quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Psicologia do Direitismo Moderno

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Nota: Theodore Kaczynski escreveu uma brilhante análise sobre a psicologia do esquerdismo moderno (clique aqui para ler o texto). Esse texto é redigido como uma espécie de complemento ao texto de Kaczynski. Se ele abordou a psicologia do esquerdismo moderno, aqui vamos abordar a psicologia do direitismo moderno. 



AVISO: Este texto não pretende fazer um diagnóstico completo da psicologia direitista, mas sim mostrar apenas alguns pontos que fazem parte dessa psicologia. Os elementos descritos aqui não são exclusividade da Direita ou dos direitistas, mas são especificamente característicos desse meio. Os mesmos defeitos podem ser encontrados em vários setores da Esquerda - mas, assim como a Esquerda possui traços comportamentais próprios, a Direita também tem os seus. Aqui, levamos em consideração a Direita brasileira, mas vários dos pontos retratados no texto podem também identificar movimentos de Direita em outras partes do mundo.




PSICOLOGIA DO DIREITISMO MODERNO

Há vários problemas sociais graves. Grande parte desses problemas ocorre não só pela ingerência a nível governamental, mas principalmente por conta do psicológico das massas. As correntes doutrinárias e ideológicas principais fomentam padrões comportamentais e psíquicos bastante observáveis. Grande parte daquilo que consideramos como meros estereótipos ou caricaturas é, na verdade, uma ilustração real de um comportamento coletivamente observável.

O direitista (e aqui fazemos a distinção entre Direita enquanto ideia ou conjunto de filosofias e o direitista enquanto suposto adepto dessas ideias) também possui um padrão comportamental e uma configuração psicológica bastante característicos. Aqui, vamos descrever alguns dos principais pontos dessa configuração.

O que é direitismo? Direitismo não é a simples adesão a certo conjunto de valores ou ideologias. Direitismo é um padrão comportamental, assim como o esquerdismo. Da mesma forma que a Esquerda não tem mais correlação com questões de classe ou anticapitalismo, mas sim com um padrão comportamental ou um conjunto de opiniões dogmáticas, a Direita não tem correlação com questões morais conservadoras, mas sim com a reação a esses padrões esquerdistas e um conjunto mimético de atitudes, gestos e ideias.

O direitismo é essencialmente a ação masoquista e a desidentificação com os grupos aos quais seus sujeitos pertencem. Esse sentimento de masoquismo é bastante perceptível tanto nas pautas econômicas quanto governamentais defendidas pelo direitista médio.


DESIDENTIFICAÇÃO

O direitista rejeita em essência o grupo ao qual pertence e a identidade socioeconômica que possui e se esforça para se enxergar como membro de grupos dos quais não faz parte. Por exemplo: ele não se identifica como membro da classe proletária ou de um estrato social da base piramidal; ele se identifica mais com os membros do topo. Os ícones do direitista não são os pobres ou trabalhadores, mas sim os homens bem-sucedidos de terno.

Ele considera a defesa dos pobres como demagogia ou populismo, mas defende invariavelmente a elite financeira. A isso damos o nome de desidentificação, ou seja, a ação de não se identificar com o grupo com o qual o sujeito possui mais traços de semelhança e a busca por uma aproximação com grupos e estratos sociais totalmente distintos, distantes e alheios.

Quando o direitista louva o "empreendedor bem-sucedido", especialmente não sendo ele mesmo um empreendedor bem-sucedido, ou quando exalta a figura do capitalista milionário, mesmo jamais sendo um milionário, o que ele quer  comunicar é sua desidentificação com aquilo que ele é: um pobre. Ele não quer ser pobre e, exaltando aqueles que estão acima dele, deseja se distanciar dos que estão do lado ou abaixo dele.

O direitista é incapaz de se identificar com os grupos que possuem mais elementos de semelhança com ele e tende a se identificar com os grupos sociais mais distantes de sua realidade. Ele considera a identificação com o proletariado como algo "esquerdista" e, como a figura do magnata causa repulsa à Esquerda, ele automaticamente adota esse personagem como virtuoso e moral.

Ele se põe ao lado daquilo que é antagônico em termos de identificação e contra aquilo que deveria defender. O direitista jamais defende pautas coletivas que abrangem o meio social do qual ele mesmo faz parte. E ele considera essa desidentificação como um símbolo máximo do anti-esquerdismo.


SENTIMENTOS DE MASOQUISMO

Masoquismo é tanto uma perversão sexual que consiste na obtenção de prazer por meio de sofrimento ou humilhação quanto a atitude de uma pessoa buscar por sofrimento ou humilhação para obter prazer não-sexual. Trataremos do segundo caso, sem conotação sexual. 

O direitista é tomado por sentimentos de masoquismo que se manifestam em suas posições políticas e socioeconômicas. Economicamente, ele defende interesses de uma elite da qual não faz parte; em termos políticos, se opõe a políticas que poderiam beneficiá-lo. Ele nega aquilo que seria bom para sua classe social e aceita e defende aquilo que prejudica o grupo do qual faz parte. Isso fica bastante característico no ativismo de classe média, que se opõe a políticas assistencialistas para pobres mas não critica os inúmeros privilégios da elite - porque, estando no "meio", o direitista se vê mais próximo do topo (do qual ele está imensamente distante) do que da base (da qual ele está muito mais próximo).

Essas pautas econômicas prejudicam o próprio direitista e ele compreende isso, mas considera como algo essencialmente bom. Assim, aceitando esse sofrimento, ele passa a agir de forma masoquista, sentindo prazer em defender pautas totalmente hostis a ele. Esse masoquismo político é bastante evidente na oposição a absolutamente qualquer pauta considerada como "popular" ou "populista", ou seja, tudo aquilo que não beneficia diretamente a elite econômica.

Ele identifica as pautas hostis às camadas da qual ele faz parte como positivas, e as pautas benéficas à classe da qual ele pertence como negativas. Assim, ele é capaz de negar um privilégio ou até mesmo um direito seu e defender um favorecimento da elite dominante, especialmente a elite econômica. Ele diz odiar a elite política (a qual ele faz questão de distinguir da elite econômica) mas se opõe a qualquer reformulação estrutural que se oponha a essa elite política (por exemplo, o direitista odeia a reforma agrária - que, em termos simples, significaria o desmantelamento da base da elite política dominante).

Assim, ele é incapaz de definir aquilo que é positivo para si e para os seus e é incapaz de lutar contra aquilo que se opõe a ele mesmo e aos seus. Ele odeia o populismo mas ama o elitismo: para o direitista, o bom governante é aquele que governa para poucos, para uma elite - e o mau governante é aquele que governa para as massas, em detrimento da elite. Assim podemos resumir o masoquismo político direitista: o prazer em prejudicar a si mesmo.


SENTIMENTOS DE SADISMO

Ao mesmo tempo em que o direitista sente um prazer masoquista (de prejudicar a si mesmo), ele sente uma satisfação sádica. Sadismo é a satisfação, o prazer causado pela dor alheia. O direitista sente prazer em verificar o sofrimento físico ou psíquico daqueles que são seus opositores (e seus opositores não são necessariamente esquerdistas, mas absolutamente todos que discordam dele). Ele sente prazer no sofrimento intenso causado pela repressão policial desmedida - não necessariamente em relação à criminalidade em si, mas inclusive à manifestação de ideias "esquerdistas".

Ele sente prazer no aparato policial usado como repressor de ideias das quais ele discorda. O sofrimento do outro (que, em termos de classe, está muito mais próximo dele) é um prazer para o direitista; ao mesmo tempo, a repressão da elite que não o reconhece é uma alegria para ele (daí retornamos ao conceito de desidentificação e de masoquismo político).

O direitista tem como heróis máximos torturadores e estupradores (fardados é claro). Todos eles, claro, uniformizados. A figura fardada transmite ao direitista o sentimento de legalidade da dor e do prazer sádico que ele sente. As piores atrocidades que ele condena são vistas por ele como virtudes ou "heroísmo" quando praticadas por homens fardados.

Ele enxerga na autoridade máxima e na repressão bens elevados e elementos altamente moralizadores, enquanto que qualquer atividade de dissenso, contestação e alteração do panorama social são coisas que o direitista enxerga como essencialmente ruins.

Esse sadismo é manifesto sempre que o outro agride o grupo com o qual o direitista possui mais semelhanças, tanto econômicas quanto sociais (repressão a manifestações estudantis, sindicais, trabalhistas, ativistas dos direitos humanos, etc.).


MANUTENÇÃO DO STATUS QUO 

O direitista defende toda a manutenção de um status quo que é negativo para ele mesmo. Sob a alcunha do "conservadorismo" (aquilo que ele enxerga como conservador), o direitista se opõe em essência a absolutamente qualquer mudança brusca na estrutura social, econômica e política - e em qualquer outro âmbito.

O direitista é, acima de tudo, um mantenedor do status quo. Todas as pautas de mudanças radicais e profundas nas estruturas que ele reconhece são rejeitadas por ele. Isso não ocorre por uma vontade de preservação de um conjunto atemporal de valores, mas sim pela identificação com a elite econômica (que, em suma, também é a elite política - já que esta é dominada pela elite econômica). Se as mudanças se dirigem contra essa elite econômica, então ele se opõe a elas.

Essa aversão à mudança constitui parte significativa e essencial da psique direitista. Isso não significa que o direitista não deseje mudanças: ele reconhece um quadro de degeneração moral e política e deseja radicalmente o fim desse estado decaído. Isso significa que ele se opõe aos meios efetivos de realizar essa mudança (transformações estruturais), concentrando-se em medidas paliativas, como o messianismo político ou a consolidação da imagem de determinados "gurus" e formadores de opinião.

Mesmo desejando a mudança, ele rejeita todas as ferramentas efetivas pra fazer essa transformação e adota todos os instrumentos inúteis e inofensivos (o ativismo teatral, as passeatas insossas, etc.). Ele só age quando essa ação não põe em risco a estrutura vigente. 

Ao mesmo tempo em que ele admite que seria bom usar de violência física para eliminar a elite política, ele sempre se opõe a qualquer manifestação agressiva contra a elite política e seus aparatos de repressão, considerando tudo isso como vandalismo e barbárie. Enquanto sua palavra emite desejo de mudança radical, seus atos demonstram o puro conformismo e resignação.


REACIONARISMO

A psicologia direitista é fundamentalmente reacionária. O direitista é aquele que pratica o reacionarismo. Reacionário é aquilo que se põe favoravelmente à reação. Podemos interpretar aqui "reacionarismo" como o ato ou ação de reagir. O direitista reage por reflexo a absolutamente tudo o que a Esquerda faz. Isso significa que a estrutura mental do direitista é essencialmente negativa, ou seja, não atua no âmbito da criação ou da proposição de coisas e soluções, mas de simples negação ou reação hostil às pautas "esquerdistas" (e, mais uma vez, "esquerdistas" aqui são todas as coisas das quais ele discorda).

Se a Esquerda defende algo, ele ataca. Se ela ataca, ele defende. Se ela é neutra em relação a algo, o direitista simplesmente não se posiciona. Ele não se importa se determinada ideia é boa ou ruim, mas sim se ela é "esquerdista" ou não. Assim, o direitista não se importa com o fato de, por exemplo, Margaret Thatcher ter sido favorável ao aborto, já que ela era de Direita - mas ele odeia Simone de Beauvoir por ela não só ter sido favorável ao aborto, mas também de Esquerda.

Ele exalta a tortura e a repressão política em regimes de Direita (como de Pinochet e do Regime Militar brasileiro) e condena essas mesmas coisas em regimes de Esquerda. Ele é favorável à censura nos regimes de Direita e crítico feroz dessa mesma censura em regimes de Esquerda (ou que ele considera como de Esquerda).

Suas noções de certo e errado e de bem e mal estão mais determinadas pelas próprias posições da Esquerda do que em pontos fixos duma moralidade própria e livre de influências externas e temporais. Mesmo aparentemente adepto do Cristianismo, o direitista tem nas atitudes da Esquerda seu maior norte moral: aquilo que eles fazem não deve ser feito por ele.


OS PERIGOS DO DIREITISMO

O direitismo é um instrumento de desmobilização das massas e de captação da classe média pela elite, sequestrando suas pautas e substituindo qualquer capacidade de identificação própria por um espelhamento e uma inspiração na elite econômica dominante.

Ele anula capacidades reais de fazer frente ao status quo e ao establishment, fomentando a adesão às pautas e formas de militância insuficientes, irrelevantes e inofensivas. Ele serve como hostilização interna dentro da classe trabalhista, das massas e dos mais pobres: o inimigo do direitista não é o membro da elite que o domina, mas sim o outro trabalhador, membro de sua própria classe que não adere às suas pautas.

Podemos considerar o direitismo como uma ferramenta de anulação da unificação de massas e do favorecimento da manutenção e ampliação dos desígnios e privilégios das elites dominantes, garantindo para elas a legitimação do "apoio popular".








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