quarta-feira, 3 de maio de 2017

Alain de Benoist: Macron é um Algoritmo

Por: Alain de Benoist
Tradução para o português: Jean A. G. S. Carvalho

Fonte: Pietro Piupparco/Flickr


Quais lições você pode tirar do primeiro turno da eleição presidencial? O que diferencia essa eleição de todas as outras que a precederam?

Alain de Benoist: O principal fato dessa eleição, aquilo que lhe confere um caráter bastante histórico, não é o fenômeno Macron nem a presença de Marine Le Pen no segundo turno. É o curso total de dois ex-principais partidos do governo, o PS [Parti Socialiste - Partido Socialista] e o LR [Les Républicains - Os Republicanos]. Eu até mesmo cheguei a predizer isso no último mês de fevereiro, no momento no qual ninguém pareceu ter percebido isso: pela primeira vez desde que o chefe de Estado foi eleito por meio do sufrágio universal, nenhum dos dois partidos que governaram a França alternadamente por quase meio século estarão presentes no segundo turno.

No passado, juntos, esses dois partidos nunca representaram menos de 45% dos votos (57% em 2007, 55.8% em 2012). Hoje, somados juntos, eles dificilmente representam um quarto dos votos (Fillon ficou com 19%, Hamon com 6%), menos do que Sarkozy conseguiu em 2007 ou Hollande em 2012. Os dois partidos se encontram num estado de ruína, à beira da implosão. A decomposição deles marca o fim da Quinta República como a conhecemos. Eles são os grandes perdedores da eleição.

Contudo, esse golpe de trovão não deve nos surpreender, já que ele se conforma perfeitamente com o esquema populista. Em todos os países onde o populismo soma pontos, os partidos que representam a velha classe dominante são os que mais  sofrem. Nós vimos isso na Grécia, na Espanha, na Áustria e em todas as partes. Agora é a vez da França. E, sem dúvidas, isso é só o começo, porque agora seremos indubitavelmente conduzidos para um período de instabilidade, crise institucional e grande confusão.

 
É o fim do sistema tradicional de Direita-Esquerda que temos presenciado há décadas?

Alain de Benoist: Os velhos partidos do governo também eram aqueles que conduziam  a divisão tradicional entre Direita e Esquerda. Então, o cursor se moveu no plano horizontal, que cansou os eleitores que gradativamente não enxergam mais o que distingue a Direita da Esquerda. Ambos, Macron e Marine Le Pen, surfam na onda desse desencanto em relação ao "Sistema". Aqui, repito o que eu já havia escrito muitas vezes: o velho eixo horizontal correspondente à divisão entre Direita e Esquerda, daí em diante, foi substituído com um eixo vertical, opondo os que estão no topo àqueles que estão no fundo. O povo contra as elites, as gentes contra os poderosos.

É claro que podemos tentar preservar a paridade entre Esquerda e Direita custe o que custar, mas devemos perceber que as classes populares estão cada vez mais direitistas, enquanto que a burguesia está cada vez mais esquerdista, o que, por si só, já constitui uma revolução.


Os resultados também parecem confirmar não só a divisão entre as metrópoles e a "França periférica", mas também entre a França que tem menos imigrantes, que vota por Macron, e aquela que possui mais deles, que vota por Le Pen. O que você acha disso?

Alain de Benoist: Atualmente, acho que a divisão Macron - Le Pen abrange, numa extensão bastante grande, a oposição entre a "França periférica", a França dos humilhados, dos abandonados, das classes populares, que corretamente creem que são vítimas duma exclusão tanto política quanto social e cultural, e a França das metrópoles urbanizadas, onde as classes superiores e os bobos[1] vivem, as classes dos proprietários e da burguesia intelectual integrada, que lucram com a globalização e sempre aspiram por mais "abertura". Dum lado, a França que lucra muito com o outro lado, o lado que sofre e que se preocupa.   

Mas essa oposição espacial, particularmente bem explorada por Christophe Guilluy, também tem (especialmente) o sentido de uma oposição de classes. Sobre esse assunto, partilho da opinião não só de Guilluy, mas também de Mathieu Slama, pelos quais a "luta de classes reaparece politicamente para favorecer um duelo no segundo turno, no qual se opõem o liberal Emmanuel Macron e a nacionalista Marine Le Pen".

"Por trás dessa luta de classes" - prossegue Slama - "se esconde o choque de duas visões de mundo: a visão liberal e universalista, que não acredita nem no Estado nem na Nação, e a visão que hoje chamamos de populista ou soberanista, que deseja restaurar o Estado, as fronteiras e o significado de comunidade diante dos saques da globalização".

O erro simétrico das clássicas Direita e Esquerda sempre foi o de acreditar que a política poderia extrair a si mesma das questões de classe - a Direita por sua alergia ao socialismo e ao marxismo, e a Esquerda por acreditar que a classe trabalhadora desapareceu - e que, por isso, não está mais interessada no povo.


O que Macron representa?

Alain de Benoist: A morfopsicologia já nos diz que Emmanuel Macron é um temperamental, um pequeno objeto manipulável, incapaz de tomar decisões. Digamos que ele é um algoritmo, uma imagem sintética, um milionário da indústria de telecomunicações, um tocador de flauta programado para conduzir, pela ponta do nariz, aqueles que não enxergam além do próprio nariz. Ele é o candidato da casta, o candidato dos dominantes e poderosos. Ele é o liberal-libertário que concebe a França como uma "start up" e sonha com a abolição das fronteiras e dos limites, da história e das linhagens.

Ele é o homem da globalização, o homem dos fluxos migratórios, o homem da instabilidade universal do trabalho. É o líder dos "progressistas", em contraste com aqueles que não acreditam mais em progresso, porque perceberam que isso não melhora suas vidas mas, ao contrário disso, escurece suas rotinas diárias.

No passado, os milieus dos negócios apoiaram a candidatura daqueles que eles consideravam como mais dispostos a defender seus interesses (Alain Juppé no começo da campanha). Dessa vez, eles julgaram ser mais simples apresentar diretamente um dos seus. Aude Lancelin não está errada em relação a isso, ao falar sobre o "golpe do CAC 40" [Cotation Assistée en Continu 40, a Cotação Assistida em Contínuo 40, uma indexação francesa de mercado de ações].


A falha de Jean-Luc Mélenchon?

Alain de Benoist: Uma falha um tanto quanto relativa! Um orador sem igual, verdadeiramente ocupando o papel de tribuno, Jean-Luc Mélenchon é aquele, em forma e substância, que teve a melhor campanha eleitoral. No espaço de poucas semanas, ele cresceu mais do que qualquer outro candidato nas pesquisas, esmagando o Smurf do PS passando - e praticamente alcançando - o nível de Fillon e duplicando suas pontuações em relação a 2012.

Mais importante ainda, essa eleição presidencial deu-lhe a possibilidade de incorporar um populismo de Esquerda que, antes dele, só existiu num esboço rude. Você pode ter reparado que ele começou seu crescimento nas pesquisas logo após ter atingido o momento no qual ele não falava mais sobre a "Esquerda" em seus discursos, mas só no "povo". É um detalhe revelador. Adicionado a isso, diferentemente de Hamon ou Duflot, ele teve a coragem de não pedir que as pessoas votassem em Macron. Pessoalmente, lamento muito que ele não esteja no segundo turno.

 
Marine Le Pen ainda tem chances de ganhar? Quais deveriam ser os principais eixos da campanha dela? Onde encontrar uma reserva de votos?

Alain de Benoist: As chances dela no segundo turno são muito fracas a priori, já que todas as pesquisas estão golpeando-a. Seus principais opositores convocaram seus apoiadores a votar em Emmanuel Macron, começando por François Fillon (ao qual não falta desprezo), mas ainda precisamos saber se as ordens deles serão obedecidas. A transferência de votos nunca é automática. Além dos abstencionistas, Marine Le Pen pode esperar angariar ao menos 1/3 dos votos de Fillon, mais do que 1/2 dos votos de Dupont-Aignan e até mesmo 10% ou 15% dos votos de Mélenchon, mas duvido que isso possa permitir que ela vença.

O placar do segundo turno deve ser de 60 contra 40, ou de 55 contra 45 no melhor dos casos. Dito isso, com 21.4% dos votos (contra 17.9% em 2012), Marine Le Pen seriamente conquista pontos, não só por ter chegado ao segundo turno, mas também por ter obtido quase que oito milhões de votos (o dobro obtido pelo pai dela em 2002), contra apenas seis milhões nas últimas eleições regionais. O mais importante é que ela ultrapassou o PS e o LR, o que coloca o FN [Front National - Front Nacional] como a principal força de oposição contra a futura coalizão "progressista" de Macron.

Apesar disso, digamos que a campanha dela foi bastante irregular. Não houve lirismo o bastante, nem emoção o suficiente: ela sabe como arrancar aplausos, mas não sabe como provocar vibração. No vídeo de campanha dela, o povo também esteve ausente.

A única chance dela vencer é fazer com que a maioria do povo francês compreenda que o segundo turno não será um voto a favor ou contra o Front National, mas sim um referendo a favor ou contra a globalização.

Primeiramente, ela também deve estar apta a convencer os eleitores esquerdistas que seria insensibilidade da parte deles depositar seus votos para o homem do colapso social e da lei El Khomri[2], a ditadura dos acionistas e a onipotência dos mercados financeiros, para o porta-voz do capital que, para os políticos, é apenas um instrumento colocada a serviço dos interesses privados. 


O senhor ficou surpreso pela fraca mobilização nas ruas, contra Marine Le Pen, ao contrário daquilo que vimos em 2002?

Alain de Benoist: De modo nenhum, não estou surpreso. A eleição de 2002 não tem relação com essa que nós experimentamos. Só dinossauros e "antifas" não compreendem que os tempos mudaram.  


Alguma consideração final?

Alain de Benoist: Se um roteirista tivesse escrito o script dessa campanha eleitoral do modo como ela se desenrolou, nenhum diretor teria imaginado que esse cenário fosse crível. Ainda assim, o curso atestou todas as predições. François Hollande sonhou durante anos em concorrer para um segundo mandato, mas ele finalmente teve de renunciar a esse sonho. Ele foi comumente considerado como um hábil manobrista, mas perdeu o controle sobre seu próprio partido.

A Direita considerou essa eleição como impossível de se perder e, ainda assim, perdeu. As primárias deveriam reforçar o poder dos partidos e designar aqueles que são melhores posicionados para vencer a eleição (Sarkozy ou Juppé na Direita, Valls ou Montebourg na Esquerda), mas definitivamente enfraqueceram essas figuras e só selecionaram "outsiders" [estranhos] que não brilham.

Assim como no fenômeno Macron, ninguém havia imaginado essa possibilidade um ano atrás. O que mostra que, na política, nada é feito com antecedência. A história está sempre aberta.



Postado originalmente em: Geopolitica.ru


Notas:

[1] Neologismo francês oriundo da junção dos termos Bourgeois (burguês) e Bohémien (boêmio), usado para se referir àqueles que fazem parte da burguesia e vivem uma vida boêmia, desregrada; membros "inconsequentes" das elites.  Nem todos os bobos, entretanto são necessariamente membros da elite financeira ou ricos (o termo abrange parte significativa da classe-média francesa). O termo tem significado semelhante ao da expressão "Gauche caviar" (Esquerda caviar), já que a maioria dos bobos são de Esquerda - membros da elite que aderem à Esquerda, essencialmente no campo moral/cultural (pós-modernismo), e não necessariamente popular e trabalhista.

[2]  Lei n ° 2016-108,8 de 8 de agosto de 2016, relativa à legislação trabalhista francesa.  Foi apresentada ao parlamento francês em 17 de fevereiro de 2016, por Myriam El Khomri (daí o nome da lei). O objetivo era reformular o Código de Trabalho na França, tornando o mercado de trabalho francês mais "flexível". Os apoiadores do projeto alegavam que as reformulações ajudariam a reduzir o desemprego. As mudanças efetivadas pela lei facilitaram a demissão de trabalhadores, reduziram o pagamento por horas extras e permitiram a ampliação da jornada de trabalho para além da então jornada máxima de trabalho de 35 horas semanais, além de reduzir o pagamento de indenizações trabalhistas.



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