sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Idiocracia: O Reflexo de uma Era governada por Imbecis

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Joe, um bibliotecário medíocre em 2005, se transforma no homem mais inteligente em 2505 - na foto, ele é presidente dos EUA

AVISO: Contém spoilers sobre o filme


O filme Idiocracia (Idiocracy, no título original) é uma comédia sem grandes pretensões. Mas a produção acaba sendo uma das maiores (e melhores) sátiras à cultura de imbecilismo bastante presente nos Estados Unidos.

Estrelado em 2006, o filme tem como protagonista Joe Bauer, personagem de Luke Wilson, um bibliotecário do exército sem grande capacidade intelectual, escolhido para participar de um projeto científico militar de animação suspensa (desaceleração dos processos biológicos vitais do corpo por meios externos, sem causar a morte - um "congelamento") juntamente com uma prostituta chamada Rita (interpretada por Maya Rudolph).

O projeto é cancelado e, quinhentos anos depois, em 2505, os dois despertam do estado de congelamento, encontrando um mundo totalmente "novo". O caos, a hiper poluição, o acúmulo imenso de lixo, a pobreza e os guetos estão presentes no "cenário do futuro", uma imagem que em absolutamente nada lembra as ilustrações futuristas de avanço, "progresso", um Éden tecnológico.

Durante os 500 anos que se passam no filme (entre o congelamento e o despertar de Joe e Rita), a raça humana passa por um processo de decaimento das capacidades cognitivas e intelectuais, progredindo para um estágio intelectual cada vez mais baixo. É a imbecilização em curso.

Todas as pessoas no filme são extremamente imbecis e incapazes de raciocínios óbvios (excluindo Joe e Rita que, mesmo sendo medianos, mantiveram uma capacidade menos degenerada). Elas passam tempo assistindo ao lixo televisivo e consumindo entretenimento barato (ou simplesmente comprando qualquer coisa), comendo em redes de fast-food e assistindo pornografia. Todos são profundamente anti-intelectuais e consideram a atividade de pensar como algo para "bichas". O vocabulário atinge um nível bastante baixo, como uma espécie de fragmentos da língua inglesa. E isso não é algo restrito aos pobres: no filme, o presidente dos EUA, Camacho (Terry Crews), é um exibicionista sem nenhuma competência administrativa, totalmente manipulado por corporações.

Nesse cenário caótico, as duas figuras medíocres de Joe e Rita se transformam nas pessoas mais inteligentes, e, eventualmente, Joe se torna presidente dos EUA e Rita, sua primeira dama. Ele consegue algumas soluções com ideais bastante óbvias, sendo aclamado como o homem mais inteligente da Terra.

O cenário do filme, apesar de futurista, é completamente atual. Os EUA são um país extremamente imbecilizado. Um sistema de educação deficitário e a sensação de que os Estados Unidos são o centro do Universo cria um sentimento de superioridade e de desconsideração pelo conhecimento em geral. Por qual motivo você deve aprender algo se já domina o mundo?

É bastante óbvio que o imbecilismo não é exclusividade dos EUA, mas se torna ainda mais grave quando levamos em conta que se trata do país mais poderoso do mundo e do império global mais forte da História humana. Não faltam vídeos onde os estadunidenses não conseguem sequer apontar o próprio país no mapa, muito menos os "piores inimigos" ou os "maiores aliados" dos Estados Unidos. 

A estruturação de um país dominado por grandes órgãos de mídia com presidentes que são fantoches de grandes corporações e uma população em crescente estágio de recrudescimento intelectual (a Esquerda pós-moderna é um dos maiores sinais disso, juntamente com uma Direita cada vez mais regressiva ao ponto do primitivismo anticomunista da Guerra Fria) é um panorama bastante contemporâneo.

Uma sociedade inteiramente dependente de máquinas (no filme, as pessoas são incapazes de fazer contas básicas ou absolutamente qualquer atividade simples sem alguma tecnologia), que avança na techné mas perde totalmente a capacidade de logos (a transferência da atividade de pensar totalmente para as máquinas), que vive imersa em animalismo e decadência não é nenhuma teoria da conspiração: já é uma realidade.

Os Estados Unidos são um país formado essencialmente por uma massa de consumidores sem grande capacidade cognitiva e governado por ególatras manipulados por interesses corporativos, onde o grande ápice da atividade reflexiva são os conteúdos produzidos pela mídia de massas e por meia dúzia de "especialistas".

É assustador, mas a verdade nua e crua é que nós somos governados por uma potência formada por imbecis.

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