sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Direita subestima Lula

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Nunca se deve subestimar um oponente. Nunca. Essa é uma lição básica no jogo de poder e não faltam exemplos históricos para ilustrar os perigos de se menosprezar um opositor. Seja na guerra, nos negócios, na política (e até mesmo no amor) e em qualquer outro campo, dar um inimigo como completamente vencido (mesmo quando se tem imensa vantagem sobre ele) é um dos piores erros que se pode cometer.

Esse é um ponto simples que a Direita se recusa a aceitar. A Direita assumiu sua vitória completa em 31 de agosto de 2016, com o Impeachment de Dilma. Para eles, o Partido dos Trabalhadores, afundado em acuações de corrupção, perdeu para sempre seu trono e jamais voltará ao poder. Os brasileiros, acreditam eles, jamais votarão em qualquer candidato petista.

Entretanto, a realidade é bastante diferente do romantismo da Direita, que perdeu uma chance única de realmente mostrar uma alternativa superior ao PT. O governo Temer assumiu comprometendo-se a retomar o crescimento econômico, garantir estabilidade política e corrigir os erros petistas. Falhou miseravelmente nesses três objetivos, e piorou significativamente os problemas já existentes.

Em lugar da retórica de "austeridade" (só para os pobres, é claro), reformas inúteis e cortes em direitos sociais e trabalhistas, o novo governo deveria ter feito exatamente o oposto: ampliado programas sociais, investimentos públicos, incentivos ao setor produtivo e aplicado ideias usadas pelo New Deal[1]: ampliação de obras públicas em infraestrutura, gerando empregos de forma rápida e estável.

Nada disso foi feito. A receita foi inversa: hostilizar a população, apertar o trabalhador, beneficiar banqueiros e especuladores e minar o setor produtivo. Dizer que o que passamos hoje é "consequência inevitável do governo petista" é desconhecer os princípios básicos da política. A situação é grave, mas o nível na qual se encontra é mais resultado de políticas desajustadas do que de um "curso natural". (aliás, não há nada de natural nessa crise).

A Direita ignorou um princípio básico de Maquiavel (que, aliás, é erroneamente tido como um autor negativo): o poder se mantém pela aprovação do povo. E, para conquistar essa aprovação, medidas simples podem ser tomadas. A primeira e mais básica delas é: governar em favor do povo e tomar medias que agradem a população em geral. Esse ponto crucial é tido pelos direitistas como "populismo" no sentido mais negativo do termo. 

A Direita é anti-poder, não sabe lidar com ele e provavelmente nunca saberá. É exatamente por isso que figuras mais à Esquerda (ou não necessariamente de Esquerda, mas com um teor populista tão demonizado pelos direitistas) terão mais acesso ao poder.

Longe de se lembrar da figura de Lula como corrupto inveterado (o que pode ser verdade no imaginário coletivo), o pobre que hoje mal consegue comer e sustentar os filhos lembra-se dos primeiros anos do governo petista como a época na qual tinha emprego, algum dinheiro e um vislumbre de oportunidades. Pesando os prós e contras, ele assume que "antes, as coisas eram melhores" e conclui que não está ganhando nada com os processos atuais de "combate à corrupção".

Ele continua pobre enquanto a Lava Jato prossegue. Continua desempregado. Não percebe efeitos reais dessa cruzada moral. Aliás, o efetivo combate à corrupção seria justamente retomar o dinheiro roubado e conduzi-lo em ações nas quais o pobre efetivamente sentisse estar retomando aquilo que lhe foi roubado: saindo do desemprego, melhorando de vida e tendo melhores oportunidades. O resto é moralismo superficial com prazo de validade mínimo.

A Direita continua cobrando um hiper-moralismo duma população que ainda mal consegue estabilidade para suprir suas necessidades mais emergenciais. Um hiper-moralismo que nem o mais ferrenho conservador é capaz de seguir. E, enquanto continuar exigindo isso das classes mais pobres sem dar-lhes alternativa nenhuma nem soluções para seus problemas urgentes, a Direita permanecerá como refugo político.

Lula tem chances sérias de vencer a eleição presidencial de 2018. E a melhor propaganda, para ele, é o governo atual. Enquanto os índices de aprovação de Lula sobem, os de Temer diminuem (aliás, já em menos de 5%). A Direita corre o sério risco de perder o páreo para um adversário que julgou ter eliminado, mas que ainda está de pé. E quanto mais se distancia das aspirações do povo, mais abre mão de instrumentos importantes que, diferente deles, Lula saberá aproveitar.

Não há razões sérias para acreditar que Lula realmente será preso. A cruzada moral é um teatro político e jurídico. A Direita espera por um príncipe em cavalo branco, sonha com alguma manobra dos militares ou, na melhor das hipóteses, figuras quixotescas cujo único recurso é o moralismo barato e o discurso vazio de "valores e bons costumes". É justamente por romantizar a política que a Direita não é feita para ela. 

Enquanto a Direita não oferecer alternativas reais e se contentar com vitórias ilusórias, sua esperança máxima continuará sendo a de que homens fardados salvem o dia.




Notas:


[1] O New Deal foi o pacote de programas criado pelo então presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, para recuperar a economia estadunidense depois do crash (a crise econômica) de 1929. O programa consistia, basicamente, de pesados investimentos públicos no setor produtivo, criação de obras de infraestrutura e geração de empregos imediatos para a população, com o objetivo de estimular o consumo e resolver o desemprego em massa. Colocado em prática de 1933 a 1937, o plano conseguiu cumprir seus objetivos.
 

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