quarta-feira, 7 de junho de 2017

"Dragão Vermelho": Graham e o Ideário de Coragem e Heroísmo

AVISO: CONTÉM SPOILERS

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Há filmes que valem a pena. E Red Dragon (Dragão Vermelho) é um deles, por motivos que serão explicados a seguir. Quando assisti o filme pela primeira vez, me escaparam impressões que, ao revê-lo recentemente, pude captar. Nem de longe meu foco foi o do personagem Hannibal Lecter, muito bem interpretado por Anthony Hopkins, aliás; o personagem mais significativo em vários termos simbólicos é o de Will Graham, encenado por Edward Norton (bastante célebre por seu papel em Clube da Luta).

O filme é uma obra de Brett Ratner, Martha De Laurentiis e Dino De Laurentiis, lançado em 2002. É parte da franquia em torno do personagem Hannibal Lecter e toma muitos pontos de outras obras que o antecederam.

Will Graham é um investigador do FBI, mas sua profissão é o menos relevante. Ele é o visionário, no sentido amplo do termo: capta impressões nas provas e nos acontecimentos que são imperceptíveis à maioria dos outros investigadores. Isso não ocorre por ele ser um médium ou algo do gênero, mas porque ele emerge nas investigações; ele não é o observador alheio, é um participante. Isso fica claro durante todo o filme: as vítimas do assassino brutal Francis Dolarhyde (interpretado por Ralph Fiennes) chocam Graham. Ele parece sentir a dor das vítimas e fica emocionalmente envolvido com os casos. Isso não é um ponto fraco seu, é justamente seu diferencial.

Graham incorpora muito do mítico personagem Heitor: ele tem família, tem uma esposa e um filho; ele tem medo, mas não é covarde. Ele sai à procura do vilão porque tem um dever moral a cumprir, mesmo que isso possa custar sua vida. Ele luta sabendo que pode morrer. Mas, diferente de Heitor, Graham não morre: ele parece imbatível. Primeiro, no início do filme, ele sobrevive a um ataque do próprio Hannibal Lecter, conseguindo ferir o psicopata. É ele que captura o "incapturável", é ele que dobra o manipulador em essência. 

Ele é o protetor de sua esposa, Molly Graham (Mary-Louise Parker) e do filho Josh Graham (Tyler Patrick Jones). Molly é a geradora, a μητέρα; ela é a geradora da civilização, que o homem deve defender; Josh é o continuador, o herdeiro (κληρονόμος), a geração seguinte. Tudo isso depende de Graham, ele é o agregador, o pastor (Βοσκός).

Depois, já nos momentos finais do filme, ele sobrevive ao ataque do próprio Dolarhyde. Diante do criminoso em posse de seu próprio filho, Graham faz uma manobra ousada e, no fim, consegue matá-lo (com ajuda da esposa). Graham quer proteger a esposa, mas garante que ela seja capaz de proteger a si mesma. E é esse o ponto-chave da masculinidade que escapa à maioria dos homens, principalmente aqueles que dizem seguir alguma tradição. Graham não manda a esposa lavar vasilhas: ele dá uma arma, mostra como atirar e faz com que ela seja capaz de matar pra se defender. E, quase morto, ele sobrevive - outra vez. Ele tem medo e não é imbatível, mas não é vencido. 

Ele sente medo mas vence esse medo. A natureza masculina não é a da ausência de medo, mas sim da superação dele. Hannibal não sente medo, é um psicopata - mas não é um homem. Dolarhyde se enxerga como uma divindade, mas também não é um homem: é a desfiguração da imagem humana. E, enquanto essa aparente força de Hannibal e de Dolarhyde apenas lhes causam a própria derrota, o "defeito" de Graham é o que o torna homem em essência, e vitorioso.

Dragão Vermelho transmite uma importante lição de hombridade e honra, a virtus essencial ao homem: a verdadeira manifestação da coragem é não abandonar o próprio dever, é não negar o papel de defender a prole e a família. Graham está salvando a família dos outros, é verdade (ele evita que o assassino consiga matar o próximo alvo); mas salva principalmente a sua própria. 

Dolarhyde é o produto da violência moral: abusado pela avó, ele não consegue se relacionar com  mulheres (e isso fica claro na interação entre ele e  Reba McClane, interpretada por Emily Watson) - nem com absolutamente ninguém. Ele vê na morte das vítimas um meio para se divinizar, se engrandecer. E Graham não o odeia: ele compreende esse processo, ele compreende as causas do monstro no qual Dolarhyde se transformou. Ele odeia os crimes, e, se parar o criminoso é parte essencial para que eles não aconteçam mais, ele vai fazer isso. Mas não é o ódio que o move: é a empatia, a consideração. Graham é personagem exemplo da virtude porque condensa essas qualidades essencialmente ignoradas - enquanto a mera brutalidade ou agressividade desmedida são consideradas como o "caráter natural do homem", Graham mostra que o grau de refinamento adequado da sensibilidade é o essencial.

Graham não só encarou o próprio Hannibal como conseguiu suportar suas manipulações durante todo o processo de investigação. Ele se encontrou com aquele que tentara matá-lo, com a encarnação da Morte para ele num passado não tão distante; encarando a Morte de frente, ele conseguiu capturar o assassino (com alguma ajuda de Lecter) e sobreviver. Graham é a mostra de que só é possível viver encarando a Morte, encarando os piores medos. Fugir deles nunca foi a solução.

Há uma tríade simbolizada no filme: Lecter é o Ego (o Ich, o eu puro; planejamento, razão, calculismo puro) e Graham é  o Superego (aquele que inibe o Ego, o Ideal que dita o bem a ser procurado, o mal que se deve evitar e a consciência moral - Gewissen), enquanto que Dolarhyde é o Id (es, o "ele", a libido, as pulsões e instintos, os desejos inconscientes). Lecter é inteiramente frio, lógico, metódico, amoral: não tem compaixão alguma - ele personifica o mal; Graham é empático, é conduzido por uma moral e quer inibir a maldade, personificando o bem e a justiça (quando ele captura Lecter, isso simboliza o triunfo da Justiça sobre o Mal); Dolarhyde é o aspecto animalesco, a brutalidade desmedida (ele é visivelmente mais instável do que Lecter), a busca pelo engrandecimento próprio. E, embora os três personagens não possam ser totalmente delimitados por esse modelo triádico do aparelho psíquico, essa designação funciona muito bem para condensar aquilo que eles representam.

Graham é a personificação do Heitor sobrevivente, o Heitor que enfrenta um oponente fisicamente mais forte (Dolarhyde pode ser comparado com Aquiles, embora isso seja bastante superficial - só a nível de dualismo mesmo) - mas que sobrevive. Ele é a muralha, a contenção do Mal - mesmo que não contra o Mal absoluto, mas em relação a seus executores, seus pequenos representantes. Graham é a Civilização e a Família, a proteção patriarcal; Dolarhyde é o mal menos refinado em relação a Lecter (que apresenta o Mal como manipulação), um mal da brutalidade em si - ele é o bárbaro, a destruição, a aniquilação; Lecter é a manipulação (ou a tentativa de manipulação) entre esses dois elementos, diante do qual Dolarhyde é um aspirante (um aprendiz) e Graham é um resistente, um opositor.

Graham é o guerreiro pacífico, o chefe de família que quer se aposentar do trabalho perigoso e viver uma vida simples na praia, com sua amada esposa e seu filhinho. Ele é o homem da casa, o pai (πατέρας); mas, na ruptura dessa paz e diante da ameaça, ele é também o hoplita, o guerreiro (πολεμιστής), o Escudo que se opõem ao invasor, ao saqueador (άρπαξ) e homicida. É a conservação contra a destruição. Graham é o caráter de ideário para coragem e heroísmo do homem: o aspecto de mantenedor, de pacificador. Ele é o que preserva a casa e a prole contra a desordem externa, mesmo vivendo em meio a ela.


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2 comentários:

  1. Excelente texto sobre um excelente filme. A parte da análise entre Hannibal e Dolarhyde é uma versão mais sofisticada de uma comparação análoga que fiz com os personagens Freddy Krueger e Jason, no texto http://www.xr.pro.br/Ensaios/Sexta-feira13.html

    Dolarhyde, por mais perigoso que seja, sofreu tragédias e abusos terríveis na infância que se não o isentam, co-responsabilizam pessoas além dele. Já Hannibal não apresenta qualquer explicação externa para os seus atos. Como se fosse o Mal originário, ao passo que o Dragão Vermelho é uma espécie de criação maligna de outro Mal Originário. O próprio Graham chega a se compadecer do sofrimento que Dolarhyde teve enquanto criança.

    Isso também ilustra-se na diferença entre o Mal controlado e auto contido de Hannibal, e o Mal semi-controlado, potencialmente caótico de Dolarhyde, ainda que este tenha controle suficiente para se manter impune, demonstra em várias ocasiões momentos de fraqueza e até mesmo de potencial redenção, como a paixão genuína que pareceu nutrir pela pretendente cega que por um momento foi sua namorada, sugerindo que ele não iria machucá-la e poderia até passar a protegê-la. Não se poderia esperar nada remotamente similar de Hannibal.

    Portanto temos aí dois níveis de manifestação da maldade, deixando de fora a manifestação puramente caótica que dificilmente resiste por muito tempo devido a pronta retaliação da sociedade.

    Mas o que há de melhor realmente é o personagem de Edward Norton. Mostrando que o bem, só é verdadeiramente Bem quando está aliado à inteligência, caso contrário se torna inerte. Personagens assim precisam ser mais valorizados, em oposição àqueles que mesmo sendo benevolentes são ingênuos ou até estúpidos, permitindo, por incompetência, que o Mal prevaleça.

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    1. Excelente texto, camarada! Podemos postá-lo aqui no blog também.

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