quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Bolsonaro e o messianismo político

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Jair Messias Bolsonaro


Há um descontentamento e uma revolta popular, um sentimento bastante legítimo e uma resposta natural ao quadro de coisas atual. O grande problema é que velhas figuras são apresentadas como soluções, como "novidade". Algumas caricaturas atraem e condensam esse sentimento de indignação popular, servindo como uma materialização desse dessa revolta. O perigo disso está em aceitar como "salvadores da pátria" homens que fazem parte do mesmo sistema que dizem combater.  

Bolsonaro é uma das velhas figuras que se apresenta como novo. Foi eleito como vereador do Rio de Janeiro em 1988, pelo Partido Democrata Cristão; em 1990, se elegeu deputado federal, conseguindo quatro mandatos consecutivos nesse cargo. Já foi filiado ao Partido Progressista Reformado (1993-1995), ao Partido do Povo Brasileiro (1995-2003), ao Partido Trabalhista Brasileiro (2003-2005), ao extinto Partido da Frente Liberal (2005), ao Partido Progressista (2005-2016), ao Partido Social Cristão (2016-2017) e, agora, está no Partido Ecológico Nacional. De 1988 a 2017, Bolsonaro já está na política há 29 anos, 25 deles no Congresso. 

Ele não tem nenhuma realização substancial como político; sua imagem foi inteiramente construída no mito de que ele possui uma moral ilibada, que é um militar honrado e que rompe radicalmente com o establishment político. Mas isso não é verdade. Em 1987, ele participou do planejamento de um atentado terrorista contra a Academia Militar das Agulhas Negras, no RJ, além de outros quartéis. 

O objetivo era detonar uma série de bombas para pressionar mudanças salariais para os militares. Ele chegou a ser julgado pelo Superior Tribunal Militar, mas foi absolvido. A Polícia Federal, entretanto, acabou confirmando a participação dele no planejamento do atentado, que também incluía a explosão da Adutora do Guandu, que abastecia a cidade do Rio de Janeiro com água.

Bolsonaro também usa a cota parlamentar para viajar pelo país se apresentando como pré-candidato à Presidência em 2018, o que é ilegal (campanha antecipada). Já foram seis viagens no custo de R$22 mil, pagas com dinheiro público. Em 2014, ele também recebeu R$200 mil da empresa JBS, envolvida em corrupção, para financiar sua campanha. 

Em 2017, por conta de matérias sobre o caso e da Operação Carne Fraca, ele "devolveu" o dinheiro. Só que essa "devolução" foi na forma de doação ao partido do qual ele era membro, o PP, que enviou o dinheiro novamente para ele como fundo partidário. Em termos simples: Bolsonaro fez triangulação e lavou o dinheiro por meio do partido do qual era membro. Ele não devolveu nada: ele retomou.

Entre 2010 e 2014, o patrimônio dele aumentou em 150%, segundo registro do próprio Tribunal Superior Eleitoral. Ele comprou duas casas na Barra da Tijuca, uma no valor de R$500 mil e outra no valor de R$400 mil. Esse patrimônio é incompatível com os rendimentos recebidos formalmente por ele. 

Renato Bolsonaro, irmão dele, ocupou um cargo fantasma como assessor especial parlamentar na Assembleia Legislativa de São Paulo, recebendo R$17 mil por mês sem trabalhar. Ele acabou sendo exonerado do cargo e, na frente das câmeras, Bolsonaro declarou que jamais iria favorecer o irmão. Mas, nos bastidores (e na imprensa), ele participou da defesa do irmão durante o processo. Ele chegou a declarar, depois, que o irmão não havia cometido crime algum[1].

Além desses pontos, há o fator principal: Bolsonaro não tem nenhuma plataforma política. Sua militância enquanto deputado federal consiste em atacar o comunismo e, mais especificamente, o Partido dos Trabalhadores, condensar pautas da Direita e replicar alguns slogans. Não há, de forma nenhuma, um projeto de governo. Em entrevista ao humorista Danilo Gentili, no programa The Noite, ele admitiu que não tem noções de economia.



Bolsonaro se alinha com a bancada ruralista, a mesma cúpula essencialmente corrupta e que comanda o país de forma praticamente ininterrupta. Ele é um ferrenho defensor do agronegócio e sua lógica política não consegue romper com essa estrutura. É, em resumo, um arremedo da indignação popular, uma velha figura política que surge como "novidade" e "promessa de restauração".

Além disso, ele não possui qualquer base para realizar um governo. Seus entraves em relação a isso seriam a continuidade da mesma instabilidade política que ele diz pretender solucionar. Bolsonaro não é uma solução aos problemas atuais: é um efeito colateral e um prolongamento deles.




Notas:



Share:

Um comentário:

  1. https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1766763676674150&id=1762081273809057

    ResponderExcluir

Visitas

Marcadores