segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Manifestações extremistas e politicamente correto: ação e reação

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Membros do National Socialist Movement, uma organização neonazi nos EUA.


Poucos dias atrás, houve uma série de manifestações e passeatas de movimentos neonazistas nos Estado Unidos. A Esquerda e os movimentos progressistas não só dos EUA, mas do mundo inteiro (inclusive no Brasil), demonizaram rapidamente esses eventos. Isso não é um problema em si, já que a Esquerda é historicamente oposta à qualquer ideia neonazista ou fascista (inclusive ampliando o significado do termo ao nível da abstração mais infantil, o que não vem ao caso).

Então, qual é o problema de fato? É o distanciamento entre o discurso e a realidade no meio progressista, "esquerdista". A retórica progressista é a da liberdade, da tolerância e do direito de expressão, quase que de forma ilimitada. A realidade é que os progressistas (e qualquer outro grupo) aceitam um conjunto de ideias e odeiam outras, procurando inclusive censurá-as.

Há uma imensa incoerência nesse discurso. Se as manifestações nos EUA são ofensivas (e para vários públicos elas realmente são), então seria mais honrado se esses grupos assumissem que a liberdade de expressão não é um bem ilimitado, que há ideias que devem sim sofrer banimento, sendo excluídas e proibidas em suas manifestações. 

Deve existir um traço claro aqui: "eu reconheço um inimigo e quero privá-lo de todas as formas possíveis". Os progressistas não só são incapazes de assumir isso abertamente, como se apegaram ao discurso pelo discurso, vazio em todas as suas formas. São reféns da própria palavra.

Os "extremistas neonazistas", por outro lado, não se importam com palavras. Eles querem agir e agem. Não se importam se serão chamados de racistas, porque esse vocabulário não lhes afeta em nada. 

A Esquerda progressista transformou as palavras em seu único instrumento de ação, tentando impelir um vocabulário único e um só conjunto de significados e definições. Seus militantes ainda se surpreendem ao descobrir que seus dogmas não são universais e que há inúmeros grupos que não partilham de suas ideias, pouco se importando com seu politicamente correto.

Essa Esquerda não só é incapaz de deter o racismo como acaba fomentando o problema. Durante décadas, os progressistas preferiram simplesmente definir um politicamente correto, marginalizando qualquer discordância, do que efetivamente abrir um diálogo e um pensamento crítico. 

Assim, mesmo pessoas sem nenhuma tendência extremista ou racista foram automaticamente consideradas pelos progressistas como nazistas, racistas e todos os outros adjetivos típicos desse discurso. Com essa reação negativa, o efeito colateral foi óbvio: essas pessoas, marginalizadas pelo politicamente correto, aderiram aos movimentos mais extremistas possíveis.

É bastante óbvio que isso não é invenção dos defensores do politicamente correto. A Ku Klux Klan já existia muito antes de toda essa agenda pós-moderna. O problema, aqui, é que a Esquerda perdeu a capacidade de diálogo e, marginalizando da pior forma possível qualquer crítico, atua como um agente fortalecedor dos extremismos que tanto diz combater. A "surpresa" que esses militantes fazem com as manifestações racistas nos EUA só mostra o quando esse nicho está tão deslocado da realidade.

Se você defende a "liberdade de expressão" como um bem sagrado, então tem que admitir que pessoas que você não gosta vão falar coisas com as quais você discorda. E sua melhor arma será um argumento ou uma ideia melhor do que aquela que você odeia. Se sua reação é exigir a proibição da ideia contrária, então você é, na melhor das hipóteses, um totalitário enrustido - e um totalitário assumido é infinitamente melhor do que um democrata demagogo.

Obviamente, nem todas as ideias estão no mesmo nível e há muitas delas que não devem ser toleradas (apologia à pedofilia é apenas um exemplo) - e a difusão da opinião como uma obrigação universal ou como algo bom em si mesmo é mais um mal do que um bem.

Algumas perguntas  devem ser feitas. A opinião é algo bom em si mesma? Todas as opiniões são válidas? Há ideias que devem ser censuradas? Como definir o que deve ou não ser eliminado do debate? Eliminar certas questões ajuda a combatê-las, ou a anulação odo questionamento só favorece o extremismo? 

A Esquerda progressista, longe de responder essas dúvidas, prefere tratar como "discurso de ódio" absolutamente qualquer coisa da qual não gosta - e isso inclui tanto um elogio ao casamento heterossexual tradicional quanto uma manifestação neonazista. O pensamento totalitário está tanto nos extremistas neonazis quanto nos progressistas "chocados". 

À medida em que o politicamente correto cria mais e mais tabus e simplesmente marginaliza vários elementos no debate público, apenas finge resolver um problema. "Se nós não ouvimos, é porque não existe". Isso é ilusão. A ação de patrulha ideológica apenas empurra as questões pra debaixo do tapete e, uma hora ou outra, elas eclodem da maneira mais violenta possível. As tensões raciais nos EUA são uma amostra disso. 

E essas tensões não serão resolvidas nem pelos neonazistas nem pelos progressistas, porque ambos dependem do problema para sobreviver, para ter alguma razão existencial.


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2 comentários:

  1. Vcs da direita sempre defenderam abertamente a discriminaçao contra minorias,mas no final das contas, a culpa é da esquerda na cabecinha d gente q nao sabe nem o q significa direita e esquerda,mas quer se passar d intelectual sobre o assunto

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  2. Um extremo leva ao outro, sendo a distância entre um extremo e outro a distância entre duas extremidades de um anel cortado. A solução não é rotulação e shaming contra os que pensam de modo diferente, mas sim um bons argumentos e convencimento. Muito bom o texto.

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