sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Direito de Resposta: O Avante, as análises marxistas e o Fascismo


Por: Jean A. G. S. Carvalho

Membros da Resistência Francesa antinazista 

Esse texto foi escrito como uma resposta natural a diversas afirmações falsas e desonestas feitas em relação ao nosso movimento. Essa não é uma resposta ou uma "refutação" ao texto em sua íntegra, mas sim uma resposta a um trecho específico onde somos citados.

Esse material não deve ser interpretado como uma "justificação", mas sim como a refutação de informações enganosas e de declarações mentirosas não só sobre a natureza do Avante enquanto movimento, mas das próprias ideias dos autores abordados no texto em questão.

Uma análise irresponsável

Rodrigo Silva escreveu um texto publicado no Medium.com criticando a Extrema-Direita e as manifestações de extremismo do setor de oposição à Esquerda, bem como as organizações que iniciaram os atos de rua desde 2013. Aparentemente marxista, fica evidente que o autor parte dessa perspectiva para se dirigir a nós. E, como parece praxe de qualquer análise marxista, o autor se refere ao Avante como um movimento fascista, como fica explícito no trecho abaixo:


AIB foi dissolvida pelo Estado Novo em 1937, e o Plínio Salgado dirigiu entre 1945 e 1966 o Partido da Representação Popular (PRP), já sem as características fascistas da AIB. O PRP apoiou o golpe militar, e os integralistas fizeram parte dos quadros dirigentes da ditadura. Hoje, existe a Frente Integralista Brasileira, que é um movimento bem pequeno. Mas os fascistas que realmente têm conseguido alguma influência real de vanguarda no Brasil são os nacional-bolcheviques, que se apresentam através de uma série de siglas, com Nova Resistência, Legião Nacional-Trabalhista, Avante! etc. Essa corrente é ligada aos setores mais à esquerda (nacional-revolucionários, Terceira Posição ou Quarta Teoria Política) do fascismo europeu, sob forte influência do nacional-socialista francês Alain Soral e do filósofo russo Alexandr Dugin.

O autor consegue fazer uma correlação completamente ilógica entre grupos com filosofias bastante distintas, arregimentando-os todos como "fascistas". Nós só podemos responder por nós mesmos, mas fazemos questão de salientar que cada um dos três grupos citados no trecho em destaque possui suas próprias agendas, características e doutrinas. 

O texto pode ser chamado elogiosamente de irresponsável. Nele, fica nítido que o autor não realizou uma análise minimamente decente e honesta sobre os pontos que abordou. As declarações contidas nesse texto são tanto irresponsáveis quanto mentirosas. É dessas declarações contidas no trecho destacado acima que nós vamos tratar aqui.


A Quarta Teoria Política é Fascista?

O Avante é um movimento de Quarta Teoria Política e o autor acerta em dizer que somos influenciados por Alexandr Dugin, fato que nós sempre admitimos e jamais escondemos. É de Alexandr Dugin que tomamos nossas noções sobre multipolaridade, combate ao liberalismo e oposição ao projeto de hegemonia global. É dele também que tomamos os ideais presentes na Quarta Teoria Política, como o esvaziamento das ideologias dominantes e do dualismo entre Esquerda versus Direita, dualismo ao qual o autor do texto está visivelmente preso.

Mas nenhuma das ideias contidas na Quarta Teoria Política se relaciona com o fascismo. Primeiro, porque Dugin critica fortemente o conceito de Estado-Nação, chauvinismo e imperialismo; segundo, porque a Terceira Teoria Política é considerada como já derrotada. As ideias de Dugin e as ideias presentes no Avante não são um prolongamento nem do comunismo, nem do fascismo, nem do liberalismo, mas sim uma superação desses elementos.

O movimento nacional-bolchevique, que o autor aparentemente não compreende e que usa como rótulo para englobar movimentos distintos, não tem conexão com a Quarta Teoria Política. Seu maior expoente é Eduard Limonov, com o qual Dugin tem sérias discordâncias (que ficam evidentes inclusive no livro "Putin versus Putin", recentemente traduzido para o português). 

Dugin de fato passou pelo Partido Nacional-Bolchevique, ajudando a fundá-lo juntamente com Eduard Limonov, em 1994 sob o nome de Frente Nacional-Bolchevique. Se esse fator significa que Dugin é essencialmente nacional-bolchevique, então absolutamente qualquer intelectual que tenha passado por outras correntes ou que tenha possuído filiações com determinadas figuras contraditórias deve ser desconsiderado, inclusive inúmeros marxistas. 
O próprio Karl Marx, seguindo o raciocínio do autor, deveria ser descartado, já que foi casado com uma aristocrata burguesa, Jenny von Westphalen. Seria Marx um "aliado da burguesia" ou da "alta aristocracia" e um traidor da luta de classes? Seria ele um "conciliador de classes"? Essa perspectiva usada pelo autor do texto não só é pobre, mas extremamente infantil.

É possível encontrar inúmeras críticas ao fascismo feitas por Dugin. Grande parte dessas críticas está concentrada no livro "A Quarta Teoria Política"[1]. Retiramos da própria obra trechos onde isso fica bastante explícito:

O liberalismo passa então a pós-liberalismo. Se não há mais alternativas políticas ao liberalismo, o liberalismo não é mais então apenas um objeto de escolha, ele se torna um consenso inconsciente.impulso de desenraizamento e equalização que já residia no liberalismo original e foi posto em prática ao longo da modernidade, chega a seus limites extremos e se metamorfoseia em um impulso de dissolução de todas as coisas. Nações, etnias, culturas, raças, sexos, religiões, todas essas categorias de identidade involuntária, possuem suas delimitações invalidadas e seus conteúdos misturados no caldeirão do politicamente correto e do multiculturalismo. Como poderiam as defuntas teorias políticas do fascismo e do comunismo, em sua completude e “ortodoxia”, confrontar essa nova metamorfose de seu velho inimigo, quando seus conteúdos estão completamente defasados em relação às realidades da pós-modernidade e do pós-liberalismo? Elas não podem. Como qualquer estrategista amador bem sabe, não é possível confrontar com sucesso um inimigo que não se conhece (o pós-liberalismo), em um terreno que não se conhece (a pós-modernidade).
-Alexandr Dugin, "A Quarta Teoria Política", página 9.

Dugin parte da perspectiva de que, dentre as três ideologias principais (comunismo, liberalismo e nazi-fascismo) o liberalismo é a única estrutura ideológica com presença real no mundo, e que tanto o comunismo quanto o fascismo são "teorias políticas defuntas". Como Dugin poderia ser adepto daquilo que ele assume como morto, esgotado, insuficiente? 

Sobre a hegemonia liberal, ele aborda com multiplicidade as "nações, etnias, culturas, raças, sexos, religiões". Essa multiplicidade está em oposição direta ao conceito de fascismo usado pelo autor do texto, e ao ideal de um Estado-nação chauvinista e expansivo.

Há outros trechos que merecem ser destacados:

Mas é também aparente que um retorno às ideologias políticas não liberais do século XX, tais como comunismo ou fascismo, é improvável, já que essas ideologias já falharam e se provaram historicamente incapazes de se opor ao liberalismo, para não dizer nada dos custos morais do totalitarismo. 
- Alexandr Dugin, "A Quarta Teoria Política", página 17. 

Nesse trecho, Dugin se opõe ao totalitarismo típico da Terceira Teoria Política (nazi-fascismo) e à própria validade dessas ideologias no mundo atual. Mais uma vez, fica nítido que o autor do texto sequer leu o alvo de sua crítica.

Mais uma vez, Dugin reforça a invalidade do nazi-fascismo e a necessidade de construir novas alternativas:

Ao mesmo tempo, a Quarta Teoria Política não pode ser a continuação seja da segunda teoria política ou da terceira. O fim do fascismo, muito como o fim do comunismo, não foi apenas um mal-entendido acidental, mas a expressão de uma lógica histórica bastante lúcida. Elas desafiaram o espírito da modernidade (o fascismo o fez quase abertamente, o comunismo – de modo mais encoberto: ver a resenha do período soviético como uma versão “escatológica” especial da sociedade tradicional por Mikhail S. Agurskii ou Sergei Kara-Murza) e perderam. Isso quer dizer que o conflito com a metamorfose pós-moderna do liberalismo sob a forma da pós-modernidade e da globalização deve ser qualitativamente diferente; deve ser baseada em novos princípios e propor novas estratégias.
- Alexandr Dugin, "A Quarta Teoria Política", página 23. 

Dugin deixa explícito que o fascismo é um movimento morto e que novas propostas devem surgir. Ele se opõe radicalmente ao nazi-fascismo como teorias válidas e isso fica nítido em vários outros trechos não só de "A Quarta Teoria Política", mas de várias outras obras e textos.

O Avante não é um movimento "nacional-bolchevique", nem a NR e muito menos a LNT (um grupo nacionalista de vertente varguista). Somos um movimento que rejeita o fascismo em essência e que é decididamente voltado à construção de uma nova leitura do Brasil e de uma retomada de suas múltiplas identidades culturais. Nossos ideais estão bem explícitos nos inúmeros textos e materiais que publicamos de modo explícito, bem como em nossos áudios e encontros. 

O autor falha miseravelmente em englobar um movimento que ele sequer conhece no pólo com o qual discorda, na Direita. O Avante é um movimento essencialmente oposto à polarização entre Esquerda e Direita, ao mesmo tempo tomando vários pontos positivos independente de suas origens ideológicas ou espectros políticos (daí nosso lema "Esquerda do Trabalho, Direita dos Valores", que é aparentemente incoerente, mas que sintetiza bem nossa capacidade de reunir elementos "opostos" quando são válidos, bem como rejeitar elementos negativos independente de onde eles vêm).


Somos influenciados pelo "Fascismo Europeu"?

A influência do "fascismo europeu" é inexistente. Primeiro, porque não nos consolidamos sobre um aspecto racialista; segundo, porque somos essencialmente voltados ao Brasil. 

O autor cita Alain Soral, uma figura que, assim como Alexandr Dugin, ele desconhece. Soral é considerado por ele como um "nacional-socialista", mas suas verdadeiras motivações ideológicas são mais complexas do que isso. Na própria página sobre o autor na Wikipédia (que está longe de favorecer sua imagem), há a seguinte descrição sobre o perfil ideológico de Soral, no texto original em francês:

Le positionnement politique d’Alain Soral est, de l’avis de la plupart des observateurs comme du sien, le fruit d’une combinaison, désignée en des termes divers, entre thèses nationalistesd’une part et socialistes ou marxistes d’autre part. Si Michel Wieviorka le qualifie de « réactionnaire de gauche » en 2005, les observateurs s’accordent à le classer à l’extrême droite depuis son passage au Front national,alors que l’intéressé s’en défend. Manuel Valls, alors ministre de l’Intérieur, voit notamment en lui « celui qui, par son parcours, l’utilisation du Net, les manipulations auxquelles il se livre, les réseaux qu’il a constitués, unit et fédère, de façon inédite, le front des extrêmes »154.

Ao contrário do reducionismo absurdo e da desonestidade intelectual do autor do texto, a posição ideológica de Alain Soral é difícil de determinar, mas pode ser resumida como a de um patriota de Esquerda. Soral parte de leituras bastante marxistas. A crítica dele ao feminismo é essencialmente marxista, a crítica dele à burguesia é essencialmente marxista. Podemos tomar várias análises marxistas de Soral, pincelar aquilo que queremos e chamá-lo de "marxista", colocando-o magicamente no mesmo grupo ao qual Rodrigo, o autor do texto, pertence. Isso seria reducionismo e falta de critério - mas não parece ser problema para o autor.

As filiações de Soral estão bastante próximas às do autor do texto. Aliás, Soral não parte do pressuposto duma raça superior. A própria organização da qual ele é diretor, a Égalité et Réconciliation, é duramente criticada pelos extremistas neonazistas justamente por adotar uma visão diferente sobre o Islamismo e a presença de imigrantes na França. Não vamos entrar nos méritos se Soral ou sua organização estão certos ou não sobre essa questão, mas o fato é que tudo isso pode ser qualquer coisa, menos neonazismo ou fascismo.

Aparentemente, Rodrigo Silva não ignora só as obras de Alexandr Dugin, mas também de Alain Soral.

Para que o Avante fosse um movimento inspirado no "fascismo europeu", seria necessário que tomássemos uma perspectiva de superioridade racial e Estado étnico, algo que nós não temos. Parece que o autor não consegue fazer uma leitura mínima nem sobre nós, nem sobre aquilo que ele diz criticar (no caso, o fascismo).


Conclusões Finais

O texto exigiu uma boa extensão para oferecer ao leitor uma variada fonte de informações sobre um tema complexo. Sim, seria mais fácil adotar um reducionismo simplório como o do Rodrigo Silva e simplesmente chamar o texto que nos critica de "ameaça comunista" ou "ameaça vermelha". Nós estamos mais interessados em analisar as coisas com cuidado e profundidade.

O autor do texto não é o primeiro marxista que mostra debilidade, impaciência e falta de vontade de compreender algo que foge minimamente às suas concepções. O dogmatismo é uma das causas do esfacelamento do marxismo enquanto ideologia política, principalmente com o constante distanciamento entre a chamada Esquerda e o proletariado.

Falando de movimentos que não conhece, o autor só deixa nítido que não conhece a Quarta Teoria-Política, nem Dugin, nem Alain Soral, nem o suposto "fascismo europeu" e muito menos o Avante. Teria sido mais fácil, honesto e menos vergonhoso nos entrevistar e nos questionar de maneira direta. Os marxistas, assim, abrem um fosso cada vez maior entre eles e "os outros" - e todos os outros são "fascistas". Esse texto não prejudica o Avante, ele só colabora com a própria extrema-Direita que o autor diz combater. Quanto mais diluído se torna o conceito, mais difícil será combater um inimigo real. E fica nítido que o autor não sabe separar amigos de inimigos.

Nós gostaríamos de análises marxistas mais sérias, não só sobre nós, mas sobre todas as coisas. É lamentável perceber que uma vertente que já produziu inúmeros pensadores tenha representantes que não são capazes sequer de chegar às origens de um objeto de análise. 


Em seu perfil no Facebook (que não vamos divulgar aqui), o autor se mostra um apoiador explícito do Exército Sírio Livre, um arremedo de organizações terroristas que têm como objetivo derrubar Bashar al-Assad, na Síria, e implantar um regime teocrático extremista naquele país. São grupos fundamentalmente apoiados pelos Estados Unidos, num gesto claro de imperialismo contra a Síria. Para alguém que aparenta odiar tanto o fascismo e o imperialismo, o autor parece incapaz de escolher as bandeiras certas.



Notas:

[1] Dugin, Alexandr: "A Quarta Teoria Política"; Curitiba, 2013; Editora Austral.



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