mais programação neurolinguística para condicionar os seguidores. Olavo evoca todos os piores inimigos que residem no imaginário dos adeptos: comunismo, genocídio, Rússia. É a invocação do pensamento neocon típico de um "filósofo" que, no panorama da política internacional, é um mero repetidor de Kissinger. O resto é detalhe.

Outro grande traço da megalomania de Olavo: atacar um adversário sem ter certeza de quem ele é e produzir ad hominem desconhecendo o interlocutor.

Olavo acredita que o autor do texto é Cristiano Alves, dono do canal VozCom. Em defesa dele, que foi atacado indevidamente pelo grande "filósofo", deixamos claro que Cristiano não tem absolutamente vínculo nenhum nem com o Avante, nem com o referido texto. Atacar injustamente alguém que não tem correlação nenhuma com o material criticado demonstra incapacidade não só moral, mas investigativa, o que é ainda mais grave em se tratando de um homem tão "sapiente" e "gabaritado".

Olavo cria uma nova categoria de definição ideológica, tendo ele mesmo como referencial: o posicionamento à Direita ou à Esquerda depende do quanto você concorda ou discorda do grande "pensador".


Sobre a obra "Aristóteles em Nova Perspectiva"

Finalmente, depois das provocações, Olavo começa a resposta de fato:


"Eis aqui algumas acusações que o assanhadinho me faz: 1) “No livro ‘Aristóteles em Nova Perspectiva’, Olavo copia a tese central do filósofo e professor italiano Giovanni Reale." RESPOSTA: Desafio o cidadão a me mostrar livro e página onde o prof. Reale, ANTES OU DEPOIS DE MIM, tenha enunciado a tese central do meu livro, isto é, que a Poética, a Retórica, a Dialética e a Analítica sejam partes de uma ciência única do discurso, subentendida nos textos de Aristóteles. Ele não cita NADA. Joga a acusação no ar, com a esperança de que acreditem na sua mera palavra."


Há cinco obras principais nas quais Giovanni Reale cita a filosofia aristotélica, listadas aqui em ordem cronológica: Il Concetto di Filosofia Prima e L'unità della Metafisica di Aristotele (1961), Introduzione a Aristotele (1974), Storia della Filosofia Antica 5 Volumi (1975), Il Pensiero Occidentale Dalle Origini ad Oggi (1983), Per Una Nuova Interpretazioni di Platone (1984), Introduzione a Proclo (1989) e Filosofia Antica (1992).

A ideia de que os elementos que compõem a ciência do discurso estejam reunidos não é de Olavo. "Teoria dos Quatro Discursos" é outro nome que Olavo dá para algo que Giovanni já havia feito, ou seja, reunir elementos distintos numa só ciência.

Isso fica nítido nos livros Introduzione a Aristotele e Il Concetto di Filosofia Prima e L'unità della Metafisica di Aristotele, onde os elementos citados por Olavo são abordados por Giovani como parte de um todo filosófico típico de Aristóteles e seu discurso - basta conferir o capítulo VIII do livro "Introduzione a Aristotele", intitulado "La Fondazione Della Logica (Analisi Dell 'Organon')", a partir da página 140. Olavo apenas reduz os aspectos agregados por Giovanni para criar "sua" teoria dos quatro discursos.

O livro de Reale foi publicado em 1974; o de Olavo, "Aristóteles em Nova Perspectiva" em 1996. Como veremos mais à frente, Olavo tem o dom de criar um jogo semântico de nomes novos para encobrir ideias preexistentes às dele.



"Eu fui o primeiro... não, eu quase fui o primeiro"


No trecho abaixo, Olavo rebate nosso posicionamento sobre ele se gabar de ter sido o pioneiro a divulgar o trabalho de Voegelin no Brasil:


"2) “Aliás, Olavo se gaba de ter sido o primeiro a divulgar a figura de Eric Voegelin no Brasil, o que também é mentira.” RESPOSTA: Como posso ter-me gabado disso, se na página 368 de “O Jardim das Aflições”, de 1995, cito como fonte o livro do meu falecido amigo Nelson Lehmann da Silva, “A Religião Civil do Estado Moderno”, publicado DEZ anos antes, a primeira tese consagrada a Eric Voegelin por um brasileiro? O que afirmei, sim, foi que fui o primeiro a difundir a obra do filósofo alemão NA GRANDE MÍDIA, o que é verdade estrita."


Será que ele afirma a verdade? Bem, vamos conferir no próprio livro do "grande mestre", o "O Jardim das Aflições", na página indicada por ele:


"O estudo valiosíssimo de Nelson Lehman da Silva, A Religião Civil do Estado Moderno ( Brasília, Thesaurus, 1985 ), apresenta uma visão de conjunto das obras de diversos autores que enfocam as ideologias contemporâneas como “teologias civis”, no sentido de Sto. Agostinho; obras das quais a mais abrangente e sistemática é a de Eric Voegelin."


Olavo diz que a citação está na página 368. Achamos a citação na página 178, nota de rodapé nº 247. Pode ser simples caso de formatação. Certo, Olavo dá os méritos àqueles que merecem - numa nota de rodapé num livro que sequer seus "alunos" leem (eles não precisam realmente ler as obras se basta replicar aquilo que ele diz). 

Mas, de modo mais explícito e aberto, Olavo se gaba sim de ter inserido Voegelin com sucesso no Brasil. Olavo criticou em seu perfil pessoal a editora "É Realizações" porque, segundo ele, não teriam lhe ofertado o tributo devido, publicando autores que Olavo fez questão de frisar como tendo sido introduzidos por ele - e ele não fez a distinção entre introduzir esses autores no Brasil e introduzi-los na "grande mídia".

Uma nota de rodapé aqui, uma publicação explícita ali. É importante saber mostrar e esconder o ouro, ao mesmo tempo. Numa de suas páginas, Olavo ataca diretamente a "É Realizações" porque, segundo ele, não recebeu os devidos créditos:





Obviamente, dentre esses autores recomendados por Olavo à editora em questão, está Voegelin.  Se Olavo não foi o primeiro a divulgar Voegelin no Brasil, como ele mesmo disse, por qual motivo faz tanta questão de receber créditos? Mais uma vez, ele deixa explícito que considera esses autores como inserções suas no Brasil, agindo como se tivesse o copyright dos pensadores em questão e eles fossem produtos seus.

Se ele realmente reconhecesse não ser o pioneiro na divulgação de Voegelin, não faria escarcéu por conta do ego pessoal. No fim das contas, dá no mesmo: ele acredita que o fato de outras pessoas no Brasil conhecerem Voegelin é um mérito seu, não de um autor citado numa nota de rodapé.


Paralaxe e Zižek

Mais do que em qualquer parte da resposta, Olavo faz um verdadeiro malabarismo retórico em relação ao ponto que citamos sobre Zižek. Aliás, citamos Zižek como alguém que, diferentemente de Olavo, mostra as fontes do conceito de paralaxe. Ao invés de se ater ao conceito e ao termo, Olavo faz uma análise sobre Zižek que consegue ser mais superficial do que todo o restante da resposta.


3) “Olavo não faz plágio apenas com conservadores. Foi dos marxistas da primeira metade do século XX que ele roubou o termo ‘paralaxe cognitiva’, que vende como seu. Slavoj Zižek, filósofo marxista contemporâneo, aborda a paralaxe cognitiva num estudo recente, citando os pensadores marxistas responsáveis pela criação do termo.” RESPOSTA: Num artigo de ONZE anos atrás (http://www.olavodecarvalho.org/o-futuro-da-pustula/), já expliquei que entre a “paralaxe” tal como a entendo e tal como aparece entre os marxistas, principalmente Zizek, há apenas uma coincidência de termos, encobrindo conceitos totalmente diferentes e até antagônicos.


Tudo que está contido no item 3 da postagem de Olavo é apenas cópia do artigo publicado por ele (linkado por ele mesmo no trecho). Vamos analisar duas partes do texto escrito por Olavo nesse artigo em específico. A primeira é esta:

"Há anos venho investigando um fenômeno da história das idéias na modernidade ocidental, ao qual dei o nome de “paralaxe cognitiva” e que defino como o deslocamento entre o eixo da experiência real de um filósofo e o eixo da sua construção teórica."

Fica bem nítido, pelas palavras do próprio Olavo, que foi ele quem deu o nome de paralaxe cognitiva ao fenômeno em questão. Mais adiante, ele escreve:


"Por isso mesmo convém explicar que esse fenômeno não tem nada a ver com aquilo a que o filósofo esloveno Slavoj Zizek (creio que isto se pronuncia Tchitchék) dá o mesmo nome no seu recente livro “The Parallax View”[...]. Paralaxe, para Zizek – autor bem conhecido no Brasil desde a edição de duas das suas obras pela Boitempo –, é a descontinuidade entre uma coisa e a mesma coisa vista sob outro aspecto qualquer.


Dizer que há uma diferença entre a experiência real e a construção teórica é exatamente o mesmo que dizer que há uma descontinuidade entre algo (prática) e a mesma coisa vista sob outro aspecto (teoria). É essa a substância da ideologia, como o próprio Olavo a caracteriza: o distanciamento entre realidade e percepção dessa realidade (a ideologia como distorção do mundo real). 

A definição de Olavo é essencialmente equivalente à de  Zižek. Mais um trecho da própria resposta de Olavo onde isso fica bastante claro: 

 
"O exemplo mais lindo é o que ele chama de “paralaxe vaginal”. Sob esse nome ele designa a existência de um “abismo ontológico absoluto” entre a vagina considerada como canal do prazer e como conduto do parto. Esse abismo pode ser um problema para quem sinta dificuldade de ereção quando pensa em tornar-se pai, mas, nós, que já nos acostumamos com a idéia, não precisamos nos preocupar com ele de maneira alguma, de vez que até as prostitutas de rua se permitem ignorá-lo solenemente quando nos convidam a fazer nenéns. Na verdade, a síntese dialética entre os dois aspectos da vagina não somente existe como também – quem diria? — já foi descoberta pela ciência: chama-se “gravidez”. 


Dentre inúmeros pontos, Olavo preferiu aquele que se refere a um órgão sexual. Ele tem predileção por falar em orifícios e genitálias, e se sente bem à vontade com esse tipo de abordagem. Enfim, vamos analisar o trecho.

Há aí um distanciamento entre realidade (vagina) e teoria (a visão que se tem em relação à vagina); e há aí uma descontinuidade entre o mesmo objeto sendo visto sob dois pontos de vista diferentes. As palavras de Olavo são exatamente a mesma coisa das palavras de Zižek: os dois estão afirmando que há uma descontinuidade entre o mesmo elemento: um, apontando a descontinuidade entre realidade objetiva e percepção teórica e o outro, afirmando a descontinuidade dada por pontos de vista diferentes. A própria concepção de realidade é vista sob prismas diferentes. As filosofias orientais entendem realidade num conceito essencialmente metafísico, aliás.

Quando Olavo fala em "realidade", está fazendo distinção no próprio conceito de realidade. A "anti-ideologia" de Olavo não deixa de ser também ideologia e descontinuidade entre realidade e teoria, ou, como Zižek aponta, descontinuidade causada por diferentes percepções sobre a mesma coisa.


"No fundo, porém, acho a filosofia de Zizek perfeitamente razoável. Como o objetivo que ele busca declaradamente atingir com ela é a restauração do materialismo dialético, o apelo a um método desesperado é uma simples questão de lógica. E, como ele mesmo afirma que a única razão para adotar esse método é “a decisão política” de fazer isso, temos de admitir que ele está no pleno uso das suas garantias constitucionais.[...] O que não creio de maneira alguma é que exista descontinuidade ontológica absoluta, ou mesmo relativa, entre as doutrinas de Slavoj Zizek e o fato de que ele seja um dos filósofos prediletos do dr. Emir Sader, mentor da Boitempo. Ao contrário: eu diria até que eles foram feitos um para o outro."


Por "materialismo dialético" Olavo dá o significado de distanciamento entre realidade objetiva e teoria, ou a visão de mundo pela ótica estritamente materialista.  Podemos considerá-lo como um "materialista dialético" por jurar que vivemos sob um regime comunista? Talvez sim. Aliás, a filosofia de Olavo é construída sobre inúmeros afastamentos entre realidade concreta e conceitos ideológicos, dogmáticos e teóricos. Por exemplo, ele conseguiu convencer sua massa de seguidores de que há um perigo real de instituição do comunismo no Brasil. O que é comunismo? É exatamente aquilo que ele diz ser - e pode ser absolutamente qualquer coisa.

É por isso mesmo que, no meio olavete, uma figura como Temer é tão comunista quanto o próprio Mao Tsé-Tung. Ignorar a realidade não é um aspecto exclusivo daquilo que Olavo chama de "materialismo dialético", mas de sua própria atividade intelectual irresponsável.

Aliás, materialismo dialético é a concepção filosófica de que os organismos e fenômenos físicos são moldados por aspectos socioculturais e, ao mesmo tempo, modelam esses aspectos. É uma correspondência recíproca entre físico e psicológico. O processo intelectual que Olavo cria é em grande parte um fenômeno dialético: ele ao mesmo tempo molda o meio social (criando realidades absolutas para sues adeptos) como é moldado por ele (sendo um repetidor do pensamento neocon dos EUA).

Olavo aproveita para colocar na questão outro personagem que não tem absolutamente nada a ver com nossa resposta, o dr. Emir Sader. Zižek é materialista, marxista. E ele está sendo honesto quanto às suas justificativas ideológicas. As próprias análises de Olavo sobre política, conjuntura internacional e até mesmo filosofia são carregadas de elementos ideológicos (citamos diversas vezes o quanto a ideologia neocon moldou o pensamento olavético). Ele não está apenas refletindo a realidade objetiva, está construindo teorias sobre ela. É exatamente isso que ele faz. Mas, diferentemente de Zižek, Olavo não pode admitir isso, porque é "esquerdismo".


Colocando a cereja no bolo

Continuidade da regra de ouro da programação neurolinguística usada por Olavo: fechar um texto exatamente do modo como ele começa, ou seja, com uma provocação.

"Será preciso contestar o resto? Acho que não. TRÊS falsas acusações de plágio num só artigo já bastam para mostrar que o autor, intelectualmente presunçoso o quanto seja, não passa de um veadasco com talquinho no bumbum."


Será preciso contestar o resto? Óbvio que não. Quem é capaz de tecer uma crítica ao bezerro de ouro? Absolutamente ninguém. Ele continua reforçando a megalomania que é sua marca registrada: qualquer crítico é um "veadasco", alguém ligado aos irmãos Velasco. 

Olavo tem obsessão com terminologias de orientações sexuais (é comum tratar seus opositores como meros homossexuais, ou outros termos que ele usa com a mesma conotação), além de se deliciar usando termos relativos ao ânus, pênis, vagina e qualquer outro instrumento ou órgão de conotação sexual em absolutamente qualquer diálogo. 

Criticar Olavo é, para ele e para a massa que o segue, sinal de "presunção intelectual". Quem se atreve a erguer a mão contra o bezerro de ouro? Quem se atreve a sequer contestar uma figura tão magnânima? Só os blasfemos e profanos.

Olavo diz que fizemos três acusações contra ele. Não são falsas, e não serão só três. Vamos mostrar, logo abaixo, que a desonestidade intelectual dele ultrapassa aquilo que havíamos escrito no texto que ele fingiu responder.


Erguendo ídolos de barro e ferro

Usando a história de Daniel e sua interpretação da estátua do sonho de Nabucodonosor, podemos definir Olavo como um ídolo construído com barro e ferro: barro, porque suas ideias são extremamente arenosas, inconsistentes e contraditórias, e ferro, porque ele conseguiu cristalizar nos seguidores a imagem de que ele é intocável, irrefutável e invencível. É algo inconsistente com aparência de solidez.

Grande parte da vida intelectual dele consiste literalmente em se apoiar em boatos e sensacionalismo, notícias falsas que foram desmentidas e que, nas mãos desse "iluminado", se transformaram em análises com ar profundamente sério e alarmista. 

Uma de suas fontes é o site racista e sensacionalista Vdare, citado na nota número 12 de um texto publicado por ele em inglês sobre Obama. É óbvio que não se pode dizer que, por citar essa fonte, Olavo seja racista em si; mas é possível determinar que suas fontes estão imensamente distantes da isenção que ele tanto cobra de seus opositores, ainda mais se valendo de um site radical e sensacionalista como fonte confiável de informações.

Outro site que ganhou menções nos textos de Olavo, inclusive com ares de credibilidade, foi o site racista Color of Crime. Olavo, que faz inúmeras postagens contra o racismo e contra o cientificismo genético do século XIX (e início do século XX) para justificar as ideologias raciais nazistas, cita fontes neonazis. Para um defensor do próprio sionismo, isso parece bastante irônico.

Não se trata de um conteúdo implícito ao qual Olavo jamais teria acesso. O site é declaradamente racista e exibe isso de forma explícita. Ou Olavo não confere as páginas iniciais dos sites que indica, ou simplesmente replica fontes desconhecendo o caráter delas. O site Color of Crime é citado como fonte na nota número 11 de seu texto intitulado "What Obama Will Do".

Parece que, para Olavo, o racismo não é algo bom - mas pode ser bastante útil se estiver presente em fontes racistas que corroboram suas próprias opiniões. Daí em diante, ele ignora qualquer correlação com nazismo, fascismo ou ideologias abominadas por ele. Parece exatamente o duplipensar, que ele considera como "traço da Esquerda" e do "pensamento revolucionário".

Mas será que é só uma questão de fontes, ou das próprias ideias de Olavo? Em seu próprio texto, publicado em inglês, ele cita o seguinte:


"An immense work of repression of interracial crimes would throw even more blacks into prisons they already overcrowd. This would be dreadful political suicide, which would send Obama against the community whose skin color is one of the strongest reasons for his occupying the presidential seat."


No trecho, Olavo faz uma conexão entre altos índices de criminalidade e raça. A correlação entre comportamentos e questões genéticas é um dos pontos-chave das ideologias nazistas, tão odiadas por Olavo. Ao que parece, não se trata duma mera questão de opinião contida nas fontes, mas da corroboração das próprias ideias dele.

Olavo também parece não fazer algo básico para alguém que trabalha com notícias: checar as fontes primárias. Ele divulgou uma carta falsa supostamente enviada pelos comandantes das três Forças Armadas brasileiras ao Senado, publicada num blogue chamado Alerta Total.

Mais tarde, ele reconheceu o erro e publicou uma errata. Mas o estrago já estava feito: se ele não confere as fontes, muito menos os seguidores. A massa compartilhou com alarmismo uma notícia baseada numa carta falsa. Olavo com certeza recebeu a fonte de um seguidor qualquer e replicou como verdade antes de checar a fonte. Nas "desculpas", ele coloca a responsabilidade sobre o dono do tal blogue "Alerta Total", como se ele não fosse responsável por checar aquilo que lhe mostram:


"Um porta-voz do Exército, por telefone, informou ao Diário do Comércio, e prometeu confirmar oficialmente, que a carta publicada no Alerta Total, aqui comentada no artigo anterior, não é autêntica ou pelo menos não partiu dos comandantes militares. Eu deveria portanto escrever ao editor daquele site, Jorge Serrão, reclamando de ele me fazer gastar neurônios à toa com a análise de um documento forjado. Se não o faço, é porque não considero que o meu esforço tenha sido tempo perdido. Se os comandantes não escreveram a carta, alguém a escreveu em lugar deles e, espalhando-a pela internet até chegar ao Alerta Total, conseguiu lhe dar tão ampla divulgação que dezenas de leitores, perplexos, me enviaram cópias dela, pedindo que a comentasse. Não é preciso ser muito esperto para perceber que esse fato é tão significativo do presente estado de coisas quanto o seria o próprio documento, se autêntico. Também, quem quer que leia o meu artigo com atenção notará que a análise de significado, ali empreendida, enfocou apenas o texto em si, sem entrar no mérito dos objetivos políticos visados pelos seus presumidos autores. O resultado da análise, pois, permanece intacto a despeito da revelação da falsa autoria." 


Olavo admite que escreveu o texto porque "dezenas de leitores perplexos pediram para que ele comentasse". Não parou nisso: disse que a falsidade do documento não invalida a análise feita por ele. Ele pede desculpas, mas faz um malabarismo para dizer que não errou. O ego é grande demais. Ele diz que seu foco foi o texto e assume que o texto era falso. Ou seja, uma análise tirada de um blogue sensacionalista que replicou um material circulado por inúmeras pessoas. Olavo usou como fonte um documento falso sem fonte primária. É algo análogo a fundamentar todo um texto sobre um tema seríssimo tendo como fonte correntes de grupos do WhatsApp.

Aliás, Olavo é figura conhecida no meio supremacista dos EUA. Um usuário de nome "Don", no famoso Stormfront, o maior fórum de movimentos supremacistas brancos do mundo, faz menção a Olavo e declara ter recebido um e-mail diretamente dele:
"I recently received a kind email from Olavo de Carvalho, the dissident writer from Brazil who has taken refuge here due to the deteriorating situation in South America." 

 
É bastante óbvio que o e-mail pode sequer existir e que Olavo não faça ideia de quem realmente seja "Don", mas o fato é que ele é figura conhecida no meio supremacista e racista dos EUA (o Stormfront é essencialmente neonazi). Mas, para alguém que se diz opositor ferrenho do racismo e do anti-semitismo, Olavo parece ser reconhecido nos meios que diz odiar. Neonazistas têm tendência a cultuar figuras ligadas ao sionismo. É uma das muitas incoerências desse meio.

Fosse um dos "inimigos" de Olavo, essas simples menções e citações de fontes duvidosas já seriam suficientes para formular textos transbordando lições morais e acusações de racismo, neonazismo, genocídio, etc. A régua moral do "filósofo" e seus seguidores é imensamente comprida para os outros e incrivelmente curta para eles mesmos.

Há vários outros pontos que podem ser visualizados no texto cujo autor é Uriel, originalmente publicado no extinto Orkut, citando todas as fontes para os próprios artigos de Olavo - o texto foi republicado num outro site. Não vamos nos alongar muito nisso, principalmente porque a lista é imensa. Basta citar estes exemplos para perceber que Olavo, o "grande formador de opinião", nem de longe é uma fonte confiável de informações sobre absolutamente nada.

Olavo toma como fontes sites, blogues e boatos totalmente duvidosos, isso quando não replica materiais simplesmente porque são polêmicos e geram comoção e alarmismos. "Meus alunos pediram", "dezenas disseram" - o trabalho "intelectual" baseado no polemismo.

Aliás, várias das fontes sobre corrupção relacionada a Lula foram tiradas do mesmo blogue Alerta Total, do mesmo Jorge Serrão, citando como "fontes" a CIA e citando "origens sigilosas". E, claro, seremos considerados como "comuno-petistas" por citar isso.

Quando dizemos que Olavo é desinformante e que ele provoca desinteligência, não o fazemos meramente pela discordância política que temos em relação a ele, mas sim porque é exatamente essa a verdade. Espalhar fontes falsas e pouco confiáveis e reproduzir notícias inverídicas é exatamente isso: desinformação.


Mais adulterações e omissões

Seria bom, para o próprio Olavo, se as acusações fossem só três. Mas a lista é bem maior. Numa das notas de rodapé de seu livro "O Jardim das Aflições", ele diz ter refutado o matemático Cantor:


Em primeiro lugar, é verdade que, se representarmos os números inteiros cada um por um signo ( ou cifra ), teremos aí um conjunto ( infinito ) de signos ou cifras; e se, nesse conjunto, quisermos destacar por signos ou cifras especiais os números que representem pares, então teremos um “segundo” conjunto que será parte do primeiro; e, sendo ambos infinitos, os dois conjuntos terão o mesmo número de elementos, confirmando o argumento de Cantor. Mas isso é confundir os números com seus meros signos, fazendo injustificada abstração das propriedades matemáticas que definem e diferenciam os números entre si e, portanto, abolindo implicitamente também a distinção mesma entre pares e ímpares, na qual se baseia o pretenso argumento. “4” é um signo, “2” é um signo, mas não é o signo “4” que é o dobro de 2, e sim a quantidade 4, seja ela representada por esse signo ou por quatro bolinhas. [...] A tese de Cantor escorrega para fora dessa obviedade mediante o expediente de jogar com um duplo sentido da palavra “número”, ora usando-a para designar uma quantidade definida com propriedades determinadas ( entre as quais a de ocupar um certo lugar na série dos números e a de poder ser par ou ímpar ), ora para designar o mero signo de número, ou seja, a cifra. A série dos números pares só é composta de pares porque é contada de dois em dois, isto é, saltando-se uma unidade entre cada dois números; se não fosse contada assim, os números não seriam pares. [...] A noção de “conjunto” é que, destacada abusivamente da noção de “série”, produz todo esse samba-do-alemão-doido, dando a aparência de que os números pares podem constituir um “conjunto” independentemente do lugar de cada um na série, quando o fato é que, abstraída a posi- ção na série, não há mais paridade ou imparidade nenhuma. Se a série dos números inteiros pode ser representada por dois conjuntos de signos, um só de pares, outro de pares mais ímpares, isto não significa que se trata de duas séries realmente distintas. A confusão que existe aí é entre “elemento” e “unidade”. Um conjunto de x unidades contém certamente o mesmo número de “elementos” que um conjunto de x pares, mas não o mesmo número de unidades. O que Cantor faz é, no fundo, substancializar ou mesmo hipostasiar a noção de “par” ou “paridade”, supondo que um número qualquer possa ser par “em si”, independentemente de seu lugar na série e de sua relação com todos os demais números (inclusive, é claro, com sua própria metade), e que os pares possam ser contados como coisas e não como meras posições intercaladas na série dos números inteiros. No seu “argumento”, não se trata de uma verdadeira distinção entre todo e parte, mas sim de uma comparação meramente verbal entre um todo e o mesmo todo, diversamente denominado. Não se tratando de um verdadeiro todo e de uma verdadeira parte, não se pode falar então de uma igualdade de elementos entre todo e parte, nem, portanto, de uma refutação do 5º princípio de Euclides. Cantor erra o alvo por muitos metros."



A megalomania dele não fica só nisso. Olavo se gaba de ter "refutado" homens como Einstein e Newton (sim, o mesmo homem que não checa fontes e se apoia em boatos é refutador de grandes cientistas). Mas a análise de Olavo para refutar Cantor, citada acima, é idêntica à de René Guénon:


"A impossibilidade do «número infinito» pode estabelecer-se ainda com diversos argumentos; Leibnitz, que ao menos a reconhecia muito claramente (20), empregava o que consiste em comparar a sucessão dos números pares à de todos os números inteiros: a todo número corresponde outro número que é igual ao seu dobro, de sorte que se podem fazer corresponder as duas sucessões termo a termo, de onde resulta que o número dos termos deve ser o mesmo em um e outro caso; mas, por outra parte, evidentemente há mais duas vezes números inteiros que números pares, já que os números pares se colocam de dois em dois na sucessão dos números inteiros; portanto, assim se conclui numa contradição manifesta. Pode-se generalizar este argumento tomando, em lugar da sucessão dos números pares, isto é, dos múltiplos de dois, a dos múltiplos de um número qualquer, e o raciocínio é idêntico; pode-se tomar também da mesma maneira a sucessão dos quadrados dos números inteiros21, ou mais geralmente, a de suas potências de um expoente qualquer. Em todos os casos, a conclusão à que se chega é sempre a mesma: uma sucessão que não compreende mais do que uma parte dos números inteiros deveria ter o mesmo número de termos que a que os compreende a todos, o que equivaleria a dizer que o todo não seria maior que sua parte; e, desde que se admite que há um número de todos os números, é impossível escapar a esta contradição. Não obstante, alguns creram poder escapar a ela admitindo, ao mesmo tempo, que há números a partir dos quais a multiplicação por um certo número ou a elevação a uma certa potência já não seria possível, porque daria um resultado que ultrapassaria o pretendido «número infinito»; há inclusive quem foram conduzidos a considerar efetivamente números chamados «maiores que o infinito», de onde teorias como a do «transfinito» de Cantor, que podem ser muito engenhosas, mas que por isso não são mais válidas logicamente (22): ¿é concebível que se possa pensar em chamar «infinito» a um número que, ao contrário, é tão «finito» que não é nem sequer o maior de todos?"

Olavo pretende refutar as bases da geometria clássica - e finge conseguir fazer isso, fazendo uma análise idêntica à de Guénon sem citá-lo no livro. Basta ler os dois trechos, o de Olavo e o de Guénon, para observar que dizem exatamente a mesma coisa. Algo bastante significativo para configurar mera coincidência. E Guénon obviamente escreveu isso muito antes de Olavo.


Semeando dragões, colhendo pulgas

A frase atribuída a Karl Marx ("Semeei dragões e colhi pulgas") cabe bem ao trabalho feito por Olavo. A postura do seguidor médio dele é exatamente igual à do "filósofo": agressividade, palavreado ofensivo e ideais de superioridade, arrogância e megalomania. Olavo semeia dragões: cada um dos seus seguidores é uma máquina intelectual preparada para obliterar qualquer resistência e refutar absolutamente todos e tudo.

Entretanto, são pulgas. Olavo pretende criar uma "elite intelectual" para recuperar a "alta cultura", mas seus produtos são meros replicadores não só de suas ideias, mas de seus "pensamentos" e análises. Uma horda de puxa-sacos cujo ápice da intelectualidade é servir de caixa de ressonância para aquilo que Olavo diz e faz.

Olavo produziu um enxame de clones malformados, é claro. É exatamente essa massa disforme, incapaz de criar uma alternativa político-ideológica real para o Brasil - e que se assemelha imensamente à massa esquerdista pós-moderna, que tanto diz combater, principalmente a nível psicológico, comportamental e moral.
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Um comentário:

  1. Ótimo texto... mas, apenas uma correção: não é Eduardo Velasco, é Carlos Velasco.

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